02/09/05

Brevíssima História de Portugal, por Oliveira Patins

A ambição senhorial de um jovem deserdado da possibilidade do trono leva-o à secessão e ao comprometimento do projecto de reunificação ibérica. A ambição alimentou-se do Sul conquistável, a condição que faltava à Galiza, e assim, Lisboa conquistada tornou viável o reino. Uma terra erguida com a vontade será naturalmente o berço da nova mentalidade burguesa, o maior legado de Portugal ao Mundo. Em Coimbra, pela primeira vez na história da Europa, elegemos rei com base em argumentos. João das Regras, o doutor, é a mais importante figura da nossa história colectiva. Esta nova mentalidade está na base da gesta épica dos Descobrimentos. A grandeza impensável do Portugal quinhentista é o facto estratégico mais importante da História da Humanidade. Nunca antes tão poucos e tão pequenos lograram tanto domínio. Deslocar o centro estratégico do Mediterrâneo para o Atlântico é, seguramente e sem chauvisnismo, a maior proeza estratégica da História. Deste feito nascerá a maior realização cultural da Humanidade, a criação da ideia de Humanidade. Tudo parecia possível, e o génio político de D. João II sonhou o impensável: unir as coroas ibéricas e os respectivos impérios. Malfadadamente se lhe frustraram os planos. O que virá depois, o sonho Quinto Imperial protagonizado por D. Manuel e sonhado desde Camões e Vieira até Pessoa, é já um delírio literário sem estratégia. A frustração deste projecto político tem relíquia: o corpo de D. Miguel de La Paz, filho do Venturoso, neto dos Reis Católicos que foi jurado herdeiro de todas as coroas ibéricas. Morreu aos dois anos, felicidade que não teve Sebastião, que foi quanto durou o sonho. Depois, foi o delírio imperial e nacionalista. Quando o delírio se tornou político, o salazarismo emboloreceu a Pátria. Sejamos Europa agora, para que a Europa se abra ao Atlântico, à África e à América. Assim se destrua a ideia de nação, contribuindo mais uma vez para a solidarização do Mundo.

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