01/11/05

Reflexões de um facho, II - por Kzar

O livro que referi na posta anterior intitula-se "Geologia 10"; os autores, uns ases da pedagogia (e foram precisos três), intitulam-se: A. Guerner Dias, Paula Guimarães e Paulo Rocha (este tem um bom nome, para autor de um manual escolar de geologia...). A editora intitula-se: Areal Editores (nome arenítico...).

Entre montes de bonecada e algumas cenas sobre geologia, mas nada que esforce muito as meninges da garotada, que de contrário podia ser acometida de um ataque fulminante de "insucesso escolar", reza assim, a pp. 77: «"O Futuro da Terra. Actividade - a Terra, o ambiente e a sociedade"

Seguem-se dois textos do mais bacoco que há em termos de lugares comuns e que não resisto a transcrever:

"Texto 1
Se a população mundial tivesse a produtividade dos suíços, os hábitos de consumo dos chineses, os instintos igualitários dos suecos e a disciplina social dos japoneses, o planeta Terra poderia sustentar muitas vezes a sua população actual, sem que ninguém tivesse de se privar de nada.

Texto 2
Se a população mundial tivesse a produtividade do Chade, os hábitos de consumo dos EUA, os instintos de desigualdade da Índia e a disciplina social da Argentina, o planeta dificilmente poderia sustentar a sua população actual"

Numeradas, são então propostas aos petizes (do 10.º ano de escolaridade, note-se), entre outras, as seguintes reflexões e questões, formuladas numa linguagem inqualificável:

"1 - Relativamente a cada um dos parâmetros em análise - produtividade, hábitos de consumo, instintos igualitários e disciplina social -, qual das situações melhor caracterizariam a situação em Portugal? Justifique.
2 - Como classificaria, numa escala de 1 a 10, para aqueles quatro parâmetros, a situação em Portugal?"

Ora, descontando pormenores como os da concordância entre sujeito (pronome "qual") e verbo ("caracterizariam"), das situações que caracterizariam a situação, e a evidente atitude discriminatória de na segunda pergunta se não exigir resposta justificada, consinto-me uma sonora interrogação: Em análise!?!? Em análise!? Que porra de abuso de linguagem é este? Só se por análise daqueles benditos "parâmetros" (esta é de gritos!) se entender o pessoal a ser lapidarmente informado de verdades duras como granito, do género os suíços serem produtivos, os suecos igualitários, os chinocas poupadinhos, os japoneses disciplinados, os américas gastadores, os argentinos uns insurrectos e os cabrões no Chade não fazem a ponta de um corno... Viva a escola que induca tanto!

Então e a segunda questão? Bom, não maço mais V. Exas. com essa cena. Bastará dizer que só tinha direito a sininhos maviosos e beijinhos da stôra a rapaziada que dissesse, no que à igualdade respeita, que Portugal é um coio de facínoras racistas, os pretinhos e os ciganos são maltratados, os pobres são vampirizados pelos ricos, etc. e tal. Se a algum dos fedelhos ocorresse recordar que a constituição e a lei garantem igualdade dos cidadãos na pátria lusa, que o mais é fita, o melhor é cada um por si e Deus por todos, com a lei e as instituições a punirem actos discriminatórios, pouco importando visões generalistas e paspalhas e ideias feitas, então estava o caldo entornado - como esteve.

Assim, saiu logo, apoiado maternalmente pela stôra, comentário indignado e escarninho da deficiente lá do fundo, aquela que nunca acertou uma a matemática ou física, sublinhado por ar de triunfo e vingança de todas as secretas humilhações passadas às mãos dos espertinhos que lêem livros e tudo, os cabrões, com a mania que são espertos:- És mêmo faxista e racista; atão não vês que em Portugal os pretinhos, digo negros, são maltratados, e nem temos discriminição positiva nem nada, seja lá isso o que for? Que os pobrinhos coitadinhos são muitos e pobrinhos por causa dos ricaços que não lhes dão casinhas?- Tá certo minha, já te atendo... - responde a iconoclasta.- Ó filha -intervém a stôra - olha que não podes ser tão radical; a tua colega tem todo o direito de achar que és racista e fascista sem que te possas logo pôr a mostrar desprezo anti-democrático pela democrática opinião dela. Tem lá maneiras! Se eu pudesse pôr putos na rua ias já, revanchista de direita! Porca burguesa e fascista!

Enfim, pronto, estou a entusiasmar-me e a abusar um pouco da descrição, mas olhem que a ideia é mais ou menos esta e, quanto a mim, resulta disto tudo ser o caso para dizer que se a população mundial tivesse um ministério da educação como o de Portugal, então há muito que já se tinha conseguido extinguir o pernicioso hábito de pensar. Já o vejo, a esse admirável mundo novo em que os livritos de geologia ensinam aos meninos tudo o que há para saber sobre as indiscutíveis características gerais dos povos do planeta, firmes e inamovíveis como rochas... tudo enquanto tratam dessa vulcânica questão do racismo, a igualdade e o caneco.

Só mais dois exemplos.
A antologia de textos de apoio da disciplina de Português, também para o 10.º ano, inclui, entre autores de indiscutível mérito, escritos do Agualusa, da plagiadora Pinto Correia, de um jornalista de S. Tomé, eu sei lá, tudo muito "étnico", muito correcto, muito alegre e, sobretudo, muito estupidamente vácuo, inócuo, deprimente e nauseante. Na mesma disciplina, a stôra trouxe aos meninos, policopiado, um escrito infame de um iletrado senhor, de sua graça Mia Couto, que soi intitular-se (sempre esta palavra...) "carta ao presidente Bush". Não tenho estômago para reproduzir as alarvidades que dele constam.

Aí, se os portugueses fossem decididos e disciplinados (como os alemães), que campos de extermínio não haveria para esta gente.

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