29/11/05

American Gothic, por Tó-Que-S-U-Íno

O quadro anexo é do americano Grant Wood (1891-1942), data de 1930 e chama-se “American Gothic”. Na Europa este quadro não é muito conhecido ou divulgado, mas nos EUA a pintura é um ícone incontornável e pedra basilar de milhares de cartoons, paródias, referências e campanhas de publicidade. Para terem uma noção mínima da extensão da coisa, escrevam “american gothic” no Google Imagens e pesquisem. Saltam aos olhos milhares de variações do quadro, utilizado por tudo e todos, uma vez que a pose se presta a “N” mensagens. Nas primeiras páginas do Google Imagens dá até a impressão que soltaram a Didas por ali com carta branca para voar…

Quem quiser ver uma reprodução aceitável que vá a:
http://www.babyswimming.com/Iowa%20American%20Gothic.jpg

O quadro pretende representar um agricultor pai e a sua filha solteirona. Para o pai, Grant usou como modelo o seu dentista e para a solteirona Grant foi-se à irmã. Muito mal ela lhe deve ter feito que a coisa não me parece lá muito feliz. A observação ligeira do quadro dá ao observador uma inquietação e um mal-estar que não se vê bem de onde vem, tipo Shinning do Kubrick. Descendo ao pormenor vêmos que as personagens estão mal-humoradas e carrancudas. A forquilha, firmemente empunhada, qual estandarte ou bandeira, introduz um elemento fortemente dissonante numa coisa que à primeira vista seria um simples retrato de família rural. As cores são meio agonientas e vê-se que o pintor fugiu claramente do uso de qualquer cor primária ou de tom pujante. A forquilha além de segura por um punho que se afirma e quase sai do quadro, fica com as pontas perigosamente perto dos rostos – a irmã e o dentista do Grant deviam dar uns vizinhos do camandro – e instintivamente temos medo que alguém se aleije. E depois temos os olhares, de linhas cruzadas e confusas, uma vez que se o velho nos olha de frente e de peito feito em desafio firme, a mulher olha de lado e para outro lado, não para o pintor ou fotógrafo que os retrata no seu fatito domingueiro, mas sim para a lateral onde está alguma coisa que inquieta ou ameaça. Este quadro dá arrepios.

Apesar de arrepiante, o quadro foi adoptado pelos americanos como retrato de uma certa ruralidade da América profunda, que constitui um traço marcante da sua identidade. O gótico do título vem da janela copiada de catedral europeia e este quadro permanece ainda hoje como um dos mais famosos e valiosos da arte americana. No meio daquela imagem e mensagem fortíssima, não é difícil adivinhar o advento da popularidade e do estatuto iconográfico que o mesmo ganhou. Mais difícil é contudo descobrir ali traços identificativos de quem olha para aquilo e se vê ali retratado.

Não se sabe bem o que é que o Grant Wood quis transmitir com este quadro, uma vez que a coisa dá para os dois lados, se não mesmo para todos os lados. A popularidade do quadro advém da identificação que as pessoas assumem, e o mesmo quadro serve de bandeira a grupos e lobbys que o usam como louvor e ícone de uma mensagem conservadora de rectidão, contenção e valores tradicionais. Para esses, o quadro é a apologia do puritanismo, dos "Founding Fathers" da mística dos "Pilgrims". Ao invés, há os grupos e interesses contrários, que usam o mesmo quadro como estandarte e representando uma crítica muito forte ao conservadorismo, valores arcaicos e ideias ultrapassadas. Pra essa malta, o quadro representa um gozo a uma ruralidade saloia, retrógrada e "red neck". E fica sempre a dúvida se o quadro é Elogio ou Crítica? Venha o diabo e escolha, mas cuidado com as pontas da forquilha!

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