30/12/05

O fascínio pelas putas vol. II, por Tapornumporco e Clientes

Há algum tempo atrás o Derviche publicou aqui um post em que se admirava com o facto estranho de haver tantas putas de estrada, digamos de Coimbra a Viseu, para não ir mais longe. E mais se admirava por serem tão gordas, tão feias, tão disformes, enfim, por serem os antípodas do que se pode chamar «gajas boazonas». Admirado, perguntava, então, o Derviche: onde reside o fascínio das putas? A única coisa que estas mulheres podem ter de excitante – vá-se lá saber pra quem mas há doidinhos pra tudo – é serem putas. E como há tantas pelos IPs deste país e dos outros, a questão impõe-se mesmo: onde reside o fascínio das putas?

Na altura os comments desse post foram interessantes e eu guardei-os. Uso-os agora em forma de post. Como não posso pedir autorização a todos os que escreveram na altura, uso pseudónimos falsos para todos de modo a que não se possa identificar ninguém que aqui tenha escrito nessa altura. Desculpem lá o mau jeito, mas vale a pena…

Respondeu o Mungo:
Os homens têm ingenuamente enfiada na cabeça a teoria de que as "putas" sabem fazer números especiais que as "outras" desconhecem. E alguns chegam mesmo a acreditar nisso. É tão giro! (Mungo)

E o K7 atacou:
Talvez tenhas razão, Mungo, os homens acham mesmo isso. Com uma puta o homem está livre do fardo - se é que é um fardo - de ter de agradar à companheira da relação. Limita-se a ter prazer e serve-se dela, independentemente dos desejos dela. Não tem que se maçar com orgasmo da puta, se ela tem prazer ou não. Ela está ali para o servir, não tem que achar que um broche é nojento ou deixa de o ser. É paga, fá-lo. That´s it. As putas descomplicam o sexo, reduzem-no ao instante em que ele se pratica. (K7)

O Meninos preferiu o registo Explorador Brave New World:
Eu já fui a uma casa de meninas! Fui pelo fascínio da coisa, quer dizer, do ambiente, do habitat, enfim, uma espécie de David Attenborough dos tempos modernos (se é que as prostitutas são uma criação moderna). Não tenho jeito para metáforas, mas descrever o que vi é como ir a um arraial e ver vários frangos a assar num enorme grelhador. Infelizmente, os frangos são pessoas, e a carne é humana.
Como imaginam, o fascínio resultou em algumas náuseas, é que os frangos (leia-se mulheres) tinham clientes. Homens sós? Homens sujos? Homens incultos?
(Meninos).
O Pyros desenvolveu uma verdadeira doutrina:
O que procuram os homens? Os homens procuram a aura de puta... O que os camafeus de estrada têm junto de certos clientes é aura. Aura de putas. É isso que lhes trás mercado. Não é o facto de serem boas nem belas - só por ironia - mas o facto de serem putas. É secundário que sejam boas ou belas. É fundamental, sim, que sejam putas. É por isso que elas podem ser monstruosas, mas o potencial do termo «puta» é poderoso. As putas têm realmente aura e, para os homens, isso é boé de importante. Vejam o marco paulo: «uma lady na mesa; uma louca na cama». O rapaz sabe o que diz...
Não aceito a tese tradicional acerca da animalidade dos homens e da «espiritualidade» das mulheres. Tipo, as mulheres querem afecto, os homens , essas bestas, só querem vazar os colhões… Isso é tanga, até porque também há mulheres clientes de prostitutos e não são propriamente as anormais da companhia. O fascínio das putas não tem a ver com a animalidade dos homens. Esse fascínio é mais cultural que animal e tem a ver com a aura.
Melhor ainda: a puta não tem passado nem futuro. é só presente. Os homens não querem ficar sujeitos à «relação» e com a puta estão à vontade nesse aspecto. Conheço um gajo que diz que «o dificil não é meter uma gaja na cama, mas sim tirá-la de lá». Pois bem, com a puta isto está resolvido à partida.
(Pyros) O CGTP deu a explicação sociológico-política que faltava:
Sobre a apetência que os mânfios lusitanos têm manifestado pelas meninas/senhoras/avós da estrada ou do alterne, tal só poderá dever-se à influência perniciosa da Nª Srª de Fátima sobre a alma deste povo composto de sacristões pervertidos, em que as mulheres são educadas para pouco mais do que passar a ferro e abrir as pernas e os mânfios são supostos ir à procura do que n/existe nas casas da luz vermelha...
Não voltes Salazar...

E o Mozart, com grande poder de síntese, disse muita coisa ao dizer isto:
Ok. Já percebi. É o princípio do "aquilo que se paga com dinheiro é o que nos fica mais barato..." O nosso jotex preferiu o registo neo-realista, feios, porcos e maus:
Acho que o tema é ao mesmo tempo muito interessante e não é. Não é, porque os camionistas não têm fascínio nenhum por putas. Gostam de broches e de aliviar os tomates ao fim de milhares de quilómetros a aquecê-los em cima dum motor trepidante. Fascínio têm pelo São Cristóvão e pelo Benfica. E provavelmente têm em casa uma esposa que não faz broches porque leu na maria que se engravida pela garganta. No resto, concordo com o mister e acrescento que muitos homens terão muitas motivações muito diferentes, e as muitas das vezes têm naturezas tão básicas e tão pouco fascinantes como as dos camionistas. (Jotex)

Também apareceu a Death com explicação psicanalista:
Um homem vê na prostituta o contrário da mãe e, por paradoxal que pareça - via complexo de Édipo-, transforma a ideia da prostituta numa espécie da mãe sempre disponível (a disponibilidade total é algo de maternal).
Pervertido? Nem por isso.
A Death tem razão, se bem a entendo (está menos clara que habitualmente). Mas cuidado com a "disponibilidade". A disponibilidade "maternal" é a das alternadeiras. Sorrisos, toques, conversa, compreensão, alto astral. As casas de alterne são casas de órfãos. A prostituição, hoje em dia (não falo já dos antigos "marinheiros desembarcados") é, pelo contrário, movida pelo ódio. Uma vez disse-me uma mulher que sabia dessas coisas que a quantidade de clientes que não quer que elas digam sequer "está frio" é impressionante. Refiro-me às nuas e cruas, as "de estrada".

E finalmente a Ju, que acha que estas coisas não são para serem discutidas em blogs de gente séria, disse:
Porcos!

29/12/05

As Camisas São Perigosas, por Orelhas

Ora bem, agora o Tapornumporco vem advertir que receber camisas pelo Natal é uma actividade de risco. Esperamos não ter chegado tarde. O facto é que uma camisa é um verdadeiro cavalo de Tróia, com a diferença de que em vez de gregos, saltam alfinetes, esses pequenos e insidiosos soldadinhos com ponta. Ninguém com dois olhos de testa percebe como é que um governo que proíbe os brindes do bolo rei, por via do risco de engolimento, permite o comércio de camisas presas por alfinetes. A verdade é que quando um cidadão, sem querer, recebe uma camisa, entra imediatamente numa assustadora espiral de terror e coloca seriamente a sua vida em risco. Por vezes morre-se mesmo de alfinete, com resultados fatais. É até sabido que essa é a primeira causa de morte por motivos desconhecidos em Portugal, embora tais casos não apareçam na imprensa, por motivos óbvios.

Nas salas de autópsia existe mesmo um contentor de 3X3, chamado contentor dos alfinetes de camisa, que é despejado todas as noites, em segredo, na chaminé mais alta da Siderurgia Nacional. Todos concerteza já tiveram a experiência que vou relatar, e os que sobreviveram podem aproveitar agora para dar o seu testemunho na caixa de comentários. Vocês pegam na mercadoria, certo? Retiram o celofane, e começam a tirar os alfinetes. Há sempre um ou outro que não conseguem arrancar com as unhas e então tentam tirá-lo com os dentes. Fatalmente, irão engolir pelo menos um. Este, por sua vez, se não ficar alojado na traqueia, irá provocar uma peritonite nos intestinos e, finalmente, a morte numa profunda agonia. Mas imaginemos agora que sobrevivem a esta fase e conseguem vestir a camisa. Ora, é sabido que ficará sempre um alfinete escondido algures no colarinho. E, claro, lá se espeta o alfinetinho na veia jugular, ou na aorta, ou nos pulmões, ou nos testículos, ou em todos esses lugares em simultâneo.

Finalmente, e na remota hipótese teórica de tudo o resto correr bem, onde colocar os alfinetes? Esta é a grande questão da geoestratégia doméstica nos tempos que correm. É um pouco semelhante à questão do armazenamento das ogivas nucleares dos mísseis balísticos. Onde guardar, enfim? Em casa, não acho sensato. Já todos acumulámos alfinetes mais do que suficientes para os gastos e está na altura de mudar de vida. Vejamos, num cálculo por baixo: cinco camisas por ano, dá cerca de cem alfinetes e cem alfinetes dá de sobra para os arranjos das bainhas das calças de uma vida inteira e para espetar todas as espécies conhecidas de borboletas e moscas nos albuns de entomografia, se for utilizada a técnica da espetada, mais ecológica. Chegados ao fim desse tal ano, devemos então começar a pensar onde arranjar espaço para mais alfinetes. Numa caixa grande? Não. Existe sempre o risco de o recipiente cair ao chão e se entornar, seguindo-se o enfiamento dos alfinetes na planta dos pés, provocando a gangrena e consequente amputação dos membros inferiores. Isto, se tiverem sorte e conseguirem estancar a gangrena ao nível das coxas, é claro. Lançar para o lixo, também acho mal, basicamente pelas mesmas razões. De forma que não sei.

Enfim, uma solução é convencer-vos a receber outras coisas pelo Natal. Se tiver que ser camisas, que venham pelo menos desembrulhadas. Troquem de camisa uns com os outros na noite de Natal, por exemplo. Pelo menos enquanto não for inventado uma sistema fácil de embrulhar camisas: um sistema hidráulico, sei lá eu, um sistema de gás hélio, um chip, um benzeodol, uma xunfa. As xunfas são particularmente eficazes nesta matéria, como é sabido, embora nunca tenham sido testadas, pelas razões que todos sabemos. E pronto, é assim a vida

Tarzan na selva, por Mogli

Hoje acordei com uma história triste de uns escuteiros, nativos do Estoril, que se perderam num nevão na serra da estrela. Estiveram mais de 24 horas desaparecidos mas felizmente correu tudo bem e lá foram encontrados. Mas as peripécias pelo meio dão que pensar.

O Monitor-Escuteiro-Mor declarou à TSF, ainda os putos estavam desaparecidos, que tinha confiança num final feliz. Afinal, disse ele, eles estavam bem equipados com um maravilhoso kit sobrevivência serra da estrela que incluía cartas militares, lanternas, sacos-cama e roupa pró frio… E também estariam bem instruídos sobre o que fazer nestas situações: concretamente, protegerem-se e não sairem do mesmo sítio até serem encontrados.

Uma hora mais tarde eles foram mesmo localizados. E qual foi a razão do sucesso da operação? O maravilhoso kit de sobrevivência? A apurada instrução dos escuteiros? Não. A julgar pelas notícias da rádio, os escuteiros foram salvos porque conseguiram entrar em contacto com a organização por… telemóvel. Ou seja, não foi nada o kit escuteiro que ensina a sobreviver na selva a safá-los, mas um prosaico e urbano telemóvel. E mais, tendo em conta que não contactaram mais cedo com as pessoas porque, certamente, não tinham rede onde se encontravam, segue-se que só se salvaram porque, contrariamente ao douto parecer do Monitor, não ficaram parados no mesmo sítio, mas foram-se mexendo até, finalmente, encontrarem rede. Em suma, fizeram o que faria qualquer um de nós, bárbaros citadinos, em idêntica situação. E a pergunta impõe-se: os Escuteiros podem ser considerados obsoletos, definitivamente arrumados pelas novas tecnologias da comunicação? Se não é, parece...

28/12/05

«Grandes são os desertos e tudo é deserto!», por Beduíno

…Disse Nietzsche. E é mais ou menos esse o efeito que o Natal tem na blogosfera que anda silenciosa e erma como os desertos de Nietzsche. Talvez seja bom sinal: talvez as pessoas passem mais tempo umas com as outras e menos com os computadores. Ou talvez não.

Os telemóveis, pelo contrário, é que não se calam! Este natal recebi dezenas de sms de endereços desconhecidos, equivocados, errados, trocados. Guardei, como recordação, uma mensagem de um tal Cerejeiro que não imagino quem seja (Hello Cerejeiro, se me estás a ler, sim eu recebi a tua mensagem pá, brigados); de um misterioso trio Joaquim-Adélia-Rodolfo; de anónimos que devem pensar que lhes guardei o número; de hipotéticas empresas com nomes duplicados como Vilaça e Vilaça; até de mensagens em duplicado a desejarem-me dois em vez de apenas um bom natal; mas o grande must deste natal foram as sms anónimas a dizerem para irmos à net ver os votos de boas festas num site com uma palavra passe! Eu não fui, claro.

26/12/05

«Porque hoje é sábado!», por Vínico de Morais

No Sábado, como sempre, mandei um sms ao Xita. Não foi um sms de natal, foi o mesmo sms de todos os sábados de há uns dois anos a esta parte. Dizia, como sempre, «R 2 30?» o que significa, no código oficial do Porco, o café e a hora a que nos costumamos encontrar aos sábados para bebermos café. Ele respondeu-me logo. Mas desta vez não com o habitual «Ok», mas com um hilariante: «és doidinho?». Percebia-se o não dito: era sábado 24, véspera de Natal, o Xita estava, com certeza em família.

