19/09/05

"Para tudo dispôs o Bom Deus uma finalidade", por Kzar

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A tradicional sabedoria popular cristã postula recorrentemente versões várias da moral assim lapidarmente referida em título. Quem de entre nós não ouviu já uma qualquer avózinha, perorando sobre as baratas, as ratazanas ou outros nojentos seres da criação, dizendo que se Deus Nosso Senhor os botou no mundo para alguma coisa foi? Ainda me lembro:

- Deixa lá o Manuel e o Benfica, tsarevich, quem sabe se o primeiro algum dia ainda descobre cura para o Cancro ou se o segundo faz a felicidade de algum presidente que não seja ladrão! E este último sempre serve para as pessoas como o primeiro terem um clube à sua imagem...

O argumento, solidamente ancorado na tradição cristã de acessos de bondade tolerante, do tipo "O-Senhor-Ama-A-Todos", não é contudo exclusivo ocidental. Já nem falando nos Budistas, que nessa matéria são uns ases, tem também paralelo em culturas primitivas: pense-se no Irmão Cavalo, Bisonte, ou Urso dos nativos americanos. Nos últimos anos conhece mesmo evoluções que o adaptam às derivas de paganismo ambientalista e panteista do estilo "os animais são nossos amigos" - todos eles, até os parasitas intestinais.

Importa notar que não se trata, ou pelo menos segundo o pensamento dominante e "correcto" não deve tratar, de uma mera proclamação ideológica ou simples "wishfull thinking". Não, deve ter implicações directas na prática quotidiana do bom cidadão.

Reflectindo nisto, além de se perceber a razão de haver um clube com o Benfica e de este ter adeptos, fica a compreender-se que haja quem defenda a liberdade político-partidária dos comunas, a mera existência do Senhor Sócrates e do seu lóbi, e até a do PNR. Os últimos dão de comer aos operários das empresas têxteis que fabricam "t-shirts" pretas e denunciam publicamente a existências dos penúltimos; o antepenúltimo, se não servir para mais nada pode ser sempre encarado como mais uma provação que o Bom Deus colocou ao seu povo (seu do Deus, entenda-se); os segundos pelo menos mostram que quando pensamos que não há ninguém mais estúpido que o homem do talho estamos enganados; por fim, não estou certo de que o SLB e seus adeptos sejam justificáveis em seu fátuo existir com as razões que a avó avançou mas na dúvida concedo, por deformação profissional.

Recentemente, ocorreu-me uma nova forma de ilustrar a validade universal do postulado em análise. Sabem aqueles de quem tenho a honra de ser amigo ou mero conhecido que sou um indefectível adepto da caça submarina. Pois ora bem, sabei também todos que ao praticar o desporto rei o executante carece de um incómodo cinto carregado de chumbos com que se ajouje. Servem estes para que melhor se afunde no elemento líquido e permaneça a uma certa profundidade, perseguindo ou em quietude aguardando convenientes exemplares da fauna submarina. Ao retomar a superfície, a fim de repor nos pulmões o elemento gasoso, os ditos chumbos são um tanto incómodos. Porém tendo um certo valor económico e sendo necessários para os mergulhos subsequentes, o desportista abstém-se de largá-los no fundo, o que além do mais seria pouco conforme com as melhores práticas ecológicas; sujeita-se por isso à maçada de trazê-los para cima.

Ora, haverão já umas semanas, tendo eu o espírito desocupado com umas curtas férias, veio-me à mente, já não sei a que propósito e em uma daquelas cadeias de pensamentos erráticas, que o Panteão Nacional, edifício que até há pouco para nada mais servia do albergar os despojos do João de Deus e de umas quantas personalidades igualmente obscuras, passara a contar entre os seus hóspedes também com a Sr.ª Dona Amália, havendo quem vaticinasse que a seu tempo estenderá hospitalidade igualmente ao Sr. Eusébio: Entrementes, as suas austeras paredes, colunas e abóbadas, tiveram oportunidade de regozijar-se com as saborosas traquinices de uns tantos rapazes vestidos de feiticeiros (estilo anglo-saxónico e holliwoodesco) por ocasião do lançamento de um livro do Harry Potter. Sempre serve para alguma coisa, o Panteão.

Daí ao verdadeiro assunto que agora me ocupa, e que já abordei, ia somente um pequeno passo que dei no exacto momento em que li o "post" do Sr. José das Medalhas. Para que hão-de servir estas, perguntais todos, ansiosos?

Bom, posto que não sejam de cortiça prestarão auxílio à nobre actividade da caça submarina. Em lugar de ver-se obrigado a retomar a superfície ajoujado de chumbo, às vezes oito e mais kilos segundo o peso respectivo e a espessura do seu fato, o praticante não tem mais do que passar por Belém. Munido das condecorações que o Lampadinha sem dúvida lhe prodigalizará, faz-se depois ao mar. Uma vez no fundo e antes de retomar a superfície trazendo o peixe arpoado ou a fim de puxá-lo para cima, basta-lhe largar esse lastro, de que terá abundante provisão na embarcação, podendo assim repetir o processo indefinidamente, com a vantagem de extrair peso do barco à medida que o substitui por bom peixe.

Por outro lado, na hipótese frequente (mesmo para mergulhadores experimentados) de falhar o peixe, deixar as medalhas meramente no fundo ou até entregar-lhas tem insuspeitadas mas inequívocas vantagens. Na pior hipótese, o peixe, intrigado pelo brilho das caricas, permanece no local, permitindo nova tentativa ao caçador; na melhor, coloca-as ao peito e, distraído e mais pesado, será mais facilmente arpoado. Já os vejo na ponta do meu arpão, esses meros de grande porte com torre e espada na barbatana e colar ao pescoço; essas bicudas descomunais, menos fugidias e impantes com seus medalhão e faixa da Ordem da Liberdade; enfim, essas vorazes anchovas cheias de medalhas, borbulhando entusiásticos "Vivá República" não mais me escaparão!

E é assim, caríssimos, que no próximo dia 05 de Outubro lá estarei, sem falta e pontual, num qualquer estrado, na Praça da República de qualquer povoação serrana, a colectar as condecorações que, sempre atento e magnânimo, o Lampadinha não deixará de fazer jorrar incessantemente sobre o meu peito, louvando, não sem alguma lágrima luzidia, os meus inigualáveis e corajosos contributos para a divulgação e o consumo do vinho nacional. Depois, é esperar não ter de cruzar-me com o Sócrates e ala pró mar, tratar do pelo aos peixes (salvo seja).

E claro, corações ao alto, continuemos a supor que Portugal serve para alguma coisa.

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