05/10/05

As Músicas do Porco: Spanish Key de Miles Davis, por Aduraratejazz

Há já algum tempo que me interesso pela música Jazz, e isto talvez tenha um pouco a ver com a tendência desportiva que me atingiu desde cedo. O jazz, como o futebol, são das poucas artes, se não únicas, que permitem a convivência entre disciplina colectiva e liberdade individual. Por outro lado, também não consigo perceber porque é que uma música tão aprazível para muitas pessoas é marginalizada nas rádios. Depois de ter ouvido muito jazz, principalmente fora de concertos, surgiu-me há pouco tempo uma música dos electric years de Miles Davis que me assoberbou até às profundezas. Trata-se de Spanish Key. Pode encontrar-se no álbum Bitches Brew que é todo ele de uma sumptuosidade e perfeita confluência da arte do individualismo com o poder do colectivismo.

É uma música de 17, 34 min com um balanço de rock and roll que nos acorda com um drum swingado de bateria e percussão de Lenny White e Jack Dejonnette seguido dum fraseado despertador do trompete do Miles. Três pianos eléctricos tocados por Larry Young rolam quase continuamente em conjunto com a guitarra de John McLaughlin.

O clarinete de Bennie Maupin aparece pelo meio da manhã, seguido pelo saxofone de Wayne Shorter e, progressivamente, Miles Davis vai prolongando o seu fraseado de Scat. Por vezes, todos juntos, parece que nos vão rebentar com tanta vibração.

Lá mais para o entardecer, o saxofone de Wayne, seguido pelos scats de Miles, parece que nos vai outra vez adormecer, mas o swing da percussão deixa-nos outra vez expectantes.

Finalmente, já noite dentro, e sempre com a bateria presente, o trompete leva-nos para a reflexão de uma longa jornada, entremeando com uns acordes de guitarra, anunciando a proximidade dos encontros da noite e todos, bateria, trompete e guitarra, deixam-nos adivinhar um luar escuro junto à baía com ela entrelaçada mas sempre pujante. O saxofone reaparece anunciando o desfecho, mas o scat de Miles, bateria, pianos e todos, novamente juntos, revigoram-nos até ao êxtase completo. Depois, simplesmente, fumo um cigarro…

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