12/10/05

As Organizações Para A Produção De Obras Literárias Homogeneizadas, por Harold Robbins

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No meus tempos de liceu e nesse tempo mítico em que das olheiras nos escorriam constantemente as obras trepidantes e aceleradas, descobri um autor que era o rei da coisa. Falo de Paul Loup-Sulitzer. Na altura, em edição agora esgotada da Romano Torres, devorei o “Money”, o “Cash” e o “Fortune”, uma trilogia de “western” financeiro, que li e reli em milhentas leituras de puro prazer.

Essa trilogia, dos anos 80 e 82, foi um sucesso internacional fabuloso. O Sulitzer ganhou rios de dinheiro e viu que afinal se podiam vender livros como coca-colas ou hamburgueres. E ganhar tanto ou mais dinheiro. Ora isto, num autor que mais do que escritor era um financeiro, vindo do mundo da alta finança, foi uma descoberta extraordinária. E uma oportunidade a não perder.

Sulitzer montou então a sua fábrica. Uma fábrica de fazer livros, isto é, de fazer “best-sellers”. E a coisa atingiu uma dimensão que pouca gente imagina. Italo Calvino no livro “Se Numa Noite De Inverno Um Viajante”, afinfa umas tremendas bicadas no seu conterrâneo e encaixa lá pelo meio do livro, o miolo de um romance em que fustiga “As Organizações Para A Produção de Obras Literárias Homogeneizadas”. E eu repesco: “Uma equipa de escritores-fantasma, peritos na imitação do estilo do mestre em todas as suas cambiantes e maneirismos, mantém-se pronta a intervir a fim de tapar os buracos, concluir e completar os textos semi-elaborados de modo que nenhum leitor possa distinguir partes escritas por uma mão ou por outra...(...)...estes romances em que as marcas dos licores bebidos pelas personagens, as localidades turísticas frequentadas, os fornecimentos de modelos de alta costura, de mobiliário, de gadgets, já fixados por contratos através de agências publicitárias especializadas(...).

E se acham que isto é mais um delírio de um escritor delirante, eu repesco novamente. Aqui vai um excerto logo do início do romance financeiro “Popov” do Sulitzer – o best-seller dele de 1984:

“Paul começou a vestir-se, hesitou entre uma camisa de Charvet e uma de Bardelli, e depois, entre um fato de Huntsman e um “pied-de-poule” de Cifonelli, e optou finalmente por um conjunto franco-italiano; quanto aos sapatos, calcou uns John Lobb – sete meses de espera a partir da data de encomenda.”

Estas referências as marcas concretas, reais e pagantes, são largadas ao longo dos romances com conta peso e medida e a coisa é feita de tal maneira que nós passamos por ali sem nos apercebermos de que estamos a engolir a isca. Esta codícia nojenta pegou de tal maneira, que até nos filmes de cinema que vemos hoje a coisa é reinante. Há cidades que pagam para a acção ser lá, as marcas de automóveis pagam, os perfumes pagam, as lojas pagam, tudo paga para aparecer na tela. E toda esta gente devia era pagar royalties ao Sulitzer. E se calhar, pagam que o homem não é conhecido por dormir em serviço.

Contudo reconheça-se uma coisa, que é a honestidade da besta. A fábrica dele foi anunciada e tem visitas guiadas lá na Suiça (salvo erro em Genebra) onde funciona. Sulitzer não esconde, antes anuncia com orgulho o modo homogeneizado e higienizado com que fabrica e vende os seus hamburgueres. O que parecendo pouco ou fácil, é muito mais do que aquilo que fazem dezenas de outros autores de best-sellers que editam à razão de um ou dois romances por ano, numa repetição ad nauseam da mesma fórmula que lhes deu o sucesso inicial. Eles não o dizem, mas a mim cheira-me a fábrica clandestina ao ver a profusão inContinente das obras de Isabel Allende, Nicholas Sparks, Anne Rice, Paulo Coelho e quejandos.

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