24/12/05

Ecce Homo, por Coelho da Páscoa

Com a devida vénia, aqui fica o excelente texto de Niezsche, o passo mais célebre de A Gaia Ciência. Nesta quadra natalícia que sirva para pensar um pouco e fugir aos clichés.

«O INSENSATO – Não ouviste falar desse louco que acendia uma lanterna em pleno dia e se punha a correr pela praça pública a gritar sem parar: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ Mas, como havia ali muitos daqueles que não acreditavam em Deus, o seu grito provocou uma imensa gargalhada. Perdeu-se como uma criança?, disse um. Esconde-se? Tem medo de nós? Embarcou? Emigrou? Assim gritavam e riam confusamente. O louco saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. ‘Onde foi Deus? – gritou. – Vou dizer-vos. Nós matámo-lo... vocês e eu! Somos nós, todos nós, que somos os seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando separámos a cadeia que ligava esta terra ao sol? Onde vai ela, agora? Nós próprios, onde vamos? Para longe de todos os sóis? não caimos sem parar? Para a frente, para trás, de lado, de todos os lados? Ainda existe um em cima, um em baixo? Não seremos errantes, como que um nada infinito? Não sentimos o sopro vazio sobre o nosso rosto? Não faz mais frio? Não virão sempre noites, cada vez mais noites? Não é preciso acender lanternas desde manhã? Ainda não ouvimos nada do barulho que fazem os coveiros ao enterrar Deus? Ainda não sentimos nada da decomposição divina?... Os deuses também se decompõem! Deus está morto! Deus continua morto! E fomos nós que o matámos! Como nos consolaremos, nós, assassinos entre os assassinos! O que o mundo possui de mais sagrado e de mais poderoso até este dia sangrou sob a nossa faca;... quem nos limpará deste sangue? Que água nos poderia lavar? Que expiações, que jogo sagrado seremos obrigados a inventar? A grandeza deste acto é demasiado grande para nós! Não será preciso que nós próprios nos tornemos deuses para, simplesmente, termos o ar de ser dignos dela? Nunca houve acção mais grandiosa e, quaisquer que sejam, aqueles que vieram a nascer depois de nós pertencerão, por causa dela, a uma história mais alta que, até aqui, nunca foi história alguma!’ O insensato calou-se com estas palavras e olhou outra vez para os seus interlocutores: também eles se calavam, como ele, e olhavam-no com espanto. Por fim, atirou a sua lanterna ao chão, de maneira que ela se partiu em pedaços e se apagou. ‘Chego demasiado cedo’, disse então, ‘o meu tempo ainda não chegou. Esse acontecimento enorme ainda está a caminho, caminha, e ainda não chegou ao ouvido dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e para a tempestade, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as acções, mesmo quando são cumpridas, para serem vistas e ouvidas. Esta acção continua--lhes ainda a mais longínqua das constelações; e, no entanto, foram eles que a realizaram!’ Conta-se ainda que este louco entrou, no mesmo dia, em diversas igrejas e aí entoou o seu Requiem ‘Aeternam Deo’. Expulso e interrogado, ele não teria deixado de responder a mesma coisa: ‘O que são, pois, as igrejas senão os túmulos e os monumentos fúnebres de Deus?»

Sem comentários: