10/12/05

O Moraes, por Alfarroba

Tenho cá em casa uma preciosidade, não sei se coisa rara, é capaz de ser um tesouro de alfarrábio e eu ignorante: os dois tomos do Diccionário da Língua Portuguesa, composto por António de Moraes Silva, natural do Rio de Janeiro, quarta edição na Impressão Regia, Lisboa. Anno 1831.

O primeiro Tomo consta de 815 páginas grossas e amarelas, um verdadeiro calhamaço de capas castanhas, rijas e debruadas na lombada. Ainda tem esta sublime indicação: «Vende-se na Loja Borel Borel e Companhia na rua direita das Portas de santa Catarina, na esquina da Travessa de Estêvão Galhardo, aos Martyres, nº 14. Delicioso na era da Internet em que tudo está ao alcance de dois clics no rato.

Ainda me lembro de como estes dois tomos me vieram parar às mãos: encontrei-os perdidos entre resmas de papel sem interesse num velho solar familiar onde estavam condenados a desaparecer entre a humidade do Inverno e os ataques dos ratos. Soprei-lhes o pó, e achei piada às folhas amarelas que tinham colecções de palavras que já haviam desaparecido e de expressões a que já perdêramos o rasto. Achei que era quase uma obrigação cívica salvar estes dois tomos do Diccionário Moraes com quase 200 anos de idade. Trouxe-os, pois, cá para casa e arrumei-os em cima de um móvel com livros. Mas de vez em quando ainda consulto este museu de palavras. Raramente nos últimos tempos.

Até que o post do Beaujolais, publicado aqui mais em baixo, me fez voltar à leitura dos tomos do Moraes: pensamos tantas vezes nas palavras que vão nascendo, nos anglicismos da era dos computadores, como Net, download, back up, drive e tantas outras e esquecemo-nos das que foram morrendo. Às vezes é interessante ver como se transformaram as palavras que agora usamos, parecem seres vivos que nascem e crescem e talvez nem todas morram e é por isso que eu volto, de vez em quando, à consulta do Moraes.

Há palavras deliciosas que, infelizmente se perderam. Por exemplo «abeberar» que significa «dar de beber, matar a sede, levar a beber». Mas, diz o Moraes, «o vulgo ignorante da língua dis aboborar; estou aboborando: metido, abaffado na cama, como a sopa se abebéra ao calor do borralho, ou rescaldo». Evolução semântica e fónica curiosa, esta do abeberar que evolui para aboborar.

E é engraçado o que escreve Moraes sobre a palavra Deboche: do francez débauche; intemperança na gula, e na torpeza, e sensualidade, devassidão; e não se limitando ao registo semântico do termo, acrescenta judiciosamente o nosso Moraes, «querem alguns introduzir este termo sem necessidade: temos devassidão da mesma origem, e pagode, que correspondem às ideyas do termo francez.» Esta velha discussão acerca da introdução de estrangeirismos nas línguas nativas ainda hoje nos é familiar. Mas, pelos vistos, não vale a pena a resistência à mistura linguística: quando um termo tem força ele sobrevive e morre o mais fraco. Como se vê neste exemplo: hoje usamos muito mais a palavra deboche (um francesismo, pelos vistos) que as nativas devassidão ou pagode. Bem podia protestar o purista Moraes em 1830…

Sem comentários: