19/12/05

E Eu Juntinho, Com Vontade De O Afagar, De Lhe Dar Beijinhos De Carinho Na Testa, De O Enrabar Docemente, por Automotora

ou,
A Multa, por Automotora
Querido Leitor,
Não fiques triste por mim, por causa desta coisa da multa. Eu acho que é bom ir acumulando experiências extra-sensoriais insólitas, tipo ficheiros secretos, sobretudo na variante Fenómenos de Cabanas de Viriato. Esta que me aconteceu não trocava por nada, ainda que se calhar me vá custar oito mocas das antigas. Passo a contar:

Ia eu sossegado, na estrada para Cabanas de Viriato, vejo acenar para mim o longo braço da lei manejado por um senhor guarda republicano. Encosto, já meio tremelicante, que um gajo há-de sempre temer a lei mesmo sem saber porquê, saio do carro e abro a carteira, seguindo as instruções. Vou tirando os documentos, e mostro o BI, a carta de condução, o registo de propriedade do veículo e não há meio de aparecer o raio do livrete, que eu sei que é da praxe mostrar também, embora não perceba porquê. Suponho que o Estado precisa de assegurar-se que os donos não alteram a cor original da viatura. Mas isto pensei eu depois. Logo ali disse assim: Ó senhor guarda, eu juro que tenho o livrete do carro, mas agora não o encontro. Veja lá no tablier homem! Boa ideia! Despejo então o compartimento, fico todo contente por encontrar papéis que já não via há anos, mas do livrete nada.

Não encontro, e agora? E agora vou-lhe passar uma guia para apresentar o documento no prazo de vinte e quatro horas. Pronto, está bem, que raio de azar o meu. Mas enquanto o guarda escreve, eu vou virando de novo a carteira e.. hélas, aqui está ele, o documento perdido! Encontrei, senhor guarda nacional republicano!

Mas qual quê... E agora?! - fuzila-me o agente - já comecei a escrever aqui e não posso inutilizar a guia! Ai a minha vida! (é o guarda a falar...) Eu dei-lhe tanto tempo! Mas já o encontrei, desespero eu! Bem vejo, mas o que é que você quer que eu faça agora? Ainda por cima com o que se diz por aí de nós .... mas vou pagar multa na mesma? pergunto. Pois, quarenta euros, e eu não posso fazer nada. Está a ver a situação em que me meteu? Fónix, sou um traste, penso eu, que direito tenho de angustiar assim uma pessoa, provocar-lhe úlceras, subir-lhe a tensão, o colesterol, eu sei lá.

Pronto, pronto, sô guarda, eu entendo... não fique assim, a culpa foi minha, devia ter os papéis mais arrumadinhos, mas o que se há-de fazer... Mas nada consolava o meu anjo da guarda. E ali ficou ele, debruçado sobre o capot do carro, uma mão a segurar a cabeça, e eu juntinho, com vontade de o afagar, de lhe dar beijinhos de carinho na testa, de o enrabar docemente.

De repente, o colega, que assistia a tudo e me olhava corporativamente enfurecido, tem uma ideia. E que ideia, senhores! Na guia de apresentação já estava: tem tantas horas para apresentar o documento a partir do dia tanto, assinado: tal e tal. Pois foi também lá escrito: apresentado no mesmo dia, e assinado: o mesmo. Viva a Guarda Nacional Republicana, Vivó! Tou safo? Qual quê! Isto só lhe vai poupar uma ida à gnr da sua residência para apresentar o documento. De receber uma notificação para pagar multa não se livra, diz ele com voz de quem vai ter um filho mesmo pelo coração. Mas é claro, onde tinha eu a cabeça? Eu recebi ordens para mostrar o cartão, certo? Mas não o apresentei logo; demorei o tempo suficiente para o senhor guarda registar a ocorrência. E ocorrência registada não pode ser apagada, lá diz o povo. Claro também. Infringi, prevariquei, pequei, ficou registado nas estrelas.

Mas eis que surge uma luzinha ao fundo do túnel: o guarda ainda iria falar com o chefe para saber se a coisa poderia ser anulada. Ficou com o meu número de telemóvel e que esperasse contacto, para saber o que me aconteceria. Ó sô guarda, você não se desgrace, homem! (estive para exclamar isto, mas tive medo de o arreliar ainda mais). E então eis-me aqui à espera e já esperei três dias. Das duas uma: ou o chefe está de férias, ou de facto não tenho perdão. E sendo esta última hipótese a mais provável, resta-me fazer um acto de contrição, tipo recitar dez vezes seguidas o código da estrada ajoelhado à frente do São Cristóvão, ou contestar, poupando quarenta euros mas enfurecendo a grande deusa Burocracis, que sai à mãe, a terrível deusa Shiva. Fónix, seja como for, agora digam-me uma coisa: vale ou não a pena passar por situações assim e pode relatá-las? O que é a nossa confraria senão um repositório de absurdos? E se tiver de pagar a multa, é ou não o dinheirinho mais bem empregue do que com ferreirinhas? Bom, preferir, preferir, preferia não pagar a multa...

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