04/11/05

Ainda e Sempre: A Tremideira, desta vez por Heresiarca

“Maria deitada de costas, estava acordada e atenta, olhava fixamente um ponto em frente, e parecia esperar. Sem pronunciar palavra, José aproximou-se e afastou devagar o lençol que a cobria (…) e Maria, entretanto, abrira as pernas, ou as tinha aberto durante o sonho e desta maneira as deixara ficar, fosse por inusitada indolência matinal ou pressentimento de mulher casada que conhece os seus deveres. Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado. Tendo pois saído para o pátio, Deus não pode ouvir o som agónico, como um estertor, que saiu da boca do varão no instante da crise, e menos ainda o levíssimo gemido que a mulher não foi capaz de reprimir. (…) Enquanto ela puxava para baixo a túnica e se cobria com o lençol, tapando depois a cara com o antebraço, ele, de pé no meio da casa, de mãos levantadas olhando o teço, pronunciou aquela sobre todas terrível bênção, aos homens reservada, Louvado sejas tu, Senhor, nosso Deus, rei do universo, por não me teres feito mulher. Ora, a estas alturas, Deus já nem no pátio devia estar, pois não tremeram as paredes da casa, não desabaram, nem a terra se abriu.(…)

O excerto que em cima se reproduz é do “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago. Saramago volta aqui com o tema da tremideira, embora pela negativa. Este tema da tremideira – “sentir a terra a mover-se” durante a cópula – tão caro ao Porco, aqui volta por mão blasfema sempre atenta a estas coisas.

Já anteriormente o tema da Tremideira aqui andou pelo Porco, dessa vez pela pena de Hemingway que se julga ser o inventor da coisa dita cuja no seu Por Quem os Sinos Dobram de 1940 e no excerto que se repesca:

“(...) suspenso todo o tempo sobre um nada sem solução, esta vez e outra vez ainda, sempre para nada, entretanto, ah! não poder renascer outra vez para nada e entretanto, para além de tudo o que se pode suportar, mais alto, mais alto, mais alto e para nada. De súbito, deslumbramento, beatitude, tudo o que era sombrio e negativo desapareceu, o tempo absolutamente imóvel; estavam os dois juntos, o tempo suspenso e sentia a terra estremecer e esvair-se sobre os seus corpos.
(...)
- Oh! – exclamou Maria. –Eu morro de cada vez. Tu não morres também?
- Não. Mas quase. Sentes a terra mover-se?
- Sim, quando morro. Põe o braço à minha volta, por favor.
(...)
- Era um prazer, mas não era nada que se comparasse.
- Então a terra não se movia? A terra moveu-se alguma vez com as outras?
- Não. É verdade, nunca.”

Posteriormente e em releitura atenta do “Cem Anos de Solidão”, viu-se que o assumido adepto de Hemingway, Gabriel Garcia Marquez, também usa a tremideira numa das cenas amorosas, em excerto que se irá procurar e aduzir a esta nobre investigação. Contudo, permanece sempre a velha incógnita. Já tropeçaram na tremideira noutros autores? Quem é que inventou esta coisa de a terra tremer? Terá sido mesmo o velho caçador branco? E o vosso chão também treme ou isto é só literatura?

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