28/11/05

La Mano De Dios, por Mangas

Tal como Fátima e Lurdes são autênticas catedrais de culto para fiéis e crentes de todo o mundo, A Cidade do México possui um local com dimensões não maiores de cem metros de comprimento por cinquenta de largura, onde o fervor e a devoção não são ali menos consagrados. A grande diferença entre estes lugares reside apenas no sujeito de veneração. Se por cá foi a Virgem Maria que encurtou distâncias e escolheu os mais humildes para inspirar, na Cidade do México, foi Deus Himself que desceu dos céus e se manifestou por duas vezes resgatando o orgulho ferido de todo um povo. Estas aparições ocorreram no dia 22 de Junho de 1986, o local escolhido foi o Estádio Azteca, também conhecido por Coloso de Santa Úrsula. A tribo do futebol em geral - ao vivo ou à distância planetária do satélite -, argentinos e mexicanos em particular, foram testemunhas dos dois extraordinários acontecimentos.

Com a guerra das ilhas Falkland ainda a sangrar na memória dos argentinos, aquele jogo dos quartos-de-final do Campeonato do Mundo decidia para os ingleses, tão-somente, a possibilidade de continuar em prova e alcançar as meias-finais. Porém, para os argentinos, e quatro anos após terem sofrido a humilhação de regressar a casa com o rabo entre as pernas e as Malvinas irremediavelmente perdidas, o futebol era o instrumento perfeito para ajustar contas antigas. Minha é a vingança, diz o Senhor e Diego Armando Maradona fez-lhe a vontade.

Ao sexto minuto da segunda parte, com o jogo empatado a zero, o lateral esquerdo inglês Steve Hodge tem um mau alívio após um cruzamento de Jorge Valdano. A bola vai direitinha para a zona de penálti onde, sob a pressão de Maradona, o keeper inglês Peter Shilton a tenta socar para longe. O argentino chega primeiro, eleva-se mais alto, contudo não o suficiente para cabecear a bola e, num toque subtil com o punho esquerdo, empurra-a para dentro da baliza. Foi como se Maradona tivesse entrado descalço num very-british-Country-Club-Members-Only, e pontapeasse a pelota para o relvado de críquete antes de mijar para o bule de chá sob a presença chocada da Rainha emoldurada. Nunca se soube se no último instante da impulsão, o rosto tatuado de Che no braço esquerdo de Maradona, terá pendido para a bola num revolucionário golpe de mão contra o imperialismo. O árbitro Ali Bin Nasser, limitou-se a validar o golo perante o espanto dos ingleses ainda atordoados e dos argentinos prolongadamente incrédulos; El Pibe marimbou-se para os nobres códigos de ética e cavalheirismo lavrados em terras de Sua Majestade e limitou-se a gritar para que os seus colegas o viessem abraçar, porque em tempo de guerra não há fair-plays que resistam, não fosse o tunisino voltar atrás e reconsiderar a validade do golo. “Com a mão? Só se foi a com a mão de Deus!”, retorquiu Maradona aos jornalistas no final do jogo, quando confrontado com a pergunta sacramental.

Talvez o futebol seja apenas um jogo, mas Diego Maradona foi um artista, logo, pela lógica irrefutável da condição, a bola nos pés do número 10 argentino era pura arte em movimento. E, para que no que lhe dissesse respeito, a História dos Mundiais não se limitasse a intervenções divinas pelo ar, Maradona tratou de lhe acrescentar mais um capítulo à flor da relva mostrando que qualquer Deus que possui uma mão esquerda, também possui um pé esquerdo. Decorria o décimo minuto quando ainda dentro do seu meio campo, Maradona recebe um passe de Héctor Enrique e inicia uma cavalgada de 60 metros em 10 segundos driblando, um após outro, todos os jogadores ingleses que lhe apareceram pela frente, cinco no total!, bola no pé, centro de gravidade e equilíbrio em perfeita harmonia, criador de espaços, progressão acelerada até encarar Peter Silton pela segunda vez entre si e a baliza, o argentino aguardou até ao limite a sua saída entre postes, um toque, um carícia envenenada na bola com a parte interna do pé para uma última viagem ao encontro do que mais se assemelha com a felicidade: golo! Recentemente, a FIFA elegeu-o como o Golo do Século, o melhor de toda a história dos Mundiais.

Quando após a final desse Campeonato do Mundo beijou a taça que o consagrou como o mais fantástico jogador da sua e de todas as gerações, Maradona, sem o saber, celebrou nesse instante o último triunfo pessoal de um percurso desde Villa Fiorito, o subúrbio pobre onde cresceu na mesma pátria que carregou às costas, até à exultação nacionalista do triunfo pelo futebol. O último momento de aproximação aos céus antes de ter mergulhado no inferno da cocaína que quase o destruiu. Mas para a história fica aquele golo com a mão. “Mão de Deus los cojones! Foi mão de Maradona!”, diria muitos anos mais tarde o pequeno génio argentino, com um misto de orgulho e desprezo chispados no olhar de ladrão que rouba a ladrão.

No exterior do Estádio Azteca, ergueram-lhe uma estátua. Diz-se que os argentinos que por lá passam, se ajoelham, rezam e ao sinal da cruz suspiram: em nome do Pai, do Filho e Diego Armando Maradona. Ámen.

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