16/12/05

O Bem Amado, por Mangas

Morreu, na noite de quarta-feira, um cidadão em Biritiba-Mirim, cidade do interior do Brasil, a 80 km de São Paulo. Tinha 86 anos, foi Deus que o levou, paz à sua alma. Nada disto teria de extraordinário não fosse o Prefeito de Biritiba-Mirim ter proibido, no início deste mês, por projecto lei aprovado em votação na Câmara Municipal, os moradores da sua cidade de morrer. O projecto estabelece ainda que as pessoas deverão cuidar da saúde para não bater a bota, sob pena de multa ou condenação. Pelo que percebi, as razões prendem-se com o facto de o cemitério local estar a abarrotar pelas costuras e já não haver palmo de terra para enterrar nem mais um, num município que ronda os 28 mil.

Após ouvir esta notícia na TSF, vem-me de imediato à memória a telenovela O Bem Amado. Corria o ano de 1982 e esta foi a única novela a passar nas televisões portuguesas que me fez sentar, religiosamente e pontualmente a seguir ao telejornal, no cadeirão da sala para assistir a mais um episódio. Um argumento tão simples quanto genial, escrito por Dias Gomes: o Prefeito de uma cidade no interior da Bahia, Sucupira, anseia desesperadamente que alguém morra para inaugurar a sua obra mais grandiosa – o cemitério local. Mas ninguém morre. Nem com a chegada do cangaceiro Zeca Diabo. Nas voltas do destino e dos episódios finais, acaba por ser o próprio Prefeito a inaugurar o cemitério!

Um galeria de personagens fabulosos, interpretados por alguns que foram a nata dos actores brasileiros. O grande Paulo Gracindo era Odorico Paraguaçu, o Prefeito, o político corrupto, ditador, demagogo, chantagista, adúltero, tez morena, cabelo empastado com brilhantina, engatatão e charmoso como uma cascavel que entre os trejeitos-maneirismos de uma certa classe política com reminiscências dos poderosos coronéis latifundiários, e um licor de jenipapo do seu próprio “manufacturamento”, chegou a andar a comer as três irmãs Cajazeira ao mesmo tempo sem que nenhuma o suspeitasse. Depois, meteu o pobre do Dirceu Borboleta ao barulho quando uma delas, Dulcineia, engravidou – depressa lhes arranjou o casamento e o gago Dirceu mordeu o isco sem suspeitar que a dulce sementeira já tinha sido enxertada.

Lima Duarte no papel de Zeca Diabo, afamado de impiedoso na arte da matança e do cangaço, e cujo maior sonho era ser odontologista para arrancar dentes, iguais aos seus, arrancados por ordem sua e substituídos por réplicas de ouro; o Dr. Leão, um médico da cidade a contas com um passado tenebroso que se ostracizara naquela litoral baiano e que era a único a não temer a lei de senhorial de Odorico, e por quem se viria a apaixonar a própria filha de Odorico, num desafio declarado à autoridade do pai – ironia das ironias; a voz incómoda do jornalista independente Neco Pedreira; Nezinho do jegue, (o jegue era um burro velho que podia ser tão perigoso sóbrio quanto o Nezinho bêbado); o Cabo, uma espécie de força policial fardada sob o comando de Odorico, cão de fila que ladrava para onde o dono lhe atirava o osso. E à volta disto se passaram dezenas e dezenas de episódios e deliciosas peripécias do quotidiano Sucupirano - as irmãs pudicas que suspiravam pela calada do terço como beatas militantes, o político que não governava, o cangaceiro que não disparava, o morto que não morria, o Prefeito que desesperava, e a banda que esperava pela inauguração que não inaugurava.

Para mim, O Bem Amado, foi a última telenovela brasileira que valeu mesmo a pena. Antes desta, O Casarão, O Astro e claro, a Gabriela.

Entretanto, a Câmara Municipal de Biritiba-Mirim, já deve ter já deve ter decidido que pena a aplicar ao falecido.

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