06/12/05

O Medo, por Beaujolais

Conheci uma mulher que não conseguia pegar em facas, muitos anos depois de ter sido excisada segundo as tradições e as regras da sua tribo. As facas davam-lhe pânico, só de olhar. Foi terrível – muitos anos, era ela ainda criança – terem-lhe tirado um pouco do seu corpo (com a “justificação” de que esse detalhe de carne roubado era o segredo da sua dignidade restituída...). Mais terrível ainda, porventura, foi o que deixaram para o resto da vida: uma dor que se prolonga muito para além do momento em que é sentida, para doer por invocação, como um demónio que se acende e queima com a sua brasa por simples contacto visual...

Penso nesta mulher e volto a questionar-me – um luxo de quem está de fora – o que é o medo. Tenho do medo uma ideia física, material, localizada. O medo pode ser um objecto que codifica um sofrimento – acontecido ou por acontecer. É, em qualquer caso, ele próprio um corpo exterior ao nosso corpo. (Nem que seja por rejeição: não sei a química nem a biologia do suor, mas as suas gotas são, perante a ameaça, uma forma de expulsar algo que nos agarra a pele por dentro, como se a angústia pudesse amarrotar a sua própria alma... É assim que os cães conhecem sempre o nosso medo dos cães, quando ele existe, e é por isso que podemos racionalizar o medo, mas nunca disfarçá-lo. Porque, quando ele nos domina, o medo tem cheiro.)

O cães: tenho fobia deles. (Além desta, só tenho outra tão forte: polícias.) E o que são estes cães que existem antes mesmo de atravessar o meu caminho? O cão não é o dente ferrado na minha canela. Poso correr dele. O cão é o uivo e um uivo encontra-nos em qualquer sítio onde o nosso silêncio tenha aberto uma ferida. Os cães instalam-se, ruidosamente, nas cicatrizes do nosso silêncio, quando o silêncio foi ferido alguma vez. Não ladram; uivam. Estranha voz do medo, o uivo; talvez esteja nos homens desde o princípio do mundo, ou pelo menos do mundo humano, que é aquele que podemos lembrar como nosso. Isto é, o mundo desde que as palavras nos separaram das bestas, depois de ficarmos sozinhos com as bestas. Quem nos abandonou a elas – ao uivo? Se foi Deus, ou se fomos nós, não sei. (Uma questão por resolver.) Mas o medo original é estar nu à mercê das bestas, do uivo, da noite vasta. Se foi Deus que nos abandonou, então foi ele que nos criou; e faz sentido, então, que o nosso medo, a nossa solidão da espécie (terão medo os animais? Ou apenas instinto?), seja tão forte e tão fecundo que seja capaz de... criar Deus. Precisamos dele contra a primeira noite, que dura sempre e sempre nos olha do seu escuro. Deus assusta os uivos – o Demónio em nós, o seu grito, a sua voz que nos arrepia, porque agora é uivo, depois é choro, depois é riso...

Que tranquilidade: nunca teríamos inventado o fogo se não tivéssemos, antes, inventado o medo.
O medo acende-se. O medo apaga-se. Acende. Apaga. Acende. Apaga. Acende...

Na estrada de Bendu Malem, na remota província de Pujehun, Serra Leoa, os pirilampos vinham ter comigo, connosco, batendo-nos no peito enquanto nós, em pé na carroçaria de uma “pick-up”, avançávamos para eles, com o nosso silêncio, com a nossa noite. Há muita noite, a qualquer hora, na estrada de Bendun Malen: valas comuns, uma atrás da outra, à esquerda, à direita, centenas, milhares de mortos da guerra civil, corpos deixados naqueles pântanos, sem luto, nem repouso. (O repouso é uma avaliação feita por nós: num espelho em que nos vemos uivando com os olhos fechados, com os olhos dos mortos. Dizemos “o repouso dos mortos” e queremos, na verdade, dizer “o repouso de nós”.) A guerra foi terrível em Pujehun, especialmente em aldeias perdidas como Bendun Malen, onde os rebeldes entraram, uma manhã, e mataram toda – toda – a população. Mil e duzentos homens, mulheres e crianças, de manhã à noite. Não sobrou ninguém. Num só dia. Apenas houve, digamos, um sobrevivente: o pequeno Morie. Tinha cinco ou seis anos quando atacaram Bendun Malen. Os rebeldes encontraram-no, no meio da matança, escondido numa cabana. Decidiram poupá-lo. Nomearam-no “chefe da aldeia” e obrigaram-no a procurar o seu pai no apocalipse dos mortos (pessoas em escombros misturadas com os animais, o gado, as galinhas – na Serra Leoa, os rebeldes seguiram a sua doutrina de “No Living Thing...”). Morie lá encontrou o corpo do pai: degolado e de barriga aberta. No fim da jornada, os rebeldes foram-se embora e deixaram-no sozinho com o seu pesadelo. Durante dois dias, Morie vagueou e chorou pela devastação do seu mundo, até caminhar para fora da aldeia e ser encontrado por outro grupo de combatentes.

O padre John Garrick, da missão católica de Pujehun, levou-me até Morie. Experiência insuportável: como falar ao horror? As minhas palavras não são suficientes para comunicar com uma violência tão grande. O medo é uma faca e eu não quero pegar-lhe pela lâmina. Retiro a minha mão, mas os meus dedos já foram cortados...
No alto da “pick-up”, entre outros rapazes como Morie, com histórias terríveis, escuto o vento e o uivo de Bendun Malen. Os pirilampos atingem-nos e dissolvem-se contra nós: acendendo, apagando. Acendendo, apagando. Acendendo, apagando, acendendo... Morrendo.
E fazemos a estrada dos mortos, e da dor que nos assusta, aos poucos, para fora dos pântanos, da noite, dos demónios que lambem a estreita picada porque não há fogo que os assuste...

Bali, 13 de Julho de 2004

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