31/10/05

Reflexões de um fascista, por Kzar

A minha filha, nos seus quinze anitos, foi hoje fazer um teste de Língua Portuguesa (ainda se chama assim?) do 10.º ano. Como não sabe nada sobre a matéria, ou o que sabe não é conforme com a posição oficial do ministério, temo que venha por aí má nota. Nada de mais, dir-se-ia. Alunos arredios do programa e fulminados com os "rr" habituais é coisa que vem da noite dos tempos. Tudo isto deve estar para acabar, que hoje em dia já ninguém quer que hajam más notas, mas por ora ainda é normal.

O problema não tem porém essa simplicidade e os meus receios paternais advêm, no fundo, da persistente e irrita preponderância que a esquerda mais descerebrada ainda exerce sobre as coisas da educação e da cultura. Lá vem este facho com cenas anti-comunas, pode pensar algum leitor mais ligeiro. Apresso-me por isso a esclarecer que a minha infanta é razoavelmente proficiente em assuntos gramaticais e literários - tanto que por esse lado jamais eu temeria insucesso escolar dela. O que a baralha, e a mim me preocupa, é a temática em que as ditas questões gramaticais e linguísticas são contextuadas.

Em conversa matinal com a stressada miúda, fiquei sabendo que ultimamente têm sido tratados, nas aulas da disciplina em questão, temas como a "igualdade", a "paz", a "cooperação", atc., etc. A última vez que a mestra comandou aos pequenos que apresentassem uma redacção (parece que agora tem o título pomposo de "dissertação"), os temas alvitrados, de que os jovens escritores por força haviam de escolher um, eram, por esta ordem, (1) as minas terrestres, (2) o trabalho infantil 3 (3) os mitos. Uau!- Então e o que escolheste, filhota? - Foi "os mitos", respondeu. Se falasse das minas, queria-se que dissesse mal do Bush e dos americanos; ou correspondia a essa expectativa, coisa que não me apetecia mesmo nada, ou não dizia mal do Bush e dos americanos, hipótese que agravaria a minha já estafada imagem de facha, racista e indiferente ao sofrimento dos povos ('tá de moda imperativa um gajo preocupar-semuito com o sofrimento dos povos e gritar contra o racismo a torto e a direito). Caso falasse do trabalho infantil, bom, aí nem consigo explicar-te o chorrilho de lugares comuns que se esperava de mim. Não tive para isso. - Tá bem pá. E isso dos mitos, o que é que escreveste afinal?- Umas merditas sobre a princesa Diana, era o que os gajos sugeriam...

Ocorreu-me então lembrar-lhe que podia ter fundido os três temas num só: inventava qualquer coisa sobre a Santa Princesa Diana, a fazer desminagem algures em áfrica, com as próprias mãos, mas auxiliada por uma data de pequenitos em regime de trabalho escravo, tudo denunciado por repórter de um jornal oficial cubano! - Ó pai, queres que eu tenha alguma negativa!? Foi o que a pequena logo me respondeu, com aquela cara de desprezo que fazem os putos quando confrontados com a incompreensão paterna pelo mundo actual. Bom, faz lá o que entenderes, repliquei eu, em exercício de confiança no juvenil juízo crítico da rapariga. Mas, em todo o caso, explica-me o que é que o Português tem a ver com essas merdas todas. A tua prof anda avariada? A explicação é a de que a prof. é de facto um bocado comunoide, tipo Bloco, "no global" e essas cenas, mas no essencial a coisa jorra do próprio livro de texto adoptado. Este explica minuciosamente aos nossos filhos como o Bush e a América são maus, como a América é que produz as minas todas com que os pretinhos em África são mutilados, que a América também é má por subsidiar programas de erradicação de cultivo de coca e papoila em países do terceiro mundo quando devia era ser intervencionada para fecho das fábricas de armas, e pérolas desse género...

Também me foi explicado que isto não é nada. Que o livro de Geologia (Geologia, senhores!) traz, entre outras coisas, um exercício sobre a igualdade em Portugal, cujo objectivo é todos os meninos ficarem cientes de que o nosso país é racista e que as medidas existentes para resolver o problema são insuficientes...Enfim, fiquei a saber que o jorro de asneiras é de pôr um cristão em estado de choque, e que a militância da pequenada no papaguear de semelhantes cavalidades, tomadas como verdades absolutas, é fortemente estimulada e com efeito generalizadamente adoptada - excepto por aqueles dois ou três alunos (quando muito) que em cada turma são um pouquinho mais espertos do que o suficiente para juntar duas letras. estes últimos, como se esperaria, cagam de alto no livro e no professor, fingem que aturam aquela merda e até que concordam e, claro, suspiram pelo dia de irem para a Universidade e virarem as costas ao resto da cambada.

Optimista impenitente que sou, penso de tudo isto que afinal ainda há alguma esperança. A miúda lá há-de desenrascar-se com o teste e a longo prazo dois ou três por turma hão-de vir a ser engenheiros, médicos, arquitectos, advogados, juízes, investigadores, empresários e, claro, dirigentes políticos. E é o que é preciso: os outros, que se lixem; em todos os países modernos faz falta uma massa acéfala de criaturas que comprem as revistas onde se diz tudo sobre a Santa Diana, as minas dos maus dos americanos, votem no Bloco, etc., etc., etc... Pelo caminho, ainda assim, pergunto: mas porque é que existe uma cáfila que se acha no direito, que se arroga a preponderância moral, de levar para as escolas (supostamente templos do ensino) as parvoíces costumeiras do bloco e do Mário Soares? E já agora, sem que seja relevante mas a crédito da exactidão, quanto a esse assunto das minas por que não focaram o pequeno e porventura incómodo dado de que são pela larguíssima maioria forças do terceiro mundo, estatais ou outras e em geral esquerdistas, quem as semeia por aí, sendo a larguíssima maioria delas fabricadas e vendidas por recomendáveis países como a China, a Índia, a Checoslováquia e a Bulgária de antes do fim da comunice, e tantos outros semelhantes? Enfim, reflexões de um fascista

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