17/11/05

O Auto-Rádio, por Advogado Do Diabo

O chinês estava furibundo e esbracejava em tribunal. Do outro lado, impávidos e serenos, eu e o meu cliente de nomeação oficiosa, aguardávamos que o pequenito de olhos em bico se acalmasse. Do pouco que se entendia, resultava que o meliante do meu cliente tinha ido à loja dele há já dois anos e há já dois anos que ele andava à espera daquele julgamento do cheque careca de 17 contos com que o outro pagara um auto-rádio.

O bardana do meu cliente, perante as minhas ameaças de que o Juiz lhe afiambrava, pediu-me para fazer um acordo de pagamento. Apesar dos dois anos de mora, o Chinês aceitava os 17 contos desde que pagos logo ali e então desistia da queixa. Lá fui pra fora da sala de audiências falar com o artista. O meliante, pois que não, que não tinha ali o dinheiro, só recebia dentro de 15 dias e só nessa altura, só esperando, etc coiso e tal. Prontos, tá bem vou falar com o juiz.

- Sr Dr ele aceita pagar os 17 .000$00, mas só dentro de 15 dias quando receber. O juiz olhou de lado, mas aceitou adiar o julgamento para daí a 15 dias. Quinze dias depois o homem continuava a não ter dinheiro. Que afinal estava desempregado e a mulher que trabalhava não lhe deu o dinheiro. Pedia e pediu-me mais 15 dias. Voltei ao Juiz, expliquei e pedi complacência e espera, que depois vinha uma tia a quem ele pediria o dinheiro. O juiz não estava a ir na conversa e queria fazer já o julgamento. O homem chamou-me de lado, chorou-se pela alma da mãe, prometeu pela alma do pai e eu convencido fui moer de novo a pachorra do Juiz.

O Juiz foi no meu paleio, mas só depois de me advertir que não acedia pelo artista, mas por consideração para comigo, que lhe estava a garantir a resolução dentro de 15 dias. Com esta nas trombas, não pude voltar atrás e engoli em seco. Cá fora fiz o homem jurar também pela alma da tia.

Espero que já lhe tenha morrido a família inteira, porque 15 dias depois, dinheiro pró chinês, chapéu! O chinês tava pior que estragado e o Juiz bufava comigo e com o verdadeiro artista. Garantiu que se me tinham acabado as facilidades, com este processo e com outros futuros e que passávamos já ao julgamento. Dito e feito.

Pelo meio do juízo final o homem chorou baba e ranho e pedia novo prazo ao Juiz porque dentro de 10 dias é que era e aí já ia receber do novo emprego e que telefonassem ao patrão que gostava muito dele, e agora é que era, juro e prometo. O Juiz olhou pra mim e eu adiantei, baixinho, que sempre se podia adiar a sentença por esse prazo. E o Juiz fez o julgamento, mas acedeu e adiou a sentença por mais 10 dias.

Dez dias passados e pagamento nada. O Juiz do alto da beca, começou a bufar e furioso, trovejou pró meliante:
- Olhe lá, você não tem o dinheiro, mas tem o auto-rádio?
- Tenho sim senhora, xôtor juiz…
- Atão, porqué que você não traz o auto-rádio e o devolve ao Sr. Chang?
- Ó xôtor juiz, pelo amor de deus, já lá vão dois anos, o auto-rádio agora vale muito mais dinheiro!

O sacana levou com a sentença, mas não devolveu o auto-rádio. O chinês ficou a ver navios, ou juncos, até porque andava ali sem advogado e não fez - em prazo -, o pedido de indemnização. Eu, por mim, e na leitura de sentença que imediato se seguiu, retirei as mãos pra dentro das mangas, puxei a toga até aos queixais, afundei o resto do corpanzil na cadeira e procurei o remanso longínquo da invisibilidade impossível.

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