30/06/05

Desinchem-se os Tribunais, por Dr. Abranches e Menezes

Dizia a minha avó que a hora do almoço era sagrada. “Descansa meu filho que a tripa tem de ronronar para resmoer a papa”. Pois bem, nunca liguei muito, mas a verdade é que não gosto de sobressaltos a tal hora, e as únicas bestas que admito são as que devem estar no prato mortas, assadas, cozidas ou grelhadas e em fatias.

Daí que quando ontem estava a almoçar caiu-me uma besta imunda no prato, quer dizer, saltou da TV e inundou-me a vista… Era um tal ministro, que do epíteto só tinha mesmo a alembradura. A alimária falava sobre a descriminalização do cheque sem provisão.

Dizia tal cavalgadura que isto não podia aguentar-se mais, que os tribunais estavam inundados de processos de cheques sem provisão e que não podia ser porque entupia os tribunais e os impedia de trabalhar. Ora como tal tinha que se descriminalizar o cheque.

Antes de continuar tenho de dizer umas caralhadas porque não aguento tamanha bestialidade. F… Car…. E coisa e tal. Ora, o ignaro vem a publico dizer que altera uma lei e descriminaliza ao cheque porque os tribunais têm muito trabalho, muitos processos de cheques. Mas alguma vez passou pela cornadura de tamanha besta que as leis não se fazem para desinchar os tribunais ou para lhes tirar trabalho? Alguma vez alguém explicou ao solípede que as leis fazem-se para permitir o acesso à justiça???

Então o comerciante ou o particular que se queixam de alguém ter emitido um cheque e de o ter entregue e este vir devolvido por falta de provisão não tem acesso a ver castigado quem pratica uma burla, quem engana? Então o cheque não se destina a efectuar um pagamento?? Então os cidadãos não têm acesso à justiça?

Na óptica do ignaro governante a justiça é uma coisa que os cidadãos podem usar desde que o tribunal não tenha muito que fazer. Bardamerda, o pseudo ministro é um palhaço travesti que não sabe o que diz e que não tem respeito pelas pessoas. Enfim, é o governo que temos. Já agora lembro aquele rapaz que também é ministro e que colocou em prática a nova lei sobre a acção executiva como se fosse a sua coroa de glória. Foi das piores coisas que se fizeram neste país. A verdade é que ninguém responsabilizou o semovente, que agora é outra vez ministro!!!!!!!! Irra, a reciclagem do meu computador tem menos merda do que o actual governo.

Coimbra, por Mangas

Coimbra nunca foi um bom sítio para fazer amizades: aqui, quando amamos verdadeiramente alguém, acompanha-nos para sempre e dói-nos, mas nunca queremos que seja de outra forma. Ao longo dos anos sustentamos por correspondência a troca de emoções dos livros que lemos, porque é melhor escrever as coisas quando precisamos de as sentir de mais do que de menos. Ainda que todos os universos desses livros sejam apenas um, neles aprendemos a saltar do primeiro para o último consoante nos apetece rir ou resistir. Admiramos uma vez por ano a pontualidade dos jaracandás a desabrochar no tal dramático violeta-fogo e, com o pretexto de estarmos juntos, passamos noites inteiras a comer, a provar vinhos às cegas, a achar que o único pecado capital é a estupidez, e a discutir sobre coisas do género: pedir meias doses, porque raio se chama dose?, é porque está calculado: é uma dose!, um homem, uma dose!, quem pede meia dose é meio-homem!; cozido à portuguesa é comida de homem, meia dose de cozido é... paneleirice!; o pior é pedir meia dose de qualquer comida terminada em inho ou inhos, a saber - meia dose de bifinhos, meia dose de lulinhas!; e nunca esquecer que comidas que são de homem, para além do cozido, são a feijoada, mão de vaca, coelho à caçador e todas as partes do porco, porque tudo o que tiver porco é de homem...
Em Coimbra sobra-me o tempo que sempre me falta para fazer tudo o que me propus. Contemplar é uma variante artística da solidão porque esta cidade é dos raros sítios que conheço onde a peculiaridade de cada homem é tão secreta quanto passível de ser admirada em silêncio por outro homem. As tradições não fazem crer a ninguém que de facto ainda existem, a história é feita de graves mas festivos gestos a cada volta do sol quando as noites são bailarinas e os dias densos como azeite virgem. Uma vez sonhei que o bosque, em Vale de Canas, me engoliu numa noite incendiada e que de Coimbra perdurará o vento que a atravessou reconhecendo os passos descalços de uma mulher nas águas. Amanheceu três vezes nesse meu sonho, quase sempre, com o suor a saber a desejo. Acordei numa rua que se chamava “Todas as Ruas Conduzem ao teu Nome”. Porém, eu nunca saberei se naquele preciso instante, Coimbra dormia a sonhar comigo nem o quanto o significado desse sonho é claramente revelador do nosso elo de ligação ou alienação. Estando cá ascendi ao conhecimento do mundo. Parti muitas vezes, de todas elas, o mais distante que estive de alguma coisa foi de mim mesmo. Convenci-me disto pelo sentidos órfãos de nunca ter pertencido a lugar algum, e embora as minhas paixões sejam livres de imigrar, acredito agora, quanto mais não seja pela recordação de um rio ou de uma praça que, os teus braços Coimbra, são um cais condenado onde se regressa sempre.
Coimbra tem personalidade de um duplo. Quer dizer: faz o papel do tipo que não é a estrela do filme, mas é imprescindível para rodar as cenas mais perigosas, arriscando as costelas e a carne sem que no final seja convidado para a sessão de autógrafos. No passado acredita-se porque foi jovem e indestrutível, envolveu-se em brigas monumentais e venceu sempre. Mesmo quando foi derrotado. Quem souber escutar vozes e comportamentos, aplaca o saudosismo de quem gosta de contar histórias. O lugar ao sol que muitos procuram pode não estar aqui, pacificamente, à sua espera. Não é como um tipo que imigra para Antuérpia, encontra meia dúzia de judeus com quem não se dá, trabalhos baratos que, sem grandes alternativas, aceita para pagar o quarto, as refeições e tem a noção clara de ter sacrificador algo que deixara para trás quando decidira partir, porém, aguenta até ao fim esperando que a sorte lhe sorria um dia. Nunca é tão linear para quem chega, nem tão dolorosamente patriótico para quem cá nasceu e cresceu.
Coimbra podia ser apenas capa de um disco em vinyl da Amália. Uma fotografia tirada sobre a ponte mostrando mulheres lavadeiras entretidas a esticar mantas e lençóis na areia das pequenas ilhotas, das quais o Mondego se escondia há muitos anos atrás quando ninguém lhe impunha ser poderoso. Se Coimbra fosse banhada pelo oceano, seria uma viúva por quem cantariam guitarras solenes aos barcos de partida para preservar a saudade eterna de uma mãe ou de uma puta amante.
Coimbra é uma conversa por terminar que se tem com alguém pela madrugada adentro, quando as grandes ideias surgem mais facilmente. É como permanecer sentado nos minutos seguintes, no mesmo banco de jardim onde ela esteve sentada por nós, até se ter cansado de esperar e ter partido.
Coimbra não tem estradas planas que permitam percorrer de bicicleta a distância mais curta entre dois lugares, mas tem velhos a vender o Borda D`Água. Em Agosto pode ser uma experiência devastadora e solitária, mas quando chove, o cinzento dos finais de tarde poderia muito bem ser o recolhimento mais afável e constrangedor de todos os lugares, se possuísse aquele cheiro característico a terra molhada que nunca mais existirá nas cidades. Certa tarde em Coimbra ocorreu-me que devia haver mais homens com nomes que lembrassem algo parecido a alguns títulos de filmes como, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia ou Os Duros não Dançam. Machos sensíveis. Serenos. Capazes de explodir em furiosas lideranças. Inspirando um misto de temor e respeito nos outros homens e, ao mesmo tempo, sofrer até à morte pelas mulheres que os amam. Capazes de tudo sem que fossem postos em causa.
O meu avô paterno era assim. Chamava-se Leonardo. Foi ele a razão de eu para cá ter vindo viver um dia.

28/06/05

LADRÕES!, por Denunciador Implacável

Aqui há tempos, roubaram esta ideia:







Agora, roubaram esta:








São BURROS porque pensam que não serão descobertos, são LADRÕES porque usufruem do trabalho alheio. Ficarão Impunes? (a página já não está on-line)

Urbanismo, por Cãocomsono

Desmantelaram as fábricas, empacotaram-nas e levaram-nas para longe.
Agora, os terrenos vão ser, como se diz agora, urbanizados.
Eles querem dizer (mas não o dizem, limitam-se a fazê-lo) - dormitórios.
O que aí vamos ter é tão fácil e tão deprimente: gaiolas de periquitos empregados nos hospitais, nos bancos, nas seguradoras e no que resta de comércio na cidade.
A minha cidade.
A minha cidade adormecida nos dormitórios, a minha deprimida cidade universitária e tesa, plebeia e beata, bonita e triste como uma noiva contrariada.
Posso bem com a minha cidade – voltarei a partir.
É um domingo. Hoje, dormirei, também eu, por cá. Tropeço já na sonolência, aliás, pelo cair do dia.
Cairei eu na noite dormitória.

27/06/05

Ai Portugal, por Metágua

DESARROLLO-PORTUGAL:
Lejos de Europa. Mario de Queiroz

LISBOA, 21 sep (IPS) - Indicadores económicos y sociales periódicamente divulgados por la Unión Europea (UE) colocan a Portugal en niveles de pobreza e injusticia social inadmisibles para un país que integra desde 1986 el ”club de los ricos” del continente.

Pero el golpe de gracia lo dio la evaluación de la Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económicos (OCDE): en los próximos años Portugal se distanciará aún más de los países avanzados.

La productividad más baja de la UE, la escasa innovación y vitalidad del sector empresarial, educación y formación profesional deficientes, mal uso de fondos públicos, con gastos excesivos y resultados magros son los datos señalados por el informe anual sobre Portugal de la OCDE, que reúne a 30 países industriales.

A diferencia de España, Grecia e Irlanda (que hicieron también parte del ”grupo de los pobres” de la UE), Portugal no supo aprovechar para su desarrollo los cuantiosos fondos comunitarios que fluyeron sin cesar desde Bruselas durante casi dos décadas, coinciden analistas políticos y económicos.

En 1986, Madrid y Lisboa ingresaron a la entonces Comunidad Económica Europea con índices similares de desarrollo relativo, y sólo una década atrás, Portugal ocupaba un lugar superior al de Grecia e Irlanda en el ranking de la UE. Pero en 2001, fue cómodamente superado por esos dos países, mientras España ya se ubica a poca distancia del promedio del bloque.

”La convergencia de la economía portuguesa con las más avanzadas de la OCE pareció detenerse en los últimos años, dejando una brecha significativa en los ingresos por persona”, afirma la organización.

En el sector privado, ”los bienes de capital no siempre se utilizan o se ubican con eficacia y las nuevas tecnologías no son rápidamente adoptadas”, afirma la OCDE.

”La fuerza laboral portuguesa cuenta con menos educación formal que los trabajadores de otros países de la UE, inclusive los de los nuevos miembros de Europa central y oriental”, señala el documento.

Todos los análisis sobre las cifras invertidas coinciden en que el problema central no está en los montos, sino en los métodos para distribuirlos.

Portugal gasta más que la gran mayoría de los países de la UE en remuneración de empleados públicos respecto de su producto interno bruto, pero no logra mejorar significativamente la calidad y eficiencia de los servicios.

Con más profesores por cantidad de alumnos que la mayor parte de los miembros de la OCDE, tampoco consigue dar una educación y formación profesional competitivas con el resto de los países industrializados.

En los últimos 18 años, Portugal fue el país que recibió más beneficios por habitante en asistencia comunitaria. Sin embargo, tras nueve años de acercarse a los niveles de la UE, en 1995 comenzó a caer y las perspectivas hoy indican mayor distancia.

¿Dónde fueron a parar los fondos comunitarios?, es la pregunta insistente en debates televisados y en columnas de opinión de los principales periódicos del país. La respuesta más frecuente es que el dinero engordó la billetera de quienes ya tenían más.

Los números indican que Portugal es el país de la UE con mayor desigualdad social y con los salarios mínimos y medios más bajos del bloque, al menos hasta el 1 de mayo, cuando éste se amplió de 15 a 25 naciones.

También es el país del bloque en el que los administradores de empresas públicas tienen los sueldos más altos.

El argumento más frecuente de los ejecutivos indica que ”el mercado decide los salarios”. Consultado por IPS, el ex ministro de Obras Públicas (1995-2002) y actual diputado socialista João Cravinho desmintió esta teoría. ”Son los propios administradores quienes fijan sus salarios, cargando las culpas al mercado”, dijo.

En las empresas privadas con participación estatal o en las estatales con accionistas minoritarios privados, ”los ejecutivos fijan sus sueldos astronómicos (algunos llegan a los 90.000 dólares mensuales, incluyendo bonos y regalías) con la complicidad de los accionistas de referencia”, explicó Cravinho.

Estos mismos grandes accionistas, ”son a la vez altos ejecutivos, y todo este sistema, en el fondo, es en desmedro del pequeño accionista, que ve como una gruesa tajada de los lucros va a parar a cuentas bancarias de los directivos”, lamentó el ex ministro.

La crisis económica que estancó el crecimiento portugués en los últimos dos años ”está siendo pagada por las clases menos favorecidas”, dijo.

Esta situación de desigualdad aflora cada día con los ejemplos más variados. El último es el de la crisis del sector automotriz.

Los comerciantes se quejan de una caída de casi 20 por ciento en las ventas de automóviles de baja cilindrada, con precios de entre 15.000 y 20.000 dólares.

Pero los representantes de marcas de lujo como Ferrari, Porsche, Lamborghini, Maserati y Lotus (vehículos que valen más de 200.000 dólares), lamentan no dar abasto a todos los pedidos, ante un aumento de 36 por ciento en la demanda.

Estudios sobre la tradicional industria textil lusa, que fue una de las más modernas y de más calidad del mundo, demuestran su estancamiento, pues sus empresarios no realizaron los necesarios ajustes para actualizarla. Pero la zona norte donde se concentra el sector textil, tiene más autos Ferrari por metro cuadrado que Italia.

Un ejecutivo español de la informática, Javier Felipe, dijo a IPS que según su experiencia con empresarios portugueses, éstos ”están más interesados en la imagen que proyectan que en el resultado de su trabajo”.

Para muchos ”es más importante el automóvil que conducen, el tipo de tarjeta de crédito que pueden lucir al pagar una cuenta o el modelo del teléfono celular, que la eficiencia de su gestión”, dijo Felipe, aclarando que hay excepciones.

”Todo esto va modelando una mentalidad que, a fin de cuentas, afecta al desarrollo de un país”, opinó.

La evasión fiscal impune es otro aspecto que ha castrado inversiones del sector público con potenciales efectos positivos en la superación de la crisis económica y el desempleo, que este año llegó a 7,3 por ciento de la población económicamente activa.

Los únicos contribuyentes a cabalidad de las arcas del Estado son los trabajadores contratados, que descuentan en la fuente laboral. En los últimos dos años, el gobierno decidió cargar la mano fiscal sobre esas cabezas, manteniendo situaciones ”obscenas” y ”escandalosas”, según el economista y comentarista de televisión Antonio Pérez Metello.

”En lugar de anunciar progresos en la recuperación de los impuestos de aquellos que continúan riéndose en la cara del fisco, el gobierno (conservador) decide sacar una tajada aun mayor de esos que ya pagan lo que es debido, y deja incólume la nebulosa de los fugitivos fiscales, sin coherencia ideológica, sin visión de futuro”, criticó Metello.

La prueba está explicada en una columna de opinión de José Vitor Malheiros, aparecida este martes en el diario Público de Lisboa, que fustiga la falta de honestidad en la declaración de impuestos de los llamados profesionales liberales.

Según esos documentos entregados al fisco, médicos y dentistas declararon ingresos anuales promedio de 17.680 euros (21.750 dólares), los abogados de 10.864 (13.365 dólares), los arquitectos de 9.277 (11.410 dólares) y los ingenieros de 8.382 (10.310 dólares).

Estos números indican que por cada seis euros que pagan al fisco, ”le roban nueve a la comunidad”, pues estos profesionales no dependientes deberían contribuir con 15 por ciento del total del impuesto al ingreso por trabajo singular y sólo tributan seis por ciento, dijo Malheiros.

Con la devolución de impuestos al cerrar un ejercicio fiscal, éstos ”roban más de lo que pagan, como si un carnicero nos vendiese 400 gramos de bife y nos hiciese pagar un kilogramo, y existen 180.000 de estos profesionales liberales que, en promedio, nos roban 600 gramos por kilo”, comentó con sarcasmo.

Si un país ”permite que un profesional liberal con dos casas y dos automóviles de lujo declare ingresos de 600 euros (738 dólares) por mes, año tras año, sin ser cuestionado en lo más mínimo por el fisco, y encima recibe un subsidio del Estado para ayudar a pagar el colegio privado de sus hijos, significa que el sistema no tiene ninguna moralidad”, sentenció. (FIN/2004)

Ravelstein, de Saul Bellow, por AlquimistaDaDor

Isto já foi publicado na Gótika e já saiu no verso de um formulário de Nota de Prova, mas agora que faleceu - no mês passado - o grande Saul Bellow, aqui se repescam alguns excertos do seu livro “Ravelstein”, uma obra prima do mestre. Quem quiser ainda encontra este livrinho por aí. A tradução é excelente e é do Rui Zink.

“Éramos completamente abertos um com o outro. Podíamos dizer o que nos ia na mente sem receio de ofender. Em ambos os lados, nada havia para dizer de demasiado pessoal, ou embaraçoso, nada de demasiado terrível ou criminoso. (...)

Mas o Abe não queria que eu o consolasse por ser quem era. Ele teria apreciado mais se eu tivesse rido do seu incorrigível desmazelo, dos seus velhos tremores desajeitados. Ele apreciava a comédia pura e dura, os velhos sketches de revista, as frases assassinas, a rudeza e a sátira cruel. (...)

Esta era a sua maneira de expor um assunto – não propriamente lisonjeira, mas ele nunca lisonjeava ninguém, nem falava connosco para nos achincalhar. Ele simplesmente acreditava que a capacidade de deixar a nossa auto-estima estrutural ser atacada e feita em cinzas era uma medida da nossa seriedade. Um homem devia ser capaz de ouvir, e de aguentar e de ultrapassar, o pior que pudesse ser dito dele. (...)

Eu tinha feito a descoberta de que, se virmos as pessoas à luz do cómico, elas tornam-se mais apreciáveis – se falarmos de alguém como sendo um chuço grosseiro e cheio de gases, damo-nos depois muito melhor com ele, em parte porque temos a noção de que fomos o sádico que lhe retirou os seus atributos humanos. E também porque, tendo sobre ele exercido alguma violência metafórica, lhe devemos uma consideração especial.”

23/06/05

The Adventures of The Buttman, por MenteContusa

John Stagliano. Conhecem o nome? E The Buttman? Pois. É o mesmo. Em 1989, John Stagliano desistiu de vez do curso de economia da UCLA e revolucionou o mundo do cinema Porno com um novo conceito de filmagem. Formou a companhia Evil Angel, que ainda hoje factura, e a partir da sua adoração canina e acriançada pelos quartos traseiros das fêmeas, lançou-se de câmara em punho a filmar sucessivas séries do The Adventures of Buttman, por inspiração do Batman que estreava nesse ano. Com o conceito de filmagem porno do Evil John, a Câmara entra na cena e faz parte dela.

Nos filmes do Buttman deixou de haver qualquer tentativa de história. Não há qualquer argumento ou sequer tentativa de. Há apenas cus sucessivos que se apresentam em câmara vouyer e filmados directamente pelo Stagliano sem qualquer outro meio técnico que não seja a câmara de filmar na mão do home. Que vagueia, filma e actua. O andarilhar frenético e lambedor da câmara retirou qualidade técnica à filmagem, mas aproximou o espectador da cena real e praticamente meteu-o com os olhos dentro do filme. A malta gostou. As sucessivas fornadas de Buttman confirmaram-no. A técnica Buttman é hoje das mais copiadas e imitadas do mundo Porno. The Buttman is a Legend.

Mas o ex-economista, tal como a sua irrequieta câmara foi incapaz de ficar quieto. Bissexual assumido, estrampalhou-se com Sida numa cena marada com putas transexuais no Carnaval do Rio de Janeiro de 1997. De imediato, Stagliano que é porno mas não é porco - como o foi John Holmes - comunicou ao meio porno em geral e ao mundo em particular, que tinha o bicho mau e que passava apenas para detrás da câmara, agora mais frenética do que nunca. E ainda veio a casar com Tricia Deveraux, estrela porno também apanhada nas malhas da bicheza nefanda.

O Stagliano, The Buttman, The Evil John já não brinca, mas continua a filmar. Buttman forever. Bend over babe!

22/06/05

Sábios Despachos, por Brilhantina das Águas





in «Diário da República»; IIIª série; nº 110; 8 de Junho 2005; p. 12328.

A Origem do Mundo, de Courbet, por Magiar

Charles Darwin com o seu Darwinismo veio colocar a origem do homem na cloaca oceânica dos primórdios brumosos do tempo. O Criacionismo Bíblico foge às brumas e postula claramente que Deus mandou fazer luz, do barro fez homem e duma costeleta fez a mulher

Gustave Courbet, pintor francês do séc. XIX, esteve-se nas tintas prós dois Ismos e pintou a Origem do Mundo. Há assim uma terceira via, realista, para explicar a origem do homem. Courbet dizia que nunca tinha visto Deus ou Anjos e que quando os visse os pintaria. Até lá, pintava o que via. Daí que a sua pintura seja o expoente do movimento realista

Os nus, sobretudo os femininos, que até então eram pintados sob a aura mitológica de ar ausente, tornaram-se com ele, crus, carnais e sensuais. Apelidaram-no de “pintor do feio”, mas ele esteve-se nas tintas e quando em 1855 os juizes da Exposição Universal de Paris, excluíram os seus quadros da mostra, Courbet montou uma barraquita ao lado da entrada, pôs os seus quadros lá dentro e meteu um placa por cima da entrada: “Le Realisme – G. Courbet.

No “Origem do Mundo” a figura deixa o mito e a ausência para ser premente e tocável. Aquela é uma mulher real como nunca, carnuda, sensual e brutal na exposição a que se oferece. É talvez o primeiro quadro da história a suscitar a eterna polémica sobre a fronteira entre a arte e a pornografia. Mas a realidade está sempre aí, nunca foge, como Courbet provou, armando barraca."

20/06/05

O Chapelle, por MuambaEArrozDoce

Numa daquelas noites de pasmaceira em que só apetece fazer zapping, fui ter a um episódio do Chapelle Show, da galáxia do Comedy Central, na Sic Comédia. Nem sequer conhecia o Chapelle, mas como tudo o que é Comedy Center me parece bem, estacionei por ali, à espera. Se naquele momento tivesse estacionado um pouco mais atrás tinha perdido o sketch mais genial que vi até hoje. Vale a pena começar por dizer que tudo vale a pena nas stand up comedy deste humorista negro com um sorriso sonso, de bom rapazinho, que é ao mesmo tempo uma espécie de destilaria de ácido sulfúrico. Mas este episódio em especial merecia ser exibido todos os dias em canal aberto e horário nobre. Contado perde um bocado, mas vou tentar: Um negro cego de nascença é criado na convicção de que é branco. Mais: é criado na convicção de que, por ser branco, é superior aos negros. Chega assim a velho, agarrado a uma bengala, a fazer discursos inflamados contra os “damn niggers” e a discursar numa assembleia do KKK, com um capuz na cabeça, à boa maneira do Klan, numa cena completamente hilariante. Se bem me lembro, ninguém terá coragem de dizer ao pobre velho que é negro. É o sketch mais demolidor que vi até agora contra o racismo e acho que por causa dele nunca mais vou conseguir ver uma manifestação de “orgulho branco” sem me rir às gargalhadas. Branco ou negro ou amarelo, não importa. Se estivesse estado no Martim Moniz no sábado, acho que ia partir o coco a ver aqueles atrasados mentais com problemas de queda de cabelo e a lembrar-me ao mesmo tempo do velho do Chapelle. Uma atitude nada sensata, é verdade, mas o riso é uma função incontrolável, paciência. E de qualquer forma, existem poucas coisas mais ridiculas do que o racismo. Já é suficientemente hilariante que aqueles patetas achem que descendem em linha directa de uma qualquer divindade celta. OK, esqueçam agora estas patetas e fixem isto: Dave Chapelle e Chapelle Show. E Comedy Center, onde se reune uma quantidade impressionante de malucos geniais e politicamente incorrectos, incluíndo o Jon Stewart, que acho que todos conhecem.

Torpedo, 1936 – o maior machão da história da BD, por Ferrabrás

Eu irrito-me facilmente com os bons da fita, como expliquei há uns tempos atrás no post daqui do tapor, Morte aos Bons da Fita (2005_05_22_tapornumporco_archive.html). Durante muitos anos andei muito chateado com os bonzinhos. Até que, finalmente, li uma BD emprestada pelo JPC Palavrar (Saravá grande Jota) e senti-me vingado, ainda que por instantes, deste mesquinho e moralista mundo dos bons da fita. O livro chamava-se Torpedo-1936, uma edição da Futura, e, através dele, conheci e imediatamente fiquei fã de um dos maiores «injusticeiros» que encontrei na vida. Torpedo é o cognome do mais famoso personagem criado pela dupla Sanchez Abuli/ Jordi Bernet, respectivamente, argumentista e desenhador da série. Abuli nasceu em França mas fixou-se em Espanha; Bernet é espanhol. No país vizinho são muito conhecidos, não só por serem os criadores dogrande Torpedo, mas também por outras séries de entre as quais destaco Clarita de Noche, a história de um prostituta ingénua.

Torpedo é um gangster da pior espécie – isto é uma redundância, um verdadeiro gangster é sempre da pior espécie. A moral é-lhe desconhecida, ele é um é simples assasssino a soldo que vende os seus serviços-Colt 45 a quem der mais. Ás vezes chega mesmo a mudar de campo e a acabar com o próprio mafioso que lhe pagou por um servicinho, apenas porque a sua vítima abriu ainda mais os cordões à bolsa. Não se pode descer mais baixo que isto. Mas não se pense que este Torpedo desumano e absolutamente mau (ou simplesmente amoral) nasceu de um parto tranquilo. Não. Originalmente, o desenhador de Torpedo foi o americano Alex Toth que não aguentou a maldade do personagem e acabou por desfazer a dupla com Abuli. Toth já estava irremediavelmente contaminado pelo espírito moralista americano e queria fazer um Torpedo bom, ou, pelo menos, com um fundo bom. Abuli não cedeu e ainda bem: Luca haveria de ser um canalha, um duro, um gangster a sério sem romantismos nem lamechices. Toth foi à vida dele e Torpedo cresceu saudavelmente mau pela pena de Sanchez Abuli e traço de Jordi Bernet. Cada vez pior.

Na qualidade de personagem de ficção mais politicamente incorrecta que alguma vez foi criada, Torpedo, como não podia deixar de ser, é um porco machista e «sexista». Nas suas histórias as mulheres ocupam um papel quase sempre submisso. Quando assim não é, quando as mulheres aparecem no papel de ricaças poderosas, ainda é pior porque com o desenrolar da história acabam infalivelmente humilhadas pelo nosso herói.

É o caso de Miami Bitch, estória publicada no volume 5 da Futura. Torpedo é contratado como segurança por um milionário que «quando tem falta de papel higiénico, limpa o cu a notas de mil.» (sic). Acontece que a namorada do milionário é uma verdadeira lady, daquelas que gostam que lhes abramos a porta do carro e que as deixemos passar à frente nos restaurantes. Muito fina, um verdadeiro primor de delicadeza! Ainda por cima, pedagógica, faz desde logo intenção de domesticar as maneiras rudes de Torelli. Quando Torpedo comenta, por ocasião de um cházinho com torradas, que «Este local é pardalísiaco», a menina , muito indignada, faz questãode o advertir:
- «Não se fala com a boca cheia, senhor Torelli».
O nosso Torpedo quase cospe a porcaria das torradas mas aguenta-se sem reagir. No entanto, para quem já está familiarizado com a lógica Abuli/Bernet, percebe que esta afronta, ainda por cima vinda de uma gaja boazona com ares de madame, terá que ser reparada. E assim é: duas páginas mais à frente, a nossa menina está num estado de cio incontrolável depois do namorado velhote milionário a ter excitado e de ter fraquejado na hora da verdade… Luca aproveita a deixa e invade o quarto da senhora. Mete-a na ordem com um estalo nas ventas, Plaf!, e por entre gritos de «larga-me porco, besta, selvagem» salta-lhe para cima. Algumas tiras mais á frente, a ex-madame já está de joelhos, enquanto abocanha o zezinho. Incontrolável comenta a menina:
- «Que… Li… Do!»
Ao que Torpedo, qual cavalheiro esmerado, replica:
- «Não fales com a boca cheia!»

Papéis invertidos,vingança consumada. O gangster grunho acaba a dar lições de etiqueta á senhora fina. Na verdade da cama e na crueza dos instintos, Torpedo assume o controlo da situação e verga o orgulho possidónio da fêmea. Esta humilhação é a revelação do carácter da mulher: para lá do verniz, das maneiras e do cházinho com bolachas, o que há, afinal, é «uma putéfia». Que é como quem diz, nas histórias de Bernet e Abuli as mulheres ou são submissas ou, se o não são, pior: acabam invariavelmente humilhadas, confrontadas com a sua baixeza original. Não é bonito não senhor, mas não creio que seja de espantar que algumas mulheres achem Torpedo muito divertido. Eu não diria que ele não interessa de todo ao público feminino. Este episódio é um verdadeiro tratado da Metafísica de Torpedo: a ontologia porno de Luca Torelli em todo o seu esplendor!

16/06/05

Bragança Revisitada e o Fumeiro, por Mangas

Eu cresci em Bragança e lá fiz o ciclo e o liceu. Quando parti, há muitos anos atrás, prometi que regressaria muitas vezes para ver os amigos e os lugares nos quais fiz as primeiras aprendizagens de emoções e sabores. Mas a jornada teceu-me novos laços, outros caminhos, e o passado nem sempre me esteve à mão de alcançar. Bragança, hoje, guarda poucas lembranças desses tempos em que nos conhecemos – a cidade cobrou a exigência de um desenvolvimento urbano que estivera adiado durante décadas, expandiu-se, criou alternativas de fixação, viu nascer institutos politécnicos e casas de putas; a minha expansão física foi meramente em largura. Houveram livros, ilusões e outras cidades nas quais cresci entretanto, mas isso não é para aqui chamado. O lameiro onde jogava à bola, é agora um bairro dividido por uma avenida de duas faixas. O Tonho morreu com uma overdose, o César casou e foi para o Brasil. Já não se vende pão com chouriço no forno da Mãe de Água. Abateram aquele pomar no bairro dos ciganos onde costumávamos ir roubar fruta. Fizeram lá um bar...

Contudo, para além das gentes e do pulsar sagrado de alguns lugares, algo se manteve imutável e preservado: a excelência do fumeiro tradicional, esse riquíssimo património de sabores e paladares cuja chancela e imagem de marca reside em Vinhais, mas que é extensível a todas as capelas nordestinas e na base do qual está a cura do porco bísaro. Contrariamente ao porco ibérico, espécie que abunda por terras alentejanas e que se alimenta essencialmente de bolota num clima ameno, o porco bísaro come forragem e castanha durante todo o inverno. O meu avô dava-lhes também batata, grelos e maçã de refugo, mas a castanhita estava sempre presente. O resultado é um suíno mais encorpado do qual se extrai uma carne mais gorda, mas muito suculenta e saborosa. Cá para mim, sempre achei que o porco ibérico é para presunto e o porco bísaro é para enchidos.

Recordo-me daquelas manhãs de Fevereiro em que a minha mãe acendia a lareira e, num ritual de gestos simples e acolhedores, torrava o pão, trepava a um banco e com a ponta da navalha cortava o fio de uma alheira que depois ajeitava numa tenaz aberta sobre as brasas. Que àquela lhe pusera fé, dizia-me a sorrir, como se de uma intenção devota fosse aquele instante mascarado. Afinal, tão igual a tanto outros nos quais punha ela as mãos. Simples e acolhedoras O aroma inconfundível daquela massa de pão caseiro, carnes e azeite, invadia a cozinha e pairava, como um lento desmaio, na luz fria da geada fora de portas. O cheiro de uma alheira assada pela manhã, é como o cheiro do alho em azeite a escaldar: cheira a vitória. Dir-vos-ei que não é qualquer pão que faz uma alheira distinta – fabrica-se em fornos de lenha com fermento levedado, água, farinha de trigo e sal, corta-se, depois de cozido, em fatias grossas que posteriormente se embebedam na calda resultante da cozedura das carnes onde não deverá faltar, obrigatoriamente, a cabeça do reco. São esta pasta rica e aromática e as carnes desfiadas de porco e aves, a razão do prazer. Essas salsichadas que se encontram por aí, lisinhas como balões insuflados e apregoadas como sendo de Mirandela são, muitas vezes, um produto industrial de qualidade rasca. À falta de rotulagem ou de menção “Produto Específico”, desconfiai da tripa: tripa lisa é tripa plástica e o fumeiro transmontano leva tripa de porco, ou de vaca no caso da alheira. Quando pendurada em fila numa estaca cimeira junto à lareira, a alheira, a chouriça de carne ou o salpicão, pinga os primeiros dias, baba o excesso de gordura junto à camada externa da tripa. Depois, e por acção do calor seco e do fumo, vai ganhando uma coloração mais baça e acastanhada. A tripa vai gradualmente perdendo o seu brilho e engelhando aos contornos suaves do recheio da alheira, ou dos bordos salientes das carnes no caso do salpicão e da chouriça de carne. Tal como o vinho que amadurece em cascos de carvalho, essa metamorfose é a essência da cura, dos aromas secundários e dos sabores apurados do produto final. Na minha cozinha, quando os últimos pingos mirravam em gota colados à tripa e desapareciam, era o sinal exacto das primeiras alheiras assadas.

O salpicão é outra loiça, é outro enlevo. Diz-se que é o marisco do transmontano, mas a comparação é pobre e infeliz. Primeiro porque os frutos do mar não têm a devoção artesanal da mão do homem; segundo, porque se a frescura e a integridade ao palato do marisco depende, regra geral, de uma breve escaldadela em água, um punhado de sal e frio mantido, já o salpicão, esse, é elaborado com as carnes de lombo imaculado do porco que se submetem a um adoba de vinho tinto, alho, sal, louro e colorau. Só após é que os nacos de lombo impregnados até à alma com estes temperos primários são calcados para dentro de uma tripa de porco grossa e robusta quanto baste para amparar o embate. O que salta, depois da cura, é um delicadíssimo equilíbrio entre o sabor da carne avinhada e o aroma fumado do louro e do alho. Manjar finíssimo de corte à navalha para degustação entre amigos e camaradas de longas expedições.

Faz-se o fumeiro logo após a matança do porco, por alturas de Novembro a Janeiro quando os primeiros nevões assomam aos quintais e os estorninhos e os melros ficam cegos pela brancura alva da neve; a alheira pode pôr-se na brasa passadas algumas semanas, o recheio é fresco e evolui no calor, mas devem decorrer alguns meses até que se possa meter o dente nos primeiros salpicões. O Verão, os vastíssimos campos de trigo aloirado e as adegas frescas das aldeias de Penhas Juntas e Eiras Maiores, com aquele cheiro acamado a vinho tinto e pipas, são as melhores glorificações de um salpicão cortado em fatias generosas. A acompanhar, recomenda-se tão somente um pão escuro de centeio com côdea tosca e a estalar sobre a cantaria. (Não foi disto, de certeza, que tu morreste de overdose, Tonho... Sempre te disse que devias era meter porco para o sangue e não cavalo, meu grande bísaro!)

Ide por lá. Ide por Bragança, no Verão, quando as cerejas e as uvas “tomates de galo” amadurecem à sombra dos terraços, subi ao castelo que data do séc. XV e visitai a Domus Municipalis. Vereis que vale a pena. Se fordes em Maio, levai os miúdos à Feira das Cantarinhas. Mas se fordes na primeira semana de Fevereiro e passardes por Vinhais, acautelai-vos: o que aqui foi escrito e descrito, em nada se assemelha ou equivale ao que ireis saborear. Ide e depois me direis.

Só Quando As Vacas Vierem À Varanda..., por Bulawayo

Nas décadas seguintes à independência da madre britânica, a Rodésia manteve uma prosperidade económica e um crescimento inigualável em África. Mesmo após a mudança de regime para o actual Presidente Robert Mugabe, o renomeado Zimbabwe era um farol no meio da noite africana, com uma agricultura pujante, forte indústria e um centro de comércio e finanças que regionalmente rivalizava com a África do Sul branca.

Só que Robert Mugabe começou a temer perder o poder e entrou em delírio. O Velho entrou em roda livre e ninguém parece ser capaz de pôr termo à espiral. Começou por “africanizar” a agricultura expropriando todos os proprietários brancos e por tabela e consequência tudo o que era branco, rico, remediado, organizado ou com dois dedos de testa negra, branca ou mestiça fugiu como pode.

Hoje o Zimbabwe não existe para lá da vontade do seu presidente. Uma potência regional rica, financeira e exportadora, vive hoje da caridade da farinha que lhe vem de avião, tem 80% de desemprego, 144% de inflação e no meio das terras mais férteis de África morre-se de fome e desespero.

No livro “O Outono do Patriarca”, que demorou 14 anos a escrever a Gabriel García-Marquez, este descreve em fôlego contínuo – um bocado à maneira da torrente incessante dos pensamentos de Molly Bloom, no famoso capítulo 18 do Ulisses de James Joyce – o único mito global criado pela América do Sul: O Ditador.

No Ditador do Gabo, o povo só se convence da morte do mesmo - que ocorreu muito tempo antes - e só vence o medo da sua paranóia delirante, quando vê as vacas do palácio presidencial a ruminar à varanda. O Ditador estava morto e putrefacto há muitos dias e toda a gente sentia o cheiro, mas ninguém se atrevia a questionar a sua ordem estabelecida. Já o haviam feito antes e tinham-se dado mal.

Com Mugabe passa-se o mesmo. O Ditador está morto e putrefacto. Só continua a existir a sua paranóia alucinada que o levou agora a lançar a policia e o exército contra os bairros e cidades onde o seu partido não venceu nas últimas eleições, numa operação que chamou de “Murambatsvina” (Limpeza da Imundice), em que procedeu à demolição mais de 20.000 casas, prendeu mais de 30.000 pessoas e desalojou mais de 200.000 pessoas que neste momento dormem ao relento do inverno zimbabwano.

O povo está subjugado e aterrorizado. A comunidade internacional, regional e mundial, nada faz. Espera-se pacientemente que as vacas assomem à varanda…

15/06/05

Até Já, por Florbelo


Homenagem ao poeta Eugénio de Andrade, trocando apenas o Adeus,
que é o título do seu poema original
(http://omni.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/eugenio.andrade.html)
por um simples Até já
com todas as consequências que daí se retiram:

Até já.
Ainda não gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Não gastámos nada nem sequer o silêncio.
Não gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Não gastámos as mãos apesar da força com que as apertamos,
Não gastámos o relógio nem as pedras das esquinas
Apesar de tantas esperas inúteis.

Antigamente metia as mãos nas algibeiras e não encontrava nada;
mas agora temos tanto para dar um ao outro;
é como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dou mais tenho para te dar.
Às vezes tu dizes: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acredito.
Acredito,
porque ao teu lado
todas as coisas são possíveis.

Dantes os meus olhos eram apenas os meus olhos.
Era pouco mas era verdade,
uns olhos como todos os outros.
Agora é o tempo dos segredos,
o tempo em que o teu corpo é um aquário,
o tempo em que os meus olhos
são realmente peixes verdes.

Não gastámos as palavras.
Quando dantes dizia: meu amor,
não se passava absolutamente nada.
E no entanto, agora, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremecem
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Temos ainda tanto para dar.
Dentro de ti
Tudo me pede água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras não estão gastas.

Até já.

Lúcia e Cunhal, na hora do funeral!

Uma coisa é verdade: Lúcia teve mais malta no funeral. De resto, cada um se santifica à sua maneira.

14/06/05

Elogio Fúnebre, por Kzar

"Hoje lembramos um dia em que a Europa ficou mais pobre. Partiu um dos seus filhos mais notáveis. Um homem que abraçou uma causa, um ideal e foi com ele coerente, sem cedências, até ao seu último sopro de vida. Com um carisma assinalável, soube sempre congregar vontades e vastas massas seguiram-no na luta pelos seus princípios. Muitos dos que dele divergiram, até violentamente, enfrentando-o nas lutas ferozes que encetou, têm em todo o caso de reconhecer - e reconhecem - que foi um inimigo feroz da tirania comunista, na luta contra a qual comprometeu o essencial do seu poder.
Personalidade marcante do séc. XX europeu, grangeou um lugar indelével na História do velho continente e na das ideias, que agitou como poucos. Veterano da Grande Guerra, viveu em primeira mão a fervilhante agitação política dos anos 20 do século passado, integrou e fundou movimentos populares e de veteranos, participou em múltiplas acções de rua, conheceu o cárcere e, ainda assim, uniu o povo, chefiou um partido de massas e assumiu o poder numa Pátria grande mas destroçada e desmoralizada.
Veio a conduzir o seu povo contra quase tudo e quase todos, de rosto em frente, com inquebrantável tenacidade, mas entre os seus afazeres e a intensa actividade política e governativa que o consumiam, deixava ainda assomar a sua faceta delicadamente humana, legando-nos algumas pinturas que, não sendo geniais, são pelo menos de uma agradável quietude e nada brigam com os padrões mínimos da arte.
Resistente até à intransigência, sobreviveu a atentados e enfrentou incompreensão vinda de todos os quadrantes. Nunca cedeu e só a derrota inexorável dos que se colocam do lado errado da História acabou por levá-lo a escolher a morte, que infligiu a si próprio para que lha não pudessem impor os inimigos. Nunca concordámos com ele, mas a história política faz-se de todos os que combatem, e nela conseguiu por direito próprio o seu lugar, indelevelmente marcado.
Lembramos hoje o autor de "Mein Kampf", obra marcante em que procurou explicar a sua revolucionária visão da Europa."


Como parece evidente, o político/jornalista/escriba-intelectual-de-serviço que se lembrasse, com seriedade, de alinhar disparate obsceno e ultrajante como o que antecede seria vítima de tamanha carga de pau que nunca mais em dias de sua desprezível vida lhe ocorreria pegar na pena. E tenho para mim que em alguns países nem mesmo se safava de processo criminal. O clima de unanimismo "post-mortem" que nos últimos dias vivemos também lhe não havia de valer. Uma coisa é certa: não entrava mais nos areópagos da nação e o seu nome não tornava a ser repetido senão na companhia de indignados vitupérios.

Dando de barato essa prognosticável reacção, da qual não duvido por uma só fracção de segundo e que aliás acompanharia, fico sumamente intrigado com o referido unanimismo que nos tem assaltado o éter e as páginas da comunicação a propósito de uns seres passados recentemente. Já temo que algum sequaz dos nóveis defuntos, num assomo de entusiasmo, proponha a canonização respectiva. E pelo caminho que as coisas têm tomado, estou em crer que dentro de alguns anos poderiamos ver pelas igrejas e capelas da província e nas Sés das principais cidades, as pias imagens deles, em postura de seráfica candidez, eventualmente ao lado das de S. Martinho, todos fraternalmente rasgando capas a dividir pelos pobrezinhos... Quando menos, seguramente não nos vamos safar de algumas Ruas, Avenidas e Praças que por esse país fora passarão a ostentar, em agradecida denominação, a graça dos extintos.

Retomando o fio ao discurso, o dito unanimismo tem alguma explicação no facto de não ser inteiramente real. Pela larga maioria, as fontes de que em substância dimanam os encomiásticos e por vezes surpreendentes comentários são ora camaradas de partido, "compagnons de route" e "idiotas úteis" de todas as horas, ora néscios sentimentais ou por qualquer outra razão propensos a fazer coro - o resto são no mais cabeças ocas por onde ressoam quantas sandices sejam "correctas" segundo "l'ésprit du temps"...

Realmente estranho é que nem todos sejam dessas colheitas. Que o amigo Vasco Lourenço "fatigue a infâmia" (expressão de Jorge Luís Borges) "recordando" a democraticidade congénita dos camaradas Cunhal e Gonçalves, vá que não vá; já era de esperar e o mesmo pode dizer-se do espectáculo do jovem-Bernardino-líder-de-bancada ou da não-tão-jovem-nem-líder-Odete a conspurcarem conceitos como "liberdade" e "democracia" dizendo-os caros aos sobreditos falecidos personagens. O pornográfico espectáculo, que obviamente não é para levar a sério, junta-os com muitos outros actores de gabarito similar.

O que já causa mais do que desagradável surpresa é ver o bochechas a realçar o benfazejo papel daquelas ex-pessoas na democracia portuguesa! Pode não se gostar do homem (e é o meu caso), mas tem de reconhecer-se-lhe um papel fundamental (e a muitos títulos também positivo) na história recente da Pátria - um dos episódios desse papel, e decerto não o menos relevante, foi precisamente o de se opor à "democracia" proposta pelos recém fenecidos. Um tal estatuto impunha-lhe uma responsabilidade à altura da qual não soube estar e que era a de condenar sem tergiversações tudo aquilo que ambas as criaturas defenderam e praticaram em suas lastimáveis vidas. Valha a verdade, não foi o único, longe disso...

Neste contexto, cabe recordar - parece que é preciso - os saneamentos e perseguições várias, as nacionalizações, a "reforma agrária", as ocupações, enfim, um rol de malfeitorias que seria fastidioso enumerar com exaustividade mas que, depois de assim muito sumariamente referidas, creio estarem apesar de tudo acessíveis na memória da maioria da população.

E recordado isto, refira-se o essencial. Acaso aquelas odiosas ex-pessoas tivessem conseguido para Portugal e para os portugueses uma pequena parte do que consabidamente pretendiam, estaríamos hoje bem pior do que com um governo do Sócrates, do Santana e do Guterres juntos! No mínimo, estávamos parecidos com a Albânia. Fónix! A terra lhes pese como chumbo, porque para mim viveram mais (muito mais) do que seria desejável para o incremento da felicidade humana. E a morte deles fecha um capítulo, mas não basta para acertar contas.

Tal como tantos fdp mais que compõem a galeria de monstros abjectos que o socialismo copiosamente ofertou à humanidade (vêm-me logo à mente o Mau, o Estaline, o Pol Pot, o Ceausescu e o Kim, só no âmbito dos pretéritos, porque em matéria de ainda viventes restam uns quantos de boa estirpe...), aqueles de que aqui se cura participaram do Mal, foram rostos e mãos da Besta, e só numa coisa tiveram vantagem: não lograram um poder estável que lhes consentisse levar ao fim as bandidagens de que estavam furiosamente animados. Tal como todos os referidos e ainda aquele com que abri (o fdp Adolfo), o caminho por onde em vida andaram impede que gozem da tolerância em geral concedida aos mortos. Aliás, depois de mortos ainda é mais importante sublinhar o que foram, para tentar que fiquem mesmo extintos.

Pela minha parte, não lhes perdoo; e desprezo profundamente os que a mais de esquecerem ainda encontram ânimo de lhes ver os putativos aspectos positivos. É preciso lata.

11/06/05

Coluna Social, por Madame Butterfly

Durante esta semana o ilustre filósofo do PS, Manuel Maria Carrilho, apresentou a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Entre outros, o evento contou com a presença da esposa Bárbara e do rebento Dinis. Num vídeo os eleitores embevecidos podiam assistir às micro-façanhas do pequeno Dinis e aos seus passeios nas ruas da capital às cavalitas do papá. A mãe aparece derretida a compor o quadro de felicidade familiar e até confessou aos presentes que «o Dinis gostava de ver o papá presidente da câmara, não é Dinis?»…Como se tudo isto devesse ter relevância para a eleição do Presidente! Eu vi e não quis acreditar.

Noutras ocasiões, já li declarações de Carrilho em que este se confessa incomodado, revoltado, chocado, pela invasão da sua esfera privada pela imprensa. Já o vi defender violentamente o seu inquestionável direito à privacidade - não foi o mesmo Carrilho que há uns tempos atrás sacou da máquina a um paparazzi e a destruiu? Carrilho acerta na mouche quando denuncia este problema flagrante da tele-sociedade, da mistura entre o público e o privado. Reclama, com razão, sem dúvida, quando os media lhe devassam a intimidade, a sua e da sua esposa, e faz bem em defender-se com unhas e dentes.

Mas que dizer quando, como foi agora o caso, é ele próprio a misturar os planos e a trazer para o terreno do argumentário público e partidário, a própria família? E agora, quando não é o paparazzi a querer fixar na sua objectiva um naco sagrado da esfera privada, mas o político a misturá-los, deliberadamente, os planos pessoal e público?

É certo que o fenómeno não é novo na sociedade portuguesa. Estamos fartos de rir com cromos que num dia, quando dá jeito, abrem as suas casas à devassa da imprensa cor de rosa e, depois se queixam de que não têm privacidade quando as mesmas revistas chapam a foto comprometedora que não dava jeito nenhum, tirada algures numa discoteca perto de si. Ao misturar de uma forma tão inesperada a família no jogo político, Carrilho está a fazer exactamente o mesmo que esses desiludidos dos tablóides. Como é uma pessoa coerente, certamente não se virá queixar quando lhe voltarem a escarrapachar a sagrada privacidade nas páginas de uma Caras qualquer…

Mas mais estranha que a atitude de Carrilho neste caso, é a da comunicação social portuguesa. Ninguém aqui no Porco foi mais crítico do santana que o autor deste post. Mas conseguem imaginar o que não se escreveria se o mesmo santana se viesse apresentar numa candidatura pública acompanhado da namorada e dos seus 9 ou 10 ou 11 filhos ou lá o que é? Eu era capaz de escrever um post imaginário só de pensar nisso. Comparem com o tratamento dado agora a Carrilho. Parece que a nossa imprensa até achou graça, uma ternura, aquela família… Parece que, no fundo no fundo, também a esquerda portuguesa ( e a imprensa de esquerda) partilha da mitologia socialite mais própria da direita Quinta da Marinha portuga. O povo de esquerda também gosta de ter as suas famílias bem, ora essa…

09/06/05

"Bacalhau com Hortelã", Por Maria de Lurdes Automotora

Tem sido muito frequente, desde que o Tapornumporco existe, ser abordado na rua por desconhecidos que me reconhecem como um dos autores do blog. Confesso que tem sido agradável, mas ultimamente as pessoas têm-se dirigido a mim de forma agressiva, perguntando: “Então vocês, que tanto escrevem sobre comida e bebida, nunca se lembraram de fazer um post com uma receita de culinária?”. Bom, eu fico sem saber o que dizer e tento desviar a conversa: “E os jacarandás? O senhor já reparou nos jacarandás este ano? Olhe ali um atrás de si, olhe ali, rápido!” Não adianta…respondem-me sempre “quer-me parecer que vocês é só paleio…” e eu acabo por ter de fugir sob a ameaça de pedradas e chapeladas. É assim todo o santo dia, e tenho inclusive recebido imensas chamadas anónimas de húngaros aos gritos. Pois bem, é chegada então a altura de fazer um post de culinária apropriadamente chamado “receita de bacalhau com hortelã”, com uma receita de bacalhau com hortelã que já testei com muito sucesso.

“Receita de Bacalhau com Hortelã”

Esfrega-se um bacalhau com palha-de-aço até desfazer. Recolhem-se os pedaços do bacalhau assim desfeito e colocam-se numa panela. Põe-se a panela ao lume e deixa-se estar assim durante cerca de um quarto de hora em lume forte. Raspa-se então o bacalhau do fundo da panela com uma colher, coloca-se dentro de um alguidar de barro, junta-se natas frescas, duas cebolas e três folhas de eucalipto e põe-se ao sol durante três semanas. Findo esse período, coloca-se dentro do alguidar um raminho de coentros. Pequeno, um raminho pequeno. Em não se conseguindo arranjar raminho tão pequeno no mercado, à cautela não se colocam coentros. Deixa-se estar assim durante mais dois minutos ao sol, não mais, sob risco de as natas azedarem com o calor. É então a altura de encher o alguidar de água morna e colocá-lo ao lume. Passados dez minutos, enche-se até cima de massa de cotovelo de tamanho médio e tritura-se com uma varinha mágica, deitando ao mesmo tempo por cima, lentamente, um fiozinho de caramelo líquido. Enche-se de seguida o alguidar com licor beirão (um cálice), massa de tomate, um pouco de azeite, banha de porco, rosmaninho, hortelã, caril, açafrão. Sobretudo, não cair no erro, tão comum entre as donas de casa, de juntar torresmos. Não se conseguindo evitar, que se cortem pelos menos os caules e se raspem os pêlos. Mexe-se então um pouco e vai a alourar ao forno. Entretanto, à parte, vai-se esmagando duas gemas de ovo (ou múltiplos de dois) num almofariz (…). Retira-se o alguidar do forno quando se formar no cimo a habitual crostazinha e expõe-se durante quinze dias na mesa baixa da sala de estar. São curiosas as reacções das visitas, acreditem. Finalmente, serve-se. Para acompanhar, aconselhamos um Barca Velha, ou um qualquer outro vinho monoparental, misturado com licor de canela a dois terços. Há também quem goste de beber estreme o licor de canela, isto é, sem mistura. Para o gran finale, um pastel de Tentúgal, um Português Suave e uma cevada adoçada com drageias.

06/06/05

Um País Exótico, por AzulMagiar

Há dias na Antena 1, num programa de entrevistas a pessoas de rua dos novos países da União Europeia, dei comigo a estranhar a expressão repetida de dois húngaros que se referiam a Portugal como “um país exótico”. E repetiam a coisa, gostavam de Portugal por ser um país Exótico!

No Dicionário “Exótico” vem como aquilo que é estranho e extravagante. E dei comigo a pensar no que é que um húngaro viu por cá, para nos apelidar de exóticos. Concerteza, vieram cá de férias e a partir dessa massa imensa de Palmeiras de Rotundas concluíram pelo exotismo da coisa. África e Arábia à beira-mar plantada com os indígenas a comerem tâmaras.

Ia a pensar nisto, quando reparo no Jacarandá da esquina do Magistério Primário cá em Coimbra. Sempre o primeiro a florir em toda a cidade e este ano ali estava ele de novo. A floração mais pujante de toda a cidade, que conforme a força da luz do dia vai variando do “azul estonteante” para o roxo extravagante.

Ora se há alguma coisa de exótico cá em Portugal e com profusão são os Jacarandás. Não sei que especial ternura levou os velhos marinheiros colonizadores a trazerem os Jacarandás cá para Portugal, uma vez que a sua utilidade para além da beleza da sua floração, é relativamente diminuta. Certo é que a partir do Mato Grosso brasileiro, a gesta lusa espalhou o “azul estonteante” dos Jacarandás por todo este rectângulo. Se calhar os húngaros estiveram cá em Maio e Junho de visita a Coimbra ou Lisboa, e zás, país exótico! Lisboa então, tem uma imensidão de Jacarandás, apenas batida na Europa pelo oceano azulado de Sevilla.

