03/11/05

Que Las Hay, Hay..., por Kzar

Já todos sabemos que ao candidato ex-presidente, Dr. Mário Soares, importa que se faça um desconto correspondente à sua provecta idade, somado aos outros descontos que de sua própria e estrutural personalidade sempre mereceu. Não trato aqui, por isso, das mais recentes incursões do referido cidadão sénior pelo terreno da desbragada asneira. Todos se recordarão, por exemplo, de quando alvitrou dever negociar-se com a Al Qaeda, ou da obsessiva monomania anti-Bush de que foi tomado e que o levou a participar em ruidosas manifs, de braço dado com o frade Louçã e o nem-sei-que-lhe-chame Freitas do Amaral. Resumindo, além de tudo o que ao longo dos anos os sofridos portugueses ficaram dele a saber, o ancião deu agora em fazer-se "no global". Não fosse o tributo do tempo e já nada admiraria vê-lo, em breve, envolvido nos tumultos que cronicamente cercam as cimeiras do G-8, tripulando um monociclo, embuçado e incendiando viaturas, possuído de sanha fervorosa contra o capitalismo internacional. Pelo menos é certamente amigo do Bosé, aquele franciú que bota petardos nos "McDonalds"...

Ora, dizia, há que fazer-lhe um generoso desconto, ao estilo "Multiópticas": igual à idade. Ainda assim, porém, o velho republicano, laico e socialista, excede por vezes aquilo que um honesto cristão pode carregar-lhe na coluna do "deve" em seu livrinho de contas. Na noite passada (02/11/2005), vestindo a sua melhor pose de trisavô da pátria (republicana, laica e socialista), o ex-presidente e novel velho candidato jorrou opiniões tão diversas quanto vácuas por ocasião de entrevista conduzida pela Sr.ª Constança Cunha e Sá e espalhada no éter através dos emissores da TVI. Incondicional adepto do "zapping", calhou-me ser um daqueles lusitanos a quem brevemente foi infligida a opinião do nosso Matusalem da política. Entretido a testar os meus fracos conhecimentos de neurologia, tentando diagnosticar algum Alzheimer, julgava ter já o caso bastantemente caracterizado quando fui sobressaltado por mais uma bizarria.

A dita Sr.ª jornalista, entre o hostil e o condescendente, indagava as razões de uma mudança de atitude conducente à candidatura. Confirmando o seu estado pré-cataléptico, o antepassado da democracia referiu uma sucessão de gravíssimos acontecimentos, internacionais e domésticos, que o teriam forçado a largar o torpor asilar de suas múltiplas e imprescindíveis fundações. Ele foi a "situação da Europa" (é um pândego, este velho!), a crise financeira, eu sei lá, só faltou a gripe das aves – e todos sabemos o quanto as gripes preocupam os cidadãos daquela faixa etária. Mas, e foi aqui que me fulminou o sobressalto, lembrou-se o muito antigo Sr. de adiantar ainda um motivo mais para a sua abnegada decisão: o processo "casa Pia" e o facto de "terem" (eles...) tentado envolver políticos nele!

Alto e pára o jogo, matutei. A propósito do recente conflito institucional entre Sua Exa. o Sr. Ministro da Justiça, ex-Director-de-Serviços-de-Justiça de Macau, e as magistraturas, correu à boca pequena entre alguns membros destas últimas que a motivação daquele primeiro era torpemente vindicativa. Em concreto, que as magistraturas estariam a "pagar" um agravo sentido pelo Partido Socialista – o que para indignação geral até chegou a ser alvitrado por um dirigente sindical do Ministério Público durante um debate televisivo. No que me respeita, achei sempre que a insinuação era cavilosa. Os políticos são rasteiros, ai de nós, bem o sabemos, mas há limites e essa parecia mesmo uma fantasia tirada do directório de aldrabices usadas pelos jotinhas de todas as cores, tipo manual do escuteiro-mirim...

Mas então agora o provecto candidato afirma, com todas as letras e perante vasta audiência, que o dito processo judicial e o envolvimento de dirigentes socialistas nele militaram entre as razões que o moveram a candidatar-se!? E que significa isso? Propõe-se tomar alguma medida contra semelhante desmando? E qual? Ou a afirmação foi só o resultado de mais umas ligações sinápticas em tumultuosa auto-gestão? Tudo questões de somenos, que escaparam ao escrutínio da Sr.ª jornalista, de maneira que o acto lá continuou a ser oficiado, debitando o ex-prognosticável-futuro-presidente, em ritmo sonolento, as inanidades do costume.

Facto curioso, as letrinhas por baixo da pantalha corriam, pressurosas, a repetir que os médicos proclamam o cidadão "em muito boa forma"... Pela minha parte, considero que Portugal tem o que merece, como de costume. De caso relativamente simples de geriartria e contaminação cerebral pela esquerda francesa, como recentemente diagnosticou Vasco Pulido Valente, o Sr. Dr. Mário Soares arrisca-se seriamente a passar a presidente mais antigo da Europa, ao melhor estilo das antigas ditaduras de Leste, em que a seita do Politburo havia de ter pelo menos oitenta anos e dez de algália para ascender ao cargo. Fica-lhe bem o paralelismo. Contas feitas, resta-me a meditação dubitativa: "que las hay, hay..."

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