21/09/05

Bruce Chatwin E Os Trilhos do Canto, por Alquimista

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Bruce Chatwin é puro prazer. Ler os contos, as histórias, recolhas e vivências do Na Patagónia é entrar num mundo místico, de viagem, paisagens e gentes. O Na Patagónia mastiga-se e saboreia-se. Este livro é segundo muitos a obra maior de Bruce Chatwin. Para mim não é. Obra maior ainda, grandiosa, a raiar mesmo a pura poesia, essa é O Canto Nómada, que desce sobre o mundo Aborígene australiano.

Bruce Chatwin era um perito de sucesso da Sotheby`s de Londres, especializado em pintura moderna. Numa manhã, com vinte e tal anos, acordou meio cego e foi ao médico, que lhe disse que aquilo era apenas enevoado e que era o resultado de andar a exigir demasiado dos olhos ao examinar os quadros com minúcia. No dia seguinte, Chatwin largou tudo e todos e voou para o Sudão, em África. E nunca mais pôs os pés na Europa. Depois de África, das estepes Russas, da Patagónia, da Austrália e de outras paragens remotas, a morte veio encontrá-lo na China em 1989 e com apenas 49 anos, tendo partido de novo vitima de um vírus tropical.

Na Austrália e com o Canto Nómada, Bruce Chatwin descobre a cultura Aborígene e os seus Trilhos do Canto, ou Pistas do Sonho. Aí, junto com o russo Akadi Volchok - do qual Salman Rushdie nega a existência e identifica com o próprio Chatwin -, procede ao levantamento dos Trilhos do Canto.

Não é fácil definir os Trilhos do Canto. Obviamente e como o nome diz são caminhos cantados e isso encerra a sua própria definição. Cada indivíduo aborígene, cada família e cada clã têm o seu trilho do canto. O seu próprio caminho. Um percurso na paisagem que é cantado nas suas marcas geográficas, e que se encadeiam uns nos outros. O trilho de um individuo pode ter 100 ou 500 km de comprimento e encaixa-se no trilho da família que por sua vez continua e se encaixa no trilho do clã. Os Trilhos do Canto, “são um labirinto de caminhos invisíveis que percorrem todo o território australiano (…), toda a Austrália poderia ser lida como uma partitura. Dificilmente se encontrava um rochedo ou riacho que não pudesse ser ou não tivesse sido cantado. Os trilhos do canto poderiam talvez ser visualizados como um prato de macarrão composto de várias Ilíadas e Odisseias, torcidas para um lado e para o outro, em que cada episódio fosse legível em termos de geologia.”

“(…) os brancos, cometiam o mesmo erro: julgavam que os Aborígenes não possuíam um sistema fundiário porque eram nómadas. Isso era um disparate. Era verdade que os Aborígenes não podiam imaginar um determinado território como um bloco de terras limitado por fronteiras, mas sim como uma rede emaranhada de “trilhos” ou passagens. (…) e não faltava terra a ninguém, pois todos herdavam como propriedade privada um pedaço do canto do Antepassado e o lote de terreno por onde o canto passava. Os versos de um homem eram o seu título de propriedade. (…) Cantar um verso fora de ordem (…) era um crime. Punível normalmente, com a pena de morte.”

Chatwin estudou, percorreu e fez o levantamento de muitos Trilhos do Canto e respectivos donos e clãs. No olhar e encantamento do Chatwin perpassa uma simpatia pela alma Aborígene que jamais comoveu o branco australiano, que até com bombas atómicas de ensaio os foi limpando. E pior do que isso arrasou-lhes os Trilhos do Canto aos milhares, com cidades, fazendas, minas, estradas e caminhos-de-ferro. O “progresso” trilha, mas não sonha, nem canta. As histórias e narrativas que enchem o Canto Nómada transportam-nos de imediato para um reino de magia e maravilha, que só dá vontade de voltar atrás e corrigir a história.

Cá em Portugal, o Chatwin está esgotado nas livrarias. Quase que só o encontram nos mercados de livros usados e nas feiras da ladra, mas olhem que vale a pena o esforço da procura.

Como nas viagens verdadeiras e como nas paisagens e gentes que se encontram, também no Chatwin há uma surpresa abismal em cada esquina. No seu livro de crónicas “Pátrias Imaginárias”, Salman Rushdie a certa altura relata como ficou fascinado pelo Chatwin, em 1984 na Austrália: “O que aconteceu na Austrália foi que Bruce e eu nos tornámos amigos. (…) No final de uma viagem assim, (duas pessoas) ou se odeiam mutuamente com paixão, ou descobrem que se apaixonaram. Falando por mim, apaixonei-me. (…) Bruce fala de tudo à face da terra. Recordo-me de uma longa dissertação sobre o escritor Eça de Queiroz.”

Nem mais. Eça de Queiroz, o português, no Outback australiano, da boca de um inglês para as orelhas de um indo-paquistanês.

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