14/09/05

Elogio de Dan Brown, por Leitor Incontinente

O Código Da Vinci do galáctico Dan Brown é o maior sucesso literário mundial dos últimos 50 anos. Tornou-se, pois, pela dimensão e reprodução maciça de que foi alvo, no típico objecto de cultura de massas, comparável a um disco dos U2, às adidas do David Beckham ou a uma garrafa de Heineken.

É sabida a reacção que se verifica sempre que alguma coisa atinge o nível mediático que alcançaram O Código da Vinci e o seu autor: por um lado, torna-se relíquia sagrada e venerada pelo povo consumidor, sempre propenso à religiosidade e aos seus sucedâneos; por outro, é desprezado, olhado de lado, quando não com raiva, pela «intelligentzia». De facto, as elites intelectuais sempre viveram, não é só de agora, com o preconceito da pureza. As elites não suportam misturas com o povo, com o consumidor vulgar. Ainda mais quando se trata de um livro – o ícone da cultura, por excelência - a converter-se em objecto de massas. Uma garrafa de refrigerante, uma marca de telemóveis, uns ténis ainda vá lá… Mas um livro?..

Um autor que denunciou magistralmente este carácter «higienista» das elites culturais foi Umberto Eco, principalmente em Apocalípticos e Integrados. Aí, Eco traça a cartografia ideológica da classificação da cultura em níveis («High», «Mid» e «Low») e conclui com a crítica ao que julga ser uma visão anacrónica da cultura. Não faz mais sentido, no mundo global de hoje, continuarmos a dividir a cultura em géneros superiores e inferiores. Como diziam os arautos da arte pop «Uma garrafa de coca cola é mais bela que a Vitória de Samotrácia». Pelo menos pode ser, digo eu.

Realmente, ainda hoje me lembro quando, há uns anos atrás, muito antes de ler Eco, um engravatado indignado me acusava de gostar de Mozart e dos Clash! «Um bárbaro, um insensível…», concluía ele! Na altura não percebi o que é que tinham os meus gostos a ver com as contradições lógicas, mas talvez ele tivesse razão e eu não passe de um suburbano confuso, simples produto de mundos opostos e contraditórios. Hoje percebo melhor que há muitos mais como eu e que isso não é assim tão anormal em 2005, quando a Globalização mistura de um modo avassalador os jeans americanos da levys (feitos na Tailândia) com a comida paquistanesa do restaurante de Celas e a manga japonesa consumida no autocarro fabricado na Alemanha.

Mas voltando ao Dan Brown, dizia eu que o sucesso do Código à escala mundial, veio fazer deste livro um típico produto de cultura de massas (nível Mid Cult segundo a classificação criticada por Eco) e que, obviamente, isso não agrada às elites intelectuais muito pouco democráticas, muito pouco «globais»… Não vou discutir os fundamentos daquilo que me parece ser um preconceito sociológico e ideológico, nem tão pouco os méritos literários d` O Código da Vinci. Direi simplesmente que reconheço não ser Dan Brown um grande escritor – não é um artífice da língua, a sua escrita não tem nada de particularmente criativo, pelo contrário, é até muito «terra a terra». Mas reconheço alguns méritos nos seus romances, como o ritmo alucinante que consegue imprimir à narrativa. Além disso, nota-se que há um aturado trabalho de pesquisa na base dos seus livros, o qual é usado depois para misturar sabiamente os planos da ficção e da realidade (o que não me parece, de modo algum, um defeito, como já ouvi dizer, antes pelo contrário, quando se trata de escrever um romance). Mais que discutir a qualidade literária d`O Código, prefiro apresentar aqui alguns dos efeitos francamente positivos que decorrem do sucesso de Dan Brown:

É justo que se diga que Dan Brown revelou a muita gente e devolveu a outra tanta o prazer da leitura. Eu conheço muita gente que, pura e simplesmente, passou a ler com regularidade depois de devorar O Código da Vinci. Para aqueles putos, então, que se orgulhavam de não lerem mais que a Bola e O Record, O Código foi uma autêntica revolução. Conheço bem um exemplar desta geração que não dorme antes das 4 da manhã porque não dispensa a leitura entusiasmada de Anjos e Demónios. E pelo meio já leu Isaac Asimov, coisa impensável há dois meses atrás… Eu sei que há pessoas que se irritam com a profusão de Códigos em várias línguas que vimos este ano e no anterior nas praias do Algarve e do sul de Espanha. Parece a massificação da leitura, dizem os derrotistas, tudo a ler a mesma coisa... Mas já pensaram que a maior parte daquela gente, senão estivesse a ler Dan Brown, estava a ler um tablóide, uma revista cor de rosa, um desportivo ou simplesmente a olhar pró ar? Eu acho um óptimo sinal que as pessoas leiam, nem que seja O Código. Pode ser que a seguir venha o Asimov…

E depois há aqueles que, depois do Código, voltaram a ler romances, hábito perdido há muito tempo. Falo por mim: antes do Código praticamente só lia ensaios. Mas agora a minha vida literária quase se pode classificar em a.D.B. e d. D. B. (antes e depois de Dan Brown). Sabem como são as leituras: uma pista leva a outra, esta a outra, a outra a mais uma e um gajo vai por ali fora atrás do filão e chega ao fim com uma série de livros verdadeiramente devorados. No caso de Dan Brown, por exemplo, as referências místicas da sua obra conduziram-me directamente a Herman Hess (mais precisamente ao fabuloso O Jogo das Contas de Vidro e o que a seguir veio agarrado, como Narciso e Goldmundo, Siddartha, Deambulações Fantásticas e O Lobo das Estepes). Deste, ao espantoso Amin Malouf (por esta via, Os Jardins de Luz, Leão, O Africano, Escalas do Levante, Samarcanda e O Périplo de Baldassare). Pelo meio voltei ao Paul Bowles de O Céu que nos Protege, aos contos extraordinários de Poe e de Oscar Wilde, a Miguel Sousa Tavares e ao seu excelente Equador, a Cachapa e ao semi-escabroso Materna Doçura, e ainda tive tempo para descobrir o Eco romancista (O Pêndulo de Foucault e a Misteriosa Chama da Rainha Luana)…

Em suma, Dan Brown permitiu-me redescobrir um género – o romance – que eu, pura e simplesmente, tinha colocado num lugar secundário e, em particular, uma ou várias famílias literárias simplesmente fascinantes. Alguns, ou mesmo todos os que citei, são hoje os meus escritores preferidos.E é esse mérito que temos que reconhecer em Dan Brown: pode discutir-se a qualidade da sua escrita, mas não a da maior parte dos escritores que citei. Dan Brown vale não só por si, talvez nem valha tanto por si, mas pelas pistas que abre, pelo contágio que consegue provocar, pelo gosto pela leitura que consegue transmitir. E isso não é pouco. É um grande, um enorme mérito que é justo lhe seja reconhecido.

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