29/12/05

As Camisas São Perigosas, por Orelhas

Ora bem, agora o Tapornumporco vem advertir que receber camisas pelo Natal é uma actividade de risco. Esperamos não ter chegado tarde. O facto é que uma camisa é um verdadeiro cavalo de Tróia, com a diferença de que em vez de gregos, saltam alfinetes, esses pequenos e insidiosos soldadinhos com ponta. Ninguém com dois olhos de testa percebe como é que um governo que proíbe os brindes do bolo rei, por via do risco de engolimento, permite o comércio de camisas presas por alfinetes. A verdade é que quando um cidadão, sem querer, recebe uma camisa, entra imediatamente numa assustadora espiral de terror e coloca seriamente a sua vida em risco. Por vezes morre-se mesmo de alfinete, com resultados fatais. É até sabido que essa é a primeira causa de morte por motivos desconhecidos em Portugal, embora tais casos não apareçam na imprensa, por motivos óbvios.

Nas salas de autópsia existe mesmo um contentor de 3X3, chamado contentor dos alfinetes de camisa, que é despejado todas as noites, em segredo, na chaminé mais alta da Siderurgia Nacional. Todos concerteza já tiveram a experiência que vou relatar, e os que sobreviveram podem aproveitar agora para dar o seu testemunho na caixa de comentários. Vocês pegam na mercadoria, certo? Retiram o celofane, e começam a tirar os alfinetes. Há sempre um ou outro que não conseguem arrancar com as unhas e então tentam tirá-lo com os dentes. Fatalmente, irão engolir pelo menos um. Este, por sua vez, se não ficar alojado na traqueia, irá provocar uma peritonite nos intestinos e, finalmente, a morte numa profunda agonia. Mas imaginemos agora que sobrevivem a esta fase e conseguem vestir a camisa. Ora, é sabido que ficará sempre um alfinete escondido algures no colarinho. E, claro, lá se espeta o alfinetinho na veia jugular, ou na aorta, ou nos pulmões, ou nos testículos, ou em todos esses lugares em simultâneo.

Finalmente, e na remota hipótese teórica de tudo o resto correr bem, onde colocar os alfinetes? Esta é a grande questão da geoestratégia doméstica nos tempos que correm. É um pouco semelhante à questão do armazenamento das ogivas nucleares dos mísseis balísticos. Onde guardar, enfim? Em casa, não acho sensato. Já todos acumulámos alfinetes mais do que suficientes para os gastos e está na altura de mudar de vida. Vejamos, num cálculo por baixo: cinco camisas por ano, dá cerca de cem alfinetes e cem alfinetes dá de sobra para os arranjos das bainhas das calças de uma vida inteira e para espetar todas as espécies conhecidas de borboletas e moscas nos albuns de entomografia, se for utilizada a técnica da espetada, mais ecológica. Chegados ao fim desse tal ano, devemos então começar a pensar onde arranjar espaço para mais alfinetes. Numa caixa grande? Não. Existe sempre o risco de o recipiente cair ao chão e se entornar, seguindo-se o enfiamento dos alfinetes na planta dos pés, provocando a gangrena e consequente amputação dos membros inferiores. Isto, se tiverem sorte e conseguirem estancar a gangrena ao nível das coxas, é claro. Lançar para o lixo, também acho mal, basicamente pelas mesmas razões. De forma que não sei.

Enfim, uma solução é convencer-vos a receber outras coisas pelo Natal. Se tiver que ser camisas, que venham pelo menos desembrulhadas. Troquem de camisa uns com os outros na noite de Natal, por exemplo. Pelo menos enquanto não for inventado uma sistema fácil de embrulhar camisas: um sistema hidráulico, sei lá eu, um sistema de gás hélio, um chip, um benzeodol, uma xunfa. As xunfas são particularmente eficazes nesta matéria, como é sabido, embora nunca tenham sido testadas, pelas razões que todos sabemos. E pronto, é assim a vida

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