15/09/05

Dan Brown, Umberto Eco e as Teorias da Conspiração, por José de Arimateia

Image hosted by Photobucket.com
"Os Templários, pelo contrário, andavam porcos por gosto. (...) o Templário, deve ser místico, ascético, não comer, não beber nem foder, mas vai para o deserto, corta a cabeça aos inimigos de Cristo, quantas mais cortar mais senhas ganha para entrar no céu, cheira mal, fica mais hirsuto cada dia que passa, e depois Bernardo pretendia que após terem conquistado uma cidade, não se deitassem em cima de qualquer donzela ou velha que seja, e que nas noites em luar, quando como se sabe o simun sopra do deserto, não fizesse nenhum servicinho com o seu companheiro preferido. Como podes ser monge e espadachim, estripas e rezas ave-marias, não deves olhar para a cara da tua prima e depois entras numa cidade ao fim de dias e dias de cerco, os outros cruzados fodem a mulher do califa à frente dos teus olhos, sulamitas maravilhosas abrem o corpete e dizem possui-me possiu-me mas poupa-me a vida... E o Templário não, tem que ficar duro, fedorento, hirsuto como o queria São Bernardo e rezar sem parar..."

Este é um excerto do Pêndulo de Foucault, livro de Umberto Eco de 1988. Como se vê por este excerto, é possível e natural passar das Ginas para o Umberto Eco. O livro é admirável (difícil porque muito denso, como dizia o Vice, o Eco está-se aqui a cagar para o leitor) e porque livro de todas as conspirações, mistérios e segredos, desmonta implacavelmente todas as teorias da conspiração. Quem leu e gostou dos dois Dan Brown, deve ler isto em seguida. Vale bem a pena.

A saga do livro alimenta-se de todos os mistérios que vemos por vezes por aqui e por ali. Todas as questões levantadas pelo Dan Brown estão neste livro. O aproveitamento do Brown é quase descarado. No Pêndulo - livro do Eco de 1988 - anda por ali tudo, mas mesmo tudo, do Portugal dos Pequenitos aos Templários, aos Illuminati, a Maria Madalena, Merovíngios, Cátaros, Santo Graal, Camões, Tomar e o Convento de Cristo, Jim Dente de Tubarão, Portugal e a Mouraria, Coimbra, as Cruzadas, Hospitalários, Rennes-Le-Chateau, Parsifal, Vaticano, Inquisição, Otto Rahn, SS, Nazis, a Pedra Filosofal, o Tibete, arianos, india, celtas, virgens negras, moscovo sSão Salvador da Baía de Todos os Santos e os candomblés, jorge amado, lisboa, são cipriano, mitra, olimpo, rosencreutz, santo sepulcro, svevo, proust, joyce, júlio césar, a wicca, os meninos das trevas, parténon, o abre-te sésamo, mondrian, helena de troia, a rua antónio maria cardoso, fátima, a minnie e o mickey, o tosão de ouro, pedro nunes, a maçonaria, os anciãos do sião, o rei sol, os egípcios, a corrente do golfo, descartes, galileu, rick de casablanca, concilio de niceia, constantino, raymond chandler, a toore eiffel, empire state, a grande muralha, napoleão, alamut e a seita dos assassinos, lepanto, hitler, derviches, labirintos, pêndulos, paris, roma, nova iorque, josé de arimateia, budismo, zoroastro, e tudo, tudo...

Umberto Eco explica lá pelo meio, como se faz a coisa:

"Inventar, furiosamente inventar, sem ligar aos nexos, de maneira que nem se consiga fazer um resumo."

Não se infira daqui que o Eco se limita a fazer um exercício de estilo. Nada disso. O homem constroi tijolo a tijolo a maior e mais gigantesca das cabalas, mas com uma solidez de betão. Ao mesmo tempo que ficamos fascinados com a coerência da coisa, olhamos de frente o abismo das suas enormidades, porque as personagens do Eco nos vão minuciando a doideira. E o Eco vai mais longe, para quem ainda não tivesse percebido o fio à meada:

"As pessoas acreditam em quem vende a loção para fazer crescer o cabelo aos carecas. Sentem por instinto que aquele que junta verdades que não estão juntas, que não é lógico e que não está em boa fé. Mas disseram-lhes que Deus é complexo, e insondável, e portanto a incoerência é a coisa que encontram mais parecida com a natureza de Deus. O inverosímel é a coisa mais parecida com o milagre."

Pelo meio – e isto em 1988 – 14 ou 15 anos antes de Dan Brown e da sua descoberta do tosão de ouro, Eco diz ainda:

- “Bah”, disse Diotavelli, “ninguém te levaria a sério.”
- “Pelo contrário, iria vender umas centenas de milhares de exemplares”, disse eu, sombrio. “A história existe, já foi escrita, com variações mínimas. Trata-se de um livro sobre os mistérios do Graal e sobre os segredos de Rennes-Le-Château.”

E repesco outro excerto delicioso:

“O problema não é achar relações ocultas entre Debussy e os Templários. Isso todos fazem. O problema é achar relações ocultas, por exemplo, entre a Cabala e as velas de automóvel.”(…)”Qualquer dado se torna importante se for ligado a outro. A conexão altera a perspectiva. Induz a pensar que todos os indícios, todos os boatos, toda as palavras escritas ou faladas não têm o sentido que parecem ter, mas que se está a falar de um Segredo. O critério é simples: suspeitar, suspeitar sempre. Pode-se ler nas entrelinhas até de uma placa de sentido proibido.”

E vai ainda o remate premonitório browniano:

“Também há os doidos sem Templários, mas os dos Templários são os mais insidiosos. Ao princípio não se reconhecem, parece que falam de maneira normal, depois, de repente…”

Sem comentários: