31/03/05

XXX, por Van Gago

Nunca mais vou esquecer a música céltica que um descomunal tocador de gaita de foles entoava no meio da neblina escura e húmida que envolve a cidade. Estou no Norte, pensei…
O que mais me chamou a atenção em Amesterdão foi a alma da cidade: pode-se gostar ou detestar Amesterdão, mas tem que se lhe reconhecer alma, identidade... Porque é que numa região povoada de cidades mais ou menos assépticas envoltas num clima mais ou menos lúgubre, Amesterdão pulsa de vida e está cheia de turistas jovens e menos jovens que por ali circulam sem descanso durante 24 horas por dia?

Numa resposta mais imediata podem dizer-me que é por causa dos coffee shops e da prostituição, mas isso é ver apenas a superfície. Amesterdão é um lugar central e sabe atrair gente porque… tem alma. Simples! É uma cidade com uma personalidade própria – o viajante sente-o mal desembarca em Central Station. É a célebre open mind que caracteriza este povo que atrai tanta gente. Três exemplos que simbolizam o que quero dizer:

Visito a Oude Kerk, uma igreja protestante cujo nome significa em inglês old (oude) church (kerk). Do outro lado da rua co-existem pacificamente uma sex shop e um coffe shop, curiosamente, chamado Old Church. Esta mistura entre o sagrado e o profano, entre a devoção e o pecado, poderá ser vista em mais algum outro lugar do mundo ocidental?

Na Niewe Kerk, uma outra igreja situada na praça da Dam, pasmo quando entro, ao sentir o ataque dos aromas intensos a especiarias e perfumes orientais. Verifico que tem lugar no interior desta igreja uma enorme mostra de cultura magrebina, de Marrocos principalmente. Há uma exposição de trajes, há especiarias, livros, artesanato e, ao fundo, um grupo de muçulmanos está deitado numas almofadas enormes e vai passando entre si um cachimbo de água! Seria isto possível na Europa Católica dos brandos costumes ou na América inimiga do Islão?

Leio num folheto local que um partido conservador procurou acabar com a famosa tolerância de Amesterdão relativamente à prostituição e ao consumo de cannabis. A polícia local não terá colaborado e o rigor pretendido não pode ser aplicado. Olho para o outro lado da rua e vejo um polícia de brinco na orelha. Está então tudo explicado…

Todos sabem que Amesterdão é famosa por causa dos coffees shops e do Red Light District. O Red Light é relativamente discreto, se o compararmos com outros sítios do género, como o boulevard Saint Denis em Paris, por exemplo. Nas montras as «trabalhadoras sexuais» exibem os seus produtos embrulhados em lingeries multicolores. Uma colmeia de abelhas esfaimadas circula por ali, falando as línguas mais variadas («nada de especial. Mas bom preço», ouço algures em português…). O efeito Red Light vale mais pelas extensões que se generalizaram em forma de sex shops a outro pontos da cidade do que por si próprio. E por ter inspirado Sting na composição de Roxanne, pérola do repertório dos velhos The Police.

Já os coffee hops são omnipresentes. Para quem não sabe, os coffees shops são sítios escuros onde se servem «combinados» de cannabis. O cliente pode optar entre as variedades negra e branca do hash. Os entendidos aconselham, porém, algum cuidado no consumo do witt, uma mistura local explosiva. Também servem vitaminas e alguns não permitem álcool. Nenhum permite a entrada de crianças. Gera-se, pois, uma situação engraçada: como os coffees shops estão, praticamente, por todo o lado – os raríssimos cafés que não vendem hash têm que avisar em letreiros garrafais NO COFFEEE SHOP. NO DRUGS – é extremamente difícil arranjar um café que permita crianças, pelo menos em certas zonas da cidade. E, portanto, a cidade da tolerância tolera drogas, mas parece não tolerar crianças. É uma contradição interessante…

Amesterdão não é só droga e sexo, mas às vezes parece. Compreendo que nos anos 60 este sítio se tenha tornado a S. Francisco Europeia. De resto as referências sixties são constantes. Chet Baker veio morrer aqui de overdose num pequeno hotel perto de Central Station que marca a efeméride com uma placa de homenagem. Na Leidseplein há um bar com o logótipo enorme dos Rolling Stones mesmo no centro e, logo ao lado, um outro chamado Leidsezeppellin… Nos restaurantes ouve-se blues e rock dos anos 60 e 70. Berlim, por exemplo, é muito mais uma cidade marcada pelo techno e pelos anos 90. Amesterdão foi uma bomba cultural nos anos 60/70 – agora parece tudo um pouco ultrapassado, anacrónico, talvez. O efeito explosivo perdeu-se, o hashish era a droga intelectual dos anos sessenta, mas foi ultrapassado pelas drogas frenéticas do fim de século. Os frequentadores de coffee shop não são intelectuais fascinados com a busca do nirvana. Mais parecem zombies com ar idiota… Isto e a cor amarelada das sex shops carcomidas pelo tempo dão à cidade um ar decadente, apesar dos turistas que circulam por todo o lado. Amesterdão não é só droga e sexo mas, realmente, às vezes parece. A sua omnipresença é exagerada e incontornável. A alma holandesa, a open mind que dá a Amesterdão a sua identidade mais característica, acaba por ficar, assim, algo abafada por este exagero. É fácil cair-se na tentação de reduzir a cidade a uma Babilónia de sexo, drogas e r`n`r, não vendo o que de mais profundo está por detrás disto. O efeito é perverso, de facto.

Amesterdão tem muito mais para ver e curtir que putas e coffee shops. Assim o vento gélido que vem do mar do norte o permita, assim a chuva abrande um pouco e o nevoeiro permanente fique um pouco menos cerrado, há muito que fazer. Passeios de barco ao longo dos canais, mercados de tulipas e bolbos, cafés elegantes (com o «expresso» a 2 euros, fónix!), a feira da ladra de Waterlooplein, a arquitectura do norte da Europa, as igrejas protestantes, museus (cerca de 600, três deles de renome mundial, o Museu Van Gogh, o Rijjkmuseum, com a sua colecção imperial de Vermeers e Rembrandts e o Stedelijk dedicado à arte moderna), restaurantes indonésios e pequenos postos de venda de sushi, a praça da Dam e beautiful people por todo o lado – as holandesas são um povo bonito! -, há muito por onde escolher. Não sei se voltarei um dia a Amesterdão. Mas saí de lá com a convicção reforçada de que o mundo é muito grande e muito diverso e que, mesmo nos sítios que não são a nossa casa - «nossa», dos homens do sul - há sempre coisas que nos fazem descobrir um pouco mais acerca de nós próprios.

29/03/05

Sangue, Sémen e Enxofre, por SumoSacerdote

Um dia destes - tinha eu acabado de fazer este Post – ia a caminho do Ranhoso, remoendo em tramas bíblicas. Eis se não quando me salta ao caminho uma senhora bem posta, que se destaca de um grupo idoso e bem vestido, e que de imediato me interpela de Bíblia em riste:
“- Deixe-me ler-lhe um pouco da Palavra do Senhor…”
"- Ora nem mais, minha Senhora, abra aí no Génesis-38-1, se faz favor – disse eu parando e apontando a Bíblia – e leia-me o episódio do Onan, O Masturbador e da Tamar, A Prostituta…
A matrona nem me deixou terminar, caiu-lhe o queixal, afixou um olhar de enojada e fugiu a correr como se tivesse visto o anti-cristo envolto em enxofre.

A velha enxofrou-se, mas não fui que a enxofrei. A coisa tá na Bíblia e ela só teve o galo de me apanhar com a dita fresquinha. E pelos vistos, também ela já tinha ouvido falar do Onan, - não confundir com Conan, até porque o homem não ia por aí. O Onan é uma personagem bíblica que deu origem ao termo Onanista. Não sei se foi daqui que Salvador dali tirou O Grande Masturbador, mas o Onan é tido como tal. E o seu nome e o pecado do onanismo, ficaram para todo o sempre associados a uma ideia de tabu, de crime e trangressão que pouco ou nada têm a ver com o que vem na Bíblia. Era isto que eu queria dizer à velha e reflectir com ela sobre isto. Não quis, ficou ela a perder. Adiante.

Em prejuízo do coitado do Onan e da nobre actividade de caiar tectos antigos, a Igreja aproveitou o episódio, para condenar às chamas do inferno gerações inteiras de onanistas, que com ameaças de chamas ou não, jamais desistirão, porque a coisa arde e só se apaga com fogo de vista.

Contudo, o pecado do Onan não foi andar naquilo ou só naquilo, nem Deus o ameaçou de que lhe atava as mãos atrás das costas. O único pecado que o Onan fez, foi não violar a cunhada. Se o Onan tivesse saltado prá cueca à cunhada – como Deus queria que ele fizesse - hoje não haveria onanistas, mas sim outra coisa qualquer. Onan apenas incumpriu a Lei do Levirato que obrigava o irmão do falecido a casar com a cunhada viúva, no caso a viúva Tamar. O episódio bíblico não reprova a masturbação, mas sim a violação da Lei do Levirato.

Ora, o Onan que era onanista, mas não era parvo, recusou-se a ir por ali. E sempre que Deus lhe exigia o cumprimento do débito conjugal, o Onan que já era contra essas coisas dos bancos de esperma, fertilizações forçadas e coiso e tal, zás, preferia caiar os tectos e mandar a semente às urtigas. Deus não lhe perdoou e chamou-lhe Onanista. E limpou-lhe o sebo. Daí que ainda hoje se diga que aos rapazinhos que isso mata – também dizem que faz cegueira, mas essa não vem na Bíblia e não sei de onde vem – e Deus de facto, matou o Onan. Tamal!

Tamar, a cunhada do Onan, ficou viúva porque o Senhor resolveu matar o marido Er, que tinha desagradado ao Senhor. A Bíblia não diz qual foi o desagrado, mas isso não interessa para aqui até porque por ali, o Senhor matava amiúde. E vai daí:
“Então Judá disse a Onan: “Casa com a mulher do teu irmão, pois é essa a tua obrigação como cunhado, para dares descendência ao teu irmão.” Mas Onan compreendeu que essa descendência não seria a sua e, quando se aproximava da mulher do seu irmão, derramava no chão o sémen, a fim de não dar descendência ao seu irmão. A sua conduta desagradou ao Senhor, que também lhe deu a morte.”

Em abono do Onan, diga-se além do mais, como adiante se verá, que a cunhada, Tamar, não era boa rês. É que no episódio seguinte, não tendo conseguido sacar os espermatozóides do cunhado – o que já leva a imaginar o mastronço que ela não seria - a Tamar resolve sacá-los ao sogro, o putanheiro Judá, numa sequência que hoje em dia daria uns anitos de prisão.

Reza assim a coisa: “Então tirou as vestes de viúva, cobriu-se com um véu e sentou-se à entrada de Enaim, no caminho Timna (…). Ao vê-la, Judá tomou-a por uma prostituta, porque tinha a cara coberta com um véu. Aproximou-se dela e disse-lhe: “Deixa-me ir contigo”. Pois ignorava que ela fosse a sua nora. Ela respondeu: “O que me darás para vires comigo?”. Judá respondeu: “Mandar-te-ei um cabrito do meu rebanho”. Tamar replicou: “Está bem (…)”. Judá uniu-se a ela, e Tamar concebeu um filho. Depois, levantando-se, partiu e tirou o véu da cabeça, voltando a vestir as roupas de viúva.”

Temos assim que o acto solitário que alivia e não chateia ninguém é punido com a Morte. Já a puta incestuosa da cunhada e o putanheiro fodilhão do sogro são recompensados com um filho e um neto, mais cabrito, menos cabrito. Onan deve ser dos gajos do Inferno mais injustiçados da Criação.

Agora pensem nas vossas cunhadas e imaginem uma voz vinda dos céus a vociferar:
“ - Rapaz, tens que ir por ali!”.
É o vais…, Antes a Morte, que tal Sorte.
Quem nunca fugiu do mastronço da cunhada que atire a primeira pedra.

28/03/05

Quem já ouviu falar de Tenzing Norgay?, por Sardanápalo

O cume do Everest foi alcançado pela primeira vez em 1953, por Edmund Hillary um neozelandês integrado na expedição britânica de John Hunt. Isto, dizem os almanaques, enciclopédias e demais livros de records e referencias jornalísticas a montanhas e outras alpinices. E na memória colectiva ocidental é este o nome que perdura. É aliás o único nome que perdura como referência da conquista do Everest.

E Tenzing Norgay, quem é? Este é em geral um nome estranho e desconhecido. Mas não devia ser. Se o Ocidente conhece o Edmundo devia conhecer o Norgay. A mim só me deu curiosidade para tal coisa quando há tempos vi no cinema um filme americano de divórcios e advogados com o George Clooney, em que lá pelo meio o artista de serviço – advogado de divórcios – manda um serviçal descobrir quem era o Tenzing Norgay da beldade que os enfrentava na barra do tribunal. O serviçal ficou de cara à banda como eu e o verdadeiro artista explicou que o Tenzing foi o sherpa que ajudou o Edmund Hillary a alcançar o cume do Everest. Isto é, queria ele dizer, não há Hillary sem o Tenzing.

Esta simples referência despertou-me a curiosidade e fui ver. E a coisa é pior, muito pior. O esquecimento ou intencional apagamento da figura do Tenzing é um crime autêntico. É que o Tenzing não foi “ajudante” coisa nenhuma.

Segundo reza a história contada pelo Edmund Hillary e pelo Tenzing Norgay, ambos combinaram antes de alcançarem o cume de que nenhum dos dois jamais revelaria qual deles pôs a patoila em primeiro no cume do Everesto. A escalada foi conjunta, a glória devia ser conjunta. E cumpriram. Ambos morreram sem jamais revelarem qual deles pisou os 8000 metros, mais coisa menos coisa. O Ocidente glorificou o Edmund e esqueceu o Tenzing. Quando se lhe refere é como o “ajudante”. Tá mal e o tapor aqui repõe a verdade: O cume do Everest foi alcançado pela primeira vez em 1953, pela dupla de alpinistas Edmund Hillary e Tenzing Norgay! A ordem dos nomes é alfabética.

23/03/05

Pelo Amor de Deus, Arranjem-me o Index!, por SarçArdente

Há dias vi uma notícia estranha nos jornais. Segundo uma nota de rodapé, o Cardeal italiano Tarcisio Bertone tinha colocado o livro de Dan Brown “O Código Da Vinci” no Index, mais dizendo ainda que os católicos o não deveriam ler e que as livrarias católicas o deveriam retirar de venda. Que diabo, pensei eu, mas o Index ainda existe? Os Tapores experts da história profunda, que me corrijam mas segundo me lembrava o Index era o Rol de livros Proibidos criado pela Inquisição para identificar os livros e os autores inimigos da fé, e cuja escrevinhação ou mera posse dava direito a um encontro imediato com uma fogueira tamanho família. Com o fim da Inquisição e a abertura da Igreja, pensava eu, que a coisa à história pertencia e estava arrumada nas prateleiras poeirentas do tempo.

Afinal parece que não. A Igreja mantém o Index actualizado. Haverá portanto uma Relação, continuamente alimentada de livros que nós não podemos nem devemos meter as olheiras sob pena de descaminho, desvario ou coisa pior, excomunhão, seja lá o que isso for.

Ora essa Listinha é uma coisa preciosa. O fruto proibido é o mais apetecido e eu como fanático da leitura aqui deixo a minha angústia. Será que não há ninguém por aí que tenha o Index ou acesso a ele. Tudo o que de lá constar terá que ser devorado por estes olhos que terra há-de comer, mas nunca antes de os ler.

21/03/05

A Honra dos Padrinhos - Ascensão e Queda de Michael Corleone, por Mangas

Michael Corleone acabou sozinho numa cadeira de baloiço, com uma manta sobre as pernas, entregue ao abandono de uma Sicília impiedosa. O pai, o primeiro Padrinho, morreu à sombra dos tomateiros enquanto brincava com o neto, numa das mais memoráveis sequências do cinema contemporâneo. A morte veio por ele sem sofrimento nem angústia. Esse espontâneo e definitivo momento de alegria é o que perdurará, depois de tudo o resto. É o Rosebud póstumo de Don Vito Corleone. Michael não teve direito a requiem, morreu rodeado de montanhas áridas, ao sol e com os ossos gelados. Também árido era o deserto de Las Vegas de onde um dia tirou um irmão mais velho para muitos anos mais tarde o matar. Nestas coisas, as construções da natureza, têm memória. As dos homens, como a Máfia, também.

Essa Sicília assassina onde o azeite fruto da terra e verde como os dólares fora o começo de tudo, não se fez barata e cobrou-se com sangue, ficou-lhe com a vida, mas já antes lhe tinha roubado outras que lhe pertenciam, a da primeira mulher e a da filha. Talvez por isso Michael tivesse regressado às origens férteis onde nasceu o pai. Para morrer perto da morte.

Michael morreu várias vezes então e, no processo, transformou-se num monstro impiedoso e brutal capaz de destruir, directa ou indirectamente, quem quer que lhe fizesse oposição ou ameaçasse a família corporativa – fosse ele uma esposa, um parceiro de negócios ou um irmão. Se a história nos ensinou alguma coisa, é que podemos matar qualquer um, disse-o certa vez a Tom Hagen. Don Vito morreu apenas uma vez, à sombra de uma horta, com um esguicho de água aos pés, a correr atrás do neto que era o filho de Michael. Apenas uma vez porque se salvou das outras duas. Na primeira sobreviveu às balas a mando de Don Barzini, na segunda enquanto convalescia na cama do hospital. O plano fora descoberto por... Michael.

O simbolismo deliberado das laranjas também jogou sempre a favor do velho Don. A primeira vez que vemos o jovem Vito a ser agraciado por um favor que fizera a alguém, é enquanto escolhe laranjas na rua para levar para os filhos e a mulher. O vendedor não lhe quer dinheiro e mete-as num saco de papel como oferenda. Na tarde em que foi quase mortalmente atingido, deteve-se a comprar laranjas antes de entrar no carro conduzido por Fredo, e são os frutos que primeiro atingem a terra, depois das balas. Ao Michael nunca o vi trincar uma maçã sequer, talvez por isso também tenha sido castigado.

Para Michael a família e a Família são apenas uma. Não há distinções morais ou diferenças de tratamento. As leis são as mesmas, as regras convergem, os castigos aplicados de forma inapelável. Nada de complacências. Para Don Vito, a família está antes da Família. A unidade é primeiro mantida internamente dentro de casa e a procura constante de união do sangue começa, se calhar, quando em miúdo viu os pais serem abatidas como coelhos por D. Cicio. Vito conseguiu sempre manter o núcleo familiar indivisível. Um homem que não passe tempo com a sua família, nunca será um homem verdadeiro, dirá mais tarde a Johnny Fontane, alter-ego de Frank Sinatra.

Michael nunca chegou aos calcanhares do pai como gangster honrado nem como pai, marido ou irmão. Por várias razões. Primeiro porque nunca teve um Sonny ao seu lado: o irmão primogénito morreu pela espada porque tinha uma personalidade irascível, não hesitava em distribuir porrada sem piedade quando necessário, mas apesar de ser um putanheiro incorrigível, estava sempre presente quando era necessário, impunha-se nas ruas com a mesma facilidade com que se fazia obedecer no lar. Esse lugar tenente, Michael só o teve em Tom Hagen, o filho adoptivo e fiel Consiglieri até final. Hagen talvez fosse o cérebro, mas faltou o músculo de Sonny, a sua capacidade de acção e resolução imediata para evitar males maiores. A grande questão é saber se não tem sido assassinado, teria sido Sonny o natural sucessor do pai? Coppola metralhou-o porque quer contar a história de Michael? Ou teria Don Vito legado o poder ao filho mais novo? Sim, porque Fredo é patologicamente uma carta fora do baralho.

A segunda das razões que podem explicar a vida e os actos de Michael Corleone prende-se com o facto de os tempos serem outros. Em 1908 quando Don Vito se casa, é o ano em que a Ford Motor Company produz o primeiro modelo Ford T e os irmãos Wright fazem a demonstração do seu aeroplano para o governo americano; Anthony, o filho mais velho de Michael, faz a sua estreia no canto em 79, ano em que são feitos reféns os americanos na embaixada em Teerão, Tatcher é a primeira mulher a ser eleita Primeiro Ministro em Inglaterra e a Rússia invade o Afeganistão. O negócio com o Vaticano vem a seguir e no sucessor emergente corre o sangue de Sonny Santino. A ascensão e queda dos Corleone atravessa um século de história e uma enormidade de transformações sociais, culturais, políticas e de mentalidades. Michael aprendeu hostilidade com o mundo e consegui sempre manter-se na linha da frente da Mafia modernizada que, à sua conta, encomendou um número generoso de coroas fúnebres para distribuir pelos seus filhos e enteados.

A terceira, e talvez, mais importante razão é que Michael era geneticamente frio, calculista, cerebral e desprovido de compaixão. O senso e algum pudor sempre estiveram na base das decisões de Don Vito enquanto Padrinho. Nunca vender ou comprar drogas, nunca trair nenhuma das outras Famílias, tomar sempre conta da nossa! Michael foi sempre um solitário e mais ainda quando a solidão física e moral se apoderou dele – o remorso viria depois e até ao fim. Ter-se alistado no exército, contra a vontade do pai que o podia ter safo, quando nada tinha a ver com os negócios da família, é a primeira decisão individualista de um homem íntegro, ainda. Michael regressaria como herói de guerra para posteriormente ser sugado inexoravelmente para os negócios da família quando o pai é abatido. Um clima de suspeição, vingança e chorudos lucros com o novo negócio das drogas rapidamente monopolizaram as operações por si chefiadas dando espaço a uma rápida perda de códigos de honra e a uma emergente espiral de violência. Michael é a besta negra que detém o poder e o usa sem contemplações morais - abandonou Kay sem explicações e no exílio forçado decidiu casar com Apollonia sem nunca com ela ter trocado uma palavra sequer; regressou viúvo e arrastou Kay para uma relação de mentira, encobrimento e fachada; abraçou os lucros chorudos do mercado de drogas; fez de cada rival um inimigo, depois achou por bem acautelar o futuro com as suas execuções; cometeu perjúrio na Comissão; renunciou ao pecado e executou a Avé Maria do irmão Fredo aos peixes, mentiu aos filhos, tentou comprar a absolvição do Vaticano, branquear os crimes e legitimizar os negócios, escapou das balas que lhe eram destinadas e limparam a filha, e acabou aconchegado à mais familiar presença do seu reinado - a solidão.

Naquela noite em que procurou visitar o pai no hospital e se apercebeu da tramóia para acabar com ele, acontece um pormenor, pequeno mas essencial, que o fez constatar a ele sobre a dimensão das suas reais capacidades, e a nós sobre a sua verdadeira vocação. Enquanto esperava com Enzo, nas escadas do hospital, simulando dois pistoleiros em guarda, um carro parou em frente com os carrascos de Don Vito que vinham acabar o trabalho. Michael pediu a Enzo que metesse a mão no bolso do casaco, como se estivesse a acariciar uma seis tiros. Enzo, o padeiro, assim fez, Michael também, os gorilas no interior do carro engoliram a encenação, convenceram-se do potencial risco e afastaram-se. Enzo sacou de um maço de cigarros amarrotado pelos nervos e tentou acender um cigarro com um Zippo, mas tremia como varas verdes e, após várias tentativas, não conseguiu sequer fazer chama. Então, Michael agarrou no isqueiro, acendeu-o à primeira, como se nada tivesse acontecido, os dedos não lhe tremiam, o rosto impávido e tranquilo, olhou as mãos que seguravam o isqueiro e atirou-lhe um olhar que demorou três segundos, os bastantes para perceber quem era dentro de si e como estava predestinado para aquilo. Quando os olhos de réptil enroscado regressaram daquela breve viagem ao entendimento da sua alma, já vinham resignados porque sabiam que não lhes seria possível escapar a um destino traçado.

The Godfather é uma cronologia glorificada do crime organizado na sociedade americana e a mais fascinante história de homens. De trono e sucessão, poder e intriga. Michael Corleone foi quem a escreveu e lhe carregou a cruz. Tombou, apenas, pela força imensa e brutal desse poder que sempre dominou.



Referências:
The Godfather I, II e III de Francis Ford Coppola
The World Almanac and Book of Facts

20/03/05

Por uma crioulização da Europa, por Tó Preto

Foi a melhor notícia que eu ouvi nos últimos meses. No passado dia 16, na Sociedade de Geografia de Lisboa, Adriano Moreira sugeriu a integração da República de Cabo Verde na União Europeia. Logo depois, Mário Soares manifestou a sua concordância. Começo por notar um primeiro pormenor que não me parece casual: um antigo ministro do Ultramar de Salazar em 1961 e o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros logo após a revolução de 74, convergem neste ponto. É bom sinal. Para além de ser uma espécie de expiação de culpa, mesmo que os dois homens não transportem responsabilidades pessoais, acabam por representar as duas principais causas da desgraça africana, pelo menos no que respeita às antigas colónias portuguesas, a saber: a obstinação salazarista e a inconsciência revolucionária. Eu não sou nacionalista, acho até que o espaço estratégico em que Portugal se deve inserir é a Europa e deve até promover uma estratégia de cooperação ibérica com vista a transformar o pilar hispânico num eixo primordial da política europeia. Mas acho também que a independência de nada valeu aos povos africanos. E os factos são estes: a geração que agora anda pelos 30 anos de idade, foi a primeira geração de portugueses, nos últimos seis séculos, que nasceu e cresceu num país limitado às suas dimensões continentais. E, apesar das crises económicas, das queixas permanentes e dos muitos e variados problemas, esta é a geração de portugueses, na nossa história quase milenar, que vive mais e melhor, com mais conforto, mais comodamente, em paz e liberdade, com mais qualidade, saúde, educação, e tudo o mais que queiram arrolar. Sob todos os índices e considerando qualquer ângulo, pode-se dizer que nunca os portugueses viveram tão bem como agora! Quanto aos cidadãos das antigas colónias, e lamentavelmente, só se pode dizer o contrário. De Timor à Guiné, de Moçambique a Angola, de Goa a Cabinda, vive-se pior, com menos liberdade, morre-se mais, há tortura, violações sistemáticas dos direitos humanos, atraso económico, há fome, doença, opressão, tirania, etc. E por isso, sem complexos, podemos dizer que a a independência das colónias beneficiou mais a antiga metrópole do que os povos libertados!
Porém, a missão histórica de Portugal não se esgota nesta constatação. Há Estados que nasceram para engordar. Olham a história como uma vaca olha a manjedoura e o futuro é para eles uma massa de proteínas. Constroem o futuro tal como um felino contempla a presa. É o caso da Suíça, da Bélgica, Dinamarca e outras nações deste género. E depois há povos que contribuem para o progresso da civilização. De entre estes, não há nenhum, com a dimensão que nós temos, que tenha contribuido de maneira tão decisiva e marcado tão profundamente a nossa civilização comum. Só encontro paralelo na antiga Fenícia. O nosso destino não é engordar. Não pode ser. Os problemas do nosso quotidiano político não podem ser coisas como discutir traçados de auto-estradas, ou a localização de mais uma ponte sobre o Tejo, ou a organização de um Europeu de Futebol. Não! A situação no continente africano é dramática demais para que nos possamos fechar nestas questões. Há doença, fome, guerra, tirania e a Europa pensa fechar as portas e constituir-se numa cidadela de velhos ricos e barrigudos? Não! Portugal, e os restantes países que contribuiram para a construção da ideia de Europa e civilização ocidental (a saber, Itália, Grécia, França e Espanha e vá lá, a Inglaterra e a Alemanha um bocadito) são a única esperança do continente africano. A Alemanha quer que a Europa se alargue a leste por questões de mercado. A pujança alemã exige o alargamento a leste. Como um pançudo que necessita de umas calças XXL para poder continuar a emborcar cerveja. A Inglaterra não está, nem nunca estará, interessada na universalização da estratégia europeia se não for para reganhar um domínio que, na sua mente delirante, ainda acha possível. A França, arrenega a sua identidade humanista e alia-se à Alemanha, discute a integração da Turquia e a questão da laicidade do Estado. Adriano Moreira lançou, com duas palavras, um novo rumo estratégico para a Europa: Cabo Verde. Naturalmente, uma ponte para África. Cabo Verde é muito mais Europa do que a Turquia. Cabo Verde foi durante 500 anos, política e administrativamente, uma região europeia. Culturalmente, do ponto de vista linguístico e religioso, Cabo Verde é uma Nação Europeia. O Direito que vigora em Cabo Verde é de matriz europeia. os valores morais e culturais também. A adesão de Cabo Verde abriria uma via para a criação de uma identidade europeia que superasse, definitivamente, a ideia de uma identidade fundada na raça. A mestiçagem caboverdiana contribuiria então para uma das mais importantes aquisições civilizacionais: a negritude e mestiçagem da Europa. Abriria novos horizontes estratégicos, abertos para o Atlântico, seria uma ponte para a cooperação euroafricana e latinoamericana. Cabo Verde pode ser, justamente, a capital futura de um espaço euro-afro-americano. Eu sonho com um mundo mestiço e acho que o embrião está em Cabo Verde. É preciso que germine.

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17/03/05

"Good Luck, Mr. Gorsky.", por Pig-In-Space

A 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong desceu da nave e poisou a patoila no satélite aluado. Inspirado, ou se calhar bem estudado, o homem proferiu então a celebérrima e grandiloquente frase: “Um Pequeno Pulo para o Homem e um Salto Gigante para a Humanidade.” Houston percebeu, aplaudiu e retransmitiu para todo o mundo, em directo e ao vivo.

Depois de ter andado a passear por aquele mar da tranquilidade e no momento em regressava à nave, Neil Armstrong proferiu então uma outra frase aos microfones, que Houston registou: "Good Luck, Mr. Gorsky."

Houston registou, mas não percebeu e o resto dos terráqueos também não. Logo que regressou, o colosso astronáutico foi sucessivamente interrogado sobre o sentido daquela frase enigmática que ninguém tinha percebido. Armstrong escusou-se com um “é uma questão pessoal”, o que em vez de aliviar, adensou o mistério.

Ao longo de dezenas de anos de conferências, entrevistas e curiosidades avulsas, nunca o gigante revelou o sentido do estranho "Good Luck, Mr. Gorsky." Contudo já na década de 90, numa entrevista na Florida perante o enésimo jornalista que lhe fazia o enésimo pedido de esclarecimento sobre o "Good Luck, Mr. Gorsky.", Armstrong descoseu-se e revelou o mistério.

Segundo referiu, um dia, em puto e quando jogava baseball, teve que saltar a cerca do vizinho Mr Gorsky para lá ir buscar uma bola. Ao passar perto da janela do quarto de Mr Borsky, ouviu a vizinha escandalizada vociferar para o marido:
- “Oral Sex!!, You want oral sex?! You'll get oral sex when the kid next door walks on the moon!"

Perceberam? Acho que não é preciso traduzir. Ajoelhou? Vai ter que rezar!
"Good Luck, Mr. Gorsky."

16/03/05

Conselhos para o bom governo da Nação recuperados do baú maoísta, por Mau Zé Tunga

Tenho à minha frente os dois volumezinhos do Livro Vermelho do Camarada Mao Tse Tung, edição das Publicações "O Operário Vermelho", de 1975. É conveniente lembrar que alguma da nossa nata política se formou com este manualzinho. Há quem diga que o que se aprende na juventude nos marca decisivamente e nunca mais se esquece. Não foi assim há tanto, foi há exactamente 30 anos. A malta de então, que agora anda pelos 50 anos, já andava na universidade e agora anda por aí. Eis o que o camarada Mao sugeria para vibrar o golpe político aos senhores da terra, medidas graduais conforme a gravidade da situação (vol. 1, pp. - 40 - 46):
1. «Controle das contas»: Mao acha que os grandes senhores se «locupletam» frequentemente com os dinheiros públicos. Sugere a criação de comités locais de controle financeiro.
2. «Penas pecuniárias»: O controle das contas leva à descoberta de «desvios de fundos» e «sabotagens», «violações à proibição do jogo das cartas» ou recusa em entregar os «cachimbos de ópio». Como castigo, os comités locais devem aplicar multas que vão desde dezenas aos milhares de yan.
3. «Contribuições em dinheiro»: O método é de uma simplicidade brilhante e consiste em obrigar os «senhores das terras», «gananciosos e cruéis» a contribuirem para o «socorro dos pobres».
4. «Interrogatórios menores»: Quando os comités de camponenses são ofendidos e a ofensa não é considerada grave, o comité dirige-se a casa do ofensor e «fazem um interrogatório não muito cerrado» (sic), até que o homem redija uma confissão onde «se compromete a pôr termo às palavras ou actos difamatórios»
5. «Manifestações»: «Grandes multidões concentram-se para manifestar contra determinado déspota local.» «Os manifestantes irrompem pela casa adentro, abatem-lhe os porcos e tomam-lhe o arroz»
6. «Desfile pelas aldeias com grandes carapuços de papel»: Enfia-se um carapuço de papel na cabeça do «déspota local» com inscrições identificativas. Prende-se o homem por uma corda e arrasta-se pelo meio multidão, tocando gongos e agitando estandartes para atrair as pessoas.
7. «Encarceramento nas prisões distritais»: Mandam-se os déspotas para a cadeia distrital «onde aguardam que o chefe de distrito competente os julgue e condene»
8. «Proscrições»: Mao diz que não é grande método, os camponeses não gostam, preferem prender ou executar os «déspotas locais». Normalmente, os déspotas fogem quando presos, o que é muito desagradável e vai dar ao mesmo que a proscrição. A proscrição tem a vantagem de tornar a vida impossível ao proscrito para onde quer que vá.
9. «Execuções»: A medida está limitada aos mais importantes déspotas mas é de grande «eficácia para extirpar as sobrevivências feudais». Mao recomenda que se execute um déspota em cada distrito como «única via eficaz para eliminar a reacção» e acha que não se pode impedir os camponeses de executar déspotas pois que antigamente eram os déspotas que executavam camponenses e por isso é que são déspotas.

Alguém sabe por onde anda esta gente? Ainda há maoistas? Onde estão?

15/03/05

Guy de Maupassant, O Brutal, por AlquimistaDaDor

Cheguei ao Guy de Maupassant por um referência simples num ensaio do Harold Bloom. Dizia ele que se tratava simplesmente de um dos melhores contistas de sempre. Como jamais tinha visto livros da criatura editados em Portugal e conservava uma imagem remota de um francês formal e de formol, na altura nem liguei à coisa. Logo em seguida, na Feira da Ladra cá do burgo, tropecei num calhamaço de 1963, que reunia os melhores contos de Maupassant. E foi fascinação pura. Maupassant é de facto um dos melhores contistas em que já meti as olheiras.

Guy, é magnífico e terrível. Assustador mesmo. Os seus contos são do mais variado que se possa imaginar. Vão do absolutamente imoral, ao mais fanático moralismo com passagens frequentes pela mais abjecta amoralidade. Cada conto é uma surpresa e tanto se pode tropeçar na mais admirável das descrições da Córsega – física e humana – como na dentadura de Schopenhaur, numa cabeleira fetish, sanhas assassinas, incríveis love storys, com passagens por bordeis, casernas, cemitérios, conventos, palácios e tascas mal afamadas. Maupassant tanto fez contos de gente má, como só nos contos pode haver, como fez contos de gente boa como só na vida acontece, que contado ninguém acredita.

Percebe-se na escrita de Maupassant uma raiva surda ao clero, um desprezo profundo pela burguesia e um asco visceral aos militares. Pelo meio transparece a visão romântica de putas e bordeis, campo, camponeses, animais e bestas, o que não impede que, meia volta uns e outros, sejam sujeitos às piores desgraças e tragédias de faca e alguidar. Há sempre um realismo cruel, uma obscenidade latente, e sobretudo um suspense terrível. Quando se entra num conto é impossível parar de ler.

Maupassant viveu de 1850 a 1893, e a sua vida reflecte-se por inteiro na força dos seus contos: herdou da mãe a sífilis hereditária, começa por ser educado por um padre entrando depois para um Seminário de onde tenta fugir e acaba por ser expulso, torna-se amigo de Flaubert – amizade que durará toda a vida – e na guerra franco-prussiana participa nos combates, fazendo depois alguma carreira militar de secretaria em Paris, onde se esmera na boémia de copos, artistas e bordeis. Da secretária militar passa para o Ministério da Instrução Pública onde o apanha um infame processo judicial por “ultrage à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. O seu crime foi a publicação do poema “Une Fille”. Flaubert acode-lhe e safa-o. As putas de Paris acrescentam-lhe a sífilis contraída para somar à hereditária da mãe. Enriquece com a escrita e viaja que se farta. Contudo, a Sífilis nunca o largou. As dores, insónias e visões levam-no às drogas duras e ao mais cruel dos realismos na sua obra. O irmão acaba por o internar num manicómio, de onde sai e volta para o colete de forças. Por fim tenta suicidar-se cortando a garganta, morrendo pouco depois e de novo no manicómio.

Nalguns contos cruéis e amorais sobre animais, quase que temos a certeza que “Os Bichos” do Torga foram beber naquela fonte. Mas para lá da bicharada é no reino da mais velha profissão do mundo que o Maupassant é sublime. “A Casa Tellier”, “Madame Fifi” ou o inultrapassável “Bola de Sebo”, são disso excelentes exemplos.

Termino esta apresentação com “O Amigo Patiente” – um dos seus contos menores - em que um funcionário da capital encontra numa cidade de província um compincha de liceu. Na exibição do luxo e do palácio do amigo, o funcionário começa a estranhar o tipo de luxo e a passagem de várias belezas esvoaçantes. Começa a desconfiar daquilo tudo e da origem da fortuna do amigo, mas não havia necessidade, o amigo é honesto e directo: “- E dizer que comecei com quase nada…a minha mulher e a minha cunhada.”

13/03/05

Problema Jurídico: Casos Reais, por Advogado do Diabo

Esta passou-se mesmo na cidade Alentejana de Évora: um indivíduo estaciona o carro num parque da cidade. Sai da viatura e retira-lhe a matrícula que leva consigo. A polícia é alertada por alguém para o facto de, num parque da cidade, permanecer estacionado um carro sem matrícula. Reparando na coincidência de ser 10 de Março, portanto, véspera do primeiro aniversário do atentado terrorista de 11 de Março, a zelosa polícia de Évora decide interromper o trânsito e faz explodir a viatura sem matrícula. O cidadão aparece mais tarde de matrícula na mão («pá, tirei-a porque estava suja e fui lavá-la», diz ele…) e depara-se com o carro destruído.
Pergunta o Porco: deve a polícia indemnizar o cidadão, pagando-lhe um carro novo? Ou é o cidadão que deve pagar os explosivos e restantes danos, eventualmente causados a terceiros? Quid Juris?



Ainda há Tinocos!, por Inspector Martelada

Parece que querem construir um condomínio de luxo na antiga sede da PIDE, em Lisboa. Sinal dos tempos. Há quem se insurja e, como estratégia de insurreição, convidam um insígne da Paróquia, chamam uns amigos da imprensa e alardeiam as memórias da luta antifascista. Desta vez, foi a Drª Maria José Morgado. A senhora acedeu ao convite e, em frente ao edifício em ruínas, por entre protestos contra os interesses imobiliários que ali se querem instalar, não hesitou em lembrar as suas memórias mais íntimas quando, entre os fins de 73 e os inícios de 74 foi presa e esbofeteada pelo agente Tinoco da Polícia Política. Barbaramente. Todos admiramos reconhecidos o esforço e o sacrifício de todos os que deram a vida e viram a dignidade ofendida na luta contra a ditadura salazarista. Os métodos usados pela PIDE eram bárbaros e não têm justificação possível. Posto isto, digamos umas verdades: a tortura sofrida não é coisa que se propagandeie. Haja pudor. Ter sido preso, interrogado, torturado pela polícia política não confere nenhuma dignidade pública, não dá direito a um estatuto especial. Haja humildade. A Drª Maria José Morgado não é Jesus Cristo. Todos sabemos muito bem que um dos sinais do provincianismo salazarista era o respeito pelos senhores doutores. Todos sabemos muito bem que os estudantezecos levavam umas bofetadas e uns encostos enquanto os operários, os filhos de ninguém , sem padrinhos e sem conhecidos, esses sim, eram torturados sadicamente até à morte. Eram desterrados e executados sumariamente. Os comunistas foram os que sofreram na pele a mais bárbara tortura dos mais sádicos carrascos.
Por tudo isto, fica muito mal à Drª Mª José Morgado vir para a televisão, com um aquele ar de superioridade moral, lembrar as bofetadas que levava. Dispensa-se aquele indisfarçável sorriso que denuncia o ensimesmamento jacobino da esquerda radical e que eu já ouso adjectivar de louciano. Acham-se donos de uma superioridade cívica que lhes confere o dom da crítica. Vejo esse sorriso no Rosas do cachimbo, na arrogância blasée do Boaventura ou na vacuidade chic da Joana Dias. Vi-o também quando a Procuradora da República dava conta do irritamento que sentia, durante as sessões de bofetada, por ser magrinha e andar de parede em parede com a rota ditada pelo impulso dos estalos, dizendo, no final, como gostaria de ser gorda para não voar. A Senhora Procuradora não é Santa Catarina de Alexandria. Nem quanto à sabedoria, nem quanto ao martírio, nem quanto à humildade. A Senhora Procuradora não é mártir, nem é gorda. Mas é Procuradora da República. Os Procuradores têm dignidade e estatuto especial, não porque levaram uns chapos de um qualquer Tinoco, mas para que evitem que floresçam por aí mais Tinocos a destilar recalcamentos e frustrações íntimas. A uma Procuradora da República pede-se que denuncie o espancamento de Leonor Cipriano. Foi ontem, não foi há 30 anos. Não foi a PIDE, foi a PJ, instituição onde a senhora teve responsabilidades de dirigente ao mais alto nível. Não foi em Lisboa, na António Maria Cardoso, foi em Faro. Leonor Cipriano não é magrinha, é gorda e ficou no estado que a foto ilustra. Não é doutora, nem filha de doutores, nem esposa de doutores. Espancaram-na barbaramente. Pela calada da noite, sem mandato, foram à prisão onde está detida preventivamente e "interrogaram-na". Duvido que alguma vez a gorda Leonor que não voa se venha a ufanar desta má memória, ou um dos muitos presos que em Portugal têm tendência para o suicídio, ou ainda um dos muitos manifestantes que em Portugal chocam de cabeça com uma bala perdida. É que em Portugal, ainda há Tinocos!

