22/11/05

Comunicado de Saúde Pública, por Kzar

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Exmºs. Srs.

Determinado pela constatação de que certa doença perniciosa, que se julgava reduzida a um estado larvar razoavelmente inócuo, tem afinal conhecido um insólito recrudescimento, particularmente no âmbito de certos blogues lusitanos que dela são foco e veículo de propagação, entrego aqui modesto contributo para a saúde pública, em forma de aviso.

A comunice é uma doença psiquiátrica intratável, cujas primeiras manifestações conhecidas remontam ao séc. XIX e ocorreram em certo indivíduo famoso, de nacionalidade alemã, propagando-se depois um pouco por toda a Europa, com especial acuidade na Rússia, e daí para o mundo inteiro. Uma pandemia, portanto, que determina os afectados a analisarem o mundo e a sociedade em termos fantasistas, contrários à evidência das coisas, às leis naturais, à normalidade social e ao mero bom senso.

Deixados às suas próprias ilusões, que os dominam e embotam com fúrias obsessivas, os doentes, acaso logrem iludir outros com as suas fantasias, ou arrebanhar-se em número significativo de companheiros de infortúnio, tornam-se indivíduos perigosos para a comunidade e para as liberdades individuais.

Há registo fiel de desmandos colectivos verdadeiramente assustadores, tendo estado em voga um chavão clínico segundo o qual a comunice matava mais do que o cancro; e matava, muito mais até, sendo certo que de resto ainda mata significativas porções de pessoas em certas partes do mundo incivilizado. O terror suscitado nas pessoas sãs é de tal monta que muitos preferem a morte a ser possuídos pela doença ou a conviver com os infectados - nasceu a esse propósito outro brocardo, que em língua inglesa se vulgarizou: "better dead than red"... (cumpre explicar que à semelhança da benfiquice, as lesões neurológicas associadas determinam uma bizarra preferência pela cor vermelha, constantemente atribuída a bandeiras, faixas, panfletos, etc.).

Estreitamente aparentada com a nazice (os doentes não podem ser mantidos juntos) e a vulgar psicopatia (que normalmente se lhe sobrepõe), a doença da comunice torna o seu portador em criminoso potencial e, com frequência, actual.

Ferreamente convicto de dislates absurdos como a negação da economia capitalista e a eliminação ou limitação severa da iniciativa individual, quando não mesmo da propriedade, o doente aceita em geral qualquer vilania, torpeza ou violência para converter outros a tais credos ou forçá-los a sofrer-lhes as consequências.

Em anos ainda recentes, as condições de propagação da doença foram significativamente eliminadas, o que ficou a dever-se principalmente à reconversão do seu foco principal, conseguida mediante um tratamento de choque de confronto com a realidade de miséria a que a degeneração conduzira em setenta anos.

Ainda assim, muitos portadores da anomalia persistem, um pouco por todo o mundo, em defesas mais ou menos directas e abertas, nuns casos, mais ou menos oblíquas e encobertas, noutros, a tentar propagar a sandice. Atacam o principal terapeuta, que tentam constantemente reduzir ao estatuto de actor medíocre e, numa estranho acesso de confusão, procuram por vezes atribuir a cura a um dos próprios doentes, chamando à cura "perestrika", ou "glaznost", ou coisa semelhante.

Em geral, mesmo quando escondem a foice e o martelo que em tempos tinham adoptado como insígnia, podemos detectá-los por um vasto conjunto de sintomas de entre os quais se podem destacar, porventura, a acrítica louvaminha de sítios indizíveis que os seus apaniguados governam (v.g., Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, et al.), a demencial crítica de tudo e mais alguma coisa que lhes pareça vir do país que mais contribuiu para a contenção da fonte da doença e, muito particularmente, a negação espasmódica do mercado livre, a que entendem chamar "globalização" - definindo-se a si próprios como "anti-globalização".

Um dos traços observados mais recentemente no comportamento desses indivíduos é o de com ilógica insistência desculparem toda a espécie de agressões dos sectores mais retrógrados e fanáticos do mundo islâmico ao ocidente, com o mírifico e bizarro pretexto de que o Islão é desprezado, ofendido e explorado pelo ocidente. Invariavelmente vêem a questão israelo-palestiniana com olho vesgo, definindo o problema, com sanha maniqueísta, como a opressão do mau (Israel) sobre os bons coitadinhos (palestinianos), os quais quando põem bombas em autocarros ou bares, lançam rockets, etc., o fazem sempre em boa e legítima defesa...

Um outro sinal patognomónico da doença é a negação da realidade observada quando se consegue fazer-lhes ver a natureza perniciosa dos seus efeitos na sociedade. Num momento de lucidez, verificam que em tal ou tal país cuja população governante foi contaminada, as consequências se revelaram devastadoramente atrozes, em termos económicos e de liberdades cívicas e políticas; porém, nesse caso, argumentam, com aparência de seriedade desarmante, que uma vez que tudo correu tão mal, então o que lá havia não era a doença da comunice, mas antes a da fascizice, a da nazice, ou até mesmo o elementar capitalismo, já que à comunice nunca conseguem reconhecê-la como desvio/perversão e por isso não concebem que dela resulte o Mal.

Parte desses infelizes tem o hábito de reunir-se em Porto Alegre, no Brasil, fazendo alaridos folclóricos e vomitando disparates incessantes, sempre que os governantes de alguns países mais relevantes na economia mundial se reúnem noutro sítio qualquer para discutir coisas sérias.

Pormenor intrigante mas que causa sempre algum riso é o de não perderem o hábito de se reclamar da "ciência", aliás na esteira dos casos mais graves que se conhecem, que chegaram a urdir fantasias que intitularam de "comunismo científico" ou designações tonitruantes similares. Têm uma fé irracional e indomável na "planificação" e aparentemente acreditam de modo pio em que aplicando às suas ilusões o adjectivo "científico" adquirem, como que por osmose, a credibilidade própria da ciência no apuramento de conclusões sobre o real e a sociedade.

Enfim, apesar de ser intratável (conhecem-se ainda assim alguns casos de regressão espontânea e boa parte da população é-lhe rigorosamente imune), tenho a satisfação de informar que os sintomas da doença podem ser contidos com razoável eficácia. Todavia, sendo o brometo e os electrochoques metodologia reprovada pela psiquiatria moderna e incompatíveis com a sensibilidade dos nossos dias, uma gestão aceitável da saúde pública terá de bastar-se com depender, no essencial, da lentidão do desenvolvimento económico.

Com efeito esperamos todos, é claro, que a progressiva expansão do acesso ao bem estar e à cultura imunize a generalidade da população mundial contra tão perniciosa doença, que faz dos seus portadores objecto da mais funda pena, mas também de temor. Até lá, aconselha-se apenas constante reprovação e, se possível, confrontação dos afectados com o absurdo - entrar na sua retorcida lógica do mundo, usando doses generosas de ironia e humor para distorcê-la e quebrá-la, é com frequência meio idóneo para reduzir-lhes os frutos da mente obsessiva ao que realmente são: uma névoa de disparates; perigosos, mas ainda assim, sempre, meros disparates.

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