14/11/05

Retrato tipo-passe, por Frederico Felino

Vi Lost in Translation de Sofia Coppolla, a conselho de alguns amigos e soube logo que estava em presença de uma peça de culto. É tudo perfeito, desde a escolha de um cenário – a megapólis Tóquio - onde os protagonistas se sentem estranhos e frágeis. Camus definia o absurdo como uma representação em que um actor representa no palco errado. É isso que se passa com Charlotte e Bill Murray, encurralados nas paredes de um hotel da gigantesca Tóquio. É neste cenário que subitamente se tece uma cumplicidade entre eles que se desenvolve durante todo o filme e que nunca chega a consumar-se. Como se a amizade, o amor ou que quer que seja que une as pessoas, fossem a única resposta, ainda assim, débil, ao absurdo.

Mas não é só Tóquio – perfeito palco errado… É também a música, a fotografia, a hipersensibilidade dos diálogos, dos pormenores dos gestos e, sobretudo, a presença dos dois protagonistas, dois castings perfeitos para aqueles papéis: Bill Murray, o comediante patético, aqui mais patético, muito mais, que comediante e Charlotte Joahnssonn, menina pequena, a anti-starlette por excelência. Charlotte é fantástica, tem um rosto camaleónico que se parece com todas as mulheres e um corpo pequenino meio desenquadrado dos padrões esbeltos da época. É uma actriz muito versátil que, ora parece banal, ora parece intemporal. É ela a actriz de Girl With Pearl, dedicado ao célebre quadro de Vermeer, é ela uma das actrizes principais de Ghost World, o filme realizado a partir da BD homónima.

Um dia destes, vagueava eu na net, quando deparei com a foto que ilustra este post. Fiquei parado a olhá-la nem eu sei bem porquê. Acho que é pela tal plasticidade do rosto de Scarlett, este ar de menina, mulher em potência, que pode ser qualquer mulher da vida de qualquer homem. Não sabia de quem era este rosto, mas fiquei ali parado, chamou-me mesmo a atenção…

Até que li no texto que o acompanhava que aquela era a Scarlett Joahnssonn – eu tinha visto Lost in Translation há muito tempo, mas o filme continuava a moer, a moer… Agora, subitamente, deparo-me com um rosto na net que me chama a atenção, e descubro que é da protagonista do meu último filme de culto. Percebi que há pessoas que nascem só para serem actrizes dos filmes que estão à sua espera. Ou o contrário: que há filmes que não são feitos enquanto não aparecerem determinadas pessoas. Sofia Coppolla não teve mais que reparar na miúda escarlate. Era tão óbvio!

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