Os Jacarandás aí estão em plena floração de um arroxeado lindo que nos faz distrair dos incómodos eucaliptos e dos plátanos daninhos. A floração durará cerca de um mês até finais de Junho e há que encher o olho. O olho e a alma.

Jantar da RS.T na Adega da Portela, Coimbra, no dia 5 de Junho de 2005

Aos cinco dias do mês de Junho de dois mil e cinco, reuniram os membros da RS.T na Adega da Portela, Coimbra, sob a presidência do seu mui venerável Grão Mestre, com a seguinte ordem de trabalhos:
1. Entradas: polvo ensalsado, azeitonas, queijo fresco, morcela e enchidos vários
2. Prova aberta de dois vinhos: um sul africano de nome esquisito com rolha de plástico, apresentado pelo Vasco e Ana e um Ensaios da Filipa Pato 2003, apresentado pela Bette Davis / Vivian Leigh / Lauren Bacall / Katharine Hepburn (riscar o que não interessa).
3. Alhada de cação
4. Arroz de línguas de bacalhau com línguas panadas
5. 41ª prova cega de tintos com a presentação de 6 (seis) magníficos vinhos.
7. Sobremesas e café
8. Outros assuntos

Iniciou-se o encontro com a presença dos seguintes confrades e convidados: Grunfo, partenère e rebento, Guida P., partenère e amiga de infância, Vasco e Ana M., Catherine Deneuve / Fanny Ardant /Angelina Jolie (riscar o que não corresponde à verdade), Gustavo e Carla, Sábio Ressabiado capitão de canoas-de-mar-e-guerra, Banderas (o verdadeiro, autêntico e genuíno Antonio Banderas, mas pode optar por: John Wayne, Kirk Douglas ou Jimmy Stewart), Sô Silva, Mangas e Moi. Registaram-se a s seguintes ausências: Bom ex-Mau (não confundir com Mau ex-Bom), impossibilitado de estar presente porque ficou em casa com duas louras muita giras, Xeko que mandou sms à última da hora a dizer que não ia e implorando que o deixassem pagar as despesas (súplica aceite, cabem emolumentos no valor total de 20 euros), Biçoso que deixou de ser totalista (é favor devolver o louvor e a respectiva moldura, principalmente a moldura), Nini não sei porquê, Tinóni que deve andar a aprender a mudar fraldas, Corneteiro e os já conhecidos desaparecidos em combate: Galgo, Nikki man, Ari Vatanen da Lousã, o Assis Pacheco de Pombal e o Espírito Santo da Mealhada.
Como ponto prévio, informamos que o jantar foi precedido de uma excursão canoística desde Penacova até à Portela, na qual não participei porque fui para uma breve e solitária jornada golfística ao campo da Curia.
Iniciou-se a reunião cerca das 20:00, dando cumprimento aos dois primeiros pontos da ordem de trabalhos ao mesmo tempo. As entradas estavam fraquitas (isto é, uma merdunça), o vinho sul-africano (cuja capital é Tshwane) tambérm me pareceu fraquito, embora agradável e o Ensaios 2003 é muito melhor do que o outro.
A Alhada de cação estava boa e o arroz de línguas excelente. Menção especial para as línguas panadas. Quantidade e qualidade a merecer um louvor ao organizador Banderas (oral e sem moldura que é mais barato)
Quanto à 41ª prova cega, apresentaram-se a concurso os seguintes tintos: «Adega Cooperativa de Portalegre reserva 99», Guida P.; «Calda Bordaleza 2003», Grunfo; «Casa Santos Lima Touriga Nacional 2003» (acho eu), Sábio; um Bordeaux esquisito cujo nome não recordo, apresentado pelo Gustavo, que estava marado e que ficou em último lugar; um Dão de nome esquisito de cujo nome também não me lembro mas estou a ver o rótulo e que foi apresentado pela Filipa, conquistando um honroso penúltimo lugar e, finalmente, um sexto vinho que eu agora não me lembro, nem sequer do rótulo e muito menos de quem o apresentou. Nem sequer faço ideia do lugar em que ficou, mas não interessa porque se interessasse eu lembrava-me.
A 41ª prova cega foi ganha pelo «Adega Cooperativa de Portalegre reserva 99» com a seguinte pontuação: Sábio -1, Sô Silva - 7, Mangas - 5, Joaquim d'Almeida himself, o autêntico e genuíno - 6, Grunfo - 6, Moi - 7, Catarina Eufémia - 5, Carla - 6, Vasco - 6, Ana Maria - 6, e depois então a panelinha com Guida - 9, Amiga da Guida - 9, e Marido da Guida - 8, maravilhosamente sincronizados. Até parecia natação sincronizada! No entanto, que a panelinha não desmereça ou desqualifique o vinho. O vinho é bom, ainda que não para notas tão elevadas como o 8 ou 9 (máxima) e é, com o aval da crítica, o melhor vinho vindo a concurso, por mais que isso custe ao Sábio que ficou relegado para o segundo lugar do podium, vendo assim adiada a conquista do campeonato para a próxima jornada.
O jantar não se encerrou sem as sobremesas (banais) e sem as discussões habituais. O sô Silva arrebatou o prémio «boca mais foleira», o Sábio ganhou o prémio «fair play» e a Guida leva o prémio «cordelinhos».
No fim, e incluído no último ponto da ordem de trabalhos, discutimos onde haveríamos de ir beber uma caipirinha e seguiram-se os trâmites habituais, a saber: a) Galeria? b) Tu és doido, é sempre Galeria; c) 'Bora ao Galeria d ) Espera lá, e se fôssemos antes à "x". Desta vez a variável "x" foi preenchida com o Irish Bar. Eu bebi um gin tónico que estava uma merdunça.

03/06/05

O Regresso do Aparelho Digestivo do Coelho

Há uns anos atrás o Miguel Sousa Tavares confessou numa das suas crónicas da imprensa um dos maiores traumas dos estudantes de liceu da sua geração. Nem mais nem menos, o facto de constar do programa da disciplina de Biologia do seu tempo, um capítulo inteiramente dedicado ao aparelho digestivo do coelho. Nessa altura chumbar-se ou passar-se, entrar-se ou não no curso pretendido, decidir um rumo na vida, dependia, em certa medida, de uma coisa simplesmente ridícula: de se saber com maior ou menor detalhe o funcionamento do aparelho digestivo do coelho!

É claro que esta bizarria durou até alguém de bom senso no Ministério da Educação se colocar a si próprio uma simples questão: porque é que um aluno que queria seguir literatura, por exemplo, ou direito ou engenharia tinha que conhecer a fundo o aparelho digestivo do coelho? Não seria o caso de alguém que decidisse ir para veterinário, obviamente, mas de um aluno do ensino geral…

Pois bem, para quem pensa que idiotices destas foram definitivamente banidas dos currículos dos miúdos dos 9º e 10º anos, eu tenho uma péssima notícia: o aparelho digestivo do coelho está de volta e em força, para infortúnio dos pobres dos alunos! Regressa é numa nova versão: desta vez chama-se T.I.C., que é como quem diz, Tecnologias da Informação e Comunicação.

Os governos anteriores do PS e do PSD decidiram, antecipando o actual Choque Tecnológico que aí vem, que é importante que as novas gerações possuam alguns conhecimentos sólidos acerca das, pomposamente designadas, Tecnologias da Comunicação e da Informação (eu acho sempre espantoso que o nosso futuro esteja nas mãos dos humores e das modas pedagógicas dos políticos que decidem em cada momento o que é importante que se aprenda e o que deixa de ser, mas enfim…). Afinal não queremos uma geração de analfabetos informáticos, o que está muito bem. Até aqui estamos todos de acordo: faz sentido uma disciplina que ensine aos putos o que é um PC, o Word, o Excel, a Net, enfim, essas coisas, hoje indispensáveis para muitos de nós que as aprendemos sozinhos.

Agora o que não faz qualquer sentido é que a disciplina se tenha tornado, na prática, num curso especializado de informática erradamente dirigido a miúdos de 14 e 15 anos. Percebe-se o que aconteceu: a clique técnica ligada à informática, pegou na ideia e, com vistas curtas e tecnicistas, toca a carregar em coisas tão imprescindíveis para um utilizador como Rams, Bus, motherboards, drives internas e externas, hertzs e caches… Enfim, puxaram para o que sabem, para a visão que têm dos computadores. Perdeu-se assim uma excelente oportunidade de constituir uma disciplina interessante, que deveria ser, por um lado, técnica – centrada na operacionalidade dos computadores – e, por outro, reflexiva – as questões da comunicação e da informação na sociedade contemporânea não se reduzem à utilização acrítica de um PC, este é só um meio não o fim em si.

No programa da disciplina de TIC lê-se que «tem como objectivo global promover a utilização generalizada das Tecnologias da Informação e Comunicação nos alunos do 9º e do 10º anos». «Utilização»... «Generalizada»... Percebe-se o que se pretende. Mas na prática os alunos a quem é suposto transmitir conhecimentos na óptica do utente têm que gramar com uma minudência tecnicista absolutamente supérflua.

A impressão que dá é que quem fez este programa pensou nos empregos da malta informática e não nos alunos. E os governos concordaram. Vejam-se os manuais da coisa: o que eu tenho em mãos – da Porto Editora – é um rochedo denso, pesado, graficamente carregado, com letra miudinha de meter medo para caber lá tudo.... 285 páginas de papel fininho, um mastodonte em todos os aspectos, gráfico, literário e literal. Pelo meio os alunos aprendem coisas tão importantes para a sua vida prática e até para a sua vida como utentes de um computador como, por exemplo:

- O interior de um PC (fundamental, nem sei como é que ainda consigo usar o Word sem conhecer o interior da carcaça que aqui tenho); A motherboard; O CPU; Memórias tipo ROM e tipo RAM (!!!!); O BUS; Plotters; Conectores VGA ou SVGA; Cores resolução 640X480 e outros números; Sistemas operativos dos tipos CLI, GUI, etc. Chips controladores; ROM BIOS; Dispositivos de conectividade a redes de computadores; Sistema operativo MS DOS (até tu…);Limpeza e desfragmentação de dicos; Redes LAN e WAN; Código binário.

Pelo meio os putos têm que responder a perguntas de capital importância como:

- «Descreva as principais sessões de uma motherboard, bem como as funções genéricas de cada uma dessas secções.»

Ou:

- «Apresente uma classificação dos principais meios de memórias secundárias utilizadas nos sistemas informáticos e compare-os entre si quanto a vantagens e desvantagens.»

Ora fónix! Pobres putos! Entendamo-nos – um programa deste tipo é igualzinho a qualquer um dos livros que por aí se compram nas estantes de informática. É dirigido a técnicos de informática e não a alunos que o não pretendem ser. Faria todo o sentido num curso específico com essa orientação; é absurdo, nestes moldes como componente geral dos 9º e 10º anos. De resto são os próprios alunos que têm que aturar esta estopada idiota que se queixam. Eu falei com alguns:

A Sofia: «É a mesma coisa que um tipo que quer tirar a carta de automóvel ser obrigado a saber a mecânica profunda do carro, a sua constituição pormenorizada, etc».
Bem visto, Sofia! Eu preciso de saber o código da estrada, de saber conduzir e de um mínimo de aspectos técnicos. Para problemas complicados chamo um técnico ou um mecânico, como acontece com o PC...

O João: «Baixei a média por causa desta seca. E o pior é que não percebo para que é que isto me serve.»

O Daniel: «Não me aquece nem me arrefece. Passo a vida no computador e o que sei para usar PC já o sabia antes. O que aprendo de novo não me interessa nada.»

E assim se matou, logo à nascença, uma oportunidade de criar uma disciplina que até poderia ter algum interesse. Os autores do «crime» foram os espertos que – com a conivência dos governos centrões - se encarregaram de a transformar numa inanidade. Daqui a alguns anos, certamente, um Miguel Sousa Tavares da altura escreverá nos jornais um artigo em que se lamentará dos tempos perdidos no liceu, quando o obrigaram a estudar este sucedâneo para as novas gerações do aparelho digestivo do coelho. Vai dizer que os coelhos do seu tempo têm a forma de máquinas electrónicas e órgãos com nomes esquisitos que são iniciais de palavras inglesas.

02/06/05

Apocalipse Now, por Ho Chi Minh

O Apocalipse Now é um dos meus filmes de culto. O Mestre, O Grande Mestre, Francis Ford Coppola arruinou-se para fazer este filme nos arrozais das Filipinas e filmou-o ao sabor da luz e da inspiração. Fez e refez todas as cenas até sentir que agora é que estava bem e ultrapassar todos os prazos, custos e multas. O Génio alterou sucessivamente a história e os diálogos até os actores darem em doidos. E ele próprio também.

Em pleno reino da loucura, de tudo aconteceu na epopeia apocalíptica. A personagem do Capitão Willard começou a ser filmada pelo Harvey Keitel, que a meio das filmagens saiu incompatibilizado com o Coppola sobre o rumo a dar à personagem. Para o substituir veio o Martin Sheen, que com os cornos cheios de drunfos levou com um ataque cardíaco a doer que o mandou seis semanas para o hospital, regressando depois às filmagens. O Marlon Brando apresentou-se gordo que nem um texugo e sem qualquer preparação sobre os textos para os quais se estava marimbando a não ser como leve inspiração. Na maioria das falas o homem balbucia e nem sequer se percebe o que diz. Houve muita gente que depois confessou que esteve a uma unha de lhe ir aos cornos. Completamente marado dos ditos, andou sempre o Dennis Hopper que exigia à sua disposição uma dose de coca fornecida pela produção. O Presidente Ferdinand Marcos das Filipinas emprestou os helicópteros do exército ao Coppola e a meio das filmagens teve que lhos tirar porque estalou a guerra civil. Para ajudar à festa o local das filmagens levou com um dos piores furacões da história das Filipinas. As 4 semanas previstas nas Filipinas transformaram-se em 16, o orçamento dobrou e obrigou à falência da Zoetrope e à hipoteca dos bens pessoais do Coppola. Como piada Hollywood chamou-lhe Apocalipse Late.

Mas os problemas não acabaram com o fim das filmagens em 1977. Com mais de 4 horas de filme a distribuidora recusou-se a distribuir a odisseia e Francis Ford Coppola viu-se “obrigado” a cortar o filme para as 2 horas e meia. Este “obrigado” e a extensão ou a força dele logo passaram a ser objecto de larga discussão.

A polémica instalou-se com muita gente a questionar-se sobre o quanto é que - daqueles 150 minutos de puro génio – se devia à arte do Coppola e quanto é que se devia à manigância comercial da distribuidora ao pressionar ou condicionar a extensão dos cortes, da montagem e da edição.

Na senda deste filão, surgiu há pouco o Apocalipse Now Redux. Esta é supostamente a versão integral do Coppola. Aquela que seria exibida se a distribuidora não lhe tivesse imposto condições. Pode ser assim, de facto, mas há uma coisa que nunca saberemos. Com tempo e vagar, até que ponto a sabedoria do Mestre não iria ela própria desatar a cortar muito daquilo que agora na versão Redux nos enfiam pela goela abaixo como “este é que é o verdadeiro Apocalipse Now”! Isto é, se o Mestre tivesse tempo e dinheiro para editar, será que seria esta versão Redux, aquilo que veríamos?

Não o creio. Esta versão Redux é um esterco. Um nojo. Para quem conhece minimamente o Mestre, nomeadamente dos Padrinhos, sabe que o Mestre não deixa o ritmo do filme por mãos alheias, que as personagens têm sempre um carisma e uma força extraordinárias, que obra jamais será chata, amorfa, pegajosa. E isso, é o que é o Redux. Quem não viu a versão Redux, não a veja agora, fuja daquilo como o diabo da cruz e conserve na memória o velho Apocalipse Now!

O arrepiante e demencial Apocalipse Now original, criou uma das personagens do cinema mais memoráveis de sempre, como é o caso do Coronel Kilgore do actor Robert Duvall, que tem ali o papel da vida dele. No Redux esse monstro sagrado - com todas as cenas adicionais - passa a palhonço idiota que desbarata meios infindos do exército na procura de uma prancha de surf que lhe roubaram. As coelhinhas da Playboy que só aparecem fugazmente no original, num toque sublime de anacronismo do espectáculo dentro do espectáculo que é a guerra, passam no Redux a putas de mato que se vendem por qualquer coisa até darem em galinhas doidas. No Redux, são ainda enxertadas à marretada as cenas infindas da plantação de franceses, que num tédio idiota se prolongam em explicações de politica e história local e conjuntural, quando o Apocalipse original é precisamente o contrário disso. É uma descida ao horror intemporal, ao lado negro do coração humano, uma história de valor eterno porque se debruça sobre a mente humana e os seus rios sinuosos e jamais uma lição de moral politico-histórica que data e apouca o filme.

Morte ao Redux. The Horror, The Horror!

01/06/05

Buenos Aires, por Zona J

Companheiros! Andava às ostras e encontrei uma pérola! Está bem que alguns dirão, “só agora?”, mas deixem-me partilhar este momento de descoberta convosco: Kevin Johansen é o nome da criatura bendita. É músico e para quem gosta de súmulas é uma espécie de Manu Chau argentino, muito menos festivo e militante, muito mais cool, mais Tango e muito british. Manu Chau talvez apenas no sentido da pluralidade de referências musicais (culturais) que por este som perpassam. Neste sentido até seria mais legítima a comparação com Caetano Veloso, outro homem do mundo. É simplesmente genial, este Kevin Johansen, e de facto lamento só agora ter dado com o homem. Um som elegante, esclarecido e maduro como já não ouvia desde os melhores tempos do Elvis Costelo e outros grandes song writers. O ecletismo do artista é facilmente explicado pelo seu percurso de vida: Nasceu, nada menos, que no Alaska (Fairbanks) e cresceu na capital Argentina desde os 12 anos. O pai é norte-americano e a mãe é argentina e desde puto que anda nas andanças dos roques, primeiro em bandas na terra da Patagónia, depois em Nova Iorque, onde se instalou em 1990, numa tentativa de redescobrir as raízes ianques. Aí, mergulhou de cabeça na cena alternativa fervilhante da Big Apple e acabou a tocar regularmente na catedral CBGB. Hoje, desde há cinco anos, vive a trabalha novamente em Buenos Aires. Está tudo aqui. E a música (E as letras!), vale mesmo a pena uma visita atenta. O álbum que me está a apaixonar agora é o Sur o No Sur. Se começarem por aí não se arrependem. Mas já agora, o último chama-se City Zen.