20/11/05

'TÁ-SE BEM !, por Mad Prof

O Dias era um colega meu que se pode apressadamente caracterizar em duas palavras: trabalhador e pragmático. O seu espírito empreendedor, a sua iniciativa, o seu apego ao trabalho, levavam-no a desdobrar-se em iniciativas empresariais próprias que ora eram alvo de incompreensão, ora motivo de crítica. Eu dei-me bem com ele e admirava-lhe essa capacidade. Para o Dias, a escola perdera a noção prática. É demasiado teórica, ensina coisas que não motivam os miúdos, não os prepara para a vida. Defendia, no que eu o sustentava, um ensino técnico profissionalizante e criticava o ensino livresco e teórico aplicado em doses maciças e repetidas a crianças sem qualquer hipótese ou vontade de prosseguir estudos superiores. Revoltava-se contra o facilitismo, contra a indisciplina e contra a desvalorização da componente cognitiva nos programas escolares. Defendia ainda uma tese cínica que eu tenho dificuldade em subscrever inteiramente, não por discordância aberta mas por temer que tenha fundamento:

- Ó pá, - dizia o Dias - o Estado quer dar o 9º ano à malta. Não lhes quer abrir os olhos. Por isso é que isto está assim. Tu já viste se a malta abrisse os olhos e estudasse e aprendesse ? Então depois quem é que ia para as fábricas da Volkswagen ganhar 70 contos, oito horas por dia a carregar num botão ?- E acompanhava a questão com o movimento repetitivo do indicador, antes de concluir :

- Assim, analfabetos com canudo, aceitam fazer tudo por uma ninharia. Depois, quando a tendinite der cabo deles, vão para a rua e vêm outros.

Eu e o Dias tínhamos uma turma em comum. Eram o terror da escola. Indisciplinados, desafiadores, mal-criados e impossíveis de aturar ao fim da tarde. Ninguém que não tenha experimentado pode compreender estas palavras. Um dia, exausto após seis horas lectivas, desesperado com tanto burburinho e indiferença, dei um murro na mesa e obtive silêncio. Depois, questionei-os sobre aquele comportamento. Fiz-lhes notar que tinham que fazer alguma coisa pelo futuro senão, ameaçava apresentando em tons de negro o cenário do meu amigo Dias, «ainda acabam numa fábrica a ganhar 70 contos para estarem 8 horas por dia a mexer com o dedo para cima e para baixo !»

Mal tive tempo de saborear o efeito. Houve logo um que esticou o dedo e teve a palavra:

- Ó "setôr", 70 contos por mês para mexer o indicador 8 horas por dia ? A sério ?

- Sim. - confirmei.

- Bem bom !

Exasperei. Quando não há ambição, não há esforço. E o charco até não é mau. Nem bom sequer, quando o horizonte não vai além do charco.

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