24/10/05

Um Palhonço No Panteão Da Eternidade, por Sagrado Coração

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Comece-se por dizer que o Palhonço conseguiu e realizou o seu grande sonho, que era ser tido como um pintor famoso e gravar para sempre o seu nome no panteão dos grandes. O artista foi famoso em vida e continua na mesma depois de mal enterrado. Os seus quadros, embora não pertencendo à esfera dos colossos, dizem presente nos mesmos sítios onde aqueles estão. Tais quadros tornaram-se mesmo ícones de uma certa forma de pintar (naif) e de retratar alguns ambientes selváticos, aparecendo muitas reproduções das suas pinturas em capas de Gabriel Garcia Marquez, Luís Sepúlveda e de outros autores que agora não recordo.

O mais engraçado é que o artista famoso sabia de tudo menos de pintura que era a única coisa que fazia. O homem não teve qualquer treino, não assistiu ou acompanhou qualquer mestre, não estudou nada de pintura, não tinha qualquer noção de perspectiva, nem qualquer noção das mais elementares regras da pintura, assim como não sabia desenhar, etc, etc, mas teimava em ser pintor e pintava. E pintor ficou. Falo como é evidente do palhonço Henri Rousseau, O Aduaneiro como ficou conhecido.

Henry Rousseau foi um pequeno funcionário da alfândega de Paris durante 22 anos e até aos 41 anos. Nessa idade e a certa altura meteu na cabeça que queria pintar e ser um pintor famoso. Rousseau nada sabia de pintura para além de saber que a coisa se traduzia basicamente em esfregar pincéis com tinta numa tela. Mas sabia como se meter no meio. Afivelou um jeito de palhonço, de coitadinho, desgraçado e engraçado e lá foi para as tascas parisienses do milieu. E a pintura, a verdadeira pintura, engraçou com ele.

Por conta de copos, piadas e boutades, o bom do Rousseau tornou-se “compagnon de route” de Picasso, Gauguin, Signac, Matisse, Pissarro, Redon, Cézanne e outros, que o acolheram e protegeram, fazendo-o inclusive participar nos seus salões de pintura. É certo que algumas vezes o tentaram meter nas salas das artes decorativas, mas Rousseau desculpava-lhes esses lapsos e acartava os seus quadros para as salas de Picasso e Cézanne. A chacota geral prosseguia nas costas do nabo, mas certo certo, é que ele lá estava lado a lado e ninguém tinha coragem de o tirar dali. E de tanto ali estar, ali ficou. No panteão, ao lado dos grandes, que apenas o receberam como bobo ingénuo e como afronta à pintura oficial e institucional.

Apollinaire, então, adorava o homem e defendia a sua pintura contra tudo e todos. Hoje, o Aduaneiro lá consta em qualquer livro ou compêndio de arte como sendo o expoente da pintura naif e a prova provada de que se pode pintar a realidade “sem a intervenção da razão critica e disciplinadora”. Que de facto, Rousseau não tinha. Mas tem quadros no Louvre, no Hermitage, National Gallery, etc.

Apesar de não saber pintar, Rousseau, homenzinho ridículo e pretensioso, envolvia-se a si próprio numa aura de grandeza que de tão atroz se tornava cómica e apreciada. A certa altura numa das jantas com Picasso e outros, Rousseau vira-se para este e diz-lhe: “ – Nós os dois somos os maiores pintores da nossa época, tu no estilo egípcio e eu no moderno.”. Nem mais.

Mas Rousseau levava-se a sério, tão a sério que distribuía cartões de visita, onde mandou imprimir por debaixo do nome a referência de “Pintor de Arte”. Os seus quadros que mais não querem do que imitar os mestres da época, são na sua maioria de um ridículo alucinado. As figuras são mal desenhadas, não há qualquer noção de perspectiva ou jogo com ela. Há figuras copiadas de caixas de chocolates e mesmo a sua famosa série das pinturas na selva era decalcada por projecção de fotografias. A sensação de mistério e de intranquilidade que transmitem mais não resulta do que da obsessão de Rousseau de acabar e encher os seus quadros até ao limite do insuportável. Cézanne por exemplo fazia-lhe confusão. A certa altura vira-se para Cézanne e diz-lhe: “ – Como sabe, eu podia acabar todos estes quadros.”
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