29/11/05

Ainda Torpedo, padroeiro do Tapor, por Minimal

Torpedo é o cognome do mais famoso personagem criado pela dupla Sanchez Abuli/ Jordi Bernet, respectivamente, argumentista e desenhador da série. Abuli nasceu em França mas fixou-se em Espanha; Bernet é espanhol, de Barcelona. No país vizinho são muito conhecidos, não só por serem os criadores do grande Torpedo, mas também por outras séries de entre as quais destaco Clarita de Noche, a história de um prostituta ingénua.

O verdadeiro nome de Torpedo é Luca Torelli. Luca é um gangster americano sem escrúplos (de origem italiana, claro, para vincar ainda mais a sua natureza mafiosa). A sua imagem de marca na contracapa dos livros é elucidativa: enquanto Luky Luke é «O cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra» e aparece a sacar a pistola; enquanto Astérix aparece a bater nos romanos e declara que «Estes romanos são loucos», Torpedo simplesmente cospe e faz «istup!», enquanto lança um escarro nojento à distância. O seu slogan - «istup!» - ao contrário dos dos heróis de Goscinny - talvez não fique para a história, mas é, certamente, um óptimo resumo da imagem de marca deste canalha sem escrúpulos.

Torpedo é o reverso negativo dos grandes idealistas. Conhecendo-se a matriz castelhana da cultura de origem dos seus criadores, somos levados a pensar que ele é uma espécie de D. Quixote de La Mancha ao contrário.Para além do carcanhol que possa ganhar em cada trabalhinho, não há qualquer outro ideal a movê-lo. O oposto do Quixote que tudo abandona na busca do seu nobre ideal… Torpedo é inculto, analfabeto, agiota e caloteiro. Um ladrão e um assassino desapiedado - tudo reunido numa só pessoa. Mesmo nos pormenores consegue ser o mais politicamente incorrecto que se possa imaginar – é feio, imundo e fuma constantemente. É alguém em quem nem o amigo mais próximo poderia confiar… Bom, para dizer a verdade, ele não tem amigos nem sequer tem uma Dulcineia, como tem D. Quixote. Mas tem o seu Sancho Pança, de seu nome Rasckall, um pacóvio gordo, isento de escrúpulos como o patrão, mas incomensuravelmente mais burro, muito mais.

Originalmente, a série é a preto e branco, como deve ser, numa homenagem deliberada aos filmes de série B americanos, mas infelizmente, os franceses da Glenat já trataram de a editar em capas cartonadas e a cores. Sendo, portanto, altamente cinematográfica, esperamos que um dia um realizador genial adapte Torpedo à tela –Abuli já afirmou que o Clint Eastwood dos velhos tempos seria uma encarnação perfeita de Luca Torelli.

Neste momento, contudo, após uma série de álbuns que estão traduzidos em várias línguas e editados pelas mais poderosas editoras de BD, Torpedo está morto! Pelo menos assim foi declarado por Abuli. Razões? Pois… Os pais do gangster – Abuli e Bernet – desentenderam-se e quem paga somos nós, leitores, que nos vemos, assim, privados das aventuras deste bandido magistral. Parece que houve um desentendimento acerca da paternidade do menino Torelli. Abuli teve ciúmes de Bernet por causa de um disco de homenagem à série feito por uns músicos de rock amigalhaços do Bernet. Parece que estes últimos não reconheciam Abuli como um dos pais da série... Em consequência da zanga, o caso acabou na barra do tribunal. Agora, até que os céleres (?) tribunais espanhóis decidam quem é, afinal, o pai da criança, Torpedo está provisoriamente morto, quer dizer, não são lançados mais álbuns da série até resolverem o imbróglio. E nós é que nos lixamos…

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