18/11/05

«Conflitos sociais? Mas quais Conflitos Sociais?», por Sic

Depois de ouvir o vosso primeiro ministro a dizer, com toda a calma, que o «grau de conflitualidade social é perfeitamente normal no nosso país e que, aliás, até está admirado porque esperava bem pior» (sic), resolvi fazer um exercício. Elaborei a lista dos que protestam contra este governo e, em paralelo, acrescentei a pequena lista dos que não se queixam. Só de memória. Concluí que o nosso povo é muito ingrato e que uns 7 ou 8 milhões de entre os portugueses faziam bem é em desaparecer do mapa. Como é que conseguimos sobreviver, vá lá do 25 de Abril até hoje, sem este excelso governo é o que me pergunto. Mas vejam vocês:

Saúde:
Os que protestam – Os enfermeiros. Os doentes.
Os que não protestam – os médicos.

Justiça:
Os que protestam - Juízes, magistrados do ministério público, funcionários judiciais
e ordem dos advogados.
Os que não protestam – O advogado do bibi. O prado coelho.

Educação:
Os que protestam - Professores, funcionários discentes, alunos do básico e do secundário, alunos do superior e estagiários ou seja, todos…
Os que não protestam – todos protestam com a excepção dos boys e girls das direcções regionais de educação. A Fne. O prado coelho. A confap ou lá o que é aquilo dos pais.

Ambiente:
Os que protestam - Organizações ecologistas, a população de souselas e de Coimbra (apesar de terem votado no sócrates), a autarquia de Setúbal. PSD e CDS. Bombeiros, populações que viram o fogo entrar nas suas cidades. O ministro do ambiente que também acha que «a política de fogos do governo foi um fracasso» (sic)
Os que não protestam- O PS de Coimbra que acha bem a co-incineração em souselas (e já agora porque não uma estação de tratamento de resíduos nucleares na Pedrulha?). A malta de Vila Franca de Xira que também tem uma cimenteira, mas esta livre da co-incineração. O Sócrates que ficou a passar férias no Quénia. O prado coelho.

Agricultura e pescas:
Os que protestam - Agricultores, CAP, pescadores de Sesimbra em particular e pescadores portugueses (uma espécie em vias de extinção) em geral.
Os que não protestam- O ministro da agricultura que diz não perceber o que se passa à sua volta. O prado coelho.

Autarquias:
Os que protestam- Todos os autarcas protestam. Furiosamente.
Os que não protestam - só o coelho.

Turismo:
Os que protestam - as empresas que querem fazer campos de golf na zona centro e se vêm impedidas em nome da preservação do salgueiro anão que existe para estes lados…
Os que não protestam: Os empresários de golf que conseguiram aprovar no Algarve mais uma dezena de novos campos (!!!!). Os empreiteiros que têm projectos assegurados para avacalhar de vez o Algarve (se é que é possível). E aquele, o outro das barbas, vocês sabem de quem eu estou a falar.

Cultura:
Os que protestam - Os Mecenas do Porto que se viram impedidos de fazer da Casa da Música o que antes fizeram de Serralves, ou seja, o melhor projecto museológico do país.
Os que não protestam - O prado coelho.

Economia:
Os que protestam - Os funcionários por conta de outrem - os mesmos de sempre a pagar a crise. Quase toda a gente que vê a inflação a disparar, os impostos a crescerem e a multiplicarem-se de modo mais ou menos encapotado, as famílias que já não podem aplicar o seu dinheiro em Contas de Poupança Habitação, as empresas de camionagem e de transportes e os particulares que pagam a gasosa mais cara, os que já pagam portagens injustas e os que vão pagar portagens justas como a malta de Lisboa (em mais uma promessa para meter na algibeira da parte do primeiro ministro), os reformados, o PC e o BE, em suma, toda a malta protesta…
Os que não protestam - Os que fogem ao fisco; os grandes grupos económicos e, em particular, o Belmiro que tá na maior . O Alberto João e os clubes de futebol da madeira. Os lobbies do ferro e do betão a sonharem com a OTA e com o TGV. E aquele indivíduo que escreve todos os dias no Público.

Segurança Social:
Os que protestam - os funcionários públicos que se lixaram com as novas reformas e com a suspensão do tempo de serviço e das carreiras.
Os que não protestam - os tapadinhos dos empregados do sector privado que ainda não perceberam que o recuo dos direitos dos trabalhadores do público vai acabar por se repercutir neles também(dahh); os patrões de empresas privadas que perceberam o que os seus empregados ainda não perceberam. Ah e o prado coelho.

Emigração:
Os que protestam - Os africanos, os brasileiros e a malta de leste que continuam explorados como sempre.
Os que não protestam: os ilegais que são muitos e calados.

Emprego:
Os que protestam - Os desempregados que são cada vez mais. O licenciados desempregados que são ainda mais…
Os que não protestam – o António Vitorino, o Fernando gomes e o Vara. Os boys e as girls. As 14 secretárias do primeiro ministro. E aquele senhor gordo de barbas que está sempre a dizer bem do Sócrates.

Defesa e segurança:
Os que protestam - Os militares, os policias e as mulheres deles.
Os que não protestam – A fátima, o valentim e o isaltino. E o prado, claro.

Temos, portanto, que o Portugal Ideal, onde não existiriam forças do bloqueio, o país como deveria ser, sem os mandriões e priviligiados do costume que andam permanentemente a boicotar isto tudo, seria um país em que se tivessem extirpado ou «convertido» os seguintes grupos de cidadãos:

Juízes, magistrados do ministério público, funcionários judiciais, advogados, enfermeiros, doentes, professores, funcionários discentes, alunos do secundário, alunos do superior e estagiários, organizações ecologistas, populações de Souselas e de Coimbra, a autarquia e a população de Setúbal, o PSD e o CDS, os bombeiros, as populações que viram o fogo entrar nas suas cidades, o ministro do ambiente, os agricultores, a CAP, os pescadores de Sesimbra em particular e os pescadores portugueses em geral, os autarcas, as empresas que querem fazer campos de golf na zona centro, os mecenas do Porto, os funcionários por conta de outrem, quase toda a gente que vê a inflação a disparar e os impostos a crescerem, as famílias que já não podem aplicar o seu dinheiro em Contas de Poupança Habitação, as empresas de camionagem e de transportes e os particulares que pagam a gasosa mais cara, os que já pagam portagens injustas e os que vão pagar portagens justas como a malta de Lisboa, os funcionários públicos, os africanos, os brasileiros, as ucranianas, as brasileiras, os desempregados que querem deixar de o ser, os reformados e os, uuuuffff, militares e os policias…

Sem estes nababos todos, o país seria, finalmente, governável, o sócrates brilharia em todo o seu esplendor e o prado coelho até podia ser ministro da cultura. Como seria bom a Justiça sem juízes a educação sem professores nem alunos, a saúde só com os médicos e sem enfermeiros, a agricultura e as pescas sem agricultores nem pescadores, a oposição sem os partidos da oposição, o ambiente a arder, a cultura sem mecenas, só do estado, a emigração sem emigrantes, a função pública sem os funcionários públicos, a defesa sem militares e a segurança sem polícias…É uma pena que este magnífico Governo não possa demitir o povo ingrato que lhe coube na sorte…

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