30/11/05

E-mail, por Beaujolais

Caro Compadre
(também é bom podermos começar a tratar-nos com títulos do século passado. Tenho andado a pensar nas palavras que ouvi-aprendi-falei na infância, com os meus avós, e de como elas desapareceram com eles e na minha memória. Aquele mundo do proença acabou e um léxico acabou com eles. O verbo mondar. Os substantivos tulha e cajado. Muitas coisas. Será que um dia usaremos cajado?)

29/11/05

Ainda Torpedo, padroeiro do Tapor, por Minimal

Torpedo é o cognome do mais famoso personagem criado pela dupla Sanchez Abuli/ Jordi Bernet, respectivamente, argumentista e desenhador da série. Abuli nasceu em França mas fixou-se em Espanha; Bernet é espanhol, de Barcelona. No país vizinho são muito conhecidos, não só por serem os criadores do grande Torpedo, mas também por outras séries de entre as quais destaco Clarita de Noche, a história de um prostituta ingénua.

O verdadeiro nome de Torpedo é Luca Torelli. Luca é um gangster americano sem escrúplos (de origem italiana, claro, para vincar ainda mais a sua natureza mafiosa). A sua imagem de marca na contracapa dos livros é elucidativa: enquanto Luky Luke é «O cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra» e aparece a sacar a pistola; enquanto Astérix aparece a bater nos romanos e declara que «Estes romanos são loucos», Torpedo simplesmente cospe e faz «istup!», enquanto lança um escarro nojento à distância. O seu slogan - «istup!» - ao contrário dos dos heróis de Goscinny - talvez não fique para a história, mas é, certamente, um óptimo resumo da imagem de marca deste canalha sem escrúpulos.

Torpedo é o reverso negativo dos grandes idealistas. Conhecendo-se a matriz castelhana da cultura de origem dos seus criadores, somos levados a pensar que ele é uma espécie de D. Quixote de La Mancha ao contrário.Para além do carcanhol que possa ganhar em cada trabalhinho, não há qualquer outro ideal a movê-lo. O oposto do Quixote que tudo abandona na busca do seu nobre ideal… Torpedo é inculto, analfabeto, agiota e caloteiro. Um ladrão e um assassino desapiedado - tudo reunido numa só pessoa. Mesmo nos pormenores consegue ser o mais politicamente incorrecto que se possa imaginar – é feio, imundo e fuma constantemente. É alguém em quem nem o amigo mais próximo poderia confiar… Bom, para dizer a verdade, ele não tem amigos nem sequer tem uma Dulcineia, como tem D. Quixote. Mas tem o seu Sancho Pança, de seu nome Rasckall, um pacóvio gordo, isento de escrúpulos como o patrão, mas incomensuravelmente mais burro, muito mais.

Originalmente, a série é a preto e branco, como deve ser, numa homenagem deliberada aos filmes de série B americanos, mas infelizmente, os franceses da Glenat já trataram de a editar em capas cartonadas e a cores. Sendo, portanto, altamente cinematográfica, esperamos que um dia um realizador genial adapte Torpedo à tela –Abuli já afirmou que o Clint Eastwood dos velhos tempos seria uma encarnação perfeita de Luca Torelli.

Neste momento, contudo, após uma série de álbuns que estão traduzidos em várias línguas e editados pelas mais poderosas editoras de BD, Torpedo está morto! Pelo menos assim foi declarado por Abuli. Razões? Pois… Os pais do gangster – Abuli e Bernet – desentenderam-se e quem paga somos nós, leitores, que nos vemos, assim, privados das aventuras deste bandido magistral. Parece que houve um desentendimento acerca da paternidade do menino Torelli. Abuli teve ciúmes de Bernet por causa de um disco de homenagem à série feito por uns músicos de rock amigalhaços do Bernet. Parece que estes últimos não reconheciam Abuli como um dos pais da série... Em consequência da zanga, o caso acabou na barra do tribunal. Agora, até que os céleres (?) tribunais espanhóis decidam quem é, afinal, o pai da criança, Torpedo está provisoriamente morto, quer dizer, não são lançados mais álbuns da série até resolverem o imbróglio. E nós é que nos lixamos…

American Gothic, por Tó-Que-S-U-Íno

O quadro anexo é do americano Grant Wood (1891-1942), data de 1930 e chama-se “American Gothic”. Na Europa este quadro não é muito conhecido ou divulgado, mas nos EUA a pintura é um ícone incontornável e pedra basilar de milhares de cartoons, paródias, referências e campanhas de publicidade. Para terem uma noção mínima da extensão da coisa, escrevam “american gothic” no Google Imagens e pesquisem. Saltam aos olhos milhares de variações do quadro, utilizado por tudo e todos, uma vez que a pose se presta a “N” mensagens. Nas primeiras páginas do Google Imagens dá até a impressão que soltaram a Didas por ali com carta branca para voar…

Quem quiser ver uma reprodução aceitável que vá a:
http://www.babyswimming.com/Iowa%20American%20Gothic.jpg

O quadro pretende representar um agricultor pai e a sua filha solteirona. Para o pai, Grant usou como modelo o seu dentista e para a solteirona Grant foi-se à irmã. Muito mal ela lhe deve ter feito que a coisa não me parece lá muito feliz. A observação ligeira do quadro dá ao observador uma inquietação e um mal-estar que não se vê bem de onde vem, tipo Shinning do Kubrick. Descendo ao pormenor vêmos que as personagens estão mal-humoradas e carrancudas. A forquilha, firmemente empunhada, qual estandarte ou bandeira, introduz um elemento fortemente dissonante numa coisa que à primeira vista seria um simples retrato de família rural. As cores são meio agonientas e vê-se que o pintor fugiu claramente do uso de qualquer cor primária ou de tom pujante. A forquilha além de segura por um punho que se afirma e quase sai do quadro, fica com as pontas perigosamente perto dos rostos – a irmã e o dentista do Grant deviam dar uns vizinhos do camandro – e instintivamente temos medo que alguém se aleije. E depois temos os olhares, de linhas cruzadas e confusas, uma vez que se o velho nos olha de frente e de peito feito em desafio firme, a mulher olha de lado e para outro lado, não para o pintor ou fotógrafo que os retrata no seu fatito domingueiro, mas sim para a lateral onde está alguma coisa que inquieta ou ameaça. Este quadro dá arrepios.

Apesar de arrepiante, o quadro foi adoptado pelos americanos como retrato de uma certa ruralidade da América profunda, que constitui um traço marcante da sua identidade. O gótico do título vem da janela copiada de catedral europeia e este quadro permanece ainda hoje como um dos mais famosos e valiosos da arte americana. No meio daquela imagem e mensagem fortíssima, não é difícil adivinhar o advento da popularidade e do estatuto iconográfico que o mesmo ganhou. Mais difícil é contudo descobrir ali traços identificativos de quem olha para aquilo e se vê ali retratado.

Não se sabe bem o que é que o Grant Wood quis transmitir com este quadro, uma vez que a coisa dá para os dois lados, se não mesmo para todos os lados. A popularidade do quadro advém da identificação que as pessoas assumem, e o mesmo quadro serve de bandeira a grupos e lobbys que o usam como louvor e ícone de uma mensagem conservadora de rectidão, contenção e valores tradicionais. Para esses, o quadro é a apologia do puritanismo, dos "Founding Fathers" da mística dos "Pilgrims". Ao invés, há os grupos e interesses contrários, que usam o mesmo quadro como estandarte e representando uma crítica muito forte ao conservadorismo, valores arcaicos e ideias ultrapassadas. Pra essa malta, o quadro representa um gozo a uma ruralidade saloia, retrógrada e "red neck". E fica sempre a dúvida se o quadro é Elogio ou Crítica? Venha o diabo e escolha, mas cuidado com as pontas da forquilha!

28/11/05

La Mano De Dios, por Mangas

Tal como Fátima e Lurdes são autênticas catedrais de culto para fiéis e crentes de todo o mundo, A Cidade do México possui um local com dimensões não maiores de cem metros de comprimento por cinquenta de largura, onde o fervor e a devoção não são ali menos consagrados. A grande diferença entre estes lugares reside apenas no sujeito de veneração. Se por cá foi a Virgem Maria que encurtou distâncias e escolheu os mais humildes para inspirar, na Cidade do México, foi Deus Himself que desceu dos céus e se manifestou por duas vezes resgatando o orgulho ferido de todo um povo. Estas aparições ocorreram no dia 22 de Junho de 1986, o local escolhido foi o Estádio Azteca, também conhecido por Coloso de Santa Úrsula. A tribo do futebol em geral - ao vivo ou à distância planetária do satélite -, argentinos e mexicanos em particular, foram testemunhas dos dois extraordinários acontecimentos.

Com a guerra das ilhas Falkland ainda a sangrar na memória dos argentinos, aquele jogo dos quartos-de-final do Campeonato do Mundo decidia para os ingleses, tão-somente, a possibilidade de continuar em prova e alcançar as meias-finais. Porém, para os argentinos, e quatro anos após terem sofrido a humilhação de regressar a casa com o rabo entre as pernas e as Malvinas irremediavelmente perdidas, o futebol era o instrumento perfeito para ajustar contas antigas. Minha é a vingança, diz o Senhor e Diego Armando Maradona fez-lhe a vontade.

Ao sexto minuto da segunda parte, com o jogo empatado a zero, o lateral esquerdo inglês Steve Hodge tem um mau alívio após um cruzamento de Jorge Valdano. A bola vai direitinha para a zona de penálti onde, sob a pressão de Maradona, o keeper inglês Peter Shilton a tenta socar para longe. O argentino chega primeiro, eleva-se mais alto, contudo não o suficiente para cabecear a bola e, num toque subtil com o punho esquerdo, empurra-a para dentro da baliza. Foi como se Maradona tivesse entrado descalço num very-british-Country-Club-Members-Only, e pontapeasse a pelota para o relvado de críquete antes de mijar para o bule de chá sob a presença chocada da Rainha emoldurada. Nunca se soube se no último instante da impulsão, o rosto tatuado de Che no braço esquerdo de Maradona, terá pendido para a bola num revolucionário golpe de mão contra o imperialismo. O árbitro Ali Bin Nasser, limitou-se a validar o golo perante o espanto dos ingleses ainda atordoados e dos argentinos prolongadamente incrédulos; El Pibe marimbou-se para os nobres códigos de ética e cavalheirismo lavrados em terras de Sua Majestade e limitou-se a gritar para que os seus colegas o viessem abraçar, porque em tempo de guerra não há fair-plays que resistam, não fosse o tunisino voltar atrás e reconsiderar a validade do golo. “Com a mão? Só se foi a com a mão de Deus!”, retorquiu Maradona aos jornalistas no final do jogo, quando confrontado com a pergunta sacramental.

Talvez o futebol seja apenas um jogo, mas Diego Maradona foi um artista, logo, pela lógica irrefutável da condição, a bola nos pés do número 10 argentino era pura arte em movimento. E, para que no que lhe dissesse respeito, a História dos Mundiais não se limitasse a intervenções divinas pelo ar, Maradona tratou de lhe acrescentar mais um capítulo à flor da relva mostrando que qualquer Deus que possui uma mão esquerda, também possui um pé esquerdo. Decorria o décimo minuto quando ainda dentro do seu meio campo, Maradona recebe um passe de Héctor Enrique e inicia uma cavalgada de 60 metros em 10 segundos driblando, um após outro, todos os jogadores ingleses que lhe apareceram pela frente, cinco no total!, bola no pé, centro de gravidade e equilíbrio em perfeita harmonia, criador de espaços, progressão acelerada até encarar Peter Silton pela segunda vez entre si e a baliza, o argentino aguardou até ao limite a sua saída entre postes, um toque, um carícia envenenada na bola com a parte interna do pé para uma última viagem ao encontro do que mais se assemelha com a felicidade: golo! Recentemente, a FIFA elegeu-o como o Golo do Século, o melhor de toda a história dos Mundiais.

Quando após a final desse Campeonato do Mundo beijou a taça que o consagrou como o mais fantástico jogador da sua e de todas as gerações, Maradona, sem o saber, celebrou nesse instante o último triunfo pessoal de um percurso desde Villa Fiorito, o subúrbio pobre onde cresceu na mesma pátria que carregou às costas, até à exultação nacionalista do triunfo pelo futebol. O último momento de aproximação aos céus antes de ter mergulhado no inferno da cocaína que quase o destruiu. Mas para a história fica aquele golo com a mão. “Mão de Deus los cojones! Foi mão de Maradona!”, diria muitos anos mais tarde o pequeno génio argentino, com um misto de orgulho e desprezo chispados no olhar de ladrão que rouba a ladrão.

No exterior do Estádio Azteca, ergueram-lhe uma estátua. Diz-se que os argentinos que por lá passam, se ajoelham, rezam e ao sinal da cruz suspiram: em nome do Pai, do Filho e Diego Armando Maradona. Ámen.

24/11/05

O Hino, por Chino

Um dia destes o circo da bola veio a Coimbra. A selecção de todos nós, jogou no antigo Municipal com a Croácia e eu fui lá ver. Tive mais uma vez a oportunidade de me irritar sinceramente com uma das coisas mais idiotas que se podem ver em jogos de futebol: o momento em que toca o hino da Pátria e as pessoas se metem todas de pé, muito hirtas, uns até com a mão esquerda no coração, como se estivesse mesmo em causa a Honra da Nação. Mas não se convencem que vão ver um simples jogo de futebol e que não, aquilo não é uma questão de vida, nem de morte, nem de Pátria? É ridículo ver a multidão de velhos, novos, homens, mulheres e crianças a cantarem aos berros «às armas, às armas, contra os canhões, marchar, marchar»… Como é que é? Às armas? Marchar, marchar? A maior parte daquela gente, se realmente algum canhão se levantasse contra eles, tratava era de dar ao slide.

Por isso quando começa este momento de patetice colectiva, eu, simplesmente, recosto-me na cadeira e fico ali com ar de gozo, não sei se triste se alegre, a ver aqueles palermas todos a arrepiarem-se de bacoco orgulho pátrio. E há sempre um ou dois que me olham de lado para confirmar se eu sou mesmo português ou do outro lado dos canhões…

Pensava que era o único a pensar assim, mas hoje, ao ler a coluna da Leonor Pinhão na Bola vi que, afinal, há mais gente como eu. Como te compreendo, Leonor do Benfica, quando ficas «desconfortável» em presença de um tal espectáculo. Tens toda a razão, «istoé uma apropriação abusiva» ou «do hino pelo futebol ou do futebol pelo hino». E fizeste bem em lembrar que já há 20 anos, o grande jornalista brasileiro, João Saldanha, escreveu que:

«A FIFA tem de acabar com os hinos antes dos jogos porque só servem para exacerbar nacionalismos doentios com grande potencial para a redundar em violência. (…) Trata-se somente de um jogo de futebol»

A propósito, viram o Turquia X Suíça?

Mais Uma Grandessíssima Filha-Da-Putice, por Nem Pio

Relembremos. No final do seu mandato, o Cavaco já tinha tudo aprovado para avançar com uma Incineradora em Estarreja, para queima dos resíduos industriais perigosos. Tal unidade já estava inclusivé aprovada pela respectiva autarquia, que já tinha negociado as contrapartidas.

Veio o Guterres e fez tábua rasa daquilo tudo. A Secil e a Cimpor – que não o Governo -, criaram então a Scoreco que seria uma sociedade conjunta para propor ao Governo e fazer a Co-incineração. A dita Scoreco, relevou os aspectos de transportes e os aspectos económicos e uma vez que a esmagadora maioria dos resíduos industriais perigosos são produzidos em Sines, Barreiro e Lisboa, propôs que as melhores cimenteiras para Co-incinerar eram Outão e Alhandra.

O governo aceitou a proposta da Co-incineração, mas não gostou de Alhandra, olha se gostasse!, e vai daí arranca com a CCI (Comissão Científica de Investigação). A dita que, ao invés, se devia chamar CEI (Comissão Económica de Investigação) veio a estar-se nas tintas para a proximidade dos locais de produção da porcaria e proclamou que Souselas e Outão eram os melhores locais para Co-incinerar porque tinham Filtros de Mangas, logo os resíduos perigosos deviam passar a andar de comboio e trólei por esse rio acima.

Os Filtros de Mangas foram pagos pelo Governo às cimenteiras de Souselas e do Outão, pelo preço de 10 milhões de contos, quando já era conhecida a Directiva da EU que obrigava todas as cimenteiras a colocar tais filtros às suas expensas. Hoje, as seis cimenteiras nacionais têm Filtros de Mangas.

Julgar-se-ia assim que a coisa iria arrancar sem mais, até porque – ironia das ironias -, o dito socrático venceu com maioria em Souselas e em Coimbra e fez bandeira da Co-incineração durante a campanha. Contudo…

Contudo, há agora um problema. É que ao invés do que defendia a dita CCI, cerca de 40% a 50% dos resíduos a queimar, que eram os Solventes e os Óleos Usados, já estão desviados deste processo e estão a ser reciclados em unidades próprias já em funcionamento. Como se compreende este era o bolo com cereja, pelo qual salivavam as Cimenteiras. Sem este créme de la créme, as Cimentiras já torcem o nariz à coisa e não vão no fole sem mais!

E mais ainda, entretanto, já estão aprovados e em fase de arranque os dois CIRVER (Centros Integrados de Reciclagem Valorização e Eliminação de Resíduos) para a Chamusca e estes vão cortar mais uma boa fatia do bolito restante, tratando 85% a 90% dos resíduos industriais perigosos restantes. Sem isto tudo, o que resta para queimar é merdunça de difícil e complicada queima que só vai desestabilizar a temperatura nos fornos das cimenteiras. O que resta para queimar pouca ou nenhuma valorização energética tem e pela pequena quantidade não compensa.

Daí que as Cimenteiras agora não querem a coisa sem mais e daí que o Governo esteja a patinar no avanço da coisa. E o “sem mais” é precisamente pilim, carcanhol, massa, que o governo agora vai ter que pagar e bem, para a queima da coisa. Contudo, e ainda que pagando bem, a coisa a queimar é pouca para a despesa e o trabalho que dá, não compensando de certeza a sua queima em duas cimenteiras.

Daí a reavaliação, a volta da malfadada CCI e o concurso público. Deus queira que me engane, mas uma vez que não se podem prejudicar os animaizinhos da Arrábida – até porque a UE não gosta disso -, e uma vez que Souselas e Coimbra gostaram do Sócrates, restam-me poucas dúvidas que o restito da coisa vai directo para uma única cimenteira: Souselas. E nem teremos o consolo de um cerco às tropas do general Custer, nem o consolo de poder gritar Jerónimo! Nós os Índios, calamos e calaremos, até porque votámos nele.

23/11/05

Viva o Pacheco!, por Cão

Chama-se Luiz Pacheco, nasceu a 7 de Maio de 1925 e é um homem livre desde esse dia.

Fez e tem muitos filhos. É editor, escritor, libertino, bissexual (ou era, que a idade tudo pendura…), má-língua-sem-papas-na-mesma, certeiro, danado, assertivo, cru, visceral, afiado, justo, injusto, amante, claro, obscuro.

Descobriu, revelou e publicou, entre muitos outros, gente literária hoje muito estrelada: Herberto Helder, Mário Cesariny, Natália Correia e António Maria Lisboa.

Nunca se vendeu. Nunca teve “tachos”. Nunca se empoleirou. Passou fome de rabo (nos dois sentidos). Aos 80 anos, lixado da gosma da asma, com um enfisema assobiante, alcoólico (finalmente) não praticante, pobre como um esmoler franciscano, repousa com dignidade num lar de velhotes com cama, mesa e roupa lavada, ali para os lados de Setúbal. E sempre doido pela literatura.

São dele, entre outras mais, obras imprescindíveis como “Textos de Guerrilha”, “Exercícios de Estilo”, “O Libertino Passeia por Braga, a Idólatra, o seu Esplendor”, “Memorando, Mirabolando”, “O Teodolito”, “O Caso das Criancinhas Desaparecidas”, “Os Namorados” e a fabulosa “Comunidade”, entre outros.

Pacheco é o meu herói. Hoje, resiste à morte com o mesmo denodo com que sempre resistiu às agruras da vida. Passou mal (até esmola pediu) para poder publicar a escrita dos outros. Esteve preso cinco vezes, no Limoeiro e nas Caldas da Rainha, por ordem da “Justiça” dum tal Salazar de má memória. Preso, mas sempre livre por dentro.

Agradeço-lhe o exemplo. Vivemos hoje em liberdade também por causa dele. Ele ensina a (r)existir. Por isso, viva o Pacheco! E viva a gente também, c’um caneco!

22/11/05

Comunicado de Saúde Pública, por Kzar

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Exmºs. Srs.

Determinado pela constatação de que certa doença perniciosa, que se julgava reduzida a um estado larvar razoavelmente inócuo, tem afinal conhecido um insólito recrudescimento, particularmente no âmbito de certos blogues lusitanos que dela são foco e veículo de propagação, entrego aqui modesto contributo para a saúde pública, em forma de aviso.

A comunice é uma doença psiquiátrica intratável, cujas primeiras manifestações conhecidas remontam ao séc. XIX e ocorreram em certo indivíduo famoso, de nacionalidade alemã, propagando-se depois um pouco por toda a Europa, com especial acuidade na Rússia, e daí para o mundo inteiro. Uma pandemia, portanto, que determina os afectados a analisarem o mundo e a sociedade em termos fantasistas, contrários à evidência das coisas, às leis naturais, à normalidade social e ao mero bom senso.

Deixados às suas próprias ilusões, que os dominam e embotam com fúrias obsessivas, os doentes, acaso logrem iludir outros com as suas fantasias, ou arrebanhar-se em número significativo de companheiros de infortúnio, tornam-se indivíduos perigosos para a comunidade e para as liberdades individuais.

Há registo fiel de desmandos colectivos verdadeiramente assustadores, tendo estado em voga um chavão clínico segundo o qual a comunice matava mais do que o cancro; e matava, muito mais até, sendo certo que de resto ainda mata significativas porções de pessoas em certas partes do mundo incivilizado. O terror suscitado nas pessoas sãs é de tal monta que muitos preferem a morte a ser possuídos pela doença ou a conviver com os infectados - nasceu a esse propósito outro brocardo, que em língua inglesa se vulgarizou: "better dead than red"... (cumpre explicar que à semelhança da benfiquice, as lesões neurológicas associadas determinam uma bizarra preferência pela cor vermelha, constantemente atribuída a bandeiras, faixas, panfletos, etc.).

Estreitamente aparentada com a nazice (os doentes não podem ser mantidos juntos) e a vulgar psicopatia (que normalmente se lhe sobrepõe), a doença da comunice torna o seu portador em criminoso potencial e, com frequência, actual.

Ferreamente convicto de dislates absurdos como a negação da economia capitalista e a eliminação ou limitação severa da iniciativa individual, quando não mesmo da propriedade, o doente aceita em geral qualquer vilania, torpeza ou violência para converter outros a tais credos ou forçá-los a sofrer-lhes as consequências.

Em anos ainda recentes, as condições de propagação da doença foram significativamente eliminadas, o que ficou a dever-se principalmente à reconversão do seu foco principal, conseguida mediante um tratamento de choque de confronto com a realidade de miséria a que a degeneração conduzira em setenta anos.

Ainda assim, muitos portadores da anomalia persistem, um pouco por todo o mundo, em defesas mais ou menos directas e abertas, nuns casos, mais ou menos oblíquas e encobertas, noutros, a tentar propagar a sandice. Atacam o principal terapeuta, que tentam constantemente reduzir ao estatuto de actor medíocre e, numa estranho acesso de confusão, procuram por vezes atribuir a cura a um dos próprios doentes, chamando à cura "perestrika", ou "glaznost", ou coisa semelhante.

Em geral, mesmo quando escondem a foice e o martelo que em tempos tinham adoptado como insígnia, podemos detectá-los por um vasto conjunto de sintomas de entre os quais se podem destacar, porventura, a acrítica louvaminha de sítios indizíveis que os seus apaniguados governam (v.g., Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, et al.), a demencial crítica de tudo e mais alguma coisa que lhes pareça vir do país que mais contribuiu para a contenção da fonte da doença e, muito particularmente, a negação espasmódica do mercado livre, a que entendem chamar "globalização" - definindo-se a si próprios como "anti-globalização".

Um dos traços observados mais recentemente no comportamento desses indivíduos é o de com ilógica insistência desculparem toda a espécie de agressões dos sectores mais retrógrados e fanáticos do mundo islâmico ao ocidente, com o mírifico e bizarro pretexto de que o Islão é desprezado, ofendido e explorado pelo ocidente. Invariavelmente vêem a questão israelo-palestiniana com olho vesgo, definindo o problema, com sanha maniqueísta, como a opressão do mau (Israel) sobre os bons coitadinhos (palestinianos), os quais quando põem bombas em autocarros ou bares, lançam rockets, etc., o fazem sempre em boa e legítima defesa...

Um outro sinal patognomónico da doença é a negação da realidade observada quando se consegue fazer-lhes ver a natureza perniciosa dos seus efeitos na sociedade. Num momento de lucidez, verificam que em tal ou tal país cuja população governante foi contaminada, as consequências se revelaram devastadoramente atrozes, em termos económicos e de liberdades cívicas e políticas; porém, nesse caso, argumentam, com aparência de seriedade desarmante, que uma vez que tudo correu tão mal, então o que lá havia não era a doença da comunice, mas antes a da fascizice, a da nazice, ou até mesmo o elementar capitalismo, já que à comunice nunca conseguem reconhecê-la como desvio/perversão e por isso não concebem que dela resulte o Mal.

Parte desses infelizes tem o hábito de reunir-se em Porto Alegre, no Brasil, fazendo alaridos folclóricos e vomitando disparates incessantes, sempre que os governantes de alguns países mais relevantes na economia mundial se reúnem noutro sítio qualquer para discutir coisas sérias.

Pormenor intrigante mas que causa sempre algum riso é o de não perderem o hábito de se reclamar da "ciência", aliás na esteira dos casos mais graves que se conhecem, que chegaram a urdir fantasias que intitularam de "comunismo científico" ou designações tonitruantes similares. Têm uma fé irracional e indomável na "planificação" e aparentemente acreditam de modo pio em que aplicando às suas ilusões o adjectivo "científico" adquirem, como que por osmose, a credibilidade própria da ciência no apuramento de conclusões sobre o real e a sociedade.

Enfim, apesar de ser intratável (conhecem-se ainda assim alguns casos de regressão espontânea e boa parte da população é-lhe rigorosamente imune), tenho a satisfação de informar que os sintomas da doença podem ser contidos com razoável eficácia. Todavia, sendo o brometo e os electrochoques metodologia reprovada pela psiquiatria moderna e incompatíveis com a sensibilidade dos nossos dias, uma gestão aceitável da saúde pública terá de bastar-se com depender, no essencial, da lentidão do desenvolvimento económico.

Com efeito esperamos todos, é claro, que a progressiva expansão do acesso ao bem estar e à cultura imunize a generalidade da população mundial contra tão perniciosa doença, que faz dos seus portadores objecto da mais funda pena, mas também de temor. Até lá, aconselha-se apenas constante reprovação e, se possível, confrontação dos afectados com o absurdo - entrar na sua retorcida lógica do mundo, usando doses generosas de ironia e humor para distorcê-la e quebrá-la, é com frequência meio idóneo para reduzir-lhes os frutos da mente obsessiva ao que realmente são: uma névoa de disparates; perigosos, mas ainda assim, sempre, meros disparates.

20/11/05

'TÁ-SE BEM !, por Mad Prof

O Dias era um colega meu que se pode apressadamente caracterizar em duas palavras: trabalhador e pragmático. O seu espírito empreendedor, a sua iniciativa, o seu apego ao trabalho, levavam-no a desdobrar-se em iniciativas empresariais próprias que ora eram alvo de incompreensão, ora motivo de crítica. Eu dei-me bem com ele e admirava-lhe essa capacidade. Para o Dias, a escola perdera a noção prática. É demasiado teórica, ensina coisas que não motivam os miúdos, não os prepara para a vida. Defendia, no que eu o sustentava, um ensino técnico profissionalizante e criticava o ensino livresco e teórico aplicado em doses maciças e repetidas a crianças sem qualquer hipótese ou vontade de prosseguir estudos superiores. Revoltava-se contra o facilitismo, contra a indisciplina e contra a desvalorização da componente cognitiva nos programas escolares. Defendia ainda uma tese cínica que eu tenho dificuldade em subscrever inteiramente, não por discordância aberta mas por temer que tenha fundamento:

- Ó pá, - dizia o Dias - o Estado quer dar o 9º ano à malta. Não lhes quer abrir os olhos. Por isso é que isto está assim. Tu já viste se a malta abrisse os olhos e estudasse e aprendesse ? Então depois quem é que ia para as fábricas da Volkswagen ganhar 70 contos, oito horas por dia a carregar num botão ?- E acompanhava a questão com o movimento repetitivo do indicador, antes de concluir :

- Assim, analfabetos com canudo, aceitam fazer tudo por uma ninharia. Depois, quando a tendinite der cabo deles, vão para a rua e vêm outros.

Eu e o Dias tínhamos uma turma em comum. Eram o terror da escola. Indisciplinados, desafiadores, mal-criados e impossíveis de aturar ao fim da tarde. Ninguém que não tenha experimentado pode compreender estas palavras. Um dia, exausto após seis horas lectivas, desesperado com tanto burburinho e indiferença, dei um murro na mesa e obtive silêncio. Depois, questionei-os sobre aquele comportamento. Fiz-lhes notar que tinham que fazer alguma coisa pelo futuro senão, ameaçava apresentando em tons de negro o cenário do meu amigo Dias, «ainda acabam numa fábrica a ganhar 70 contos para estarem 8 horas por dia a mexer com o dedo para cima e para baixo !»

Mal tive tempo de saborear o efeito. Houve logo um que esticou o dedo e teve a palavra:

- Ó "setôr", 70 contos por mês para mexer o indicador 8 horas por dia ? A sério ?

- Sim. - confirmei.

- Bem bom !

Exasperei. Quando não há ambição, não há esforço. E o charco até não é mau. Nem bom sequer, quando o horizonte não vai além do charco.

18/11/05

Vinnie Jones, Mais Conhecido por O Animal, por Bacardi de Mangas

Atenção à foto: é uma imagem mítica k correu mundo e fez lenda das celebres marcações do mais intratável e animalesco defesa central do futebol inglês da era pós Nobby Stilles - Vinnie Jones! Aqui é Fevereiro de 1988, (eu estava a estagiar em Crystal Palace), Wimbledon vs Newcastle, Vinnie a pegar pelos tomates a um Paul Gascoine ainda menino e moço, mas já estrela em ascensão.

Vinnie Jones, fazendo jus à reputação de bad-boy e após pendurar as chuteiras, entrou no cinema e tem uma feito carreira brilhante entre comédias de aluguer e anúncios do Bacardi, quase sempre a interpretar matulões k arreiam primeiro e perguntam depois. A ver - Snatch, a não perder - Um Mal Nunca Vem Só, com uma banda sonora muito "british Pulp Fiction".

Gazza está a águas & banhos no Algarves a treinar o Algarve United e a recuperar de uma cirrose hepática em grau avançado.

«Conflitos sociais? Mas quais Conflitos Sociais?», por Sic

Depois de ouvir o vosso primeiro ministro a dizer, com toda a calma, que o «grau de conflitualidade social é perfeitamente normal no nosso país e que, aliás, até está admirado porque esperava bem pior» (sic), resolvi fazer um exercício. Elaborei a lista dos que protestam contra este governo e, em paralelo, acrescentei a pequena lista dos que não se queixam. Só de memória. Concluí que o nosso povo é muito ingrato e que uns 7 ou 8 milhões de entre os portugueses faziam bem é em desaparecer do mapa. Como é que conseguimos sobreviver, vá lá do 25 de Abril até hoje, sem este excelso governo é o que me pergunto. Mas vejam vocês:

Saúde:
Os que protestam – Os enfermeiros. Os doentes.
Os que não protestam – os médicos.

Justiça:
Os que protestam - Juízes, magistrados do ministério público, funcionários judiciais
e ordem dos advogados.
Os que não protestam – O advogado do bibi. O prado coelho.

Educação:
Os que protestam - Professores, funcionários discentes, alunos do básico e do secundário, alunos do superior e estagiários ou seja, todos…
Os que não protestam – todos protestam com a excepção dos boys e girls das direcções regionais de educação. A Fne. O prado coelho. A confap ou lá o que é aquilo dos pais.

Ambiente:
Os que protestam - Organizações ecologistas, a população de souselas e de Coimbra (apesar de terem votado no sócrates), a autarquia de Setúbal. PSD e CDS. Bombeiros, populações que viram o fogo entrar nas suas cidades. O ministro do ambiente que também acha que «a política de fogos do governo foi um fracasso» (sic)
Os que não protestam- O PS de Coimbra que acha bem a co-incineração em souselas (e já agora porque não uma estação de tratamento de resíduos nucleares na Pedrulha?). A malta de Vila Franca de Xira que também tem uma cimenteira, mas esta livre da co-incineração. O Sócrates que ficou a passar férias no Quénia. O prado coelho.

Agricultura e pescas:
Os que protestam - Agricultores, CAP, pescadores de Sesimbra em particular e pescadores portugueses (uma espécie em vias de extinção) em geral.
Os que não protestam- O ministro da agricultura que diz não perceber o que se passa à sua volta. O prado coelho.

Autarquias:
Os que protestam- Todos os autarcas protestam. Furiosamente.
Os que não protestam - só o coelho.

Turismo:
Os que protestam - as empresas que querem fazer campos de golf na zona centro e se vêm impedidas em nome da preservação do salgueiro anão que existe para estes lados…
Os que não protestam: Os empresários de golf que conseguiram aprovar no Algarve mais uma dezena de novos campos (!!!!). Os empreiteiros que têm projectos assegurados para avacalhar de vez o Algarve (se é que é possível). E aquele, o outro das barbas, vocês sabem de quem eu estou a falar.

Cultura:
Os que protestam - Os Mecenas do Porto que se viram impedidos de fazer da Casa da Música o que antes fizeram de Serralves, ou seja, o melhor projecto museológico do país.
Os que não protestam - O prado coelho.

Economia:
Os que protestam - Os funcionários por conta de outrem - os mesmos de sempre a pagar a crise. Quase toda a gente que vê a inflação a disparar, os impostos a crescerem e a multiplicarem-se de modo mais ou menos encapotado, as famílias que já não podem aplicar o seu dinheiro em Contas de Poupança Habitação, as empresas de camionagem e de transportes e os particulares que pagam a gasosa mais cara, os que já pagam portagens injustas e os que vão pagar portagens justas como a malta de Lisboa (em mais uma promessa para meter na algibeira da parte do primeiro ministro), os reformados, o PC e o BE, em suma, toda a malta protesta…
Os que não protestam - Os que fogem ao fisco; os grandes grupos económicos e, em particular, o Belmiro que tá na maior . O Alberto João e os clubes de futebol da madeira. Os lobbies do ferro e do betão a sonharem com a OTA e com o TGV. E aquele indivíduo que escreve todos os dias no Público.

Segurança Social:
Os que protestam - os funcionários públicos que se lixaram com as novas reformas e com a suspensão do tempo de serviço e das carreiras.
Os que não protestam - os tapadinhos dos empregados do sector privado que ainda não perceberam que o recuo dos direitos dos trabalhadores do público vai acabar por se repercutir neles também(dahh); os patrões de empresas privadas que perceberam o que os seus empregados ainda não perceberam. Ah e o prado coelho.

Emigração:
Os que protestam - Os africanos, os brasileiros e a malta de leste que continuam explorados como sempre.
Os que não protestam: os ilegais que são muitos e calados.

Emprego:
Os que protestam - Os desempregados que são cada vez mais. O licenciados desempregados que são ainda mais…
Os que não protestam – o António Vitorino, o Fernando gomes e o Vara. Os boys e as girls. As 14 secretárias do primeiro ministro. E aquele senhor gordo de barbas que está sempre a dizer bem do Sócrates.

Defesa e segurança:
Os que protestam - Os militares, os policias e as mulheres deles.
Os que não protestam – A fátima, o valentim e o isaltino. E o prado, claro.

Temos, portanto, que o Portugal Ideal, onde não existiriam forças do bloqueio, o país como deveria ser, sem os mandriões e priviligiados do costume que andam permanentemente a boicotar isto tudo, seria um país em que se tivessem extirpado ou «convertido» os seguintes grupos de cidadãos:

Juízes, magistrados do ministério público, funcionários judiciais, advogados, enfermeiros, doentes, professores, funcionários discentes, alunos do secundário, alunos do superior e estagiários, organizações ecologistas, populações de Souselas e de Coimbra, a autarquia e a população de Setúbal, o PSD e o CDS, os bombeiros, as populações que viram o fogo entrar nas suas cidades, o ministro do ambiente, os agricultores, a CAP, os pescadores de Sesimbra em particular e os pescadores portugueses em geral, os autarcas, as empresas que querem fazer campos de golf na zona centro, os mecenas do Porto, os funcionários por conta de outrem, quase toda a gente que vê a inflação a disparar e os impostos a crescerem, as famílias que já não podem aplicar o seu dinheiro em Contas de Poupança Habitação, as empresas de camionagem e de transportes e os particulares que pagam a gasosa mais cara, os que já pagam portagens injustas e os que vão pagar portagens justas como a malta de Lisboa, os funcionários públicos, os africanos, os brasileiros, as ucranianas, as brasileiras, os desempregados que querem deixar de o ser, os reformados e os, uuuuffff, militares e os policias…

Sem estes nababos todos, o país seria, finalmente, governável, o sócrates brilharia em todo o seu esplendor e o prado coelho até podia ser ministro da cultura. Como seria bom a Justiça sem juízes a educação sem professores nem alunos, a saúde só com os médicos e sem enfermeiros, a agricultura e as pescas sem agricultores nem pescadores, a oposição sem os partidos da oposição, o ambiente a arder, a cultura sem mecenas, só do estado, a emigração sem emigrantes, a função pública sem os funcionários públicos, a defesa sem militares e a segurança sem polícias…É uma pena que este magnífico Governo não possa demitir o povo ingrato que lhe coube na sorte…

17/11/05

O Auto-Rádio, por Advogado Do Diabo

O chinês estava furibundo e esbracejava em tribunal. Do outro lado, impávidos e serenos, eu e o meu cliente de nomeação oficiosa, aguardávamos que o pequenito de olhos em bico se acalmasse. Do pouco que se entendia, resultava que o meliante do meu cliente tinha ido à loja dele há já dois anos e há já dois anos que ele andava à espera daquele julgamento do cheque careca de 17 contos com que o outro pagara um auto-rádio.

O bardana do meu cliente, perante as minhas ameaças de que o Juiz lhe afiambrava, pediu-me para fazer um acordo de pagamento. Apesar dos dois anos de mora, o Chinês aceitava os 17 contos desde que pagos logo ali e então desistia da queixa. Lá fui pra fora da sala de audiências falar com o artista. O meliante, pois que não, que não tinha ali o dinheiro, só recebia dentro de 15 dias e só nessa altura, só esperando, etc coiso e tal. Prontos, tá bem vou falar com o juiz.

- Sr Dr ele aceita pagar os 17 .000$00, mas só dentro de 15 dias quando receber. O juiz olhou de lado, mas aceitou adiar o julgamento para daí a 15 dias. Quinze dias depois o homem continuava a não ter dinheiro. Que afinal estava desempregado e a mulher que trabalhava não lhe deu o dinheiro. Pedia e pediu-me mais 15 dias. Voltei ao Juiz, expliquei e pedi complacência e espera, que depois vinha uma tia a quem ele pediria o dinheiro. O juiz não estava a ir na conversa e queria fazer já o julgamento. O homem chamou-me de lado, chorou-se pela alma da mãe, prometeu pela alma do pai e eu convencido fui moer de novo a pachorra do Juiz.

O Juiz foi no meu paleio, mas só depois de me advertir que não acedia pelo artista, mas por consideração para comigo, que lhe estava a garantir a resolução dentro de 15 dias. Com esta nas trombas, não pude voltar atrás e engoli em seco. Cá fora fiz o homem jurar também pela alma da tia.

Espero que já lhe tenha morrido a família inteira, porque 15 dias depois, dinheiro pró chinês, chapéu! O chinês tava pior que estragado e o Juiz bufava comigo e com o verdadeiro artista. Garantiu que se me tinham acabado as facilidades, com este processo e com outros futuros e que passávamos já ao julgamento. Dito e feito.

Pelo meio do juízo final o homem chorou baba e ranho e pedia novo prazo ao Juiz porque dentro de 10 dias é que era e aí já ia receber do novo emprego e que telefonassem ao patrão que gostava muito dele, e agora é que era, juro e prometo. O Juiz olhou pra mim e eu adiantei, baixinho, que sempre se podia adiar a sentença por esse prazo. E o Juiz fez o julgamento, mas acedeu e adiou a sentença por mais 10 dias.

Dez dias passados e pagamento nada. O Juiz do alto da beca, começou a bufar e furioso, trovejou pró meliante:
- Olhe lá, você não tem o dinheiro, mas tem o auto-rádio?
- Tenho sim senhora, xôtor juiz…
- Atão, porqué que você não traz o auto-rádio e o devolve ao Sr. Chang?
- Ó xôtor juiz, pelo amor de deus, já lá vão dois anos, o auto-rádio agora vale muito mais dinheiro!

O sacana levou com a sentença, mas não devolveu o auto-rádio. O chinês ficou a ver navios, ou juncos, até porque andava ali sem advogado e não fez - em prazo -, o pedido de indemnização. Eu, por mim, e na leitura de sentença que imediato se seguiu, retirei as mãos pra dentro das mangas, puxei a toga até aos queixais, afundei o resto do corpanzil na cadeira e procurei o remanso longínquo da invisibilidade impossível.

16/11/05

Perguntita, por Chicken Boy

Ó grão, queria perguntar-te uma coisa, mas lembra-te que sou rústico e simples e há que ter compreensão com pessoas assim. A malta deve levar vinho no próximo jantar? Há prova cega? Não há prova cega, mas temos de levar na mesma? E se os outros levarem, eu tenho de levar também? E há jantar? E os jacarandás vão bem? E de que é que eu estava a falar ainda agora?

Tinóni, chicken boy

P.S. vocês já repararam como rústico é uma palavra curiosa? E bonita! Faz lembrar nome de povo da antiguidade, como Etrusco. Bom, a verdade é que existiram mesmo, e tenho em casa um conjunto de documentos que o provam: “Lendas e Narrativas dos Rústicos”, “Mitologia dos Rústicos”, “Os Rústicos, A Civilização Perdida”, e “Crónica da Conquista do Território Rústico Por Júlio César”. Sim! Porque os rústicos eram um povo avançadíssimo, mas pacífico! E os romanos, que por eles só tinham a força das armas, ficaram com inveja da sua gloriosa civilização, e, para os humilhar, passaram a chamar rústicos a toda as pessoas que queriam insultar. Vejam, por exemplo, este delicioso diálogo que retirei de um exemplar de Diário das Sessões do Senado: “Ó Caius Germanicus, você é um rústico, homem!” “Rústico será o pai de Vossa Excelência, ó Titus Britanicus!” Está claro que os verdadeiros rústicos ficaram tão envergonhados que morreram de desgosto! Todos? Não! Eu sou o último dos verdadeiros rústicos, porque descendo em linha directa do último Rei dos Rústicos, e tenho muito orgulho nisso. E depois, os Rústicos nunca gostaram do sakamoto.

15/11/05

O Vinagre, por Automotora

Em primeiro lugar, agradeço à malta ter sentido a minha falta. A verdade é que nestes dias pouco mais tenho feito do que investigar o vinagre, um projecto meu muito antigo. Espero assim, de algum modo, dar a minha contribuição para tão importante questão, recentemente, e em tão boa hora, suscitada pelo confrade Nini. Devo explicar que este meu estudo, do qual apresento a seguir um pequeno resumo, irá constituir o último capítulo da minha futura Opus Magnum "Origens do Estado, da Família e do Vinagre".

Aquele capitulo irá, por sua vez, ser dividido em cinco partes: 1. O que é o vinagre? 2. História do vinagre; 3. Costumes dos Povos no Uso do Vinagre; 4. Utilizações do Vinagre; 5. Apreciação sumária de alguns vinagres existentes no mercado. Vejamos então, resumidamente:

1. O que é o vinagre?: O vinagre obtêm-se a partir da levedação dos microorganismos contidos nas bactérias do ácido acético. É, portanto, um processo bioquímico, muito embora se revista de especiais características organolépticas, tendo em conta que na levedura entram diversas variáveis, das quais se salientam o açúcar e o álcool.

2. História do vinagre: O vinagre é muito antigo: segundo alguns autores a primeira referência ao vinagre surgiu com Hipócrates, o Pai da Medicina. Plínio e Aristóteles também o referiram. Não sei se sabem, mas em França no séc XIV, existia mesmo uma "Confraria de Vinagreiros", um dos "Grémios de Ofícios". Havia mesmo um título de Mestre Vinagreiro, atribuído ao profissional que fabricasse dentro desse género uma obra excepcional. Durante a guerra civil americana era utilizado para prevenir o escurbuto e tratamento de prisioneiros.

3. Usos e Costumes: Na região mediterrânica, a matéria prima do vinagre é, por excelência, o vinho. No Norte da Inglaterra, por sua vez, predomina o vinagre de malte, ao passo que no Sul desse país, onde se cultivam maçãs, o vinagre é produzido de cidra. Existem ainda registos, não inteiramente confirmados, de uma espécie de vinagre de tangerina nas montanhas da Anatólia.

4. Aplicações do vinagre:
a) receitas:
Frango em molho de vinagre (para quatro pessoas)
1 frango
4 colheres de azeite
4 colheres de sopa de vinagre de vinho tinto (aqui está ele!)
4 colheres de sopa de água
20 cebolinhos
sal e pimenta q.b.
Tempere o interior do frango com sal e pimenta. Em seguida ate-lhe as pernas e as asas. Aqueça o azeite numa caçarola e aloure o frango dos dois lados. Borrife com sal e pimenta. Pouco a pouco vá incorporando água e, muito cuidadosamente, a quantidade necessária de vinagre aquecido. Refogue as cebolas e junte-as. Deixe cozinhar durante 1 hora e 15 minutos até o frango estar macio. Aqueça uma travessa, corte o frango e coloque-o nela, guarnecido com as cebolinhas alouradas. Sirva o molho coado à parte. Curiosidades: antes de lavar verduras, especialmente bróculos, mergulhar em água com um pouco de sal e vinagre durante dez minutos. É curioso ver como os bichinhos e a sujidade subirão à tona, facilitando a limpeza. E mais: A batata não escurece se, ao ser cozida, adicionar vinagre à água.

b) Limpeza:
Vai bem na limpeza de tapetes, louças vidros e cristais, fornos, alumínio, talheres, inox, etc. Pode-se também substituir o amaciador de roupa por meio copo de vinagre na água.

c) Beleza:
Dá brilho aos cabelos, deixando-os ainda macios e sedosos. Ideal também para restituir às mãos a sua hidratação natural, depois de as ter mergulhado em produtos de limpeza fortes, cimento ou detergentes em pó.

d) Jardinagem e animais:
Uma colher de chá de vinagre por cada quarto de água do bebedouro ajuda o animal de estimação a ficar livre de pulgas e carraças. A medida recomendada é o indicado para um animal de 20 quilos. Outra: As flores permanecerão frescas durante mais tempo se à água adicionada forem acrescentadas duas colheres de sopa de vinagre e duas de açúcar.

5. Vinagres no mercado (uma amostra necessariamente curta):
a) Estrela de Prata - Fábrica de Vinagres de Alenquer: vinagre de vinho branco, suave, ideal para alface tenra e limpeza de peças delicadas de Companhia das Indias, Família Azul.
b) Princesa do Nabão, de José António & Filhos: vinagre de vinho tinto: mais acidulento que o anterior, vai bem com bacalhau à lagareiro e pode ser usado com eficácia na limpeza de fornos e remoção de odores de tabaco.
c) Luis Pato - Divisão Vinagres - Premium: um topo de gama, por ser feito de tintos das castas Pé Franco, Maria Antónia e Cochinillo, este da região de Huelva: o produtor, no rótulo (bastante completo, aliás) dá um conselho interessante: sugere ele que se mergulhem os puros Cohiba numa solução composta por duas partes deste vinagre e uma parte de Licor Beirão. Fica a sugestão.

d) Vinagretta degli Abruzzi, de Don Pipo & Fratelli: este é um vinagre italiano, de uma firma que desde há cinco séculos vem fornecendo o Vaticano: é um vinagre de vinhos seleccionados, adicionado de oregãos, um pouco de açafrão e um outro ingrediente que permanece secreto. O malogrado Damião de Góis já o recomendava na sua conhecida obra "Dos Benefícios do Vinagre na Saúde dos Povos e Outras Coisas que Aprendi Nesta Minha Tão Curta Vida".

É tudo por ora. Se não tiverem notícias minhas nos próximos, digamos, dez dias, estejam certos que estarei a desenvolver o assunto. Obrigado.

Pança, Barrete, Folhoso e Coagulador, por Zé Critério

As Tripas À Moda do Porto são um prato meio mal-afamado cá por baixo e basta ver a sanha assassina com que a Didas lhe afiambrou em Post recente pré-fuga, para ver como a coisa anda mal quista. O mais chato disto, é que a coisa grassa, graças a ignorância crassa. Basta pedir que digam alguma coisa sobre o porque não gostam das Tripas e logo vem paleio a falar de “dobrada”, de “intestinos”, de “porco”, de “ovelha”, etc, etc. Obviamente, tudo asneirada de ignaros tamanho família. Mesmo em sede de tripeiros de gema, a coisa não abunda pelo esclarecimento, e esta digna e gula Confraria já foi ao engano da coisa num tal de Triplex, guiada por mão a merecer corte e grão ao lado a acompanhar.

As Tripas são feitas a partir das paredes do Estômago do ruminante maior, isto é, da Vaca. Ou do Boi, que também dá. Não há cá porco, nem ovelha, nem cabra, nem intestinos. É do Estômago da Vaca e só deste, que se faz a coisa.

O Estômago da Vaca, como ruminante que se preza, está dividido em quatro partes distintas ou reservatórios. Cada um desses quatro reservatórios, que na herbívora Vaca têm uma função distinta, caracteriza-se por ter também uma textura completamente diferente entre si. Assim, temos a Pança, cuja superfície de dentro é lisa, ou quase lisa. Depois temos o Barrete, que é aquela parte que aparece com a superfície dividida em alvéolos tipo mel na colmeia. Temos ainda o Follhoso, que é aquela parte do estômago que vem com folhos uns sobre os outros como se fosse um mil-folhas. E por último temos o quarto reservatório, denominado Coagulador, que se diferencia por aparecer com muito nervo, tenrinho, mas nervo. Ou seja, e para que conste, uma verdadeira tripalhada só vale quando para o prato vêm estes Quatro tipos de paredes do estômago do bicho: Pança, Barrete, Folhoso e Coagulador. Todos os quatro têm sabores e texturas diferentes e é da sua diversidade que resulta desde logo a riqueza de uma boa tripeirada. Tripas, que não tenham pelo menos três tipos diferentes de reservatórios, vão para trás! Traga um prego, que é para a gente num se chatear!

E antes disto, como é evidente, um reparo base e que muita gente engole nem sei como e prefiro nem saber! As Tripas são um prato condimentado e variado, cujo sabor pode variar entre o muito e o pouco picante, o muito e o pouco especiado e o muito e pouco adocicado. Mas jamais, jamais, pode ter sabores ou odores parasitas. De sujo, bolor, podre, acre, ácido, amargo, lodo, etc. Se uma tripalhada tem qualquer coisa disto, ainda que topada à distância, tem que ir para trás de imediato, uma vez que isso resulta de má lavagem, raspagem e limpeza e com a Tripa não se brinca!

Segue-se como não podia deixar de ser um bom feijão de cozedura generosa e bem ligada com molhaca abundante e grossa. Respeitados estes pergaminhos básicos, já depende do gosto do chefe a quantidade e variedade do mais que mete na panela, que vai da cenoura, cebola, à mão de vaca, do chouriço, morcela, orelheira (sempre muita), ao salpicão, do toucinho ao presunto. Aliás, umas boas tripas passam pelo estômago da vaca de base e depois por muito e bom porco a acompanhar! Um verdadeiro artista afinfa ainda em ervas secretas, que variam de casa para casa, mas donde se salientam os cominhos.

Isto posto, deixo três sugestões no Porto para ir de Tripas. No estilo “mais barato não há” vão à Adega Do Olho, na Rua Afonso Martins Alho, nº 6, uma transversal à Rua das Flores com a Rua que desce da Estação de São Bento para a Ribeira, onde por 4,95 Euros têm direito a travessa de tripas, travessa de arroz, ceira de pão, jarro de meio litro de verde da casa, e café. Atende-os o Sr Agostinho que como diz o nome da casa, não tem um olho. Peçam meia dose ou ficam lá o resto da tarde a comer. Maior simpatia não há e a casa é airosa e bem arranjada.

Na variedade tasco de família arejado e variado para os putos comerem escalopes, recomendo o Abadia, numa transversal logo abaixo da FNAC da Rua de Santa Catarina, onde por preço módico comem uma boa caçoilada de tripas.

Mas bom, bom em tripalhada feita com alma e coração, é o Restaurante Pombeiro, sito na Rua Capitão Pombeiro, nº 218, no bairro de Paranhos e na zona da Constituição. Imbatível. Tripas que fazem saltar o coração e adormecem a alma. Esta semana, finalmente lá convenci a Confraria a tripeirar por ali. Que Deus nos acompanhe e pague a conta, se faz favor! Amén!

14/11/05

Retrato tipo-passe, por Frederico Felino

Vi Lost in Translation de Sofia Coppolla, a conselho de alguns amigos e soube logo que estava em presença de uma peça de culto. É tudo perfeito, desde a escolha de um cenário – a megapólis Tóquio - onde os protagonistas se sentem estranhos e frágeis. Camus definia o absurdo como uma representação em que um actor representa no palco errado. É isso que se passa com Charlotte e Bill Murray, encurralados nas paredes de um hotel da gigantesca Tóquio. É neste cenário que subitamente se tece uma cumplicidade entre eles que se desenvolve durante todo o filme e que nunca chega a consumar-se. Como se a amizade, o amor ou que quer que seja que une as pessoas, fossem a única resposta, ainda assim, débil, ao absurdo.

Mas não é só Tóquio – perfeito palco errado… É também a música, a fotografia, a hipersensibilidade dos diálogos, dos pormenores dos gestos e, sobretudo, a presença dos dois protagonistas, dois castings perfeitos para aqueles papéis: Bill Murray, o comediante patético, aqui mais patético, muito mais, que comediante e Charlotte Joahnssonn, menina pequena, a anti-starlette por excelência. Charlotte é fantástica, tem um rosto camaleónico que se parece com todas as mulheres e um corpo pequenino meio desenquadrado dos padrões esbeltos da época. É uma actriz muito versátil que, ora parece banal, ora parece intemporal. É ela a actriz de Girl With Pearl, dedicado ao célebre quadro de Vermeer, é ela uma das actrizes principais de Ghost World, o filme realizado a partir da BD homónima.

Um dia destes, vagueava eu na net, quando deparei com a foto que ilustra este post. Fiquei parado a olhá-la nem eu sei bem porquê. Acho que é pela tal plasticidade do rosto de Scarlett, este ar de menina, mulher em potência, que pode ser qualquer mulher da vida de qualquer homem. Não sabia de quem era este rosto, mas fiquei ali parado, chamou-me mesmo a atenção…

Até que li no texto que o acompanhava que aquela era a Scarlett Joahnssonn – eu tinha visto Lost in Translation há muito tempo, mas o filme continuava a moer, a moer… Agora, subitamente, deparo-me com um rosto na net que me chama a atenção, e descubro que é da protagonista do meu último filme de culto. Percebi que há pessoas que nascem só para serem actrizes dos filmes que estão à sua espera. Ou o contrário: que há filmes que não são feitos enquanto não aparecerem determinadas pessoas. Sofia Coppolla não teve mais que reparar na miúda escarlate. Era tão óbvio!

12/11/05

Um elefante a ver, por Uma Merda Qualquer Com Jóta

É só para dar nota que hoje à noite acontece aqui uma grande momento de cinema. Às onze da noite, mandem cagar a bola e sintonizem em "Elephant", filme de Gus Van Sant que é um poema extraordinário e extremamente perturbador em torno do massacre no liceu norte-americano de Columbine. Esqueçam desde já o panfletário Moore e o, apesar de tudo, meritório "Bowling for Columbine" - meritório enquanto documentário, pelo que alerta e revela sobre os norte-americanos e as armas, porque de resto aquilo não é, pura e simplesmente, arte. Com "Elephant" entramos noutros territórios estéticos e éticos, imensamente mais profundos. É daquelas fitas que ficam. Ao contrário da maioria dos filmes que vemos quase todos os dias, este fica. De facto, permanece e perdura. Quanto mais não seja, transfigurado num sentimento inquietante. "Elephant" é, para mim, um filme superlativo. Um dos pontos altos do cinema recente dos Estados Unidos. Trata de violência, trata de adolescentes, trata de disfunções sociais e familiares. Ao contrário do orientado documentário de Moore, o filme de Gus van Sant fala da sociedade norte-americana, dos seus cancros, mas trata acima de tudo de questões e vivências universais, de monstros que vivem latentes entre nós e dentro de nós, filmando-os de uma forma tão bela e poética (muito menos "cru" que o Kids, esteticamente muito mais elaborado) apesar de algo bizarra, que reforça o choque e a consciêncialização do absurdo do desfecho sangrento. É nesse sentido que é marcante. Van Sant, que vem dos territórios da pintura e andou pela Europa, é um artista universal maior do que as modas e trata aqui de questões da espécie humana, não apenas dos americanos, apesar destes serem a matéria-prima. Columbine pode ser um liceu qualquer. Columbine pode ser o Infanta Dona Maria.
E mesmo que o fossem, questões dos americanos, que sirva para lembrar que se a América de hoje é aquilo, então é com aquilo que teremos de lidar dentro em breve, porque a América não é mais do que a Europa com uns anos de avanço. E não é uma questão de política(s), é uma questão de dinâmicas sociais, culturais e económicas. De resto, neste aspecto da violência "absurda", já nem estamos assim tão atrasados. Será apenas uma questão de escala, se nos lembrarmos de casos como o duplo homicídio "satânico" em Ílhavo, por exemplo. Ou, noutro contexto, a violência gratuita que tem grassado nos subúrbios das grandes metrópoles europeias. São cancros que crescem no seio de nós. E chega de paleio. Vejam mas é o filme, se não for hoje aluguem. Para amanhã à noite, entretanto, já comprei bilhete para a última obra do realizador, "Last Days", que passa numa sala aqui ao pé de mim. Depois faço a crítica. Obrigado, até à próxima e vão com Deus se faz favor.

11/11/05

O desporto mais machista do mundo, por Ernie

Toda a gente diz que o golf é um desporto cheio de conotações sexuais. E é verdade. Temos que concordar que o stance obriga os melhores praticantes a ficarem numa posição um bocado abichanada. E que os trocadilhos mais ou menos óbvios com a potência dos drives, com os tacos, os ferros e as madeiras estão mesmo à mão de semear…

Um amigo meu, por exemplo, andava a tentar convencer um compincha a aderir à modalidade. Insistiu durante meses até que o outro, já farto, arrumou a questão em definitivo com um argumento do piorio:
- Pá, não leves a mal, mas eu não gosto de actividades contra natura em que a bola é que entra no buraco enquanto que o pau fica cá fora…

Mas mau mesmo foi a conversa que um dia destes ouvi no clube aqui da terra entre dois indivíduos:
- Vou passar a próxima semana aos Açores, dizia um.
- Fixe! E levas os tacos?, perguntou o outro.
- Não. Vou com a mulher…
- Tá certo. Também dá para bater umas bolas...

Filho da puta de desporto machista!

10/11/05

Volta Padeira, Estás Perdoada!, por Aljubarrota

O blog Farinha Amparo da nossa conhecida Didas está votado ao abandono pela dona. Por lá circulam apenas umas centenas de almas penadas na esperança de vislumbrar um réstia de luz que ilumine o caminho do desespero. A última caixa de comentários enche-se e esgota-se tipo O Meu Pipi e não tardará muito que aquilo feche de vez.

Ora, como a Padeira de Aveiro costuma circular aqui pelo Porco, dando as suas pázadas habituais, nada como abrir aqui um espaço de diálogo entre a ausente e os órfãos famintos.

Na caixa de Groinks repesco uma ponta de véu que a Padeira aqui deixou em baixo. Padeira somos todos ouvidos e se quiseres postar no Porco já sabes como é. Isto é uma casa aberta.

09/11/05

Mais um de La Tour, por Pio.

Nessa noite, após uma medíocre janta para os lados de Tondela, o Cão defendeu Vermeer com uma rotunda pergunta retórica: e tu, não gostas da Sombra? A discussão sobre o holandês, artista do quotidiano burguês, já vinha de trás e estava quente. Foi então que o Pilas ousou enfrentar o Cão e fulminou Vermeer, classificando-o de medíocre, sonso e outras coisas ininteligíveis.

O fulminador até podia não gostar, agora admirar? Então não devia admirar, ou mesmo assombrar-se perante os mestres do claro-escuro numa época ainda dominada, quase de forma asfixiante, pelas leis do maneirismo? Claro que temos de compreender que seguramente esta sombra, entrou violentamente no sótão do Pilas, e deslumbrado pela simplicidade arrolhadora* desta pintura, só viu o escuro do claro-escuro. Estou mesmo a ver o Pilas numa aula com o Caravaggio…, oh! mene isto da luz deste lado dá uma sombra do carago! E se a gente espalhasse uns neóns por aí? É que a filha da puta da sombra não deixa ver um caracol!

Este episódio fez-me lembrar uma notícia lida aí por alturas de Junho num jornal espanhol, onde se fazia referência à descoberta de um quadro dum dos pintores dessa época, influenciado pela revolucionária escola iluminista de Caravaggio: precisamente, Georges de La Tour.
De George de La Tour – outro iluminado pelo Amerigi, que não pelo forno do pai – poucos quadros restam. No entanto hoje há mais um quadro nesta colecção exígua deste poeta da luz. O episódio da sua descoberta merece ser contado.

No seu primeiro dia no cargo, o actual director do Instituto Cervantes de Madrid, César Antonio Molina, percorria as dependências do Palácio de la Trinidad de Alcalá de Henares, sede do Instituto quando, ao abrir a porta do gabinete do Administrador, reparou numa tela pendurada numa das paredes e, imediatamente, se apercebeu que estava perante algo grandioso, importante, não sabia bem o quê... Logo contactou com os especialistas do Museu do Prado, que identificaram a originalidade e a paternidade do óleo, como “São Jerónimo legendo uma carta” do grande de La Tour. A pintura, em poder do Museu do Prado, após doação do Instituto Cervantes, será exposta por primeira vez ao público no Museo Nacional d´Art de Catalunya, no âmbito da exposição “Caravaggio y la pintura realista europea”. Resulta também espantoso que o Museo del Prado, até hoje só possuísse um de La Tour, e por empréstimo do London Museum. É, pois, recomendável estar muito atento e olhar detidamente as paredes da nossa casa bem como as do vizinho: nunca se sabe onde se poderá encontrar o próximo de La Tour
* Nota da redacção - O termo «arroladora» é castelhano. Recebemos juntamente com o presente texto uma nota do seu autor, nuestro hermano, um esclarecimento. O nosso Cervantes explicava na referida nota que «esta fica assim q. é pá el españuel». Ficou, embora ninguém saiba o quer dizer arrolladora. Eu pelo menos não sei.

Eurominas: Ou Há Democracia Ou Comem Todos, por Mente Contusa

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O caso tem vindo a ser sucessivamente escalpelizado pelo jornal “Público” e pelo seu Jornalista de Investigação José António Cerejo, mas tem vindo a ser paulatinamente ignorado pelos restantes órgãos da comunicação social e tanto quanto sei, com um silêncio ensurdecedor por parte rádios e televisões.

O caso é simples e conta-se em duas penadas. No tempo do Marcello Caetano, que era ditador, mas não era gatuno, o governo fez uma concessão de umas dezenas de hectares do vale do Sado, ao pé de Setúbal, em 1973, para que a multinacional Eurominas aí instalasse uma fábrica de ligas de manganês. A concessão de 83 hectares, foi feita gratuitamente, mas na condição de a fábrica ser feita, funcionar e exportar. Se tal condição deixasse de ser respeitada havia uma cláusula de reversão. Isto é, finda a fabricação e parada a fábrica, os terrenos e tudo o que sobre eles estivesse construído voltava para o Estado.

A fábrica funcionou e exportou cerca de 10 anos, até que parou no início da década de 80, por conflitos com a EDP, que acabou por lhe cortar a luz. Aquilo esteve parado e parado, a enferrujar tudo, até que em 1995, o Cavaco fez funcionar a cláusula de Reversão prevista no decreto e contrato de concessão e fez reverter aquilo tudo para o Estado. O Soares promulgou e o Guterres quando subiu ao poder em 99 ou 2000 declarou que achava o decreto do Cavaco correcto.

Obviamente que, logo em 1995, a Eurominas como lhe competia, não gostou do decreto do Cavaco e meteu o Estado em Tribunal. E nessas andanças andavam ambas as partes, até que em 2001, a Eurominas muda de advogados e vai para o escritório de advogados de José Lamego, António Vitorino e Alberto Costa. O que esta gente era no PS e no governo do Guterres já vocês sabem. Nesse ano, com os novos advogados ao barulho e sem que o Tribunal tivesse opinado nada de nada, a Eurominas recebe uma indemnização de 12 milhões de Euros paga pelo governo do Guterres. Segundo parece as “negociações” foram conduzidas pela eterna sumidade Dr Vitorino e a indemnização baseou-se na suposta inconstitucionalidade do decreto do Cavaco de reversão.

Ora aqui reside o nosso pasmo. É que se aquilo é inconstitucional, então há milhentos contratos públicos e privados que sofrem do mesmo. Do simples contrato de arrendamento, que prevê que o arrendatário perca sem indemnização, todas as benfeitorias que fizer; aos milhentas operações de loteamento e concessão industrial de Câmaras e do Estado que prevêem e muito bem, a reversão dos lotes que não cumpram as regras, nada disso jamais foi declarado inconstitucional, nem o podia ser. As clausulas de Reversão são simples, comuns e correctas. Legais, portanto.

E ainda que o não fossem caberia esperar pela sentença do Tribunal onde a acção corria, do Tribunal Constitucional ou mesmo de um simples parecer da Procuradoria. Nada disso foi feito. Deram a indemnização sem mais e porque eles próprios negociadores, declararam a inconstitucionalidade. Parece-me mal.

Eu até quero acreditar que isto tudo é muito simples e explicável e correcto e tudo o mais, mas tem de ser muito bem explicadinho, lá isso tem. Não é dizer que “não fazem comentários” e que as noticias “não têm razão de ser” como agora disse o Sócrates. Têm sim Senhora, ora essa!

08/11/05

Os Turcos São Nossos Amigos, por Automotora

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O que é que está aqui em causa, afinal? Esta conversa anti-turquia e das matrizes cristãs, serve para quê? É que se continuamos a discutir a ideia de comunidade com base em matrizes culturais, não me admira nada que, no limite, acabemos a pensar construir uma comunidade mundial de tradição greco-latina, compreendendo a europa, as américas e a oceânia. E assim teremos um dia três ou quatro grandes comunidades, cooperantes mas matricialmente puras.

O que impede, afinal, a integração da turquia? É a violação dos direitos humanos? Então está muito bem. A integração pode bem servir de moeda de troca. Ou será antes o medo do choque de civilizações e da diluição das tais matrizes? Acho que temos de falar claro nisto, porque são coisas diferentes. De que nos serve, neste contexto, falar aqui da memória? Qual o objectivo? O que tem a ver a identidade comum com o que está aqui em causa? Se a identidade é um óbice, claro que é irrealista pensar na integração da Turquia, seja em 2007, em 2100 ou 2500. Ora, penso eu que a comunidade, ao contrário do que uma vez disse o Kohl, não é, não deve ser, um clube cristão. Não se diz, mas é essa a raiz da matriz, passe a cacofonia. Se assim é, que classe de cidadania têm os milhões de muçulmanos, hindus, etc, de primeira, segunda e terceira geração na europa?

Na verdade, o medo de muitos de nós é acordar um dia ao som de um muezzim no alto de uma mesquita. O problema é que pode de facto ser assim um dia. E eu próprio posso acordar um dia com vontade de ouvir um muezzim no alto de uma mesquita. Pois sim, meu filho, respeita a fé dos outros e os direitos humanos e que Jesus Cristo, Marx e Freud te abençoem com a sua infinita tolerância, bla bla bla. Mas acontece que eu nem quero saber disso, e que se um dia esses gajos me aparecerem à frente, desfaço-os com uma bomba. Continuo a ser europeu? Pois continuo, embora também não admire que me fechem a sete chaves.

E então voltamos ao princípio. Porque não deve a Turquia ser integrada à Europa? Se é a questão de conflitualidade potencial de que se fala, e se esse é de facto um risco, o que está por provar, então deixem a Turquia no seu canto. Ressuscitem os soldados do Carlos Martel, ponham-nos outra vez vigilantes nos Pirinéus, e coloquem um portão no Bósforo fechado com sete chaves.

E atenção que eu não nego a matriz cristã. A ideia inicial da Comunidade do Carvão e do Aço não era só de base económica! Mais do que económica era uma questão de paz. E hoje estamos na mesma. Marchar, marchar contra os canhões dos boches, para derreter o aço, para fazer volksvagens, para passearmos e prosperarmos.

E, por último, não gosto dos pais natais que agora começam a escalar os prédios da baixa! Estão por todo o lado e são uma praga! Se o Derviche tivesse tomates, pendurava uma boneca insuflável na janela do escritório dele!

França Está A Arder, por MenteContusa

França está a Arder. Esta é a notícia base dos últimos dias e a fonte de toda a comentarite que por aí reina. E após a constatação da fogueira, toda a gente desata a desculpar e a analisar e a propor medicinas prós incendiários descontentes. Do mero “coitadinhos” da moral cristã, passando pelo “excluídos” da psicologia, ao sociológico do “ascensor social”, de tudo por aí vai.

Ninguém se lembra do efectivamente arde. É que o que arde pertence a alguém. Desculpa-se e procura-se entender quem queima e a origem do porqué que queima, com tudo o que desculpabilizante vem a seguir, mas ninguém se lembra de que as achas da fogueira não são anónimas e não são terra de ninguém.

Cada um daqueles milhares de carros, centenas de lojas e dezenas de fábricas e armazéns, pertencem a alguém que deles vivia e que com eles alimentava a sua família. E muitas outras em cascata. Cada um daqueles bens destruídos e gratuitamente destruídos, alimentava de per si muito mais gente que os próprios donos directos. E não me venham com os seguros. Ficam a saber que ninguém tem seguros para aquilo. O seguro por mais completo que seja exclui sempre os motins, guerra e guerrilha. As seguradoras não nasceram ontem.

Era esta gente que perdeu o ganha pão, que foi gratuitamente arruinada e excluída quando lutou como ninguém para o não ser, que eu gostava de ver na televisão a ser entrevistada. Infelizmente o molotov na mão do jovemzarro bravio, rende mais que as lágrimas do senegalês da lavandaria que chora agarrado ao seu senhorio francês. Ambos perderam tudo. O jovemzarro diverte-se e arranja histórias para os netos.

Ora isto, meus amigos, é inaceitável!, por Cottonete

Estava aqui a pensar num problema e gostava de ouvir a vossa opinião. Hoje fui comprar cottonetes. Na farmácia, a srª mostrou-me uma série delas. Várias cores, várias marcas, diferentes embalagens, das 50 às 500 unidades, umas de plástico oco, outras maciço, umas mais compridas, outras mais curtas, enfim, vocês não acreditam na diversidade disponível neste particular das cottonetes. foi então que tive uma ideia genial. Face a tanta diversidade, lembrei-me de perguntar à srª se não tinha só com algodão numa ponta. A srª ficou surpreendida e disse que não, «claro que não, as cottonetes têm algodão nas duas pontas».

No momento não liguei àquilo, comprei e pronto. Mas vim para casa a pensar: «por que é que as cottonettes têm algodão nas duas pontas e só há com algodão nas duas pontas?» Onde raio é que está a lógica? Mas «claro» porquê, caralho? Então e se eu só utilizar uma ponta? Comé que é? Ou guardo a cottonette com uma ponta suja e outra limpa, para que a ponta limpa seja usada em ocasião posterior, o que é uma porcaria, ou mando a cottonete fora, o que é um desperdício. Por isto mesmo, não é nada claro, é tudo menos claro. E se formos ao fundo da questão, podemos até supor que, inicialmente, as cottonetes seriam de uma só ponta algodoada. Sim, porque nestas coisas, contrariamente a outros domínios em que a evolução se faz do complexo para o simples, nestas coisas da tecnologia a mudança é orientada no sentido da progressiva sofisticação. Vejam o caso dos telemóveis, p. ex. São cada vez mais sofisticados, mais complexos, com mais funções, etc. ou as tv's, ou as hi-fis, etc. etc. Ora, eu creio que as cottonetes se encontram neste grupo, portanto, procedendo a uma tipologia das cottonetes há que aceitar que as de uma ponta são cronologicamente mais antigas, porque menos sofisticadas, do que as cottonetes de duas pontas algodoadas. É até crível que as de duas pontas tenham surgido como uma novidade, obtendo-se assim a vantagem de poupar material, evitar desperdício e aproveitar todas as extremidades do palitinho da cottonette. sairia mais barato uma vez que cada cottonette podia ser usada duas vezes, em lugar de uma só.

Ora, para rematar, não deixa de ser curioso, irónico e paradoxal, que a inovação que teve por móbil a poupança e que determinou a emergência, e a hegemonia, da cottonette de duas pontas, seja agora encarada não como uma forma de poupança mas de desperdício. isto no caso de eu, no pleno uso da minha liberdade, só quiser usar a cottonete uma vez. A segunda vez, se repararem bem, é um gesto ditado apenas pela disponibilidade da outra ponta virgem e não exactamente pela necessidade de um segundo acto de limpeza. É uma verdadeira ditadura da cottonete. se eu já estou limpo, por que raio é que hei-de proceder a uma segunda limpeza só porque a puta da cottonete exibe mais outra ponta algodoada? Hein? Por isso, eu mando fora a cottonete só com uma ponta usada. E aqui, meus amigos, é que está o busilis da questão. É o desperdício de dinheiro e algodão. Tanto mais grave porquanto a cottonete dupla nos foi dada como forma de poupança e se revela afinal uma forma de desperdício! E o pior é que não há alternativa no mercado. As cottonetes são todas duplas! Ora isto, meus amigos, é inaceitável!

06/11/05

Lagos: o D. Sebastião de João Cutileiro, por Quim Rodin

Por razões menores e simbólicas, a cidade de Lagos integra-se no itinerário sebástico. Lembremos que foi de Lagos que o rei partiu para a infeliz jornada. Por outro lado, fora por decreto de D. Sebastião que a localidade se elevara à categoria de cidade. Por esta razão, mais do que por outra qualquer, os autarcas locais decidiram, em 1973, 400 anos volvidos, assinalar a efeméride. Talvez mais por ingenuidade do que por desafio optaram por fazê-lo encomendando uma estátua. Nenhum poder de Estado se lembraria de tal iniciativa! A prova é que nunca se tinham lembrado.

A escolha recaíu em João Cutileiro. E aqui se deverá contar outra circunstância, pois, à data, Cutileiro residia em Lagos, proximidade que certamente motivou a escolha. Note-se ainda que o escultor frequentara o atelier de António Duarte, cerca de vinte anos antes, pelo que a temática sebástica tratada sob o cânone oficial o terá certamente tocado. E eis como circunstâncias pontuais se conjugaram de forma a que se gerasse uma ruptura na linha oficial neo-academista e neo-clássica da escultura de regime.

Desde logo a ausência de um pedestal. Depois, a desproporcionalidade, os braços franzinos terminando nas mãos enormes e vazias. Desarmado, sem espada ou armadura. O rosto infantil e inseguro, o olhar fixo, vago, alienado e sem pensamento. Enfim, anti-zarco lhe chamou José-Augusto França e melhor designação não se lhe pode dar. É, de facto, uma estátua anti-estátua, como também lhe chamou o mesmo autor, referindo-se a este «boneco dado à nossa piedade e oferecido à nossa meditação.» Subversiva, mais do que afrontosa. Cutileiro por certo sabe que os mitos não se destroem pela afronta mas pelo ridículo, pelo que há um forte sentido de humor sarcástico nesta obra que, obviamente, não é ideologicamente inocente. O mito é subvertido pela manipulação do interior e não pelo combate desassombradamente iconoclasta.

Curioso ainda é como, sendo o recurso ao cromatismo e à textura dos mármores articulados um elemento definidor da sensualidade e erotismo da obra escultórica de Cutileiro, essa potencialidade do material é aqui rejeitada, exceptuando talvez na fronte do rei, algo entre o infantil e o feminino. Se a estatuária pública é eminentemente fálica, esta obra de Cutileiro não é.

Como nota final, o capacete de argonauta alienígena depositado aos pés da figura, fornecendo uma nota anacrónica. Era afinal o anacronismo de um discurso escultórico esgotado que assim se findava, tal como era o anacronismo da ideia imperial que se servira da memória do rei, como era ainda o anacronismo de um regime que, agonizante, se aproximava do seu fim. Era, em suma, o fim de um discurso estético que anunciava, afinal, o fim de um regime.

04/11/05

www.Tapornumporco.blogspot.com: PASSÁMOS A BARREIRA DOS 100 000 VISITANTES

The sky is the limit e vocês são completamente xonés, para perderem o vosso tempo aqui... A sério, eu gostava mesmo de perceber o que é que vos traz a este blog. No momento em que escrevo são 100 026 entradas noutros tantos computadores, fónix…

Por isso digam-nos: porque raio continuam a passar por aqui? O que é que vos traz ao Porco? Confessem-se ao nosso haloscan, vá lá, sejam sinceros e digam tudo. Niguém daqui vos leva a mal e tudo o que escreverem é bem vindo (bom, sem exageros, «loucura controlada»…).

E quanto aos gajos do Porco, calem-se desta vez: OS PORCOS ESTÃO PROIBIDOS DE FAZER COMMENTS NESTE POST. É SÓ PARA VISITANTES. Vamos lá ver como é que se aguentam sózinhos.

As aventuras da República Francesa, por Kzar

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Um tipo mal se percata e vai a ver, zás! O surreal entra pela vida quotidiana, ainda que através de notícias sobre paragens mais ou menos longínquas. Vem isto a propósito dos recentes e ainda actuais tumultos nos subúrbios de Paris, cidade que agora é ainda mais da luz, devido aos inúmeros foguinhos que lhe alumiam a noite...

Bem se compreende que a surpresa não decorra dos motins em si mesmos. Embora ainda não seja ainda normal, um alvoroçozito de quando em vez é coisa que já não se estranha. Nenhum cidadão adulto e razoavelmente informado pode dizer que nunca tenha visto nos ecrãs de TV uns rapazes simpáticos mas embuçados a escavacar tudo o que encontram, com rigorosa e metódica igualdade. Nos States é mais habitual e costuma seguir-se aos arraiais de porrada da polícia nalgum cidadão mais escuro, quando calha serem filmados. Na falta disso, um furacão também serve e sempre calha bem para pilhar as lojas.

Já na Europa a coisa costuma dar-se mais em redor das cimeiras do G-8, embora por exemplo no Reino Unido também sirva o facto de os indígenas abominarem os pretos e os pakistaneses, estes abominarem os segundos, que por seu lado não vão à bola com nenhum dos demais e vai daí volta e meia são cenas de lambada homéricas, melhores que as dos estádios, que isso é chão que já deu uva. Rigorosamente, em França também já não é a primeira vez e há uns anos houve alarido de criar bicho ali para os lados de Toulon, Marselha ou lá isso – neste caso o barulho era com uns tipos eufemística e globalmente designados por “magrebinos”, aliás como sempre em França.

Na Alemanha são os turcos e mesmo na pacífica e tolerante Holanda a coisa esteve ainda recentemente para dar barulho, a propósito de uns muçulmanos que para lá há em fornecimento abundante e dos quais um exemplar limpou o sebo a um realizador de cinema estimado. Mais tarde o problema agravou-se com o assassinato do dirigente preto de um partido fascistoide (é fabulosa, a Holanda!), mas depois os ânimos serenaram e penso que não chegou a haver sedição nas ruas.

Ora, se o assunto é no fim de contas quase trivial, a que vem mencionar-se, a propósito dele, uma erupção do surreal pela vida quotidiana? Vem das razões que desta vez calharam estar estiveram na origem do sururu, senhores! Trocado por miúdos e como se infere das notícias, o iter dos acontecimentos foi mais ou menos assim: dois putos “magrebinos”, residentes num dos tais subúrbios simpáticos de Paris, estavam no gamanço quando apareceram uns tiras; estes largaram a correr atrás dos putos; os putos, espertos que nem alhos, esconderam-se num posto transformador de alta tensão; ficaram grelhados; a marabunta desatou a gritar contra a violência policial; daí até começarem a pegar fogo aos carros e a partir tudo foi um fósforo; a bófia anda há dias para pôr ordem nas ruas mas não consegue e reclama que seja decretado o recolher obrigatório; no parlamento exigem-se, com ar sério, medidas contra a evidente culpada de tudo, a “exclusão social” dos coitadinhos (aguardam-se subsídios...); o ministro do interior é duramente criticado pela classe política e na imprensa por ter publicamente dito que os desordeiros eram “escumalha” (“racaille”, terá sido a expressão autóctone); e o primeiro ministro diz que sim, que é preciso restaurar a ordem mas também combater a exclusão...

Fónix, se esta gaita não é surrealismo não sei o que seja! Um argumento dos Monty Python não ficava melhor. Claro, quem se deve estar a rir que nem um preto, passe a expressão incorrecta, é o Le Pen. Uma cena destas é mesmo o que ele estava a precisar. Como graças a Deus não sou franciú, fico-me nas tintas para o problema e permito-me observá-lo como quem lê umas pranchas do Miguelanxo Prado.

Mas há um pormenor destes delírios quotidianos que me escapa: porque será que este tipo de “lumpen”, ao ser possuído de furores tumultuários, desata logo a incendiar os próprios bairros e os carros dos vizinhos? É bizarro, porra... ainda se fossem fazer estrilho para o Boulevard Haussman, os Champs Elysées ou assim... Claro que nesse caso a coisa piava mais fino. As caritativas almas que agora se lembram da mázona da exclusão haviam de ser as primeiras a pôr processos disciplinares aos bófias que não arejassem o arsenal em cima dos pretos. E os pretos sabem disto, por isso ficam pelos seus “bairros”. Quem é mais hipócrita? O Le Pen ou a esquerda caviar mais o seu discurso do coitadinho?

Ainda e Sempre: A Tremideira, desta vez por Heresiarca

“Maria deitada de costas, estava acordada e atenta, olhava fixamente um ponto em frente, e parecia esperar. Sem pronunciar palavra, José aproximou-se e afastou devagar o lençol que a cobria (…) e Maria, entretanto, abrira as pernas, ou as tinha aberto durante o sonho e desta maneira as deixara ficar, fosse por inusitada indolência matinal ou pressentimento de mulher casada que conhece os seus deveres. Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado. Tendo pois saído para o pátio, Deus não pode ouvir o som agónico, como um estertor, que saiu da boca do varão no instante da crise, e menos ainda o levíssimo gemido que a mulher não foi capaz de reprimir. (…) Enquanto ela puxava para baixo a túnica e se cobria com o lençol, tapando depois a cara com o antebraço, ele, de pé no meio da casa, de mãos levantadas olhando o teço, pronunciou aquela sobre todas terrível bênção, aos homens reservada, Louvado sejas tu, Senhor, nosso Deus, rei do universo, por não me teres feito mulher. Ora, a estas alturas, Deus já nem no pátio devia estar, pois não tremeram as paredes da casa, não desabaram, nem a terra se abriu.(…)

O excerto que em cima se reproduz é do “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago. Saramago volta aqui com o tema da tremideira, embora pela negativa. Este tema da tremideira – “sentir a terra a mover-se” durante a cópula – tão caro ao Porco, aqui volta por mão blasfema sempre atenta a estas coisas.

Já anteriormente o tema da Tremideira aqui andou pelo Porco, dessa vez pela pena de Hemingway que se julga ser o inventor da coisa dita cuja no seu Por Quem os Sinos Dobram de 1940 e no excerto que se repesca:

“(...) suspenso todo o tempo sobre um nada sem solução, esta vez e outra vez ainda, sempre para nada, entretanto, ah! não poder renascer outra vez para nada e entretanto, para além de tudo o que se pode suportar, mais alto, mais alto, mais alto e para nada. De súbito, deslumbramento, beatitude, tudo o que era sombrio e negativo desapareceu, o tempo absolutamente imóvel; estavam os dois juntos, o tempo suspenso e sentia a terra estremecer e esvair-se sobre os seus corpos.
(...)
- Oh! – exclamou Maria. –Eu morro de cada vez. Tu não morres também?
- Não. Mas quase. Sentes a terra mover-se?
- Sim, quando morro. Põe o braço à minha volta, por favor.
(...)
- Era um prazer, mas não era nada que se comparasse.
- Então a terra não se movia? A terra moveu-se alguma vez com as outras?
- Não. É verdade, nunca.”

Posteriormente e em releitura atenta do “Cem Anos de Solidão”, viu-se que o assumido adepto de Hemingway, Gabriel Garcia Marquez, também usa a tremideira numa das cenas amorosas, em excerto que se irá procurar e aduzir a esta nobre investigação. Contudo, permanece sempre a velha incógnita. Já tropeçaram na tremideira noutros autores? Quem é que inventou esta coisa de a terra tremer? Terá sido mesmo o velho caçador branco? E o vosso chão também treme ou isto é só literatura?