12/10/05

Se Nesta Hora Perdida Me Apetecesse Fazer Um Post Decente..., por Morris West

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Se nesta hora perdida me apetecesse fazer um post decente, terminava já aqui esta escrita e deixava ao cuidado do incauto leitor a continuação do post, obrigando-o a puxar pelo lóbulo imaginativo, normalmente ocupado a desenvolver evoluções com putedo electrónico, então, outro galo cantaria e eventualmente dessa efabulação delirante sairia aqui alguma coisa de jeito...

Li há tempos num lado qualquer que os italianos não gostam de Italo Calvino e não percebem o sucesso que este seu conterrâneo goza fora da bota. Vergando-me à penitência do pecado capital em que estas generalizações sempre incorrem, dou por mim a pensar que há qualquer coisa que me escapa nos Italianos. E de caminho as Italianas escapam-se-me também. Autênticas enguias.

Acabei há pouco o “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante” e reli o “Cidades Invisíveis”. Duas obras primas de puro génio, desconcertantes, inquietas, intrincadas. Quem vem à procura de romances ou de histórias com princípio meio e fim, fuja já daqui. Calvino gozá-lo-á como um doido, com um gozo ainda mais forte do que aquele que se adivinha que teve ao escrever estas obras.

No “Cidades Invisíveis”, Calvino descreve-nos mil e uma cidades (na esteira do Mil e Uma Noites, em que a estrutura de fábulas contadas noite após noite é aqui reposta), mas todas as cidades do Calvino são no fundo uma única cidade, a Nossa. As cidades que nós não vemos, aqui nesta onde gastamos os calcantes, porque apressados, porque fechados, porque medrosos, porque cuidadosos, são todas as maravilhosas cidades do Calvino que nos passam ao lado e nas quais devíamos parar, atentar e mergulhar. O livro do Calvino é uma declaração de amor à Cidade, a mais perfeita e fabulosa das criações. Agora troquem tudo e releiam este parágrafo trocando a palavra Cidade pela palavra Mulher. Foi isso que viu Harold Bloom e que me levou a reler o “Cidades Invisíveis”.

O “Se Numa Noite De Inverno Um Viajante” não é um livro. São dezenas de livros dentro de outro livro. E nós também estamos lá. Neste livro, o autor puxa-nos para dentro e obriga-nos a mergulhar no desenvolvimento da obra, dando-nos pelo meio, o tutano de dezenas de romances que dariam excelentes obras, mas não dão porque de facto só está lá o tutano. O resto em falta, isto é, o princípio, o meio e o fim, ficam para nós imaginarmos, que o Calvino não os mete lá. E goza quando os procuramos. A certa altura, a coisa irrita que se farta e o Calvino que o sabe, espoja-se em interpelação directa ao leitor.

No fim da coisa, damos por nós a pensar: que diabo, mas além do tutano, e daquela molhaca densa e saborosa que nos escorre das beiças, o que é que nos interessa mais num romance? Saboreada que está mensagem espessa, de amor, guerra, revolução, traição ou morte, para que diabo temos nós de ter a coisa toda arrumadinha no armário imenso dos princípios, meios e fins. Calvino desarruma tudo, reinventa e contradiz o que acabou de dizer e perante as nossas dúvidas levanta outras maiores. O labirinto de Creta deveria ser alguma coisa de parecido com isto e nos alicerces da Torre de Babel, Calvino andou lá de certeza de talocha na mão.

Com Calvino a desarrumação é total. Se nunca leram nada de Calvino deixem estes dois para uma segunda volta e entrem no mestre pelo magnífico, hilariante e desconcertante: “O Cavaleiro Inexistente”. Esse valerá sozinho um outro post. Brevemente num Porco perto de si.

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