23/12/05

O Bonifácio, por Sigue-Sigue Sputnick

Esta semana a minha escola foi surpreendida com um comovente Conto de Natal enviado por uma Eminência Directora de uma Direcção Regional de Educação. O texto, impublicável num blog terrorista como o Tapornumporco, rezava mais ou menois assim:

O Conto, explicava Sua Alteza num preâmbulo, terá sido dirigido, em tempos, a um sobrinho e aplicar-se-á actualmente na perfeição às escolas deste país mai-la crise que elas vivem. Era uma vez um menino chamado Bonifácio (que raio de nome, parece um dos bichos do Miguel Torga) que passava todos os santos dias de pijama, espojado no sofá, a ver tv e a jogar video-games enquanto ia emborcando baldes de pipocas. O Bonifácio era um daqueles meninos que já tinha tudo, os pais davam-lhe as colecções todas do Fifa 2000 com todas as actualizações disponíveis ao preço do ouro, portanto, como ia a dizer, o Bonifácio tinha tudo (aqui Sua Realeza disserta sobre o materialismo da sociedade consumista, como está bem de ver), mas não era feliz! Era uma criança muito, mas muito triste e os pais preocupados não sabiam que mais vídeo-games lhe haviam de comprar. «Porque é que o nosso Bonifácio é tão infeliz? Damos-lhe tudo o que se pode oferecer a uma criança. Não lhe chega?» – perguntavam os confusos e infelizes pais do Bonifácio (aqui Sua Directoria volta a fazer literatura e poesia da boa, sobre o dinheiro que não traz felicidade e como são infelizes os meninos ricos e isso)…

Mas a vida do Bonifácio mudou quando, por altura do Natal, recebeu um presente singelo: um cavalinho de pau, feito com todo o carinho e ternura pela avózinha do menino. O Bonifácio, que devia ser parvo, ficou logo todo contente mal viu o brinquedo. Mal resistiu: «montou o cavalinho de pau» e ficou muito feliz! Nem video-games, nem tv, nem baldes de pipocas, nem sofás – afinal, haja um cavalinho de pau, e os Bonifácios do nosso mundo, tadinhos, ficam felizes da vida. Depois Sua Inteligência disserta longamente sobre a verdadeira alegria, a das coisas singelas e lembra que a verdadeira felicidade não está na abundância nem no consumismo, mas na simplicidade e na modéstia das coisas simples.

Por que é que as escolas da região de Sua Esperteza tiveram que gramar com uma coisa destas, semi-natalícia, semi-cabalística? Que estará ele a querer dizer à «comunidade educativa» com a humilde parábola do Bonifácio? Que estamos gordos e anafados? Que a riqueza que abunda nas nossas escolas (?) não nos trará a felicidade? Que devíamos substituir os aquecedores a óleo pela velha braseira, os computadores pelos quadros de ardósia, os teclados pelo giz (do tamanho do dedo mindinho, de preferência)? Irá Sua Excelência de carroça ou de cavalinho de pau para a sua Direcção Regional? Ouvirá velhos discos de 78 rotações na vitrola oferecida, um dia, pela mesma avozinha que nas horas vagas faz cavalinhos de pau para o neto? E com que direito é que nos vem dar moral? Sua Realeza confunde os planos – a sua superioridade hierárquica é meramente administrativa, não ética. Não temos que lhe ouvir lições de moral – essas deram-mas os meus paizinhos e um amigo ou outro quando ando mais baralhado. Um qualquer Director, tenham dó... Não tem tal direito, a sua competência não chega a tanto.

Sinceramente, eu já dei para este peditório. Os livros da escola primária dos anos 60 estavam cheios de historietas destas, mas melhor escritas – historietas com a invariável moral da história dos pobretes e alegretes. Havia sempre uma família de pobrezinhos muito felizes em contraste com os ricos infelizes e depois os pobres tornavam-se ricos e bulhavam todos e queriam ser pobres outra vez e devolviam o dinheiro aos ricos e voltavam ser felizes e pobrezinhos, coitadinhos... Sua Ruralidade escreve em 2005 mas o que diz é de 1950 – a história do Bonifácio é fascistóide, reaccionária, pobrezinha, ideologicamente retrógrada. É um insulto à auto-estima, ao desejo de evoluir e de querer ser melhor. A moral é atávica e santacombadense...

Deixo-vos com a sugestão de uma música: Uma Casa Portuguesa, um verdadeiro ícone de uma época. Os seus versos sempre dizem melhor e com mais piada o mesmo que Sua Pequenez. E a música, cantada pela imortal Amália, ao menos, era boa:

É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa! No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existéncia singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

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