02/11/05

D. JOÃO PINTO, por Mad Professor

O Nelson era um miúdo que tinha qualidades: era afável e educado. Mas, em definitivo, tinha uma característica cuja causa eu nunca entendi e que me era particularmente embaraçosa. Apesar de ser um aluno razoável que lá ia ultrapassando as etapas sucessivas do seu percurso escolar, tinha um ponto fraco: a História. Sempre teve negativa a História e não conseguia, nem queria, explicar aquilo. Não gostava, não entendia e não queria saber. No extremo oposto da sua escala de preferências estava o futebol, o Benfica e o João Pinto. Por esta ordem ascensional, precisamente.

Eu achei que aquela repulsa categórica e visceral era artificiosa e não passava de um recurso para se fazer notado. Era o seu traço distintivo. O Nelson já era conhecido entre os pares como "o que não gostava de História."

Decidi então adoptar uma estratégia simples para inverter esta aversão. O processo era construir uma cumplicidade através do futebol, cativando-lhe a simpatia com uma pretensa preferência minha pelo clube da Luz. Sabe Deus o que isto custou à minha costela portista, mas a causa era boa. Depois, cimentado esse laço, tencionava encontrar um canal de comunicação por onde intentaria, qual traidor movido por interesse dissimulado, aniquilar-lhe aquela repulsa tão arreigada.

A coisa parecia estar a resultar. O Nelson já prestava atenção à aula e até fazia perguntas. Pareceu-me que gostou dos diapositivos de Mafra, da Biblioteca Joanina de Coimbra e do Aqueduto das Águas Livres. Achou piada à cabeleira do D. João V, delirou com a historieta dos Meninos da Palhavã e ficou impressionadíssimo com o gráfico que assinalava os ganhos da coroa com a exploração das minas brasileiras.

Agora, a posteriori, acho que estas fortunas mirabolantes, aquelas talhas douradas e aquelas construções imponentes, no seu espírito benfiquista, ficaram associadas ao astronómico salário do futebolista da sua preferência e à ideia que ele fazia da vida social do seu ídolo, sempre fotografado em casas de luxo e ambientes sofisticados. Talvez por isso, quando na avaliação escrita, esta associação de ideias levou-o, inconscientemente, a escrever D. João Pinto onde teria ficado melhor o nome do rei Magnânimo. Usei de alguma cautela e humor na entrega da prova e corrigi:

- Ó Nelson, não é D. João Pinto. É D. João V.

Ele sorriu e eu pensei que a coisa estava consertada.

No Domingo, o Benfica jogou e ganhou. No dia seguinte, o Nelson foi o primeiro a vir ter comigo:

- Ó "setôr", você viu aquele golo do João Quinto ?

Pensei que ele estava a brincar e rectifiquei apenas por obrigação formal:

- João Pinto, Nelson. Foi o João Pinto.

O rapaz franziu o sobrolho, baralhado e indisponível para rebaptizar novamente o herói dos relvados, e reagiu mal-humorado:

- Mau ... afinal, como é que se chama o gajo ?

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