22/08/05

Deixa Arder, por OTaGêVê

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Coimbra, até ontem à tarde, estava cercada de uma cintura verde que enchia o olho e dava gosto. Por volta do fim da tarde começou-se a observar uma pequena coluna de fumo negro, visível de toda a cidade, e que tinha origem nos montes eucaliptados por detrás de Ceira e de Lagoas. Obviamente era naquela altura que a aviação anti-incêncio lhe devia dar com força. Matar o bicho à nascença.

Como o país teve que ter 100 milhões de contos para as Fragatas Meko e mais 200 milhões para os novos Submarinos, não se pode chegar a comprar uma frota mínima de aviões de combate a incêndios. Até porque são caros, ficam parados o resto do ano, só actuam cerca de um mês por ano e a sua manutenção é custosa. Não houve e não há aviões. Com o que se poupou sempre podia o Estado abrir aceiros, fazer emparcelamento florestal, abrir caminhos, limpar orlas de matas, etc. Como tudo isso custa dinheiro nada foi feito. Até porque isso a ser feito não luz o olho eleitoral.

Hoje, quase a toda a cintura de Coimbra está negra, a fumegar e continua a arder. A cidade está e esteve todo o dia mergulhada em fumo denso como nevoeiro cerrado e está tudo coberto com uma enorme camada de cinzas. Dei uma volta pelos arredores e tudo continua aceso. O fogo lambeu os prédios de Celas, Olivais, Vale de Canas, Dianteiro, Ceira, Conraria, Sobral Cid, Tovim e continua activo em Castelo Viegas, Almalaguês, Torre de Vera, Torres do Mondego, Rocha Nova e não mostra vontade de amainar. Há duas grandes frentes de fogo galopantes, uma para Condeixa, via Cartaxos e Marco dos Pereiros e outra para Penacova via Torres do Mondego e Zorro. Pelas estradas, ruas e povoados dos arredores há milhares de pessoas com mangueiras, baldes e olhares desesperados de quem reza para que o vento mude e dali se vá.

Agora andam por cá aviões, mas anda por cá também um calor intenso e um vento forte e irrequieto que torna qualquer previsão num jogo de bem-me-quer-mal-me-quer. A Antena 1 anuncia que já arderam 10 casas. No mesmo espaço radiofónico, o Presidente Encarnação culpa o Governo pela falta de aviões e um tal de Fernandes, Governador Civil nomeado pelo Governo, culpa o Encarnação porque não respeitou uma Lei X de 2004 que obrigava as Câmaras a limpar uma faixa de 400 metros em redor dos povoados.

E nem estes, nem ninguém lá de cima, tem coragem de dizer claramente aos desesperados dos baldes que isto é mesmo assim e que isto tudo é para deixar arder. O fogo é rápido, passa depressa e a coisa toda em conjunto dura três ou quatro semanas. É só fechar os olhos, dar uma grande respiradela e já está. E depois só volta ali a arder daí a mais quatro ou cinco anos. O país é pobre e não tem meios para combate, assim como não tem meios para prevenção, ordenamento ou mobilização.

Até porque agora que conseguimos acabar a Casa da Música, temos a Ota e o TGV para começar. Qualquer coisa como 500 milhões de contos para uma e mais um bilião de 200 milhões de contos para a outra. Deixa Arder. É fado deste país arder até ao último graveto. Haja coragem de o dizer e assumir.
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Não deixem de ver o Post de Baixo do Tocha. O Porco está a fumegar.

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