12/12/05

O Ódio, por Mangas

O Ódio é bom! Promove a auto-estima, tem efeito ricochete, anula-te essa passividade de cordeirinho catalogado, fortalece-te o ego e remete para um plano secundário alguns dos teus problemas mais sérios.

Existem dois tipos de ódios: o ódio cego - circunstancial, condicionado por legítimas alterações do teu humor ou pela manifesta incapacidade de poderes rachar de alto a baixo, com um sabre samurai, o tal gajo que te fode a cabeça por uma razão ou por outra que só tu conheces e ninguém tem o direito de questionar; e o ódio amordaçado - o silent killer, muito mais perigoso e nutritivo porque é como um cão enjaulado que deve ser libertado de tempos a tempos para alimentar os caninos aguçados e a fome predadora. (Atenção, nunca confundir o Ódio com ódios de estimação – ódios não se estimam, odeiam-se visceralmente!) De uma forma ou de outra, o Ódio toma formas e adquire em sentido lato a compensação possível nos recantos mais obscuros de mentes demenciais como a minha ou a tua. Sim, porque sobre a sanidade colectiva, estamos conversados.

Odiar é como amar: entranhasse-nos no corpo e na alma como uma devoção fraternal, e dali não sai nunca, é eterno, dura para sempre. Se a chama se extingue, não é amor, é paixão; então também não é ódio, é raiva. Elevados índices stress, a dor da perda, seja ela de um braço ou de um amigo querido, podem ser atenuados pelo ódio facilitando o lidar com a situação através dos mecanismos de copying. Em casos extremos de sofrimento ou luto patológico, o Ódio pode ajudar a eliminar etapas entre as quatro do processo – choque, negação, raiva e aceitação. Porque o Ódio é real, seja ele humanizado ou abstracto, é terreno seguro, é ponto cardeal que nos indica a nossa posição no mapa das geografias humanas; no fundo, é um sentir que não deixa dúvidas, no qual podemos sempre confiar e serve também como arma de defesa pessoal.

Considerando de forma aleatória e estritamente individual as causas que o estão na génese dos teus ódios, estas podem conduzir-te a desejos e formas processuais de vingança ou retaliação que vais moendo lá por dentro. Mas atenção: é precisamente neste universo tão íntimo e pessoal, quanto proibitivo a amadores, que reside a verdadeira beleza da Ódio - jamais se esgota enquanto não for esvaziado. Se não tens tomates para concretizar essas motivações, pela passagem do plano ficcional ao momentum real, e inesperadamente sentes que um imenso vazio se apoderou de ti onde já não cabe o Ódio - como uma falsa esperança de paz, solidariedade, aceitação e respeito para com o teu semelhante e as suas divergências comportamentais ou ideológicas que te atormentavam até essa altura - então esquece: o Ódio não é para ti! E nesta situação, o que tens a fazer, é ofereceres-te como voluntário e ires para a porta do Lidl nos três últimos sábados de manhã que antecedem o Natal, com sacos plásticos para encher do Banco Alimentar contra a Fome. Porém, se já foste contaminado por ele e sentes que a machadada que deste na besta odiosa te consolou o espírito, mas ameaça esvaziar por completo toda a energia desse Ódio, ou mesmo amputar irremediavelmente as propriedades terapêuticas do rancor silencioso que lhe é inerente, não percas mais tempo e procura novos ódios como se disso dependesse a tua alma condenada. O perigo mais ameaçador é a passividade ter-te roubado o Ódio e ter-te dado a conhecer o desprezo, a indiferença. A noção terrível de não mais seres capaz de sentir nem o rancor, nem a fúria indignada perante o que te aflige a alma. Ódio é um direito teu, nunca o esqueças.

Receia quem nunca odiou. Foge deles como se disso dependesse a tua integridade emocional. Ou são óptimos samaritanos para apanhar porrada, ou são como vinho branco ao almoço para engatar uma gaja. O sangue é vermelho porque o vinho tinto também é vermelho. Não há sangue branco ou verde e meios-termos também nunca se aplicam ao Ódio que nasce do sangue à temperatura ideal. A vingança serve-se fria, mas o ódio cozinha-se a quente. O Ódio é nocturno, sombrio, e a luz é inimiga do tinto tal como lábios de mulher são anémicos ao meio-dia. Acredita, almoçar com ela e pedir branco, para esse fim, não é engate garantido: é erro estratégico. Deveria ter sido um jantar, deveria ter sido tinto. E uvas brancas são boas para comer à sobremesa, já que o Ódio não faz concessões e vai direito ao prato principal.

E não me venhas com essas tretas sobre definições do Ódio, porquê o Ódio, porque não o amor, e a tolerância é a salvação e outras filosofias baratas em época natalícia! Ou sabes do que falo, porque sentes, ou sentiste alguma vez na tua vida, ou não sabes, e nesse caso não procures discutir o que desconheces. E se achas que nada disto faz algum sentido ou tem coerência, deixa-me dizer-te que se também tu fizesses algum sentido tinhas passado os últimos cinco minutos a ler Shakespeare ou os Sermões do Padre António Vieira.

Sem comentários: