05/12/05

O Medo, por Mangas

Caía a segunda noite de batalha sobre o Buçaco, quando chegou a notícia que o general Simon tinha sido gravemente ferido pela infantaria inglesa e feito prisioneiro no alto de Alcoba. Edmond, o seu criado de quarto, lia Deuterónimo.

No começo, foi o desespero que tomou conta de si quando pensou no general a sucumbir sem que pudesse, ao menos, lavar-lhe as feridas. A angústia e depois o medo, vieram logo a seguir. Vinte e cinco anos de campanhas! As planícies esperavam aquele silêncio, talvez os canhões se calassem também, mas não era certo. Em breve, a aurora viria estrangular a lembrança do general ausente e com ela o cheiro familiar da geada sobre as sebes rasteiras. A revista às tropas teria de esperar. Um batalhão deixado órfão tinha sido um bom negócio para os malditos ingleses, porém o inimigo ainda não tinha vencido e às aldeias lá em baixo, nunca chegará a terrível notícia, pensou o criado.

Edmond tomou uma decisão: desceu a pequena encosta de eucaliptos e juntou-se às linhas da retaguarda francesa. Um desfile mortuário de soldados esgotados que acabavam de ser rendidos na frente. Os rostos cobertos de sangue e terra, cicatrizes profundas, tendões expostos sobre os dorsos retalhados - rostos e ossos que a caruma ensanguentada amortecia. O terror bailava nos olhos daqueles homens dobrados sobre o medo rastejante nas trincheiras improvisadas. Mais à frente, no flanco virado para oeste, o inferno da infantaria inglesa em vagas sucessivas de descargas à queima-roupa que apenas se silenciavam quando a morte, corpo-a-corpo, bailava cega na ponta das baionetas. Nunca Edmond estivera tão perto da carnificina de uma batalha. Visões de susto recebiam-no asperamente na fornalha em que se transformara o bosque. Voltar para trás e sobreviver foi a último pensamento racional que tentou, mas prosseguir até junto do seu general era uma dívida irrevogável. Encontrá-lo era a mais bela direcção e ao mesmo tempo a mais amarga amplitude a superar com vida.

Edmond era um homem de convicções e fé, mas a Bíblia não lhe ensinara como sobreviver a tiros de fuzil. Lembrou-se de Deuterónimo. «Quando saíres para guerrear contra os teus inimigos, se vires cavalos e carros e um povo mais numeroso do que tu, não fiques com medo, pois contigo está Iahweh teu Deus, que te fez subir da terra do Egipto». Contudo, nem uma palavra sobre os bosques de loureiros completamente devastados, nem sobre as mulheres que ainda naquela noite iriam parir órfãos, nem como se consegue encontrar água ou se faz crescer o trigo com uma baioneta enterrada no ventre. Procurava esclarecer no seu intimo as razões para não fugir e domesticar o medo quando começou a descida sobre os corpos retalhados. O silvo das balas sobre a cabeça. A seu lado, um camarada ajoelhado deixava pender a cabeça para o solo. Um fio de sangue descia-lhe das têmporas, contornava o queixo e amontoava-se na terra húmida. Edmond cheirou a pólvora. Ordens de comando. Vozes de capitão em combate são gritos furiosos! O pavor caminhava a seu lado, Edmond sentiu a garganta seca e abraçou-o. Poderia dizer-lhe que o receava, mas não podia. Doía-lhe engolir, mas deveria habituar-se às trevas daquela luz, aos gemidos dos moribundos, ao odor a sangue e ao desfalecimento irreparável dos corpos desfeitos em pedaços nos quais tropeçava. E continuar a avançar. As pernas obedeciam-lhe por arrastamento, impunha-lhes a sua vontade e elas tremiam, mas não fraquejavam. Deitou-se contra o chão para tomar fôlego antes de iniciar a subida. Alguém garroteava a perna a um soldado francês antes de a amputar. Estava presa ao corpo por alguns tendões e uns farrapos de pele, o rosto molhado em lágrimas, um esgar de dor confundido com o choro. Gritava pela mãe que o esperava, talvez na Bretanha dourada dos campos lavrados em Maio, lá longe onde as suas súplicas seriam atendidas e iludidas sob a mansidão do sol e a luz das pastagens.

Edmond rastejou. As feições dos que jaziam ao seu lado eram silenciosas. O sangue dos covardes era igual ao dos que investiam, mas a coragem tinha o hábil defeito de saber hesitar e, para onde quer que fosse, para onde quer que olhasse no campo de batalha, a escuridão desfigurada chamava-o. Lambia-lhe as mãos trémulas e húmidas, enroscava-se como uma serpente às pernas que iam perdendo o chão. Instintivamente, apenas o coração acelerado reagia tentando atravessar aquela teia que fantasmas apodrecidos arrastavam pela caruma ensanguentada.

Edmond levantou-se. Transpôs resoluto a linha invisível entre si e o incerto: encontrar o general! Sentiu os primeiros silvos de balas bem perto da cabeça. Apercebe-se que lhe eram dirigidas. Foi movido por um terror acelerado que o impediu de parar ou voltar para trás. Gesticulou. Tentou fazer-se perceber. Fazer os ingleses entenderem ao que ia. Gritou-lhes: Mon General! Mon General!, mas em vão. Avançou completamente exposto, arqueando os movimentos do corpo para se desviar do fogo inimigo e quando a primeira bala lhe atingiu o peito, Edmond sentiu um breve colapso respiratório. Um calor profundo queimou-lhe a carne como se fosse a ponta em brasa de um cigarro. Deu mais alguns passos. Sentiu as pernas hesitarem. Levantou ainda os braços antes da segunda bala traçar uma fenda mais profunda entre a axila e o pescoço. A luz débil pelos tornozelos. Rastejou alguns metros. Nesse momento apercebeu-se do silêncio. Um silêncio vazio de um lado e de outro que não lhe desagradava. Apenas o som abafado de alguns ramos que se desprendiam das árvores. O sossego amordaçado das armas e a mágoa de não ter chegado junto do seu general. Depois, veio-lhe a noite. E o medo morreu com ele.

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