14/12/05

O Jantar, por Automotora

Um destes dias fui jantar a casa de um casal amigo, amigo mesmo, íntimo, daqueles com que se joga ao verdade ou consequência. Antes de me sentar à mesa, que compartilharia com outros casais de mais cerimónia, passei pelo quarto de banho para dar uma mijinha e lavar as mãos, por esta ordem. Limpo e aliviado, já sentado, preparava-me para servir o vinho, quando uma das gémeas do casal faz uma importante revelação: ó tómané, esqueceste-te de puxar o autoclismo!

Ainda há poucos anos andei com este anjo ao colo, ofereci-lhe cadernos de pintar e barbies de imitação. Amorosa, com os seus papás e mamãs balbuciados, antes de o seu vocabulário se ter ampliado vertiginosamente. Aproveito para revelar que gosto de filmes de terror e dentro destes um dos meus géneros preferidos são os filmes de crianças assassinas com cara de querubins. Bem, Deus é um Pai brincalhão e volta e meia, mesmo que não precisemos, torna realidade as nossas fantasias. O sacana, como devia estar aborrecido nesse dia, ofereceu-me, durante os três segundos de silêncio ensurdecedor que se seguiram àquela denúncia, uma experiência inesquecível dentro do meu modelo cinéfilo. Concerteza muito mais divertido do que levar-me à Disneylândia para dar a mão ao superpateta.

Os pais, coitados, por fim lá conseguiram reagir: ó ritinha, então isso diz-se... e eu ali à espera de qualquer coisa, com os neurónios gelados, desejando que caísse o candelabro do tecto. Curiosamente, ou talvez não, tive pena daqueles pobres pais. Pior do que ser apanhado numa falta destas é ter de arranjar argumentos para desculpar as faltas dos convidados. As hipóteses de reacção daqueles pais seriam as seguintes: ó ritinha, o tómané não fez nada que mereça essa descompostura. Errado: seria estragar oito anos de esmerada e persistente educação infantil; horas gastas a ensinar as crianças a puxar o autoclismo. Outra hipótese: ó ritinha, olha que é falta de educação corrigir os outros à frente das outras pessoas. Errado: não é suposto um convidado ter feito alguma coisa que mereça correcção. A solução mais razoável, enfim, a única possível, é a que foi adoptada: ó ritinha, francamente..., seguido de um repetido abanar de cabeça e um olhar mais assustado do que zangado, do tipo seria melhor que alguém mudasse de assunto rapidamente.

Bom, salvei eu a situação, com uma fuga para a frente a toda a velocidade: tens toda a razão ritinha, não devia ter feito o que fiz, desculpa. Eloí, Eloí, lamá sabachthani? E lá fomos nós ao ensopado de borrego. Que foi elogiadíssimo o resto da noite.

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