09/11/05

Mais um de La Tour, por Pio.

Nessa noite, após uma medíocre janta para os lados de Tondela, o Cão defendeu Vermeer com uma rotunda pergunta retórica: e tu, não gostas da Sombra? A discussão sobre o holandês, artista do quotidiano burguês, já vinha de trás e estava quente. Foi então que o Pilas ousou enfrentar o Cão e fulminou Vermeer, classificando-o de medíocre, sonso e outras coisas ininteligíveis.

O fulminador até podia não gostar, agora admirar? Então não devia admirar, ou mesmo assombrar-se perante os mestres do claro-escuro numa época ainda dominada, quase de forma asfixiante, pelas leis do maneirismo? Claro que temos de compreender que seguramente esta sombra, entrou violentamente no sótão do Pilas, e deslumbrado pela simplicidade arrolhadora* desta pintura, só viu o escuro do claro-escuro. Estou mesmo a ver o Pilas numa aula com o Caravaggio…, oh! mene isto da luz deste lado dá uma sombra do carago! E se a gente espalhasse uns neóns por aí? É que a filha da puta da sombra não deixa ver um caracol!

Este episódio fez-me lembrar uma notícia lida aí por alturas de Junho num jornal espanhol, onde se fazia referência à descoberta de um quadro dum dos pintores dessa época, influenciado pela revolucionária escola iluminista de Caravaggio: precisamente, Georges de La Tour.
De George de La Tour – outro iluminado pelo Amerigi, que não pelo forno do pai – poucos quadros restam. No entanto hoje há mais um quadro nesta colecção exígua deste poeta da luz. O episódio da sua descoberta merece ser contado.

No seu primeiro dia no cargo, o actual director do Instituto Cervantes de Madrid, César Antonio Molina, percorria as dependências do Palácio de la Trinidad de Alcalá de Henares, sede do Instituto quando, ao abrir a porta do gabinete do Administrador, reparou numa tela pendurada numa das paredes e, imediatamente, se apercebeu que estava perante algo grandioso, importante, não sabia bem o quê... Logo contactou com os especialistas do Museu do Prado, que identificaram a originalidade e a paternidade do óleo, como “São Jerónimo legendo uma carta” do grande de La Tour. A pintura, em poder do Museu do Prado, após doação do Instituto Cervantes, será exposta por primeira vez ao público no Museo Nacional d´Art de Catalunya, no âmbito da exposição “Caravaggio y la pintura realista europea”. Resulta também espantoso que o Museo del Prado, até hoje só possuísse um de La Tour, e por empréstimo do London Museum. É, pois, recomendável estar muito atento e olhar detidamente as paredes da nossa casa bem como as do vizinho: nunca se sabe onde se poderá encontrar o próximo de La Tour
* Nota da redacção - O termo «arroladora» é castelhano. Recebemos juntamente com o presente texto uma nota do seu autor, nuestro hermano, um esclarecimento. O nosso Cervantes explicava na referida nota que «esta fica assim q. é pá el españuel». Ficou, embora ninguém saiba o quer dizer arrolladora. Eu pelo menos não sei.

Sem comentários: