19/10/05

Gondomar 2005 e o Declínio da Civilização Ocidental, por Teseu

Em meados do século XX soou o alarme. Em países como os EUA praticamente erradicou-se o analfabetismo. Mas apesar de saberem juntar as letras, chegou-se à conclusão que, muitas pessoas, não sabiam interpretar aquilo que juntavam. Começou-se a falar em iliteracia. Incrementaram-se os estudos acerca do tema. Num deles, concluiu-se que uma percentagem elevada de alunos do ensino universitário americano, quando confrontada com discursos políticos de Abraham Lincoln, pura e simplesmente, não os sabia interpretar! Perante isto, seria lógico que os políticos subissem o nível geral dos seus discursos e intervenções públicas e que apostassem mais na instrução dos seus concidadãos. Mas infelizmente não foi isso o que se passou. Nos EUA como na Europa, como em Portugal…

Pelo contrário, em vez de aumentar o nível de instrução e de cultura das pessoas, o que se passou foi que os discursos em geral e o discurso político em particular, começaram a baixar até níveis verdadeiramente subterrâneos. Se as pessoas não tinham cultura para compreender discursos elaborados, então eram os discursos que tinham que se adaptar – descer – ao nível mediano do cidadão comum, e não este a ter que subir a novos patamares culturais que lhe permitissem entender propostas mais elaboradas.

Eu creio que nesta tendência vertiginosa da descida do nível do discurso político, Portugal atingiu, hoje, um estatuto invulgar. Entre nós, vemos casos de políticos de grande sucesso, cujos discursos são verdadeiros insultos à inteligência, autênticas manifestações de indigência mental. Os discursos de alguns políticos atingiram a fronteira do psiquiátrico, da falta de sanidade mental. Podia citar centenas, milhares de exemplos: há discursos do piorio! Desde o primeiro-ministro Sócrates, um protótipo da vacuidade mental, passando pelo presidente Sampaio com as suas generalidades non sense, até ao bokassa madeirense, um especialista na boçalidade, há muito por onde escolher… Mas o discurso de Valentim Loureiro nas últimas autárquicas faz de Gondomar 2005 um ex-libris da incultura. Gondomar 2005 é um ponto de chegada, o desembocar decepcionante e horroroso de cerca de 25 séculos de evolução da cultura ocidental.

Reparem na riqueza (?) lógica, literária, ideológica e retórica do seguinte discurso de Valentim Loureiro nas últimas autárquicas e respondam à questão: é ele – valentim - que está perturbado mentalmente? Ou o público-alvo a quem se dirige? Estará Valentim a falar para crianças de dois anos? Ou para um hospício de doidos varridos? Depois disto, até onde poderá descer, ainda, o nível do discurso político em Portugal? O discurso rezava assim:

Caro Gondomarense:

Infelizmente não me foi possível falar consigo como tanto desejava. Você tem o Cartão Idade Mais. Com este cartão pode participar nos programas que, como presidente da câmara mandei fazer para todos os gondomarenses com mais de 62 anos de idade:

- Gondomar Douro Acima

- Avós de Gondomar a Voar

- Conhecer Gondomar

Sei que estes programs têm sido muito bem aceites pelos gondomarenses.

Estes programas proporcionam a todos os que neles participam agradáveis dias de férias, dias de muita alegria, muita felicidade, muito convívio e bem-estar. (…)

Pois bem, se quer no futuro, ter tudo isto e, se possível, ainda muito mais.

Então, caro amigo (a):

VOTE

VALENTIM LOUREIRO - «GONDOMAR NO CORAÇÃO – VALENTIM II

MAS NÃO SE ENGANE A VOTAR. Eu, desta vez, não sou candidato pelo PSD. O doutor Marques Mendes obrigou-me a ir a votos como candidato independente.

Ao votar não se engane. NÃO VOTE PSD. NÃO VOTE na coligação. NÃO VOTE nas «setinhas». Não vote nas «chaminés», como se costuma dizer.

Vote no Valentim. Ponha a «cruzinha» no boletim de voto «verde» e no boletim de voto «amarelo». NO ÚLTIMO QUADRADINHO, CÁ EM BAIXO.

Eu sei que vai votar em mim. Tenho a certeza. Você é minha (meu) amiga (o).

Obrigado pelo seu voto.

E já sabe, CONTE SEMPRE COMIGO. MAS CONTE MESMO!!!

Um abraço

Ao que chegámos! Depois de séculos e séculos de aprimoramento da cultura literária ocidental, eis-nos no fundo de um enorme buraco. Foi então isto que fizemos do «milagre grego» que haveria de lançar as bases da nossa civilização… Pobre Cícero, pobre Aristóteles, pobre Platão (e Vieira e Eça e Sérgio, já agora) …

Sem comentários: