19/10/05

Patagónia Express, de Luis Sepúlveda, por Jíbaro do Nangaritza

“O bilhete para lado nenhum foi uma oferta do meu avô.
O meu avô. Um ser insólito e terrível. Penso que acabara de fazer onze anos quando me entregou o bilhete.
Caminhávamos por Santiago numa manhã de Verão. O velho já me tinha oferecido seis gasosas e outros tantos gelados, já muito liquefeitos na minha barriga, e eu sabia que esperava o aviso da minha vontade de urinar. Talvez se preocupasse verdadeiramente com os meus rins ao perguntar-me:
- Então? Não queres mijar? Bolas, meu filho. Com o que tu bebeste…
A minha resposta natural e habitual devia soar dramaticamente afirmativa, com junção de pernas a acompanhar as palavras. Então ele, tirando o resto do charuto que sempre lhe pendia dos lábios, suspiraria antes de exclamar com o mais didáctico dos seus tons:
- Espere, meu menino. Espere e aguente até encontrarmos a igreja adequada.
Mas naquela manhã eu ia decidido a molhar as calças antes de suportar mais uma vez as reprimendas de algum padre. A brincadeira de me encher de gelados e gasosas para depois me fazer urinar à porta das igrejas vínhamo-la a repetir desde o dia em que comecei a caminhar e o velho me transformou em seu camarada de correrias, pequeno cúmplice das suas velhacarias de ácrata reformado.
Quantas portas de igreja terei mijado! Quantos padres, quantas beatas me terão insultado!
- Miúdo porco! Não tens casa de banho em casa?! – era a coisa mais suave que me chamavam.
- Atreves-te a insultar o meu neto, que é um homem livre! Parasita! Escória! Assassino da consciência social! – desferia-lhes o meu avô enquanto eu deixava cair até à última gota jurando para mim que no próximo domingo não aceitaria dele nem uma Papaia, nem uma Blitz, nem uma Orange Crush, os refrescos que ele me pagava com mais generosidade.
Naquela manhã pus-me firme com o velho.
- Sim. Estou a mijar-me, Vô. Mas quero ir a uma casa de banho.
O velho mordeu o resto do charuto antes de cuspi-lo. A seguir murmurou uma “raistapartissem”, afastou-se uns passos, mas regressou imediatamente para me acariciar a cabeça.
- É por causa daquilo do domingo passado? – consultou, tirando outro charuto de um bolso.
- Claro, avô. Aquele padre queria matá-lo.
- É que esses filhos da puta são perigosos, meu menino.”



Excerto do livro “Patagónia Express” do chileno Luís Sepúlveda. Recomenda-se também o livro “O Velho que lia romances de Amor” e deixa-se o aviso de o “Diário de Um Killer Sentimental” não vale um caracol.

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