04/11/05

As aventuras da República Francesa, por Kzar

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Um tipo mal se percata e vai a ver, zás! O surreal entra pela vida quotidiana, ainda que através de notícias sobre paragens mais ou menos longínquas. Vem isto a propósito dos recentes e ainda actuais tumultos nos subúrbios de Paris, cidade que agora é ainda mais da luz, devido aos inúmeros foguinhos que lhe alumiam a noite...

Bem se compreende que a surpresa não decorra dos motins em si mesmos. Embora ainda não seja ainda normal, um alvoroçozito de quando em vez é coisa que já não se estranha. Nenhum cidadão adulto e razoavelmente informado pode dizer que nunca tenha visto nos ecrãs de TV uns rapazes simpáticos mas embuçados a escavacar tudo o que encontram, com rigorosa e metódica igualdade. Nos States é mais habitual e costuma seguir-se aos arraiais de porrada da polícia nalgum cidadão mais escuro, quando calha serem filmados. Na falta disso, um furacão também serve e sempre calha bem para pilhar as lojas.

Já na Europa a coisa costuma dar-se mais em redor das cimeiras do G-8, embora por exemplo no Reino Unido também sirva o facto de os indígenas abominarem os pretos e os pakistaneses, estes abominarem os segundos, que por seu lado não vão à bola com nenhum dos demais e vai daí volta e meia são cenas de lambada homéricas, melhores que as dos estádios, que isso é chão que já deu uva. Rigorosamente, em França também já não é a primeira vez e há uns anos houve alarido de criar bicho ali para os lados de Toulon, Marselha ou lá isso – neste caso o barulho era com uns tipos eufemística e globalmente designados por “magrebinos”, aliás como sempre em França.

Na Alemanha são os turcos e mesmo na pacífica e tolerante Holanda a coisa esteve ainda recentemente para dar barulho, a propósito de uns muçulmanos que para lá há em fornecimento abundante e dos quais um exemplar limpou o sebo a um realizador de cinema estimado. Mais tarde o problema agravou-se com o assassinato do dirigente preto de um partido fascistoide (é fabulosa, a Holanda!), mas depois os ânimos serenaram e penso que não chegou a haver sedição nas ruas.

Ora, se o assunto é no fim de contas quase trivial, a que vem mencionar-se, a propósito dele, uma erupção do surreal pela vida quotidiana? Vem das razões que desta vez calharam estar estiveram na origem do sururu, senhores! Trocado por miúdos e como se infere das notícias, o iter dos acontecimentos foi mais ou menos assim: dois putos “magrebinos”, residentes num dos tais subúrbios simpáticos de Paris, estavam no gamanço quando apareceram uns tiras; estes largaram a correr atrás dos putos; os putos, espertos que nem alhos, esconderam-se num posto transformador de alta tensão; ficaram grelhados; a marabunta desatou a gritar contra a violência policial; daí até começarem a pegar fogo aos carros e a partir tudo foi um fósforo; a bófia anda há dias para pôr ordem nas ruas mas não consegue e reclama que seja decretado o recolher obrigatório; no parlamento exigem-se, com ar sério, medidas contra a evidente culpada de tudo, a “exclusão social” dos coitadinhos (aguardam-se subsídios...); o ministro do interior é duramente criticado pela classe política e na imprensa por ter publicamente dito que os desordeiros eram “escumalha” (“racaille”, terá sido a expressão autóctone); e o primeiro ministro diz que sim, que é preciso restaurar a ordem mas também combater a exclusão...

Fónix, se esta gaita não é surrealismo não sei o que seja! Um argumento dos Monty Python não ficava melhor. Claro, quem se deve estar a rir que nem um preto, passe a expressão incorrecta, é o Le Pen. Uma cena destas é mesmo o que ele estava a precisar. Como graças a Deus não sou franciú, fico-me nas tintas para o problema e permito-me observá-lo como quem lê umas pranchas do Miguelanxo Prado.

Mas há um pormenor destes delírios quotidianos que me escapa: porque será que este tipo de “lumpen”, ao ser possuído de furores tumultuários, desata logo a incendiar os próprios bairros e os carros dos vizinhos? É bizarro, porra... ainda se fossem fazer estrilho para o Boulevard Haussman, os Champs Elysées ou assim... Claro que nesse caso a coisa piava mais fino. As caritativas almas que agora se lembram da mázona da exclusão haviam de ser as primeiras a pôr processos disciplinares aos bófias que não arejassem o arsenal em cima dos pretos. E os pretos sabem disto, por isso ficam pelos seus “bairros”. Quem é mais hipócrita? O Le Pen ou a esquerda caviar mais o seu discurso do coitadinho?

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