30/09/05

Morreu Antunes Varela, por Cap. Haddock

Morreu Antunes Varela. Li algumas notícias em jornais sobre a sua morte com pequenas referências ao seu passado. Há de facto uma ligação de Antunes Varela ao Governo de Salazar, mas nem isso dá o mínimo de sombra à sua obra e às suas imensas capacidades.Testemunho-o na qualidade de aluno. Era um grande mestre, sabia ensinar, sabia escrever, sabia muito, mesmo muito de direito, e quando foi responsável pelo processo civil Português tinhamos de facto uma legislação boa, pensada, lógica, segura e útil.Depois dele só vi mediocridade assente em curiosos cola cartazes licenciados em Direito que vomitaram e cagaram leis sem nexo, a atropelarem-se e pior, a atropelar os direitos dos cidadãos. Junto a Antunes Varela o actual ministro da justiça não existe nem é nada, e pior, não sabe nada!.Notem bem que ninguém coloca em causa o mérito profissional e as capacidades do jurista Antunes Varela, independentemente de preferências politicas. São assim os grandes e insignes homens e neste caso as suas qualidades permitiam-lhe distinguir preferências politicas (interesses pessoais) das necessidades do Estado e de um país, coisa que os actuais pseudo governantes não sabem, uma vez que navegam ao sabor do interesse politico do partido a que pertencem, são portanto pessoas medíocres e governantes incompetentes.Aliás, lamento mesmo muito que uma cidade dê o nome de um estádio a um jogador de futebol novo, vivo e que nada fez pela cidade e quase se recuse a colocar um busto do Mestre num Tribunal, mais um acto vergonhoso de idiotas vestidos de políticos.O homem morreu há dois dias e já se sentem saudades da sua competência, tal é o vazio deste governo do Portugal dos Pequeninos…


Nota: este post foi colocado a partir de um comentário do capitão Haddock, sem que ele fosse consultado. O Administrapor é que achou o comentário digno de ser publicado como homenagem a um homem inteligente, culto e com currículo académico. Injustiçado, morre anónimo. Prova disso, é que a foto minúscula que ilustra este post é a ÚNICA que se pode encontrar na net. Quer dizer, a net tem milhões de putas e não tem espaço para um catedrático de Direito? É o Putapower! O Poder é das Putas!

29/09/05

Que fez este homem para ser o Primeiro Ministro de Portugal?, por Oxford

Nada. A carreira, quer profissional quer académica, do primeiro-ministro de Portugal é de uma pobreza verdadeiramente franciscana. No insuspeito site do governo pode ler-se, em poucas linhas, o curriculum do engenheiro. Nele se diz que o homem nasceu em 1957 numa aldeia do distrito de Vila Real. E logo a seguir escreve-se:

- Engenheiro Civil.

- Pós-graduado em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública.

O resto não interessa muito. Trata-se da descrição da carreira política de um homem que subiu no aparelho do PS (com uma deriva pela JSD convenientemente apagada do curriculo apresentado no site do Governo): os habituais cargos, para-cargos, cargozinhos, assessorias e adjuntices de quem faz da política profissão… O clássico percurso do «jota» que começa a colar cartazes e a organizar sardinhadas pró candidato a presidente da junta da terra e vai subindo, subindo, até que atinge um lugar que satisfaz a sua maior ou menor ambição(desmesurada neste caso). Déjá-vu...

Quanto ao curriculum profissional, pura e simplesmente não existe. Este homem nunca fez nada, zero, nicles nem na sua área de formação nem noutra qualquer, para além de acumular cargos políticos que sabemos todos como é que se alcançam.

Mas repare-se no pormenor do curriculum académico da criatura. A escola onde o engenheiro tirou a sua «pós-graduação» aparece mencionada no site oficial do governo, mas é omitida a escola onde se licenciou em Engenharia Civil. Porquê?Terá o engenheiro tirado a sua licenciatura nalguma universidade Colombiana da qual não tenha orgulho em referir o nome? Ingratidão? Esquecimento dos responsáveis do site? Mistério…

Se vos disser que o engenheiro tirou o curso em Coimbra, numa escola – o ISEC – que gozava da reputação, nesta cidade, de ser frequentada por alunos de fracas médias, isso ajudará a explicar a omissão? Não sei. O que sei é que os melhores alunos, por aqui, quando querem tirar um curso de engenharia, tiram-no na Universidade de Coimbra e não no ISEC. O que sei é que, para além da carreira de rapaz-político-profissional – ziguezagueante, com um D a mais, ainda assim - , parece que o engenheiro não teria ido muito longe se, na política, contasse para alguma coisa a carreira académica e o curriculo profissional das pessoas. É triste que Portugal seja governado por gente assim. Mas infelizmente é verdade.

Ainda e Sempre: Juan Rulfo, por Alquimista

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A Fórmula Secreta (excerto)
(…)
Embora saibamos bem
que nem ardendo em brasas
nos pegará a sorte.

Porém somos porfiados.
Talvez isto tenha conserto.
O mundo está inundado de gente como nós,
de muita gente como nós.
E alguém tem de ouvir-nos,
alguém e mais alguns,
ainda que neles rebentem ou ressaltem os nossos gritos.

Não é que sejamos soberbos,
nem que estejamos a pedir esmolas à lua.
Nem está no nosso caminho procurar depressa o casebre
Ou arrancar para o monte
De cada vez que nos anavalham os cães.

Alguém terá de nos ouvir.

Quando deixamos de grunhir como vespas num enxame,
ou nos tornamos cauda de remoinho
ou quando acabarmos por escorrer sobre a terra
como um relâmpago de mortos,
então
Talvez chegue a todos o remédio.
(…)

Excerto de poema de Juan Rulfo, escritor mexicano, retirado de “O Galo de Ouro e outros Textos Dispersos”, edição da Cavalo de Ferro, na qual se podem encontrar por aí também, o único romance de Rulfo, o “Pedro Páramo” e a colectânea de contos “A Planície Em Chamas”. São pequenos, baratos e imperdíveis. Duas Obras Primas.

Termino com um excerto delicioso do prefácio de Gabriel García Marquez, no “Galo de Ouro”:

(…)
“ – Leia isto, carago, para que aprenda!
Era Pedro Páramo.
Nessa noite não consegui adormecer enquanto não terminei a segunda leitura. Nunca, desde a noite tremenda em que li a Metamorfose de Kafka numa lúgubre pensão de estudantes em Bogotá – quase dez anos antes -, eu sofrera semelhante comoção. No dia seguinte, li A Planície Em Chamas e o assombro permaneceu intacto. (…) Durante o resto daquele ano não consegui ler nenhum outro autor, porque todos me pareciam menores.”

Rulfo, já antes tinha merecido um Post no Porco. Podem ver nos arquivos.

28/09/05

Holandês Voador, por José Augusto

Prevísivel onze de Koeman para o próximo jogo do Glorioso - vamos jogar num criativo e ultra-moderno 1-6-3 com os seguintes jogadores:

Baliza – Moreira;

Defesas – Hélio Roque e Simão.

Médios ala direito e esquerdo – Luisão e Ricardo Rocha.

Médios centro – Beto, Nuno Gomes, Léo e Alcides.

Avançados – Dos Santos e Ricardo Rocha.

Substituições – Na segunda parte o Moreira vai para avançado e entra o Mantorras para guarda redes.

Ninguém para o Koeman! Nem o Benfica…

27/09/05

Harry Reems, Ode A Um Herói Desconhecido, por Herb Streicher

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Conhecem o homem da foto? Não? Pois, já sabia que não! E isso é grave, muito grave, porque todos nós devemos muito a este homem. Este homem é um herói. Este homem é Harry Reems, o que, até aposto, continua a não lhes dizer nada. Grave, muito grave, mesmo!

Harry Reems é um Resistente. Foi à luta e acabou por se lixar, como mexilhão. Como se vê na foto. Foi preso, condenado a 5 anos de prisão e obrigado a desencadear uma das maiores batalhas legais das Américas. Arruinou-se, deu em bêbado, mas nunca desistiu da sua luta. E tudo isto para que todos nós possamos hoje ver filmes libertários e libertinos em plena liberdade. Reems foi um lutador e um mártir. Foi condenado a 5 anos de prisão maior em nome de todos nós. Um segundo Jesus Cristo. Sacrificou-se por nós. Amén.

Para que se saiba e ajoelhe, Harry Reems é o homem que contracenou com a Linda Boreman no Garganta Funda. Não a conseguiu fazer engasgar, mas engasgou-se ele com avalanche moralista que procurou combater o filme que alcançou a sua condenação por conduta obscena a 5 anos de prisão maior.

O engraçado da questão é que a grande protagonista do Garganta Funda é a Linda Lovelace e as suas habilidades de garganta. Mas quem se lixou foi o mexilhão, o pobre do Harry. É claro que, para a horda defensora da moral e dos bons costumes, era impensável prender a cachopa, embora o número de circo passasse por ela e quase só por ela. Só que prendê-la a ela, era um bocado como prender o Leão e deixar seguir o Domador. O Leão continuou a rugir com força e o homem do pingalim passou a ver o sol aos quadradinhos. O circo seguiu em frente mas com pingalins diferentes. A horda de selvagens que perseguiu e condenou o artista, correu em massa a todas as salas onde o circo se instalou. Foi a primeira vez que um actor de cinema foi preso por causa da distribuição de um filme. Tá bem que chamar actor ao Harry é um bocado forçado, mas porra, que o homem era esforçado lá isso era.

Harry Reems nem sequer soube o que lhe aconteceu. Por isso tem mais valor ainda o seu apostolado anónimo. Harry era um mero assistente de produção no Garganta Funda, mas naquele dia o actor principal sumiu-se. E aí chamaram o bom do Harry, pagaram-lhe uns míseros dólares para o fazer entrar na jaula, desapertaram-lhe a braguilha e o homem afundou-se naquela garganta sem fundo. Quando deu por si e voltou à tona, já estava com a mona na pildra. Cá fora o Garganta Funda prosseguia a sua cavalgada triunfal. Harry Reems merece um busto em cada cinema e em cada clube de vídeo deste planeta. Harry Reems e o seu bigode farfalhudo mereciam um poster de face sombreada a olhar o futuro em cada quarto de adolescente, à la Che Guevara. Viva Harry Reems! Um lutador da Liberdade!

26/09/05

Jorge Costa, Um Grande Escritor Português, por Derviche

Meia volta anda por aqui um tal de Alquimista e outras almas penadas, com uns posts sobre escritores e livralhada. Ora, no meio de tanta e exagerada paginação, parece-me que é falta grave a pedir mesmo umas boas mocadas de Rio Maior, esquecer o actual líder de vendas neste país.

Jorge Costa bate e bateu quase todos os records. O seu livro vende como papo-secos. Ainda hoje continua como segundo livro mais vendido nos escaparates. Não reconhecer a escrita deste homem, é passar ao lado de um mestre.

Até o nosso Lampadinha se vergou à mestria do verbo, elogiou o livro, fez dedicatória e sempre atento às grandes questões deste país, fez questão de receber o novel escritor, destacando até que o livro era “uma obra bonita e de boa apresentação.”

Ora, assim sendo de que é que estão à espera para comprar o livro do nosso Jorge Costa. A capa é muito bonita, decorada inclusive com relevos. Predominam os tons de azul, embora com um gosto severo e aristocrático. Por sua vez, a lombada é bem forte, o que aliado ao volume da obra, leva a que livro tenha muitas outras utilidades além da mera leitura. O interior é recheado com muitas fotografias e algumas palavrinhas bem distribuídas com peso, conta e medida

O livro é “O Capitão” e o seu ilustre autor - à saída da recepção que o nosso Lampadinha lhe concedeu - elucidou emocionado o país e o comité Nobel: “Isto não é para todos”, “Isto é um sinal de que minha carreira não passa despercebida, revelando, também, que tenho feito algo de importante.”

23/09/05

Parintins E O Bumba Meu Boi, por Kazinha

Este Post foi gentilmente cedido ao Porco por Kazinha

Boi de Parintins

Parintins
Situada na Ilha de Tupinambarana, à margem direita do rio Amazonas, a 420 quilômetros de Manaus e quase na fronteira com o estado do Pará, Parintins, hoje com cerca de 80.000 habitantes, é uma simpática e agradável cidade média do interior amazonense. Uma vez por ano, no mês de junho Parintins se transforma em um caldeirão de tradições, música e turismo. É o FESTIVAL FOLCLÓRICO DE PARINTINS, que divide moradores e visitantes em duas cores e paixões: o vermelho, que representa o boi-bumbá Garantido, e o azul, que marca o lado do boi Caprichoso.

A rivalidade é ferrenha, mas sempre respeitando a cordialidade. Tanto que os integrantes de Caprichoso, ou Garantido, limitam-se a chamar o rival de "contrário". E para abrilhantar a festa, a cidade de 80 mil habitantes mais que dobra de tamanho, ficando com mais de 100 mil pessoas entre Parintinenses e turistas.

Boi Caprichoso













Boi Garantido










o Bumbódromo

No Bumbódromo, cada Boi se apresenta durante 3 horas nos três dias de festival. A ordem das apresentações é sempre definida por sorteio. O que encanta a todos são as alegorias luxuosas, os fogos e tudo o que eles fazem para dar vida as lendas contadas por Caprichoso e Garantido

São nove da noite, o apresentador do Boi cumprimenta a platéia (o próximo Boi irá se apresentar por volta da meia-noite). Em seguida a toada começa a incendiar a arena. E o Bumbódromo literalmente treme.


Bumbódromo de Parintins






A Música


O espetáculo acontece ao som dos tambores - levado por mais de 400 ritimistas- e de ao menos uma dezena de toadas, sempre acompanhada pela galera do boi que está se apresentando. Toada é o nome da canção dos bumbás.


O espetáculo grandioso

Nas três noites do Festival, Caprichoso e Garantido se apresentam, durante três horas cada um, para aproximadamente 40.000 espectadores. São 2.500 brincantes em cada Boi que desenrolam uma estória pontuada com figurinos requintados, alegorias complexas e gigantescas, lendas exóticas e personagens amazônicos. E, nos dois lados do bumbódromo, as duas animadíssimas e incansáveis torcidas participam do espetáculo: a vermelha, do Garantido e a azul, do Caprichoso. Chamadas de "galeras", têm uma função toda especial: seu desempenho é fundamental na contagem dos pontos da apresentação; elas participam de ensaios e fazem um show à parte. Quando é o seu Boi que está se apresentando, treme aquela metade do Bumbódromo, enquanto a torcida "contrária" fica no mais respeitoso silêncio.


A animação das galeras

A torcida de cada boi recebe o nome de GALERA, e forma um espetáculo delirante durante as 03 horas de apresentação de cada boi, cantando (gritando), dançando com movimentos expressivos e conjuntos usando adereços de mão, distribuídos em kits antes de cada apresentação. A animação da galera vale ponto no momento da apuração final, portanto eles tem que dar o melhor de si a cada dia de apresentação.
Eles fazem coro na hora de cantar as toadas.






Não pode vaiar, gritar e nem xingar, tem que ficar calado durante a apresentação do boi contrário, sob pena de perder pontos. Tem toadas, que são músicas criadas exclusivas dos dois bois para suas galeras. É UM ESPETÁCULO A PARTE!!

Eu particularmente sou uma torcedora FANÁTICA, quando a marujada e o Caprichoso entram na arena eu não sei se grito, canto ou choro, É EMOCÃO PURA!!









Galera do boi Caprichoso
















Galera do boi Garantido














Opinião pessoal:


Expressar em um post toda emoção que se vive em Parintins realmente pode até ser uma coisa sem entendimento, principalmente para quem não conhece a festa. Para ser sincera só sabe o que se vive na Ilha da Alegria quem para lá vai, fui a primeira vez com 15 anos e quando entrei na arena pensei que fosse morrer de tanta emoção e confesso que ainda não passei por outra emoção maior que essa, passei anos sem ir a Parintins, mas a cada ano que vou aquela emoção dos meus 15 anos me visita novamente.









Como diria Pedro : “Não tem preço sentir o azul do Caprichoso e o vermelho do Garantido, se sentir no meio de uma rivalidade ímpar, onde um adversário respeita o outro, pois como yin e yang, um não existe sem o outro. Não tem preço estar num lugar onde as pessoas, mesmo contrárias na paixão, sabem deixar as diferenças de lado pra juntos curtirem o som das toadas que emanam dos carros, das casas, das praças; com provocações, mas sem brigas; sentir que as pessoas que ali estão querem brincar, se divertir, voltar a ser criança, sair da realidade, num sonho chamado Parintins. Troque sua dúvida pela emoção e seja mais um a dizer VALE A PENA!!”

Aguardo vocês o ano que vem em Parintins para conhecerem não só o meu touro negro como o boi contrário!!

Site recomendado : http://www.pontodevista.com/gale_f.htm

22/09/05

“O Código Malhoa”, por Eleutério Brown

Ó Freitas, apareceu um homem morto no Museu José Malhoa, junto àquele quadro… - “Os Bêbados”, chefe? - Sim, sim… Vá lá e leve a Gisela, a nossa criptógrafa.- E não haverá mais ninguém de turno hoje para tomar conta do sucedido, chefe? Falta-me tão pouco para a reforma… – Eu sei, Freitas, eu sei… mas este é o nosso trabalho. Coragem, homem.

Cá estamos, Gisela. Ora então, os “Bêbados”. Já sinto arrepios… Nunca se soube porque é que aquele bêbado do centro está a sorrir, pois não? – Não…o próprio Malhoa sempre foi muito evasivo nos escritos que deixou acerca do quadro. E quem tentou investigar…. coitado do Cardoso... - Gisela, esta não é a altura para reabrir feridas. Coragem! Repara, está um pedaço de pano cozido ao colarinho do casaco do morto! Diz assim: “Lavar a 50 graus”. O que é que isto significa, rapariga? - Hhhmmmm, é claramente uma coordenada para localização de alguém. - O Lavar, claro… - Não, não, desconfio que o nome desse francês é para despistar. Conheço a técnica. Numa célebre investigação que dirigi nos Estados Unidos, sobre um assassinato junto a uma reprodução dos “Bêbados” no Metropolitan Museum, encontrei no colarinho do morto uma inscrição semelhante que dizia “Wash at 50 degrees”. Subi rapidamente os cinquenta degraus para encontrar o tal Wash, e acabei por encontrar um indivíduo com outro nome. Ainda hoje, no corredor da morte, o tipo nega que tenha cometido o crime. Bom, aqui a pista está concerteza no quadro. Traçando o tal ângulo de cinquenta graus em relação ao quadro, verificamos que a linha caí em cima do terceiro bêbado a contar da direita, o de bigode… repare, repare! O homem do sorriso está mesmo por detrás dele! Começo a perceber tudo… E veja também que a linha do bigode do homem faz um ângulo de vinte graus! - Cuidado, Gisela, estamos a entrar em terreno movediço. Vamo-nos esconder naquela arrecadação!... Já podemos sair, chefe? Sim, mas com cautela. Agora vamos ver um mapa da cidade…hhhmmm…Traçando uma linha de vinte graus desde o bigode vamos ter à sede do Grupo Onomástico “Os Josés” - Vamos lá então, mas com cautela.

Boa tarde. - Boa tarde, trazem moedas para a troca? - Moedas? - Claro, não está a ver alí escrito “grupo onomástico”? – Pensávamos que era uma ordem onomástica. Queriamos entrar em recolhimento espiritual. Mas porquê “Os Josés”, já agora? - Olhe, só o fundador é que lhe podia explicar isso, mas morreu antes da primeira reunião. Por uma qualquer estranha razão, todos os que convocou se chamavam José. - Isso é suspeito… Gisela, vamo-nos esconder naquele beco!...- Já podemos sair, chefe? - Sim, mas com cautela. Vamos voltar ao interrogatório. Psst, olhe lá, como é que morreu o vosso fundador? - Foi atropelado por um bêbedo. - Esse bêbado tinha um chapéu de abas largas amarrotado? - Por acaso, tinha. - Se vir a fotografia dele, é capaz de o reconhecer? – Talvez. - Veja então esta reprodução do quadro "Os Bêbados”, do pintor Malhoa. – Tenho mesmo que olhar para esse quadro? Cada vez que olho para ele, sinto uma pancada forte na nuca e fico inconsciente. - Não se preocupe, estamos aqui para o proteger. - Hhhmmm… quem atropelou o nosso fundador foi aquele bêbado da esquerda. Se quiserem falar com ele, vão ali ao lado, ao Grupo Onomástico “Os Mários”, uma agremiação de apoio aos asmáticos. É o senhor Mário, o fundador do grupo.

Boa tarde, o senhor Mário está? - Não, foi ontem ver os “Bêbados”, do Malhoa, e ainda não voltou. Estamos preocupados porque se esqueceu cá da bomba para as crises de asma. - E isso tem acontecido muito? - Desculpe, não posso dizer-lhe mais nada. Compreendam... E agora vão-se embora, por favor. Tenho a vida em risco. Se quiserem saber mais alguma coisa, vão a este endereço. É uma pequena capela gótica em ruinas na Escócia.

(Continua. Vai-se descobrir nos próximos capitulos que o Freitas é afinal o pai da Gisela; que o Chefe é na verdade o mandante do crime e que o Malhoa afinal sabia muito mais do que aquilo que contou, nomeadamente que a Gioconda casou secretamente com o bêbado do centro, que é o Freitas, filho do senhor José, e que vivem os dois em parte incerta na serra da Lousã, na pequena aldeia do Candal, junto ao moinho de água, onde se dedicam à produção de licor de urtigas, cujo segredo é, afinal, o motivo pelo qual tantas pessoas têm sido mortas ao longo dos anos junto ao quadro, que retrata na verdade uma prova cega de whiskies, o que justifica a referencia à tal capela na Escócia, como se vai ver).

21/09/05

Bruce Chatwin E Os Trilhos do Canto, por Alquimista

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Bruce Chatwin é puro prazer. Ler os contos, as histórias, recolhas e vivências do Na Patagónia é entrar num mundo místico, de viagem, paisagens e gentes. O Na Patagónia mastiga-se e saboreia-se. Este livro é segundo muitos a obra maior de Bruce Chatwin. Para mim não é. Obra maior ainda, grandiosa, a raiar mesmo a pura poesia, essa é O Canto Nómada, que desce sobre o mundo Aborígene australiano.

Bruce Chatwin era um perito de sucesso da Sotheby`s de Londres, especializado em pintura moderna. Numa manhã, com vinte e tal anos, acordou meio cego e foi ao médico, que lhe disse que aquilo era apenas enevoado e que era o resultado de andar a exigir demasiado dos olhos ao examinar os quadros com minúcia. No dia seguinte, Chatwin largou tudo e todos e voou para o Sudão, em África. E nunca mais pôs os pés na Europa. Depois de África, das estepes Russas, da Patagónia, da Austrália e de outras paragens remotas, a morte veio encontrá-lo na China em 1989 e com apenas 49 anos, tendo partido de novo vitima de um vírus tropical.

Na Austrália e com o Canto Nómada, Bruce Chatwin descobre a cultura Aborígene e os seus Trilhos do Canto, ou Pistas do Sonho. Aí, junto com o russo Akadi Volchok - do qual Salman Rushdie nega a existência e identifica com o próprio Chatwin -, procede ao levantamento dos Trilhos do Canto.

Não é fácil definir os Trilhos do Canto. Obviamente e como o nome diz são caminhos cantados e isso encerra a sua própria definição. Cada indivíduo aborígene, cada família e cada clã têm o seu trilho do canto. O seu próprio caminho. Um percurso na paisagem que é cantado nas suas marcas geográficas, e que se encadeiam uns nos outros. O trilho de um individuo pode ter 100 ou 500 km de comprimento e encaixa-se no trilho da família que por sua vez continua e se encaixa no trilho do clã. Os Trilhos do Canto, “são um labirinto de caminhos invisíveis que percorrem todo o território australiano (…), toda a Austrália poderia ser lida como uma partitura. Dificilmente se encontrava um rochedo ou riacho que não pudesse ser ou não tivesse sido cantado. Os trilhos do canto poderiam talvez ser visualizados como um prato de macarrão composto de várias Ilíadas e Odisseias, torcidas para um lado e para o outro, em que cada episódio fosse legível em termos de geologia.”

“(…) os brancos, cometiam o mesmo erro: julgavam que os Aborígenes não possuíam um sistema fundiário porque eram nómadas. Isso era um disparate. Era verdade que os Aborígenes não podiam imaginar um determinado território como um bloco de terras limitado por fronteiras, mas sim como uma rede emaranhada de “trilhos” ou passagens. (…) e não faltava terra a ninguém, pois todos herdavam como propriedade privada um pedaço do canto do Antepassado e o lote de terreno por onde o canto passava. Os versos de um homem eram o seu título de propriedade. (…) Cantar um verso fora de ordem (…) era um crime. Punível normalmente, com a pena de morte.”

Chatwin estudou, percorreu e fez o levantamento de muitos Trilhos do Canto e respectivos donos e clãs. No olhar e encantamento do Chatwin perpassa uma simpatia pela alma Aborígene que jamais comoveu o branco australiano, que até com bombas atómicas de ensaio os foi limpando. E pior do que isso arrasou-lhes os Trilhos do Canto aos milhares, com cidades, fazendas, minas, estradas e caminhos-de-ferro. O “progresso” trilha, mas não sonha, nem canta. As histórias e narrativas que enchem o Canto Nómada transportam-nos de imediato para um reino de magia e maravilha, que só dá vontade de voltar atrás e corrigir a história.

Cá em Portugal, o Chatwin está esgotado nas livrarias. Quase que só o encontram nos mercados de livros usados e nas feiras da ladra, mas olhem que vale a pena o esforço da procura.

Como nas viagens verdadeiras e como nas paisagens e gentes que se encontram, também no Chatwin há uma surpresa abismal em cada esquina. No seu livro de crónicas “Pátrias Imaginárias”, Salman Rushdie a certa altura relata como ficou fascinado pelo Chatwin, em 1984 na Austrália: “O que aconteceu na Austrália foi que Bruce e eu nos tornámos amigos. (…) No final de uma viagem assim, (duas pessoas) ou se odeiam mutuamente com paixão, ou descobrem que se apaixonaram. Falando por mim, apaixonei-me. (…) Bruce fala de tudo à face da terra. Recordo-me de uma longa dissertação sobre o escritor Eça de Queiroz.”

Nem mais. Eça de Queiroz, o português, no Outback australiano, da boca de um inglês para as orelhas de um indo-paquistanês.

Hoje, numa sala perto de si, Por D. Vito

Para aí há coisa de um ano vi um filme fora de série e escrevi um post aqui no Porco sobre ele que rezava assim:

Cidade de Deus
, Fernando Meirelles - O melhor filme brasileiro que alguma vez me foi dado a ver. Um manifesto de violência, a história da favela que a história oficial nunca faria. A narrativa é brilhante e transcende a linearidade do argumento. *****

Mantenho o que disse. O filme passa hoje à noite na RTP 1 e é imperdível. Não percam!

20/09/05

"O Lóbi", por Kzar

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Tenho nos últimos dias vivido em estado de aterrorizada angústia. A somar aos problemas políticos que afligem a Nação, e nela todos os cidadãos movidos pela consciência cívica, tomei conhecimento, através da oportuna manifestação de uns senhores simpáticos vestidos de preto, de que ao cabo e ao resto existe mesmo aquilo que já há tempos o Sr. Alberto João apontara: um Lóbi gay!

Irra, já não bastava a maçonaria e mais a Obra, não falando no Klan que isso é lá nos States, agora vem outra seita para inquietar os já atribulados portugueses. Que ferro!

Assim obrigado a considerar estes novos perigos, lancei-me a cogitar sobre a forma como essa tropa se teria organizado. A primeira conclusão, evidente, é a de que tudo deverá passar-se no maior secretismo, à imagem das associações antes referidas - caso contrário os ditos senhores de preto não teriam sentido necessidade de denunciá-los em manifestação e os periódicos já teriam dado conta das actividades sociais da comandita.

A segunda, mais especulativa, e considerando que os ilustres membros deste novel lóbi terão maiores afinidades com a Loja do que com a Obra, por razões evidentes, é a de atrever-me a alvitrar que lhe seguirão igualmente os modelos formais e algumas práticas associativas.

Dito isto, formulo a hipótese de se reunirem em reservados edifícios, pela calada da noite, embuçados, abrindo-se as portas somente contra senhas de teor enigmático. Nesses covis fracamente iluminados, à luz bruxuleante de velas adquiridas em loja da especialidade, visionam o canal Taquilla XY, fazem combóinho, assistem a cerimónias oficiadas por grão-mestres de avental e cumprimentam-se com secretíssimos apertos de pila, cuja ignorância logo exporá eventuais espiões - eu sei lá! Tratar-se-ão então por Grão-Mestre, Irmãos e um largo etc., adoptarão nomes colectivos ao estilo Grande Traseiro Lusitano, Loja Naiónica de Portugal (Obediência Escocesa) e, sobretudo, conspiram incessantemente.

O que conspirarão eles, pergunta-se, lívido de assombro, o até agora confiado Lusitano? É certamente um nunca acabar de malfeitorias: subsídios vários e copiosos à Ilga, programas televisivos de propaganda ao ideário comum, alfinetadas maldosas em artigos de jornal, apoios mútuos na ascensão profissional e/ou política, referências subtis ou mesmo crípticas dirigidas a inimigos, insinuações; mais do que isso, projectam leis para se casarem uns com os outros e adoptarem virginais criancinhas de que fatalmente abusarão!

Ora, esta seita de anti-homofóbicos projecta, como todas, tomar o poder e impor a sua agenda - de sorte que um macho lusitano de lei tem de temer que venham a tornar obrigatórias as suas (suas deles!) normas comportamentais. Não passarão! Às armas! Às armas! Contra os naiões, marchar, marchar!

Vai daqui um fundo agradecimento à rapaziada de preto que, após alertar para o perigo de Portugal ser tirado aos portugueses, com tanto vigor e coragem denunciou agora esta tenebrosa conspiração para lhes alargar aspectos da anatomia que por tradição histórica querem manter rijamente apertados.

O Porco A Três Mãos: Santana Versus Sócrates, por Cicuta, Gotika & Grunfo

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Cicuta Dixit:

“É o pior primeiro ministro deste país desde o 25 de Abril"

Gotika Dixit:

“Lembro-me de outros piores ou no mínimo iguais. Mas ainda ninguém conseguiu equivaler à aberração Santana, confessem. Sim, é difícil recordá-lo como primeiro-ministro, mas que o foi, foi. Ou seja, depois daquele, até este parece bom. O que só significa nivelar por baixo.”

Grunfo Dixit:

Gotika, para mim, não tens razão. O Santana foi mau, eu fui contra o Santana a tal ponto que até nem me chocou muito o "golpe de estado" institucional que o Lampadinha fez.

Mas que diabo, o que diriam todos se o Santana aumentasse o Iva para 21%, se congelasse de vez, a todos, sem prazo e fim à vista os salários, as carreiras e as progressões da função pública em peso (à excepção dos políticos, que esses só para os próximos mandatos), se pusesse na CGD um equivalente ao Armando Gama, na Galp um equivalente ao Fernando Gomes, no Tribunal de Contas um equivalente àquele Watchdog de que me esquece agora o nome, se aumentasse sem qualquer apelo a idade da reforma para os 65 anos (menos para os políticos, que esses só para o mandato seguinte), se congelasse por completo e sem apelo as admissões à função pública toda (à excepção do despacho pessoal onde descongelou um lugar na Reper em Bruxelas para a amiguinha ex-assessora que quis ir para Bruxelas ter com o namorado), se persistisse nas férias de safari keniano enquanto o país ardia alegremente, se aumentasse os impostos de tal maneira que põe o país de rastos numa perspectiva de controle do déficit, quando agora se descobre que afinal nestes meses de sócratismo o aumento da despesa pública permanece descontrolado e que aumentou 8% ao mês (assim até pode meter os impostos em 100%, que nada chega), que diriam ainda do pobre diabo do Santana se tivesse eleito os profs como classe a abater obrigando-os a fazer horários das 9 às 5 sentadinhos numa cadeira da escola (um dia destes mete-os trazer a cadeira de casa), etc, etc.

Chega tou cansado e outra gente te dirá outras enormidades de que agora me esqueci.

E tudo isto para quê? A despesa pública e o seu controle que devia ser a tarefa base de qualquer governo, permanece em rédea livre.

O amiguismo impera e governa - nem o guterres foi tão longe com o jobs for the boys -, santana levou para o governo 14 secretárias, este animal mete 22 assessores e assessoras e quando uma se aborrece manda-a para Bruxelas.

Tudo isto é mau demais. O último que apague a luz. O Santana era mau, mas era um pobre diabo comparado com este gajo. Saltámos da frigideira para a fogueira e esta merda está cada vez mais quente!

19/09/05

"Para tudo dispôs o Bom Deus uma finalidade", por Kzar

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A tradicional sabedoria popular cristã postula recorrentemente versões várias da moral assim lapidarmente referida em título. Quem de entre nós não ouviu já uma qualquer avózinha, perorando sobre as baratas, as ratazanas ou outros nojentos seres da criação, dizendo que se Deus Nosso Senhor os botou no mundo para alguma coisa foi? Ainda me lembro:

- Deixa lá o Manuel e o Benfica, tsarevich, quem sabe se o primeiro algum dia ainda descobre cura para o Cancro ou se o segundo faz a felicidade de algum presidente que não seja ladrão! E este último sempre serve para as pessoas como o primeiro terem um clube à sua imagem...

O argumento, solidamente ancorado na tradição cristã de acessos de bondade tolerante, do tipo "O-Senhor-Ama-A-Todos", não é contudo exclusivo ocidental. Já nem falando nos Budistas, que nessa matéria são uns ases, tem também paralelo em culturas primitivas: pense-se no Irmão Cavalo, Bisonte, ou Urso dos nativos americanos. Nos últimos anos conhece mesmo evoluções que o adaptam às derivas de paganismo ambientalista e panteista do estilo "os animais são nossos amigos" - todos eles, até os parasitas intestinais.

Importa notar que não se trata, ou pelo menos segundo o pensamento dominante e "correcto" não deve tratar, de uma mera proclamação ideológica ou simples "wishfull thinking". Não, deve ter implicações directas na prática quotidiana do bom cidadão.

Reflectindo nisto, além de se perceber a razão de haver um clube com o Benfica e de este ter adeptos, fica a compreender-se que haja quem defenda a liberdade político-partidária dos comunas, a mera existência do Senhor Sócrates e do seu lóbi, e até a do PNR. Os últimos dão de comer aos operários das empresas têxteis que fabricam "t-shirts" pretas e denunciam publicamente a existências dos penúltimos; o antepenúltimo, se não servir para mais nada pode ser sempre encarado como mais uma provação que o Bom Deus colocou ao seu povo (seu do Deus, entenda-se); os segundos pelo menos mostram que quando pensamos que não há ninguém mais estúpido que o homem do talho estamos enganados; por fim, não estou certo de que o SLB e seus adeptos sejam justificáveis em seu fátuo existir com as razões que a avó avançou mas na dúvida concedo, por deformação profissional.

Recentemente, ocorreu-me uma nova forma de ilustrar a validade universal do postulado em análise. Sabem aqueles de quem tenho a honra de ser amigo ou mero conhecido que sou um indefectível adepto da caça submarina. Pois ora bem, sabei também todos que ao praticar o desporto rei o executante carece de um incómodo cinto carregado de chumbos com que se ajouje. Servem estes para que melhor se afunde no elemento líquido e permaneça a uma certa profundidade, perseguindo ou em quietude aguardando convenientes exemplares da fauna submarina. Ao retomar a superfície, a fim de repor nos pulmões o elemento gasoso, os ditos chumbos são um tanto incómodos. Porém tendo um certo valor económico e sendo necessários para os mergulhos subsequentes, o desportista abstém-se de largá-los no fundo, o que além do mais seria pouco conforme com as melhores práticas ecológicas; sujeita-se por isso à maçada de trazê-los para cima.

Ora, haverão já umas semanas, tendo eu o espírito desocupado com umas curtas férias, veio-me à mente, já não sei a que propósito e em uma daquelas cadeias de pensamentos erráticas, que o Panteão Nacional, edifício que até há pouco para nada mais servia do albergar os despojos do João de Deus e de umas quantas personalidades igualmente obscuras, passara a contar entre os seus hóspedes também com a Sr.ª Dona Amália, havendo quem vaticinasse que a seu tempo estenderá hospitalidade igualmente ao Sr. Eusébio: Entrementes, as suas austeras paredes, colunas e abóbadas, tiveram oportunidade de regozijar-se com as saborosas traquinices de uns tantos rapazes vestidos de feiticeiros (estilo anglo-saxónico e holliwoodesco) por ocasião do lançamento de um livro do Harry Potter. Sempre serve para alguma coisa, o Panteão.

Daí ao verdadeiro assunto que agora me ocupa, e que já abordei, ia somente um pequeno passo que dei no exacto momento em que li o "post" do Sr. José das Medalhas. Para que hão-de servir estas, perguntais todos, ansiosos?

Bom, posto que não sejam de cortiça prestarão auxílio à nobre actividade da caça submarina. Em lugar de ver-se obrigado a retomar a superfície ajoujado de chumbo, às vezes oito e mais kilos segundo o peso respectivo e a espessura do seu fato, o praticante não tem mais do que passar por Belém. Munido das condecorações que o Lampadinha sem dúvida lhe prodigalizará, faz-se depois ao mar. Uma vez no fundo e antes de retomar a superfície trazendo o peixe arpoado ou a fim de puxá-lo para cima, basta-lhe largar esse lastro, de que terá abundante provisão na embarcação, podendo assim repetir o processo indefinidamente, com a vantagem de extrair peso do barco à medida que o substitui por bom peixe.

Por outro lado, na hipótese frequente (mesmo para mergulhadores experimentados) de falhar o peixe, deixar as medalhas meramente no fundo ou até entregar-lhas tem insuspeitadas mas inequívocas vantagens. Na pior hipótese, o peixe, intrigado pelo brilho das caricas, permanece no local, permitindo nova tentativa ao caçador; na melhor, coloca-as ao peito e, distraído e mais pesado, será mais facilmente arpoado. Já os vejo na ponta do meu arpão, esses meros de grande porte com torre e espada na barbatana e colar ao pescoço; essas bicudas descomunais, menos fugidias e impantes com seus medalhão e faixa da Ordem da Liberdade; enfim, essas vorazes anchovas cheias de medalhas, borbulhando entusiásticos "Vivá República" não mais me escaparão!

E é assim, caríssimos, que no próximo dia 05 de Outubro lá estarei, sem falta e pontual, num qualquer estrado, na Praça da República de qualquer povoação serrana, a colectar as condecorações que, sempre atento e magnânimo, o Lampadinha não deixará de fazer jorrar incessantemente sobre o meu peito, louvando, não sem alguma lágrima luzidia, os meus inigualáveis e corajosos contributos para a divulgação e o consumo do vinho nacional. Depois, é esperar não ter de cruzar-me com o Sócrates e ala pró mar, tratar do pelo aos peixes (salvo seja).

E claro, corações ao alto, continuemos a supor que Portugal serve para alguma coisa.

17/09/05

Calcanhar de Aquiles, por Cicuta

O que é que uma sociedade democraticamente crescida deve fazer quando um partido, ou melhor, um presidente de um partido ganha umas eleições e não cumpre as suas promessas eleitorais? Óbvio: a seguir não lhe dá o voto. Seria assim numa sociedade normal. Mas em Portugal, onde os partidos são vistos como clubes de futebol de que se é adepto para toda a vida, não se sabe, nuca se sabe.

É isso que se passa neste momento. Sócrates tem fama de ser inflexível na sua acção, mas a verdade é que quando percebe que as causas «populares» fazem o efeito contrário ao pretendido, isto é, que suscitam grande controvérsia social, deixa-as cair ou marinar em lume brando- que se lixe a coerência! Veja-se o que sucedeu com a co-incineração em Coimbra e Setúbal, uma coisa que só lhe interessava do ponto de vista metafórico, como símbolo da sua firmeza e capacidade de decisão. Está tudo na mesma, apesar das promessas inflamadas de Sócrates na campanha eleitoral e dos insultos ao anterior governo nesta matéria…

Ou então a promessa de publicitar as declarações de impostos de todos os contribuintes, um princípio autenticamente medieval: recuou. Agora já só vai publicitar as declarações dos prevaricadores, embora não se perceba porquê, já que à punição aplicada por lei, vai-se acrescentar a punição da publicidade do crime. Mantém-se pois o mesmo princípio medieval da expiação pública do prevaricador. O homem tem nome de grego, mas pensa como moralista medieval. Porque é que não se carimbam também os ex-presidiários? Assim, para além da pena que cumpriam, ficavam a pagar durante muito mais tempo aos olhos de todos. Bem feito!

Eu não acredito neste homem e não é só agora que é primeiro-ministro. Sempre me repugnou, detesto-lhe o estilo, a vacuidade e o marketing barato. Achei que era mentira quando ouvi os primeiros rumores de que ia ser o sucessor de Guterres: foi. E vi, com estupefacção, que este personagem pequeno ainda ia chegar a primeiro-ministro, aproveitando o desespero causado pelo efeito santana. É o pior primeiro ministro deste país desde o 25 de Abril e, ainda por cima, conta com o apoio inestimável de um presidente da república que foi hiper-rigoroso com o governo anterior e que agora tudo permite.

Porque é que ele, tão ligado à cultura Grega pelo nome e, ainda recentemente, pela sua inestimável colaboração na implosão das torres de Tróia (até houve quem lhe chamasse o Cavalo de Tróia) não nos faz um favor e não se implode também? Politicamente, claro, quero lá agora que o homem se desfaça…

15/09/05

Dan Brown, Umberto Eco e as Teorias da Conspiração, por José de Arimateia

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"Os Templários, pelo contrário, andavam porcos por gosto. (...) o Templário, deve ser místico, ascético, não comer, não beber nem foder, mas vai para o deserto, corta a cabeça aos inimigos de Cristo, quantas mais cortar mais senhas ganha para entrar no céu, cheira mal, fica mais hirsuto cada dia que passa, e depois Bernardo pretendia que após terem conquistado uma cidade, não se deitassem em cima de qualquer donzela ou velha que seja, e que nas noites em luar, quando como se sabe o simun sopra do deserto, não fizesse nenhum servicinho com o seu companheiro preferido. Como podes ser monge e espadachim, estripas e rezas ave-marias, não deves olhar para a cara da tua prima e depois entras numa cidade ao fim de dias e dias de cerco, os outros cruzados fodem a mulher do califa à frente dos teus olhos, sulamitas maravilhosas abrem o corpete e dizem possui-me possiu-me mas poupa-me a vida... E o Templário não, tem que ficar duro, fedorento, hirsuto como o queria São Bernardo e rezar sem parar..."

Este é um excerto do Pêndulo de Foucault, livro de Umberto Eco de 1988. Como se vê por este excerto, é possível e natural passar das Ginas para o Umberto Eco. O livro é admirável (difícil porque muito denso, como dizia o Vice, o Eco está-se aqui a cagar para o leitor) e porque livro de todas as conspirações, mistérios e segredos, desmonta implacavelmente todas as teorias da conspiração. Quem leu e gostou dos dois Dan Brown, deve ler isto em seguida. Vale bem a pena.

A saga do livro alimenta-se de todos os mistérios que vemos por vezes por aqui e por ali. Todas as questões levantadas pelo Dan Brown estão neste livro. O aproveitamento do Brown é quase descarado. No Pêndulo - livro do Eco de 1988 - anda por ali tudo, mas mesmo tudo, do Portugal dos Pequenitos aos Templários, aos Illuminati, a Maria Madalena, Merovíngios, Cátaros, Santo Graal, Camões, Tomar e o Convento de Cristo, Jim Dente de Tubarão, Portugal e a Mouraria, Coimbra, as Cruzadas, Hospitalários, Rennes-Le-Chateau, Parsifal, Vaticano, Inquisição, Otto Rahn, SS, Nazis, a Pedra Filosofal, o Tibete, arianos, india, celtas, virgens negras, moscovo sSão Salvador da Baía de Todos os Santos e os candomblés, jorge amado, lisboa, são cipriano, mitra, olimpo, rosencreutz, santo sepulcro, svevo, proust, joyce, júlio césar, a wicca, os meninos das trevas, parténon, o abre-te sésamo, mondrian, helena de troia, a rua antónio maria cardoso, fátima, a minnie e o mickey, o tosão de ouro, pedro nunes, a maçonaria, os anciãos do sião, o rei sol, os egípcios, a corrente do golfo, descartes, galileu, rick de casablanca, concilio de niceia, constantino, raymond chandler, a toore eiffel, empire state, a grande muralha, napoleão, alamut e a seita dos assassinos, lepanto, hitler, derviches, labirintos, pêndulos, paris, roma, nova iorque, josé de arimateia, budismo, zoroastro, e tudo, tudo...

Umberto Eco explica lá pelo meio, como se faz a coisa:

"Inventar, furiosamente inventar, sem ligar aos nexos, de maneira que nem se consiga fazer um resumo."

Não se infira daqui que o Eco se limita a fazer um exercício de estilo. Nada disso. O homem constroi tijolo a tijolo a maior e mais gigantesca das cabalas, mas com uma solidez de betão. Ao mesmo tempo que ficamos fascinados com a coerência da coisa, olhamos de frente o abismo das suas enormidades, porque as personagens do Eco nos vão minuciando a doideira. E o Eco vai mais longe, para quem ainda não tivesse percebido o fio à meada:

"As pessoas acreditam em quem vende a loção para fazer crescer o cabelo aos carecas. Sentem por instinto que aquele que junta verdades que não estão juntas, que não é lógico e que não está em boa fé. Mas disseram-lhes que Deus é complexo, e insondável, e portanto a incoerência é a coisa que encontram mais parecida com a natureza de Deus. O inverosímel é a coisa mais parecida com o milagre."

Pelo meio – e isto em 1988 – 14 ou 15 anos antes de Dan Brown e da sua descoberta do tosão de ouro, Eco diz ainda:

- “Bah”, disse Diotavelli, “ninguém te levaria a sério.”
- “Pelo contrário, iria vender umas centenas de milhares de exemplares”, disse eu, sombrio. “A história existe, já foi escrita, com variações mínimas. Trata-se de um livro sobre os mistérios do Graal e sobre os segredos de Rennes-Le-Château.”

E repesco outro excerto delicioso:

“O problema não é achar relações ocultas entre Debussy e os Templários. Isso todos fazem. O problema é achar relações ocultas, por exemplo, entre a Cabala e as velas de automóvel.”(…)”Qualquer dado se torna importante se for ligado a outro. A conexão altera a perspectiva. Induz a pensar que todos os indícios, todos os boatos, toda as palavras escritas ou faladas não têm o sentido que parecem ter, mas que se está a falar de um Segredo. O critério é simples: suspeitar, suspeitar sempre. Pode-se ler nas entrelinhas até de uma placa de sentido proibido.”

E vai ainda o remate premonitório browniano:

“Também há os doidos sem Templários, mas os dos Templários são os mais insidiosos. Ao princípio não se reconhecem, parece que falam de maneira normal, depois, de repente…”

14/09/05

Elogio de Dan Brown, por Leitor Incontinente

O Código Da Vinci do galáctico Dan Brown é o maior sucesso literário mundial dos últimos 50 anos. Tornou-se, pois, pela dimensão e reprodução maciça de que foi alvo, no típico objecto de cultura de massas, comparável a um disco dos U2, às adidas do David Beckham ou a uma garrafa de Heineken.

É sabida a reacção que se verifica sempre que alguma coisa atinge o nível mediático que alcançaram O Código da Vinci e o seu autor: por um lado, torna-se relíquia sagrada e venerada pelo povo consumidor, sempre propenso à religiosidade e aos seus sucedâneos; por outro, é desprezado, olhado de lado, quando não com raiva, pela «intelligentzia». De facto, as elites intelectuais sempre viveram, não é só de agora, com o preconceito da pureza. As elites não suportam misturas com o povo, com o consumidor vulgar. Ainda mais quando se trata de um livro – o ícone da cultura, por excelência - a converter-se em objecto de massas. Uma garrafa de refrigerante, uma marca de telemóveis, uns ténis ainda vá lá… Mas um livro?..

Um autor que denunciou magistralmente este carácter «higienista» das elites culturais foi Umberto Eco, principalmente em Apocalípticos e Integrados. Aí, Eco traça a cartografia ideológica da classificação da cultura em níveis («High», «Mid» e «Low») e conclui com a crítica ao que julga ser uma visão anacrónica da cultura. Não faz mais sentido, no mundo global de hoje, continuarmos a dividir a cultura em géneros superiores e inferiores. Como diziam os arautos da arte pop «Uma garrafa de coca cola é mais bela que a Vitória de Samotrácia». Pelo menos pode ser, digo eu.

Realmente, ainda hoje me lembro quando, há uns anos atrás, muito antes de ler Eco, um engravatado indignado me acusava de gostar de Mozart e dos Clash! «Um bárbaro, um insensível…», concluía ele! Na altura não percebi o que é que tinham os meus gostos a ver com as contradições lógicas, mas talvez ele tivesse razão e eu não passe de um suburbano confuso, simples produto de mundos opostos e contraditórios. Hoje percebo melhor que há muitos mais como eu e que isso não é assim tão anormal em 2005, quando a Globalização mistura de um modo avassalador os jeans americanos da levys (feitos na Tailândia) com a comida paquistanesa do restaurante de Celas e a manga japonesa consumida no autocarro fabricado na Alemanha.

Mas voltando ao Dan Brown, dizia eu que o sucesso do Código à escala mundial, veio fazer deste livro um típico produto de cultura de massas (nível Mid Cult segundo a classificação criticada por Eco) e que, obviamente, isso não agrada às elites intelectuais muito pouco democráticas, muito pouco «globais»… Não vou discutir os fundamentos daquilo que me parece ser um preconceito sociológico e ideológico, nem tão pouco os méritos literários d` O Código da Vinci. Direi simplesmente que reconheço não ser Dan Brown um grande escritor – não é um artífice da língua, a sua escrita não tem nada de particularmente criativo, pelo contrário, é até muito «terra a terra». Mas reconheço alguns méritos nos seus romances, como o ritmo alucinante que consegue imprimir à narrativa. Além disso, nota-se que há um aturado trabalho de pesquisa na base dos seus livros, o qual é usado depois para misturar sabiamente os planos da ficção e da realidade (o que não me parece, de modo algum, um defeito, como já ouvi dizer, antes pelo contrário, quando se trata de escrever um romance). Mais que discutir a qualidade literária d`O Código, prefiro apresentar aqui alguns dos efeitos francamente positivos que decorrem do sucesso de Dan Brown:

É justo que se diga que Dan Brown revelou a muita gente e devolveu a outra tanta o prazer da leitura. Eu conheço muita gente que, pura e simplesmente, passou a ler com regularidade depois de devorar O Código da Vinci. Para aqueles putos, então, que se orgulhavam de não lerem mais que a Bola e O Record, O Código foi uma autêntica revolução. Conheço bem um exemplar desta geração que não dorme antes das 4 da manhã porque não dispensa a leitura entusiasmada de Anjos e Demónios. E pelo meio já leu Isaac Asimov, coisa impensável há dois meses atrás… Eu sei que há pessoas que se irritam com a profusão de Códigos em várias línguas que vimos este ano e no anterior nas praias do Algarve e do sul de Espanha. Parece a massificação da leitura, dizem os derrotistas, tudo a ler a mesma coisa... Mas já pensaram que a maior parte daquela gente, senão estivesse a ler Dan Brown, estava a ler um tablóide, uma revista cor de rosa, um desportivo ou simplesmente a olhar pró ar? Eu acho um óptimo sinal que as pessoas leiam, nem que seja O Código. Pode ser que a seguir venha o Asimov…

E depois há aqueles que, depois do Código, voltaram a ler romances, hábito perdido há muito tempo. Falo por mim: antes do Código praticamente só lia ensaios. Mas agora a minha vida literária quase se pode classificar em a.D.B. e d. D. B. (antes e depois de Dan Brown). Sabem como são as leituras: uma pista leva a outra, esta a outra, a outra a mais uma e um gajo vai por ali fora atrás do filão e chega ao fim com uma série de livros verdadeiramente devorados. No caso de Dan Brown, por exemplo, as referências místicas da sua obra conduziram-me directamente a Herman Hess (mais precisamente ao fabuloso O Jogo das Contas de Vidro e o que a seguir veio agarrado, como Narciso e Goldmundo, Siddartha, Deambulações Fantásticas e O Lobo das Estepes). Deste, ao espantoso Amin Malouf (por esta via, Os Jardins de Luz, Leão, O Africano, Escalas do Levante, Samarcanda e O Périplo de Baldassare). Pelo meio voltei ao Paul Bowles de O Céu que nos Protege, aos contos extraordinários de Poe e de Oscar Wilde, a Miguel Sousa Tavares e ao seu excelente Equador, a Cachapa e ao semi-escabroso Materna Doçura, e ainda tive tempo para descobrir o Eco romancista (O Pêndulo de Foucault e a Misteriosa Chama da Rainha Luana)…

Em suma, Dan Brown permitiu-me redescobrir um género – o romance – que eu, pura e simplesmente, tinha colocado num lugar secundário e, em particular, uma ou várias famílias literárias simplesmente fascinantes. Alguns, ou mesmo todos os que citei, são hoje os meus escritores preferidos.E é esse mérito que temos que reconhecer em Dan Brown: pode discutir-se a qualidade da sua escrita, mas não a da maior parte dos escritores que citei. Dan Brown vale não só por si, talvez nem valha tanto por si, mas pelas pistas que abre, pelo contágio que consegue provocar, pelo gosto pela leitura que consegue transmitir. E isso não é pouco. É um grande, um enorme mérito que é justo lhe seja reconhecido.

12/09/05

O Menino Do Rio anda a comer A Garota de Ipanema, por Mangas

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Era bem visível o estado de cansaço de Menino do Rio. Depois de vinte e seis anos às voltas nas rádios, sobrava-lhe pouco da letra repetida e gasta. Trazia no peito as palavras, “menino vazio” quando conheceu a Garota de Ipanema num bar de praia onde ela costumava entrar e ficar à espera. Esperava que Tom Jobim e Vinicius se sentassem uma última vez na mesa do canto, com um violão debaixo do braço e uma melodia de improviso saltitando nos dedos para cobrir de bossa-nova a saudade.

Garota era uma saudosista. Menino ardia de ciúme cada vez que Caetano cantava Você é Linda. Nessa tarde foi tudo muito mais do que um flirt. E nas noites que se seguiram, Menino e Garota conheceram de novo o caminho do mar num quarto apertado de hotel barato e onde não coube mais a ausência dos seus criadores.

Menino do Rio ia sempre na frente. Garota de Ipanema vinha ao seu encontro. O balanço das coxas em forma de ondas do Hawai, um sorriso tatuado nos lábios, flutuando descalça pela calçada. Encontrava o quarto pela porta onde, longe dos fãs e das grafonolas das rádios, Menino pendurava sempre um letreiro que dizia: menino vadio.

09/09/05

Alguém Que O Pare De Vez, por ZéDasMedalhas

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O assunto já foi aqui abordado no Porco e meia volta, a imprensa em geral e os comentadores em particular, cascam nisso com fartura, mas agora porra, também já é demais. Quando a coisa se torna piada internacional há que fazer qualquer coisa, um abaixo-assinado, uma manifestação, uma vaga de fundo ou até uma corrente anti-amor, eu sei lá, qualquer coisa que faça o homem parar.

Obviamente, estou a falar do Presidente Sampaio e da sua onda inesgotável de condecorações, títulos e outras comendas de papel timbrado e broche ao peito. O homem já condecorou uma vice-campeã europeia de body board, a maior parte do seu próprio staff e todo e qualquer amigo, politico ou agricultor de rabanetes tamanho gigante do Entroncamento. Metade dos acusados do Apito Dourado e mais de metade dos acusados da Casa Pia estão condecorados por altos serviços prestados ao país. Até a fugidia Leonor Beleza que em dois anos sucessivos recusou expressamente ser condecorada, lá acedeu a receber o agradecimento do país. Para isso, o Lampadinha pediu a intervenção do mon ami Mário Soares que pediu por tudo à cachopa, que aceitasse a condecoração se não o homem ainda se matava. Não há pachorra.

Enquanto a coisa se manteve nas figuras e figurinhas nacionais a coisa foi rendendo, mas ao fim de dois mandatos começam a escassear os alvos e vai daí o homem passou a condecorar qualquer figura ou turista internacional que ponha cá os pés. Agora até a Ordem da Liberdade deu ao Bono e aos U2 e depois fica muito chocado de os gajos irem receber aquilo de chapéu de cow-boy e t-shirts provocatórias. Um gajo descuida-se na Portela e zás, Ordem do Infante!

Há dias aluguei no vídeo o filme de Hollywood, Um Peixe Fora D´Água (The Life Aquatic) com o Bill Murray, Jeff Goldblum, etc; uma coisa miserável, super publicitada em que os dois artistas pretendem fazer um remoque cómico aos Jacques Costeau e seus Calypsos que por aí pululam. O filme é bastante mau, mas logo no início deixou-me verde. A cena passa-se numa festarola de angariação de fundos para mais uma expedição marada aos caramujos asa de cortiça da Cochinchina e aparece o rival expedicionário Jeff Goldblum ao Bill Murray. O gajo vem ajoujado de condecorações e broches de comendador. O Bill Murray manda-lhe uma alfinetada: - Ó pá tens aí uma medalha nova? Resposta do Goldblum: - Gostas pá? Olha passei por Portugal e zás o Presidente chamou-me e pôs-me cá isto.

O diálogo não é textual, mas é muito próximo. Ainda voltei atrás e procurei ver ouvir sem legendas, não fosse aquilo alguma manobra local da nossa reles legendagem. Mas não, não era o Burkina Faso, nem o Vanuatu ou o Brunei, era mesmo Portugal. Tamos fodidos. Já conhecem o artista em Hollywood! Essa ainda nos vai ficar colada para a eternidade.

07/09/05

38, por 666

Eu não sei porquê. Juro que não percebo. Mas o que é certo é que esta semana, para grande surpresa minha, o Porco entrou directamente para o 38º blog mais visitado no contador da Blograting. Podem verificar no link ao fundo do post. Vá lá um gajo perceber o povo: precisamente quando o Porco fedia, tornamo-nos o blog número 38 da blogosfera luso-brasileira cadastrada noBlogRating

It´s Only Rock´n´Roll (but i like it), por Infamy

A questão mais estéril em relação a «eles» é a questão da idade. «Estão velhos!», dizem-me. «O Mick Jagger tem 62 e o Charlie Watts 64, têm idade para fazerem um mandato de Presidente da República de Portugal» (bom, ainda não estão assim tão velhos, ao fim e ao cabo).Mas que importa a idade deles? Não estamos a falar de uma corrida de 100 metros nem de um jogo de rugby. Falamos de música! Qual é o limite para se ser músico, ainda que de uma banda de Rock and Roll? Jagger não precisa de correr 20 km em cima de um palco nem de saltar como um cabrito endiabrado, como fazia nos anos 60. Basta que continue a cantar bem e a fazer o papel de óptimo performer. Que me importa se Richards já não bebe Bourbon em palco? Os rifs estão melhores que nunca…

As pessoas nunca estão contentes – lamentam-se porque Beethoven morreu aos trinta e tais e fazem contas às obras primas que nos ficou a dever; ficam muito sérias a pensar nos óptimos discos que os Beatles haveriamde ter feito se não se tivessem separado tragicamente cedo… Mas depois acham que os Stones, que são um exemplo de longevidade e de juventude apurada com o tempo («leva muito tempo aprender a ser jovem», dizia Picasso), já deviam ter parado de andar às voltas por esse mundo fora! Isto apesar de Chineses, Russos, Japoneses, Indianos, Argentinos, Brasileiros, etc, etc, reclamarem furiosamente as suas digressões.
Eu acho óptimo que eles continuem e, tirando as questões de imagem (é certo que ficavam muito melhor nas capas das Rolling Stone dos seventeens) não me incomoda nada a idade «deles». Desde Some Girls, ainda nos anos 80 que ouço os «jovens» a clamarem contra a arrastada velhice dos Stones. Esses «jovens», esses sim, envelheceram e os Stones ainda cá andam a tocar Rock and Roll. Mas imaginem que «eles» tinham dado ouvidos aos alcoviteiros de serviço e tinham fechado…
De Some Girls para cá, eles editaram, entre muitas outras pérolas que não me vêm agora à memória: Down in the Hole, She`s so cold, Emotional Rescue, Indian Girl, Start me Up (sim, start me up, um clássico, não chegaria a ver a luz do dia), Waiting on a friend, Too Much Blood, Almost hear you sight, Continental Drifting, Slipping away, You got me rocking, out of control, How can i stop… É certo que pelo meio fizeram nulidades como Dirty Work de 86, o pior álbum de toda a sua discografia, mas eu acho que nem que fosse apenas por uma só boa música, já tinha valido a pena tanta longevidade.

E depois não podemos esquecer os concertos. Os Stones sempre foram a melhor banda de sempre ao vivo. Foram ultrapassados pela primeira vez pelos Led Zeppellin, outra super banda de Rock. Mas foi pontual. As mega digressões de estádio dos anos 70 e 80 depressa vieram repor as coisas na sua ordem habitual. E a Licks Tour, a última da banda, foi a maior de todos os tempos, teve números records de audiência (500 mil – quinhentos mil - só em Toronto) e lucros nunca vistos. Como querem que «eles» parem? Os Stones estão no auge da sua carreira, se nos limitarmos aos números… E, que diabo, não podem ser só amigos de Alex, como eu, como nós aqui no Porco, a esgotar as digressões. Para dizer a verdade, nas quatro vezes que os vi ao vivo, estava lá gente de todas as idades, dos 7 aos 77 como o tintim. E ainda agora, a digressão de A Bigger Bang que começou em Bóston e decorre na América, está completamente lotada, até ao momento. Esqueçam os U2, os Stones estão aí para durar.

A Bigger Bang foi entusiasticamente recebido pela crítica norte-americana. Mesmo na Europa teve óptimas críticas e, aqui em Portugal, a malta do costume que, salvo excepções, não vê um boi do que está a escrever (o crítico do Público, por exemplo, dizia que Jumpin Jack Flash tinha surgido em Beggars Banquet e nem foi despedido nem nada…), até o comparou a Exile on Main Street. Sabendo-se que esse duplo de 72 é considerado pela crítica bem pensante como o melhor álbum da banda, percebe-se que isto é altamente elogioso. Eu ouvi o álbum e, de facto acho-o muito bom. Não é um sucedâneo de Exile, como dizem. Tem coisas próximas, é verdade, como o regresso, nalgumas músicas, aos Blues e ao R´n´r. Mas parece-me mais uma súmula dos vários discursos e estilos musicais dos Stones dos últimos anos: funky, as eternas baladas, rock e pop, blues, o álbum é muito eclético. De qualquer modo, se tivesse que comparar o som de A Bigger Bang com o que já ouvi nos discos anteriores, diria que está muito próximo das guitarradas esgalhadas de Some Girls. Rough Justice, a música de abertura, tem tudo para se tornar um clássico, com uma entrada típica, à Keith Richards. Confesso que comecei a ouvir aquilo calmamente para não chatear ninguém. Mas ao segundo riff já estava a saltar. Ouçam, A Bigger Bang bem alto, no máximo de preferência. Que se lixem os vizinhos!

06/09/05

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Nota: A pirataria informática é crime. Respeite a lei e os direitos de autor. Compre o CD.

De Lascaux a NY: uma breve história da arte ocidental, por Argonauta Tatuado

Há umas dezenas de milhares de anos alguém pintou às escuras animais selvagens nas inacessíveis grutas da Dordogne, como se fossem úteros. Assim tudo começou ou é, pelo menos, um bom começo. Pela presentificação plástica e simbólica da ausência se inicia um percurso de onde nascerá toda a metafísica, toda a teologia, toda a moral e todas as utopias. A existência declara-se insuficiente, a inexistência torna-se suposição e ganha forma, tal como o desejo pelo tempo se faz história. Os gregos esculpiram deuses com forma humana, monges irlandeses pintaram minuciosas iluminuras na superfície sagrada dos bíblicos pergaminhos como se fossem grutas paleolíticas. Villard de Honnecourt rabisca catedrais com paredes de vidro onde se narram histórias sagradas e coloridas, como se fosse BD. Desde os tempos dolménicos que somos nós a fazer grutas. É isto a arquitectura. As catedrais góticas, apontadas ao céu e cheias de luz como se fossem vítreos arranha-céus novaiorquinos, são as mais belas. A Sagrada Família é a mais bela das mais belas, pois que na sua incompletude estatutária remata o processo dolménico, fazendo com que o misticismo escolástico se equipare a uma fantasia que lembra a Disneylândia. Somos fazedores de espaço com a razão ou com o sonho. Seja pelo alargamento do espaço físico ou pela invenção do espaço simbólico. Por isso a invenção das leis da perspectiva é contemporânea de Galileu e das grandes viagens transoceânicas, tal como Einstein que desfez a imagem clássica do Universo é contemporâneo de Picasso que bidimensionando nos libertou da tirania renascentista. O caminho de Picasso leva-nos ao quadrado de Malevich, onde se nega todo o legado clássico: cor, profundidade, figura e técnica. Outro caminho, iniciado em Goya, supera o cânone racionalista libertando fantasias e subjectivando o mundo. Se o Renascimento inventou a ideia de génio, Pollock destruirá o mito pois que no dripping não há autoria porque não há consciência. Deste beco sairá Warhol reinventando a arte como objecto de consumo de massas e produção mecânica, até que Haring nos resgatou desta banalização irónica. Nas galerias subterrâneas do metropolitano de NY, a Lascaux americana dos finais do século XX, Keith Haring reactivou uma reminiscência original pintando graffitis pictográficos como quem pinta animais selvagens, devolvendo à arte o simbolismo primitivo e descobrindo depois em Grace Jones, que cobriu de adereços e pinturas neo-primitivistas transformando-a numa divindade totémica, uma essencialidade original que afinal nunca se perdeu, onde o corpo se revela outra vez como objecto e instrumento privilegiado da expressão artística. Como nunca deixou de ser e já era antes de Lascaux.

Mãos, por Cão

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(…)
Era uma vez uma pessoa que tudo deixava cair das mãos. Bebé, compreendia-se que tal lhe acontecesse. Veio a puberdade e, com ela, o ostracismo. Ostracismo quer dizer (mais ou menos) que tudo e todos ficam longe de nós, porque todos e tudo assim o querem. Todas as coisas vinham parar ao chão, segundos depois de tentar segurá-las nas mãos. Estas eram, ao menos na aparência, normais: dez dedos e dez unhas, mais as oito linhas que marcam o delta do destino. Garfos, jornais, jarras com suas flores, anéis até: tudo acabava no chão.

Já adulto, não segurava nem empregos nem amores. Das mãos lhe caiu a vida do pai e a de um irmão. E também a do cachorro amarelo, único dos seres que tinha podido conservar, pois, como é sabido, são os animais que nos possuem e seguram.

A história acaba assim: deixou de tentar agarrar com as mãos coisas e pessoas. Descobriu que a única forma de ter está no olhar. E que, vistas as coisas assim, a realidade não é tão má como parece. Sim, mesmo aquela que temos ao alcance das mãos.

Estupidez, por Cão

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Divide-se a estupidez em dois géneros. No primeiro caso, está aquela estupidez que só faz mal ao próprio. No segundo caso, a estupidez que, além de fazer bem ao seu portador, dá cabo da vida aos outros.

Todos somos estúpidos, de primeiro ou segundo grau. Tendemos a considerar que a razão sempre nos assiste, o que pode redundar em estupidez de primeiro nível. Se teimarmos muito nessa atitude, passamos com facilidade ao segundo. (Existe ainda, claro, uma terceira estupidez, que é a dos cronistas que pensam ter alguma coisa para ensinar ao mundo.)

Falo nisto hoje porque, tendo acordado um dia destes com a estupidez agarrada à pele como um perfume indesejável, passei o resto do dia a tentar que a estupidez de (alguns) outros não fizesse mal à minha. Foi um dia estúpido, naturalmente. Não o recomendo.

O remédio aparente é tornar-se cada um monge do seu íntimo mosteiro, devoto de um credo autista e misantropo. Sendo autista não (re)conhecer os outros e significando misantropo não gostar de ninguém. Mas é uma falsa cura para uma doença real.

A estupidez tem o futuro garantido. Sobretudo a de segundo grau. Quanto às de primeiro de terceiro géneros, essas não fazem mal a ninguém. Antes fizessem.

05/09/05

Porco Fedorento, por João Bafo de Onça


O Porco fede!

R.I.P.



Carta Aberta Ao Cão E Aos Demais Postadores Do Porco, por Grão

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Como já repararam o Porco está em Guerra aberta.

O Porco desde a sua fundação - que vai fazer dois anos a 1 de Janeiro de 2006 - sempre se pautou pela procura de fazer Posts interessantes que suscitassem discussão e troca de ideias. Houve de tudo, mas no essencial a linha de posts seguia por aí, remar contra a maré do politicamente correcto e discutir tudo com abertura e frontalidade desde as receitas de Jambalaya às performances da Linda Boreman, com passagem pelo futebol, pela história, pelas actualidades e pelo fait-divers.

Pelo meio participou-se em N blogs similares ou temáticos e os autores vieram ao Porco fazer o mesmo. Ao longo de 400 e tal posts, o Porco ganhou uma identidade de iconoclasta, provocador, frontal, argumentador e por aí afora que motivaram o pessoal a participar em espiral. Em sede de Groinks houve records sucessivos de centenas de groinks sobre um único post. Os autores regulares de Posts para o Porco ultrapassam a dezena e isso motivou uma desde logo uma diversidade e intensidade de discussões fora do habitual. A isto, acresceram as centenas de frequentadores que diariamente angariámos e cultivámos, que passaram a enriquecer ainda mais a luta, com discussões e controvérsias que não cessavam nem com o avançar da madrugada. Era um verdadeiro gozo passar por aqui ao longo do dia a ver como paravam as modas. Uga-Uga. Nunca nos levámos a sério, mas para o meu gosto e grande gozo pessoal, o Porco era um caso sério.

Hoje o Porco está reduzido à caralhada. Está moribundo. Já não é o Porco da diversidade. A única diversidade que por aqui reina, é se o autor do post ou o comentador do Groink, vão ser mandados brochar um burro ou mamar um elefante. A vertente iconoclasta do Porco vai dos cornos do pai aos pintelhos da mãe. É triste mas é assim. E para os Pios Barojas e Jóttas que andam distraídos e alinharam no jogo do Cão é só uma questão de lerem os Groinks dos últimos Posts e verem o que para ali vai. E continua.

Obviamente que o Porco nunca foi um blog virginal e jamais foi anti-caralhadas. Já anteriormente houve discussões que passaram por isso. Mas reduzir a coisa por inteiro a isso, é que jamais sucedeu. Como está a suceder agora. O Porco nunca foi um animal impoluto. Repito, sempre houve caralhadas e sempre as haverá. Não é uma campanha pela virgindade que se trava aqui. Contudo a caralhada nunca foi o dominador base do Tapor. Como o é agora e em exclusivo.

O Cão, que no seu blog pessoal – ver o nossos links em baixo – apaga tudo o que lhe lixa a imagem de escritor que se leva a sério, entende que no Porco deve estar à vontade. Mais do que à vontade sente-se no direito de estar à vontadinha, isto é, espojado a vomitar as maiores imbecilidades e meter trompetes e piças de burro pelo cu acima de toda a gente. Pelo meio, considera-se ainda no dever de identificar as pessoas que participam neste blog. E de fazer Posts que mais não são do que verdadeiros assassínios de carácter. Eu que sou e sempre serei amigo do Cão, jamais lhe respondi à letra em público no Porco. Seguiram-se N mails privados e conversas pessoais de que nada valeram.

Em face disto, e do crescendo de idiotice, saí. Há já muito tempo que não faço nenhum Post e muito menos qualquer Groink fosse onde fosse. Até porque continuar implicava descer ao nível do Cão e eu sou um gajo demasiado alto e gordo para me abaixar tanto. E avisei que pelo meio iam matar o Porco. Como se vê. Para grande gáudio do Cão e caralhadores de serviço.

Além de mim, já outros postadores saíram e recusam-se a postar. Dos Groinks, em silêncio ou a gritar, lá vai saindo alguma gente também. O último com estômago que feche a porta. Um dia destes fica aqui o genial Cão a mandar a comandita dele fazer broches a cavalos e a mandar enfiar trompetes no cu à malta que se enganar e aqui cair. E estamos nisto. E volto a repetir que a caralhada é parte integrante do Porco. Contudo reduzi-lo à caralhada é matá-lo. Como se está a ver.

Aqui chegados e na pujança caralhal que se vê nos groinks do Post inane do Cão que está em baixo – e não não é provocação, o estalinista pensa mesmo assim – importa que a malta se defina de uma vez por todas.

O Cão entrou em guerra com o Porco. O Porco passou a ser para o Cão um alvo a abater. O Cão entende que o Porco é a sanita onde pode cagar à vontade. Ao invés, entende o Cão que o Blog dele é sagrado, porque identificado como Daniel Abrunheiro e aí não se pode jabardar. Aqui manda levar no cu, no dele isso é apagado de imediato. A libertinagem é gira, mas só nas costas dos outros.

Resta dizer que o Cão não está sozinho. Há aqui pessoal que acha muito bem a caravana caralhal do Cão. Eu não e agradecia à restante malta do blog que se defina de uma vez por todas se quer o velho Porco ou se de vez se muda isto para a pocilga do Cão. Se é para combater o Cão não recuarei seja onde for – e aqui ele fica avisado -, se estou sozinho resta-me sair daqui e deixar a caravana passar.

E atenção que isto não é um Post anti-Cão, mas sim anti-caralhadas do Cão. Sempre entendi que o Cão era e é um valor acrescentado para o Porco e ainda hoje a maioria dos Posts do Cão foram digitalizados e publicados por mim. Só não percebo é porque é que no Porco, o animal do Cão se reduz à caralhada e à perseguição pessoal e identificada.

Assim e antes de ir mais longe convém que o pessoal aqui do Tapor se defina e diga em que tipo de Tapor se revê. Se é um Tapor para voltar aos Posts de discussão de temas e ideias, ou se é um Porco de combate caralhal, em que o insulto seguinte é duas vezes pior que o anterior. Eu por mim, voto no velho Porco, abomino a total caralhice e se for esse o caso, compro a Guerra com o Cão.

04/09/05

Katrina Eufémia, por Fura também Cão

O meu primo com nome de mulher, o Furacão, fez das dele.

Tornou Nova Orleães numa Nigéria taliqual.

Peninha dos negros e dos brancos à la americaine? Pas moi.

Se os nazis tivessem ganho a Segunda GM, que diferenças hoje?

Nenhuma, à excepção dos judeuzitos de merda.

Katrina Eufémia: je t’aime!

Nota do Administrapor: Este post é da exclusiva responsabilidade do seu autor. Os restantes membros deste blog não só repudiam os termos, como os preconceitos aqui expressos. Contudo, e porque a censura nos repudia mais ainda, pedimos que endossem todas as críticas para o blog do nosso confrade e amigo: O Canil do Daniel

02/09/05

Tempestade, por Mangas

Um gavião desenhou dois círculos lá no alto. Voo suspenso sob o céu cinzento. Devem ser um prenúncio qualquer aqueles dois círculos, porque de repente as nuvens ficaram mais carregadas. Ficar por cá para além desta semana pode ter um desenlace inesperado. Às tantas, começo a habituar-me a vaguear pelo French Quarter e a sentir a ligação alienante ao jazz de rua e à comida creoule com muito picante.

Corre uma brisa fresca que a pele húmida agradece. Tentam vender-me uma boneca voodoo negra, com palha a fazer de cabelo e o rosto em forma de caveira, mas eu só tenho olhos para o gavião que agora paira sobre a minha cabeça. As tardes renascem neste tempo sedento de sangue. Os meus pés levantam poeira que em breve se irá transformar em lama. Sinto a camisa colada ao corpo. Vejo polegares apontados para cima, ansiosos por uma boleia. Também eles já perceberam que esta noite é o fim do mundo. Quatro putos negros batem com frenesim a sola metálica das botas no pavimento dos passeios. É um sapateado anunciador. Alguém recolhe os toldos e tranca as portas. Gritam pelos filhos. Gritam pelos filhos dos filhos. Alguns (muitos!) deixaram os bares e vieram para as calçadas diluir os últimos acordes de um trompete metálico em estado de ansiedade. Não há nada mais perigoso do que um trompete em estado de ansiedade! Garanto que ainda o consigo ouvir. Sem dar um passo. Sem mexer um músculo sequer.

Num instante as ruas ficaram desertas. Olho mais uma vez para cima e quase não distingo aquela forma ameaçadora de asas abertas. Caem as primeiras gotas e o barulho ensurdecedor de um relâmpago deixa tudo às escuras. Num instante também, a fúria das águas desceu dos céus, como o gavião tinha prometido. Começou.

Acho agora que sempre devia ter comprado a tal boneca voodoo.

New Orleans, Louisiana, Julho de 1994

Brevíssima História de Portugal, por Oliveira Patins

A ambição senhorial de um jovem deserdado da possibilidade do trono leva-o à secessão e ao comprometimento do projecto de reunificação ibérica. A ambição alimentou-se do Sul conquistável, a condição que faltava à Galiza, e assim, Lisboa conquistada tornou viável o reino. Uma terra erguida com a vontade será naturalmente o berço da nova mentalidade burguesa, o maior legado de Portugal ao Mundo. Em Coimbra, pela primeira vez na história da Europa, elegemos rei com base em argumentos. João das Regras, o doutor, é a mais importante figura da nossa história colectiva. Esta nova mentalidade está na base da gesta épica dos Descobrimentos. A grandeza impensável do Portugal quinhentista é o facto estratégico mais importante da História da Humanidade. Nunca antes tão poucos e tão pequenos lograram tanto domínio. Deslocar o centro estratégico do Mediterrâneo para o Atlântico é, seguramente e sem chauvisnismo, a maior proeza estratégica da História. Deste feito nascerá a maior realização cultural da Humanidade, a criação da ideia de Humanidade. Tudo parecia possível, e o génio político de D. João II sonhou o impensável: unir as coroas ibéricas e os respectivos impérios. Malfadadamente se lhe frustraram os planos. O que virá depois, o sonho Quinto Imperial protagonizado por D. Manuel e sonhado desde Camões e Vieira até Pessoa, é já um delírio literário sem estratégia. A frustração deste projecto político tem relíquia: o corpo de D. Miguel de La Paz, filho do Venturoso, neto dos Reis Católicos que foi jurado herdeiro de todas as coroas ibéricas. Morreu aos dois anos, felicidade que não teve Sebastião, que foi quanto durou o sonho. Depois, foi o delírio imperial e nacionalista. Quando o delírio se tornou político, o salazarismo emboloreceu a Pátria. Sejamos Europa agora, para que a Europa se abra ao Atlântico, à África e à América. Assim se destrua a ideia de nação, contribuindo mais uma vez para a solidarização do Mundo.