10/03/05

A Seita dos Assassinos, por Marco Pila

A primeira vez que ouvi falar desta seita foi há uns anos, entre amigos que discutiam, entre duas cervejolas, a origem do termo «assassino». Numa versão que vim a confirmar em leituras, algum tempo depois, o termo tem origem na palavra árabe «hashish» que é fonte de Assassini, assissini e heyssisini, presentes nas fontes dos cruzados. Parece, pois, que há uma relação entre os charros e o crime. E há mesmo, segundo esta leitura.
A Seita dos Assassinos tornou-se célebre pela eficácia mortal dos seus membros, que se drogavam com hashishe para ganharem a coragem que lhes ajudava a realizar os crimes. Mas mais célebre ainda, pelo absoluto desprezo com que os seus membros encaravam a morte com que eram, geralmente, castigados, mal acabavam de cumprir as suas missões sanguinárias.
O seu mais terrível e famoso líder foi Hassan-i-Sabbah que erigiu uma fortaleza praticamente inexpugnável – a fortaleza de Alamut, de onde dirigia os seus Assassinos. Pelo seu fanatismo, pelo seu desprezo e até pelo seu desejo da morte e do martírio, esta seita bem pode ser considerada precursora da terrorista Al Qaeda.

Mas o que levava estes homens a cometerem tais actos e a encararem o martírio como finalidade suprema da sua vida?
Nos últimos tempos cruzei-me com alguns livros magníficos que falam desta seita e que, de algum modo, ajudam a encontrar a resposta à minha pergunta. Assim foi com o fabuloso e absolutamente genial Samarcanda de Amin Malouf, com A Casa Dourada de Samarcanda de Hugo Pratt e, mais recentemente, com uma descoberta nos saldos de Os Assassinos de Bernard Lewis, este uma investigação histórica acerca da seita de Hassan-i- Sabbah.

Neste livro, Lewis (sim, é o mesmo de O Que Correu Mal?, um best seller acerca do desencontro civilizacional entre árabes e cristãos), cita uma passagem do Livro de Marco Pólo que narra uma história/explicação tão fantástica para o fanatismo dos Assassinos que eu não resisti a vir aqui transcrevê-la para quem a quiser ler. As coisas podem não se ter passado desta maneira, mas que, quase dá vontade de pensar que sim, dá. Com a devida vénia, pela primeira vez no Porco em exclusivo mundial, cito o grande aventureiro, o maior de todos os viajantes conhecidos, Marco Pólo, que passou pela Pérsia em 1273 e escreveu o seguinte acerca da fortaleza e do vale de Alamut, sede dos Assassinos:

«O Velho (e líder dos Assassinos) era chamado na língua deles ALOADIN. Mandara que determinado vale entre duas montanhas fosse fechado, e transformou-o num jardim, o maior e mais bonito que jamais se vira, cheio de todas as variedades de frutos. Nele estavam erigidos pavilhões e palácios do mais elegante que se pode imaginar, com dourados e pinturas requintadas. E havia córregos, também correndo livremente com vinho e leite e mel e água; e um grande número de damas e das donzelas mais belas do mundo, que sabiam tocar todos os tipos de instrumentos, e cantavam da forma mais doce, e dançavam de um modo que era um encanto contemplar. Porque o Velho da Montanha desejava que o seu povo pensasse que era realmente o Paraíso e, por isso, concebera-o segundo a descrição que Maomé fisera do seu Paraíso, a saber, que deveria ser um belo jardim atravessado por regatos de vinho e leite e mel e água, e cheio de belas mulheres para deleite de todos os seus habitantes. E é claro que os sarracenos destas paragens acreditavam que era o Paraíso!
Pois bem, nenhum homem estava autorizado a entrar no Jardim, excepto aqueles que ele pretendia que fossem os seus ASHISHIN. Havia uma Fortaleza à entrada do Jardim, suficientemente forte para resistir a rtodo o mundo, e não existia qualquer outra forma de lá entrar. O Velho mantinha na sua corte diversos jovens dopais, entre os doze e os vinte anos, que tinham gosto pela vida de soldados, e costumava contar-lhes histórias sobre o Paraíso, como fora costume Maomé fazer, e os jovens acreditavam nele. Em seguida, levava-os para o seu jardim, cerca de quatro, seis ou dez dias de cada vez, mas primeiro obrigava-os a beber uma determinada poção que os precipitava num sono profundo, para depois serem levantados e transportados para lá. Assim, quando acordavam, encontravam-se no Jardim.
Logo quando acordavam e se viam num local tão encantador, pensavam que era efectivamente o Paraíso. E as damas e donzelas satisfaziam-lhes todos os desejos e, portanto, tinham tudo quanto os jovens devem ter; e nunca teriam abandonado aquele local de livre vontade.
Quando queria que um dos seus hashishin fosse enviado numa missão, o Velho mandava que a poção de que falei fosse ministrada a um dos jovens que se encontravam no Jardim e, em seguida, mandava transferi-lo para o seu palácio. Assim, quando o jovem acordava dava consigo no Castelo e já não naquele Paraíso; algo que não o deixava nada satisfeito. Era conduzido, então, à presença do velho, e curvava-se perante ele com grande veneração por achar que estava na presença de um verdadeiro profeta. O Príncipe perguntava-lhe, então, de onde vinha, e ele respondia que vinha do Paraíso! E que era precisamente igual àquele que Maomé descrevera na Lei. É claro que isto dava aos outros, que estavam a assistir, e ainda não haviam sido admitidos, um enorme desejo de lá entrarem.
Por isso, quando o Velho pretendia que algum Príncipe fosse assassinado, dizia a um daqueles jovens: «Vai e mata Fulano; e quando voltares os meus anjos levar-te-ão para o Paraíso. E, se morreres, enviarei mesmo assim os meus anjos para te trazerem de volta ao Paraíso». Era isso que lhes fazia acreditar e, portanto, não havia qualquer ordem sua para cuja execução não enfrentassem todos os perigos, dado o grande desejo que tinham de regressar ao Paraíso dele. E, deste modo, o Velho conseguiu que o seu povo assassinasse qualquer pessoa de quem ele se quisesse livrar.»

09/03/05

Um Homem Completamente Torcido, por AlquimistaDaDor

Yasunari Kawabata escreveu um dos livros mais estranhos e perturbadores que já li: “A Casa das Belas Adormecidas”. Tropecei por puro acaso em tal coisa numa feira da ladra e achei o título estranho. A leitura apanhou-me desprevenido e tratei de saber mais sobre o japonês. Ora o homem não nos devia ser desconhecido. Trata-se nem mais nem do que um Prémio Nobel da Literatura (1968) e um dos mitos da literatura japonesa.

A sua escrita é plena de solidão, tristeza, sexualidade, serenidade e morte. Há um culto e uma perseguição da vida e da beleza, relatada em regra, por quem lhe viu ou vê fugir as duas. Kawabata ficou tuberculoso muito cedo e órfão de pai e mãe mais cedo ainda. Aos pais, pelo afastamento e pela morte prematura, “nunca lhes perdoou a falta de uma infância normal.” O francês Olivier Rolin no seu “Paisagens Originais”, repescou uma lapidar frase de Kawabata: “O medo e a vergonha que vocês semearam no meu coração de criança permanecem profundamente enraizados (…) e fizeram de mim um homem completamente torcido.” Nem mais. A perversidade serena, estranha mas humana e comedida, transparece em toda a obra. Cada conto é uma Catedral Gótica que inspira estranheza pelo mistério e força, respeito pela pureza e harmonia e sobretudo amiração pela sensibilidade e beleza. Kawabata, em 1972, quatro anos depois do Nobel e com 73 anos, suicidou-se.

Vão lá. São livros pequeninos e até no Continente os há, sublimes e soberbos: “A Casa das Belas Adormecidas”, “Kyoto” e a “Dançarina de Izu”.

08/03/05

Mulheres para quê?, por Maxo Man

Parece que hoje (ou ontem?) é o Dia Mundial da Mulher! Para quem não sabe, uma mulher é aquela coisa que vive à volta daquela coisa. Recentemente, inventou-se esta coisa a quem só falta aprender a cozinhar!







07/03/05

A recusa de Vitorino ou as razões de um homem pequeno, por Aristóteles da Silva

À custa de tanto se falar na morte das ideologias, há quem viva já a era do desencanto. Normalmente estes descrentes têm-se em grande consideração e marginalizam-se como gesto de vaidade. Acham-se bons de mais para viverem comprometidos com as causas comuns. Exemplo disso é António Vitorino que hoje afirmou ao «Diário Económico» que não gostou de ser ministro ainda que tenha sido «uma experiência enriquecedora», justificando assim, sumariamente e de forma inapelável, a recusa em integrar o executivo de Sócrates. Do mesmo modo, e ainda que tardiamente, ficámos a saber a razão porque recusou a liderança do Partido Socialista. Lembremos que Sócrates é Primeiro Ministro porque Vitorino recusou sê-lo! Sócrates é uma segunda escolha! Sócrates deve a glória ao enfado de Vitorino. Ao achar desinteressante o serviço da República, o sr. Vitorino equipara o exercício de funções ministeriais a uma caldeirada mal temperada, como se a arte da política fosse coisa sobre a qual se pode dizer: «não gosto!» Como cidadão, venho dizer ao sr. Vitorino que em nada nos interessa ou beneficia o enriquecimento pessoal da sua elogiadíssima figura se daí se não retirarem vantagens para a causa comum, para o progresso material dos povos, para o conforto e felicidade da nação.
Mas as afirmações de Vitorino são graves num outro sentido, ao atestarem a impossibilidade absoluta de mobilizar a nação. Já não há causas comuns nem sentido de missão. António Vitorino é a prova disso mesmo, é o paradigma do político pós-moderno. Tal como D. Carlos achava que o país era uma piolheira, o sr. Vitorino acha o país desinteressante. Tido como inteligente e competente, o sr. Vitorino não se sente impelido a contribuir para o bem comum. Lá no fundo, entende que não há causa que lhe justifique o incómodo, o que é dizer, que o interesse privado se sobrepõe à causa pública. É, no limite, o fim da política como a entendemos. Vitorino é um técnico bem sucedido que só ingressará na política ou como Messias ou como Técnico. Em ambas as alternativas, como anti-político, na medida em que quer o providencialismo quer a via tecnocrática dispensam a intervenção cívica.
Eu não defendo o exercício do poder numa perspectiva missionária, escudada numa ética do sacrifício. Repugna-me aquela austeridade de monge com que Salazar governou o país, acho que o messianismo sebástico é uma das causas do atraso nacional, arrenego todas as vias tecnocratas e acho a política a mais nobre das artes porque coloca o ideal colectivo acima do interesse individual, acima da circunstância e da comodidade. Porque acho a Alma mais bonita do que o umbigo, eu não acho que o serviço do Bem Comum e a dedicação à causa colectiva sejam assim tão desinteressantes. E não entendo como podem não cativar um dos mais reputados e promissores políticos portugueses. É bom dizer ao sr. Vitorino que a sua presumida inteligência e elogiada competência nada valem se não se submeterem a um fim mais alto do que a mera satisfação de ambições privadas. Digam pois ao sr. Vitorino que não é a Nação que é pequena demais para ele. É ao contrário, por mais pequena que seja a Nação. É sempre ao contrário. O sr. Vitorino é pequeno e ponto final. Acabou-se!

Squeal, Boy, Squeal !, por BeloZebú

No passado sábado a Confraria voltou à Catedral do Bernardes, para a Lampreia-2005. Como lhe é habitual, o Bernardes não brinca com coisas sérias e apresentou à Sponto uma das melhores Lampreias de sempre. O pessoal prestou-lhe as honras devidas e rapou o fundo ao tacho.

Mas não foi para falar de tacho que aqui se veio. Viemos falar do Sábio. O Sábio é o rapaz da Confraria que mais sabe de futebol. E de prova de vinhos também, reunindo o maior naipe de melhores Notas de Prova até à data. Isto é, estamos perante a narigueta mais poderosa a oeste de pecos. A cheiradeira do mister permite-lhe, além do mais, estar quase sempre no Podium da Prova Cega em que participa, e isto invariavelmente com um vinho de 4 ou 5 euros. Nas últimas duas expedições – o Leitão-2005 e os Míscaros-2004 – o sacana do animal chegou a dar-se ao luxo não só de ganhar as duas seguidas, como até de ganhar os Míscaros com um vinho de 3 euritos.

E vai daí foi uma gabarolice sem fim à vista. Ninguém podia com o animalôncio. No Ranhoso chegou a gabar-se que na Lampreia ia ganhar com um de dois euros. Dois euros? O preço do Dacepa? Do Teobar e do Rimor? Tá bem abelha…

Face à investida da besta, houve um grupo de quatro Capos que se reuniu e resolver afrontar a abstunta. De frente, às claras e de peito feito. Com processo de intenções declarado, formalizado e jurado. Objectivos: impedir o Sábio de chegar sequer ao terceiro lugar na prova, impedi-lo de pontuar com relevo, manter a disputa do Centenário em aberto. Face ao repto, o Sábio encheu-se de pergaminhos e intenções, investiu e preparou-se para a investida da quadrilha.

E foi a humilhação total. Squeal, Boy. Squeal!.
Primeiro lugar: Diga?, 2003, Petit Verdot, Bairrada, apresentado pelo Axigã, primeiro dos quatro capos. Prémio Maligno.
Segundo Lugar: Pape, 2003, Dão, apresentado pelo Mangas, segundo dos quatro capos.
Terceiro Lugar: Cortes de Cima, Reserva, 2001, Alentejo, apresentado pelo Barão, terceiro dos quatro capos.
Último Lugar: Quatro Castas, Reserva, 2001, Alentejo, apresentado pelo alvo a abater, o Sábio. Prémio Vinagre.

O quarto e último Capo da quadrilha, a quando da revelação do último lugar da Prova Cega pelo Xiita, levantou-se com serenidade e contenção e virando-se pró Sábio afinfou-lhe nas bentas: Deus t`abençoe, meu caro Sábio!

Vocês sabem o que eu quis dizer. Squeal, Boy, Squeal!

04/03/05

Semântica Retorcida, por Mr. Mtzxplicx

Hoje inventei uma palavra nova: re-seio, não receio. O que é que acham?

Semântica Retorcida, por Mr. Mtzxplicx

Hoje inventei uma palavra nova: re-seio, não receio. O que é que acham?

03/03/05

Deprimidos, por Prozac

Um dia destes li no Público que os Portugueses estão entre os maiores consumidores europeus de anti-depressivos. Como não somos propriamente o Iraque nem a Indonésia pós tsunami, eu suponho que alguma coisa está errada aqui.
A depressão existe, é uma doença clinicamente identificada. Compreendo perfeitamente que, em casos traumáticos, como a morte de um ente querido, um problema de saúde, uma situação de perseguição profissional e outras, se possa quebrar, ir ao fundo, deprimir-se. Mas o que vejo à minha volta é uma multidão de «deprimidos» por tudo e por nada: porque se zangaram com o namorado (a), porque estão desocupados, porque estão ocupados de mais, porque não chove, porque chove demais, porque ganham pouco e deviam ganhar mais, porque o caracol de estimação está constipado, porque sim e porque não… Neste país, tudo é pretexto para a depressão e, já agora, para o atestado médico correspondente e para a baixa no trabalho conveniente. Depois sobra para os outros, os não deprimidos que aguentam com tudo. É por isso que, como diz um amigo meu, «o mundo é dos «fracos». Fracos entre aspas, claro.

01/03/05

La Tomatina, por DervixeRodopiante

Já toda a gente viu as imagens e já toda a gente lá quis ir. Mas aquilo mete medo. Nas imagens parece uma horda selvagem e desenfreada que tomata tudo o que aparece. Nem mais. É assim mesmo. Telúrica, Selvagem e Brutal. Imprópria para virgens ofendidas, copinhos de leite, crianças, grávidas ou susceptíveis. Para quem se entusiasmar, não tem nada que enganar. É ao meio dia da quarta quarta-feira de Agosto em Buñol, Valência, España.

Bunõl é a povoação mais feia de toda a España. Fuentes de Oñoro é uma beleza comparada com Buñol. E acreditem, que o Tapor esteve lá numa expedição memorável do Mefistófeles e do Dervixe. À saída da auto-estrada, o cenário é industrial, feio e sujo. Várias fábricas de cimento em pleno funcionamento tornam o ar pesado e a paisagem branca. Quando se entra em Buñol a paisagem piora e entramos num cenário Mad Max, apocalíptico, com cimenteiras gigantescas – pelo meio das quais se circula e estaciona - desmanteladas, esventradas e comidas pela ferrugem e pelo tempo. Aliás Buñol e a Tomatina é uma paragem no tempo. E um murro no estômago.

Para baixo da encosta desenvolve-se o casario baixo de Buñol, que comprime ambos os lados de uma pequena e infecta ribeira. A Tomatina é numa praça ao fundo da povoação e da encosta. Cerca de 1 km de rua íngreme até ao fundo e paralela à ribeira que serpenteia ao fundo de uma ribanceira.

A coisa mais estranha de tudo aquilo, é que não se vê ali qualquer marketing ou aproveitamento comercial de tudo aquilo. Estacionamos numa cimenteira horrível e escalavrada no meio de milhares de automóveis que vomitam milhares de pessoas que se juntam às hordas que saem dos comboios especiais vindos de Valência e no ar apenas há silêncio, compenetração e concentração. As ondas de bárbaros, apocalípticos e desintegrados rumam ordeiramente ao centro da vila e não há nada. Zero. Em Portugal aquelas 40 ou 50.000 pessoas geravam em dois ou três anos um novo Santuário de Fátima. Ali não há qualquer tendinha ou barraquinha de comércio ou bugigangas. Não há recuerdos, não há postais, não há roulottes de bifanas, vendedores de água, de t-shirts ou seja do que for. Não há bichas, engarrafamentos, pais de família aos berros e putos ranhosos a levar bofetadas Nem placas sequer a indicar a Tomatina. Para lá chegar seguimos a horda em silêncio. Sigamos pois.

O silêncio e o despojamento de tudo aquilo assusta um bocado. E vai de usar o melhor espanhol da confraria, com o Mefistófeles a perguntar a uns hermanos como era: - Muy Bueno, por sepuesto, pero, fuera com las camisetas…, pardón, como és? Fuera com las camisetas, qui son prá rasgar…Mau maria, se alguém me rasga esta merda há molho a doer, carago! – Ó pá, mas foi o que os gajos disseram, voltamos atrás e vamos em tronco nú… - O catano, siga, é prá desgraça, é prá desgraça…

Nem mais. Chegámos com uma hora de antecedência antes da largada dos tomates. A praça estava à pinha, mas há sempre lugar para mais um, ou dois ou quatro…. Ficámos lá mesmo no meio, junto a uma casa tapada, a meio caminho entre o pau de sebo onde um presunto pata negra resistiu até ao fim aos sitiantes e um palanque com mangueiras e motores, que não augurava nada de bom. Na praça todas as casas estão tapadas e protegidas com placas de madeira até ao primeiro andar e por plásticos gigantes até ao quarto e último andar.

A multidão é imensa, sem ser compacta, e acumulam-se ali cerca de 40.000 pessoas. O ambiente é estranho, cosmopolita e electrizante. A meu lado um grupo de Irlandeses emborca cerveja. O Mefistófeles mete conversa com uma Americana que se queixa de já não conseguir ver o marido que a arrastou prá ali. Diz que já teve medo em San Isidro e ali a coisa parece pior. De facto.

O murmurar da multidão é de súbito interrompido por gritos. De todos os lados da praça se berra: “Camiseta, Camiseta, Camiseta…”. Berram a plenos pulmões e o pessoal sem perceber nada. Logo que o Mefistófeles leva com um jorro de água na cara e o Dervixe com um t-shirt encharcada e enrolada, nas fuças, percebemos de imediato. Há que baixar a carola, que é o segredo nº 1 da Tomatina. E enquanto não há tomates, há camisetas. Voam t-shirts e bocados delas de todos os lados. Tudo é rasgado e tudo serve para encharcar e atirar às fuças mais próximas. Quem não rasga a sua, vê mãos anónimas fazerem-no por si. Do alto do palanque os mangueirantes regam à pressão toda a multidão para refrescar do calor abrasador de Agosto. Garinas mais corajosas sobem lá pelo meio, às costas dos namorados. De toda a praça chovem t-shirts que se lhes colam aos ombros e à cabeça, em chapões que se adivinham dolorosos. Algumas caem. Outras aguentam até que nada delas se vê, se não uma massa informe de pano molhado. A multidão exulta e grita “Olé!”, “Olé!” de reconhecimento e louvor à toureira. A miúda agradece e desce. Um mânfio tenta fazer isto, leva com um sapato nas trombas e desiste. A lide só é permitida às miúdas.

De repente do canto oeste da praça ecoa o ronco de camiões. A multidão entra em delírio. Abre-se instintivamente um corredor e cinco ou seis camiões gigantes largam rapidamente milhares de toneladas de tomate maduro, vermelho de sangue. Num ápice os montes desaparecem, o ar enche-se de bandos de tomates voadores e toda a praça se tinge de vermelho. O cheiro adocicado e pungente do tomate invade tudo e a multidão salta e entra em frenesim. A orgia dispara de repente.

O Dervixe e o Mefistófeles que já aprenderam o segredo da bola baixa, protegem a americana, guardam tomates de reserva nos calções e nas cuecas e vai de escolher alvos. O Mefistófeles aponta ao Dervixe o marido da americana, mas este prefere os dois irlandeses gigantes cuja careca rapada brilha ao sol e facilita a pontaria. Tiro de rajada. Em cheio. Bola baixa e zás, de novo em cheio. O Mefi exulta com a pontaria do Dervixe. Os Irlandeses rodam os periscópios a 360 graus para ver quem…azar, tunga, de novo em cheio. Os irlandeses sem alvo de represálias somem-se da zona, o Dervixe levanta-se e comemora a vitória. Tunga, uma tomatada na sobrancelha que até viu estrelas. E outra. Fónix, mas que é o cabrão e zás, nova tomatada nas fuças até aprender o segundo segredo da Tomatina: não há rancor ou sede de vingança, pela simples razão de que isso é completamente impossível.

A berraria é imensa. O delírio é total. De todo o lado e a toda a velocidade voam tomates. Uma tomatada em cheio numa orelha explicam de imediato à americana, que deve desistir de procurar o marido com a cabeça a espreitar. Um grupo de australianos põe-se a jeito na zona de tiro do Dervixe. O Mefi aponta-os e fornece munições. Tunga. Em cheio na orelheira. E bis na nuca. Esta até fez ploc. O bardana do Mefi não baixa a bola e ri-se que nem um perdido e o careca do Irlandês topou finalmente a zona que lhe está a afiambrar. Faz tiro para lá mas népias. E leva outra, e mais outra mal se vira. Ali, foi uns Portugal-10, Irlanda-Zero.

Loucura total, intensidade selvagem, instintos primevos e telúricos, orgia vermelha.

Finda a tomatada há que subir o kilómetro de encosta até ao cimo. Então, de todas as casas, portas e jardins da mais feia povoação de España, sai à rua de mangueira em punho, a mais simpática e generosa das suas gentes, que desde pais de família, a avós de bengala, de putos ranhosos a meninas de vestido, todos, mas todos, pegam nas ditas mangueiras e tratam de regar e lavar a tomatada escorrente dos corpos suados da horda em retirada.

Nós voltaremos.