Eu mandei-lhe outro sms a dizer: «Porquê? Hoje não é sábado?». E ele: «É natal, época de paz e amor, as crianças pulam enebriadas de alegria, os bichinhos amam-se alegremente, as famílias juntam-se em harmonia, há paz, amor e fraternidade universal…» E eu: «Pó caralho! Hoje é Sábado». E ele rematou: «Ateu do catano. Era uma fogueirita…»

Neste Sábado, 24 de Dezembro de 2004, pela primeira vez de há dois anos a esta parte, bebi o café sozinho no Ranhoso, o nosso eterno café dos sábados depois do almoço. E mesmo assim tive uma sorte do caraças: metade das mesas do café estavam ocupadas por encomendas de bolo rei. E foi por um triz que a minha mesa não foi, também, ocupada por um bolo-rei.

24/12/05

Com a devida autorização da Inha (http://bloginha.blogspot.com/), aqui vai um post de homenagem ao Porco:

CURIOSIDADES CIENTÍFICAS

Está cientificamente provado que...

Se uma pessoa gritasse durante 8 anos, 7 meses e 6 dias, teria produzido energia suficiente para aquecer uma xicara de café...

(Não parece valer a pena tentar...)

O orgasmo de um porco dura 30 minutos...
(30 minutos... vocês leram bem direitinho??!!)

Dar cabeçadas contra um muro consome 150 calorias por hora...

(Ainda estou pensando no porco, porra!...30 minutos?...)

Uma barata viverá 9 dias sem cabeça, antes de morrer de fome...

(Que inveja eu tenho do porco!)

Alguns leões acasalam mais de 50 vezes por dia...

(Prefiro ser porco, qualidade em vez de quantidade!)

As borboletas saboream as suas próprias patas...

(Isso é algo que sempre quis fazer, mas falta-me elasticidade.)

O elefante é o único animal que não pode saltar...

(...30 minutos... Que loucura essa do porco!)

A urina do gato brilha fosforescente, sob uma luz forte...

(Pensaram bem?... São... 30 minutos!)

Os olhos de uma avestruz são maiores que o seu cérebro...

(Conheço gente assim...)

As estrelas do mar não têm cérebro...

(Também conheço gente assim...)

Os ursos polares são surdos...

(Os cães Pastor-Alemão são nacionalistas, a baleia franca é franquista e o porco... O porco é demais!)

Os humanos e os golfinhos são as únicas espécies que têm sexo por prazer...

(E se um golfinho fizesse sexo com um porco? 30 minutos! Que fenômeno!)

Daqui para a frente, sentir-me-ei extremamente lisonjeado quando uma mulher me disser:
"És um Porco!"

O Noddy E O Natal, por João De Deus Mãos De Tesoura

O Noddy, vestindo um girissimo blazer Pull&Bear, azul, 87 euros, na loja Pull& Bear do Chiado, decidiu ir festejar o Dia de Natal com os seus amigos da Cidade dos Brinquedos. Na praça central da cidade, para onde se dirigiu, já se encontravam a macaca Marta e o ursinho Rechonchudo, divertindo-se a atirar um ao outro bolinhas de neve artificial compradas no Bazar dos Petizes, a 16 euros a caixa. O Rechonchudo estava particularmente amoroso, com o seu lindo coletinho Zara, xadrex, 45 euros, e um bonezinho José António Tenente, 23 euros. Olá Redonchudo, olá Marta! Bom Natal, Noddy! Ó Marta, esses sapatinhos Timberland ficam-te tão bem! Gostas? Olha, custaram-me 56 euros! E que tal irmos comer um Big Mac Christmas Special, com chips extra large, a 12 euros? Bora! Vamos no meu carro vermelho, amoroso, comprado no Toys’R’Us, 127 euros! Vrrummm… olhem-me este som estereofónico da minha nova aparelhagem Grundig! 36 euros, rapazes! Ora, Noddy, eu tenho um i-pod, de 56 gigabaites, que me custou 76 euros, com dois anos de garantia! Ui, que máximo, Marta! Pó pó! Boa tarde, Gata Rosa, que lindo chapéu tem hoje! Ai menino, comprei on line na Marks and Spencer, com o meu cartão dourado da American Express, por 89 euros! Olhem, vem alí o Pai Natal! Olá Pai Natal! Oh Oh Oh, fui agora mesmo comprado na loja Imaginarium do Coimbra Shopping! Venho com trenozinho e oito renas e custei só 86 euros! Sou ou não amoroso? Éééés, Pai Natal! Jingle bell, jingle bell! Tomai lá estes charutos Montecristo de uma caixa que tem dez e que custa 120 euros! Só?! Claaaro, estão em promoção de Natal na Casa Havaneza! Vamos fumá-los a casa do Orelhas! Ouvi dizer que comprou uma garrafa de Glenlivet, 28 euros, no Corte Inglês! Boa, passo por casa e levo a minha colecção de copos de cristal da Boémia, 45 euros no Harrods! Foste a Londres?! Fui! Aproveitei a promoção de Natal da Easy Jet, por 30 euros! Vrrumm, chegámos! Onde estás, Orelhas? Aqui, rapazes, aqui atrás! Ando a jardinar com o meu kit de jardinagem comprado no Kit Market, por 99 euros! Hhhmmm, cheiras bem hoje, Orelhas! Claro! Cometi uma loucura e ofereci a mim mesmo o Icy Cold, da Davidoff, com fragâncias de cânfora, numa embalagem giríssima, por 45 euros! Olhem, vêm lá o Mafarrico e o Sonso! Então, rapazes, que trazeis nessas mochilinhas, que se vê que foram compradas na Coronel Tapioca, por um preço entre os 100 e os 150 euros? Nada disso, embora essas também sejam fantásticas! Estas foram compradas na Benneton por 98 euros, numa promoção até ao dia 31 deste mês! Loucura, Mafarrico! Yesss! E trazemos aqui dentro fraldas Dodot, a 29 euros, com fantásticos desenhos alusivos à época natalícia, para oferecer ao Menino Jesus! E se ligássemos à Barbie? Hhhmmm… não sei se virá. Ultimamente tem andado entretida com o seu novo e fantástico kit Barbie na Discoteca, lançado no princípio do mês, pela Mattel, e que custa aproximadamente 120 euros, em qualquer boa casa da especialidade! Por falar nisso, vamos dançar? Põe aí o teu Robbie Williams, Greatest Hits, 24 euros em qualquer discoteca! E traz as pastilhas, que o Elefante Volumoso vende a 15 euros a unidade na sua Candy Shop! Merry Christmas!

Ecce Homo, por Coelho da Páscoa

Com a devida vénia, aqui fica o excelente texto de Niezsche, o passo mais célebre de A Gaia Ciência. Nesta quadra natalícia que sirva para pensar um pouco e fugir aos clichés.

«O INSENSATO – Não ouviste falar desse louco que acendia uma lanterna em pleno dia e se punha a correr pela praça pública a gritar sem parar: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ Mas, como havia ali muitos daqueles que não acreditavam em Deus, o seu grito provocou uma imensa gargalhada. Perdeu-se como uma criança?, disse um. Esconde-se? Tem medo de nós? Embarcou? Emigrou? Assim gritavam e riam confusamente. O louco saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. ‘Onde foi Deus? – gritou. – Vou dizer-vos. Nós matámo-lo... vocês e eu! Somos nós, todos nós, que somos os seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando separámos a cadeia que ligava esta terra ao sol? Onde vai ela, agora? Nós próprios, onde vamos? Para longe de todos os sóis? não caimos sem parar? Para a frente, para trás, de lado, de todos os lados? Ainda existe um em cima, um em baixo? Não seremos errantes, como que um nada infinito? Não sentimos o sopro vazio sobre o nosso rosto? Não faz mais frio? Não virão sempre noites, cada vez mais noites? Não é preciso acender lanternas desde manhã? Ainda não ouvimos nada do barulho que fazem os coveiros ao enterrar Deus? Ainda não sentimos nada da decomposição divina?... Os deuses também se decompõem! Deus está morto! Deus continua morto! E fomos nós que o matámos! Como nos consolaremos, nós, assassinos entre os assassinos! O que o mundo possui de mais sagrado e de mais poderoso até este dia sangrou sob a nossa faca;... quem nos limpará deste sangue? Que água nos poderia lavar? Que expiações, que jogo sagrado seremos obrigados a inventar? A grandeza deste acto é demasiado grande para nós! Não será preciso que nós próprios nos tornemos deuses para, simplesmente, termos o ar de ser dignos dela? Nunca houve acção mais grandiosa e, quaisquer que sejam, aqueles que vieram a nascer depois de nós pertencerão, por causa dela, a uma história mais alta que, até aqui, nunca foi história alguma!’ O insensato calou-se com estas palavras e olhou outra vez para os seus interlocutores: também eles se calavam, como ele, e olhavam-no com espanto. Por fim, atirou a sua lanterna ao chão, de maneira que ela se partiu em pedaços e se apagou. ‘Chego demasiado cedo’, disse então, ‘o meu tempo ainda não chegou. Esse acontecimento enorme ainda está a caminho, caminha, e ainda não chegou ao ouvido dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e para a tempestade, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as acções, mesmo quando são cumpridas, para serem vistas e ouvidas. Esta acção continua--lhes ainda a mais longínqua das constelações; e, no entanto, foram eles que a realizaram!’ Conta-se ainda que este louco entrou, no mesmo dia, em diversas igrejas e aí entoou o seu Requiem ‘Aeternam Deo’. Expulso e interrogado, ele não teria deixado de responder a mesma coisa: ‘O que são, pois, as igrejas senão os túmulos e os monumentos fúnebres de Deus?»

Oh no, not again!, por Apocalipse

Li nos jornais que o governo do Sócrates se lembrou de avançar para as portagens pagas no acesso ao centro das principais cidades portuguesas: Lisboa, Porto e Coimbra. Não, não foi com a luz verde final para a construção do Hospital Pediátrico, o mesmo que custa 1 klm de TGV... Foi mesmo com portagens. Deixemos os casos de Lisboa e do Porto, sem dúvida, as principais cidades nacionais. Mas Coimbra, fónix? Porquê Coimbra, carago?

Passo o tempo a ouvir que fomos ultrapassados em todos os indicadores económicos, sociais, empresariais, demográficos, etc, etc, por cidades como Braga, Setúbal, Faro, Aveiro e a grande faixa urbana da cintura de Lisboa… Todas estas áreas têm, sem dúvida mais poluição que Coimbra. Mas quando é para a desgraça lá voltamos nós a ser considerados a terceira cidade.

Pontes megalómanas, CCBs, Expos, auto-estradas scuds sem portagens e outras benesses são para os outros. Para isso nunca somos grandes. Mas para levarmos com a co-incineração e agora para isto das portagens na Ponte de Santa Clara já estamos de nvo no pódio. Não deixa, até, de ser curioso, como o sócrates, tão preocupado com a nossa saúde, nos quer proteger dos gases dos automóveis por um lado, mas, por outro, quer à força toda co-incinerar-nos resíduos tóxicos perigosos mesmo à porta de casa. Mas que mal é que nós, aqui em Coimbra, fizemos a esta assombração que nos governa?, arre, fónix, que não há pachorra…

23/12/05

O Bonifácio, por Sigue-Sigue Sputnick

Esta semana a minha escola foi surpreendida com um comovente Conto de Natal enviado por uma Eminência Directora de uma Direcção Regional de Educação. O texto, impublicável num blog terrorista como o Tapornumporco, rezava mais ou menois assim:

O Conto, explicava Sua Alteza num preâmbulo, terá sido dirigido, em tempos, a um sobrinho e aplicar-se-á actualmente na perfeição às escolas deste país mai-la crise que elas vivem. Era uma vez um menino chamado Bonifácio (que raio de nome, parece um dos bichos do Miguel Torga) que passava todos os santos dias de pijama, espojado no sofá, a ver tv e a jogar video-games enquanto ia emborcando baldes de pipocas. O Bonifácio era um daqueles meninos que já tinha tudo, os pais davam-lhe as colecções todas do Fifa 2000 com todas as actualizações disponíveis ao preço do ouro, portanto, como ia a dizer, o Bonifácio tinha tudo (aqui Sua Realeza disserta sobre o materialismo da sociedade consumista, como está bem de ver), mas não era feliz! Era uma criança muito, mas muito triste e os pais preocupados não sabiam que mais vídeo-games lhe haviam de comprar. «Porque é que o nosso Bonifácio é tão infeliz? Damos-lhe tudo o que se pode oferecer a uma criança. Não lhe chega?» – perguntavam os confusos e infelizes pais do Bonifácio (aqui Sua Directoria volta a fazer literatura e poesia da boa, sobre o dinheiro que não traz felicidade e como são infelizes os meninos ricos e isso)…

Mas a vida do Bonifácio mudou quando, por altura do Natal, recebeu um presente singelo: um cavalinho de pau, feito com todo o carinho e ternura pela avózinha do menino. O Bonifácio, que devia ser parvo, ficou logo todo contente mal viu o brinquedo. Mal resistiu: «montou o cavalinho de pau» e ficou muito feliz! Nem video-games, nem tv, nem baldes de pipocas, nem sofás – afinal, haja um cavalinho de pau, e os Bonifácios do nosso mundo, tadinhos, ficam felizes da vida. Depois Sua Inteligência disserta longamente sobre a verdadeira alegria, a das coisas singelas e lembra que a verdadeira felicidade não está na abundância nem no consumismo, mas na simplicidade e na modéstia das coisas simples.

Por que é que as escolas da região de Sua Esperteza tiveram que gramar com uma coisa destas, semi-natalícia, semi-cabalística? Que estará ele a querer dizer à «comunidade educativa» com a humilde parábola do Bonifácio? Que estamos gordos e anafados? Que a riqueza que abunda nas nossas escolas (?) não nos trará a felicidade? Que devíamos substituir os aquecedores a óleo pela velha braseira, os computadores pelos quadros de ardósia, os teclados pelo giz (do tamanho do dedo mindinho, de preferência)? Irá Sua Excelência de carroça ou de cavalinho de pau para a sua Direcção Regional? Ouvirá velhos discos de 78 rotações na vitrola oferecida, um dia, pela mesma avozinha que nas horas vagas faz cavalinhos de pau para o neto? E com que direito é que nos vem dar moral? Sua Realeza confunde os planos – a sua superioridade hierárquica é meramente administrativa, não ética. Não temos que lhe ouvir lições de moral – essas deram-mas os meus paizinhos e um amigo ou outro quando ando mais baralhado. Um qualquer Director, tenham dó... Não tem tal direito, a sua competência não chega a tanto.

Sinceramente, eu já dei para este peditório. Os livros da escola primária dos anos 60 estavam cheios de historietas destas, mas melhor escritas – historietas com a invariável moral da história dos pobretes e alegretes. Havia sempre uma família de pobrezinhos muito felizes em contraste com os ricos infelizes e depois os pobres tornavam-se ricos e bulhavam todos e queriam ser pobres outra vez e devolviam o dinheiro aos ricos e voltavam ser felizes e pobrezinhos, coitadinhos... Sua Ruralidade escreve em 2005 mas o que diz é de 1950 – a história do Bonifácio é fascistóide, reaccionária, pobrezinha, ideologicamente retrógrada. É um insulto à auto-estima, ao desejo de evoluir e de querer ser melhor. A moral é atávica e santacombadense...

Deixo-vos com a sugestão de uma música: Uma Casa Portuguesa, um verdadeiro ícone de uma época. Os seus versos sempre dizem melhor e com mais piada o mesmo que Sua Pequenez. E a música, cantada pela imortal Amália, ao menos, era boa:

É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa! No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existéncia singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

21/12/05

Fábulas Porcinas, por Sopapo

Diogo apareceu um dia, era ainda bebé, na varanda da família Watson. O pequeno Jimmy Watson depressa o adoptou para não mais o largar.

- Vai chamar-se Diogo, disse. E assim ficou.
Mister Watson, o patriarca da família, impôs desde logo uma condição para adoptarem o gato:
- Pode ficar, desde que não entre em casa.

Todos concordaram, miss Watson e o pequeno Jimmy. No fundo toda a família, até mister Watson, gostava do bicho e, assim como assim, desde que ficasse à varanda e não lhes conspurcasse a casa quentinha…
Diogo bem tentou, mas nunca conseguiu conquistar o direito de entrar em casa da família Watson. Vivia na varanda. E teve que suportar um Inverno inteiro ao frio, à chuva e ao alcance das garras cruéis dos outros gatos.

Até que um dia, não, dois, o Diogo desapareceu e os Watson ficaram tristes. Miss Watson vinha para a varanda chamar por ele. O pequeno Jimmy não aguentou e na segunda noite desatou a chorar. Até Mr Watson, que não quis dar o braço a torcer, sentiu a falta do gato.

Dois dias e duas noites depois, o Diogo apareceu, como sempre, na varanda da família. Os Watson ficaram muito contentes – Jimmy chorava de novo, só que, desta vez, de alegria, miss Watson ficou feliz com a felicidade do filho e Mr. Watson fez de conta que o gato não lhe tinha entrado em casa. Ficaram todos tão felizes que trouxeram o Diogo para dentro de casa e ele pôde assim conhecer coisas que nunca imaginara existirem: um óptimo sofá onde podia afiar as garras, uma cama quentinha e fofa, os aquecedores miraculosos… E assim provou o inocente Diogo, involuntário mestre em gestão de afectos que, às vezes, a melhor maneira de sermos desejados é desaparecermos por uns tempos e ameaçarmos que não voltamos.

19/12/05

E Eu Juntinho, Com Vontade De O Afagar, De Lhe Dar Beijinhos De Carinho Na Testa, De O Enrabar Docemente, por Automotora

ou,
A Multa, por Automotora
Querido Leitor,
Não fiques triste por mim, por causa desta coisa da multa. Eu acho que é bom ir acumulando experiências extra-sensoriais insólitas, tipo ficheiros secretos, sobretudo na variante Fenómenos de Cabanas de Viriato. Esta que me aconteceu não trocava por nada, ainda que se calhar me vá custar oito mocas das antigas. Passo a contar:

Ia eu sossegado, na estrada para Cabanas de Viriato, vejo acenar para mim o longo braço da lei manejado por um senhor guarda republicano. Encosto, já meio tremelicante, que um gajo há-de sempre temer a lei mesmo sem saber porquê, saio do carro e abro a carteira, seguindo as instruções. Vou tirando os documentos, e mostro o BI, a carta de condução, o registo de propriedade do veículo e não há meio de aparecer o raio do livrete, que eu sei que é da praxe mostrar também, embora não perceba porquê. Suponho que o Estado precisa de assegurar-se que os donos não alteram a cor original da viatura. Mas isto pensei eu depois. Logo ali disse assim: Ó senhor guarda, eu juro que tenho o livrete do carro, mas agora não o encontro. Veja lá no tablier homem! Boa ideia! Despejo então o compartimento, fico todo contente por encontrar papéis que já não via há anos, mas do livrete nada.

Não encontro, e agora? E agora vou-lhe passar uma guia para apresentar o documento no prazo de vinte e quatro horas. Pronto, está bem, que raio de azar o meu. Mas enquanto o guarda escreve, eu vou virando de novo a carteira e.. hélas, aqui está ele, o documento perdido! Encontrei, senhor guarda nacional republicano!

Mas qual quê... E agora?! - fuzila-me o agente - já comecei a escrever aqui e não posso inutilizar a guia! Ai a minha vida! (é o guarda a falar...) Eu dei-lhe tanto tempo! Mas já o encontrei, desespero eu! Bem vejo, mas o que é que você quer que eu faça agora? Ainda por cima com o que se diz por aí de nós .... mas vou pagar multa na mesma? pergunto. Pois, quarenta euros, e eu não posso fazer nada. Está a ver a situação em que me meteu? Fónix, sou um traste, penso eu, que direito tenho de angustiar assim uma pessoa, provocar-lhe úlceras, subir-lhe a tensão, o colesterol, eu sei lá.

Pronto, pronto, sô guarda, eu entendo... não fique assim, a culpa foi minha, devia ter os papéis mais arrumadinhos, mas o que se há-de fazer... Mas nada consolava o meu anjo da guarda. E ali ficou ele, debruçado sobre o capot do carro, uma mão a segurar a cabeça, e eu juntinho, com vontade de o afagar, de lhe dar beijinhos de carinho na testa, de o enrabar docemente.

De repente, o colega, que assistia a tudo e me olhava corporativamente enfurecido, tem uma ideia. E que ideia, senhores! Na guia de apresentação já estava: tem tantas horas para apresentar o documento a partir do dia tanto, assinado: tal e tal. Pois foi também lá escrito: apresentado no mesmo dia, e assinado: o mesmo. Viva a Guarda Nacional Republicana, Vivó! Tou safo? Qual quê! Isto só lhe vai poupar uma ida à gnr da sua residência para apresentar o documento. De receber uma notificação para pagar multa não se livra, diz ele com voz de quem vai ter um filho mesmo pelo coração. Mas é claro, onde tinha eu a cabeça? Eu recebi ordens para mostrar o cartão, certo? Mas não o apresentei logo; demorei o tempo suficiente para o senhor guarda registar a ocorrência. E ocorrência registada não pode ser apagada, lá diz o povo. Claro também. Infringi, prevariquei, pequei, ficou registado nas estrelas.

Mas eis que surge uma luzinha ao fundo do túnel: o guarda ainda iria falar com o chefe para saber se a coisa poderia ser anulada. Ficou com o meu número de telemóvel e que esperasse contacto, para saber o que me aconteceria. Ó sô guarda, você não se desgrace, homem! (estive para exclamar isto, mas tive medo de o arreliar ainda mais). E então eis-me aqui à espera e já esperei três dias. Das duas uma: ou o chefe está de férias, ou de facto não tenho perdão. E sendo esta última hipótese a mais provável, resta-me fazer um acto de contrição, tipo recitar dez vezes seguidas o código da estrada ajoelhado à frente do São Cristóvão, ou contestar, poupando quarenta euros mas enfurecendo a grande deusa Burocracis, que sai à mãe, a terrível deusa Shiva. Fónix, seja como for, agora digam-me uma coisa: vale ou não a pena passar por situações assim e pode relatá-las? O que é a nossa confraria senão um repositório de absurdos? E se tiver de pagar a multa, é ou não o dinheirinho mais bem empregue do que com ferreirinhas? Bom, preferir, preferir, preferia não pagar a multa...

18/12/05

Natal Cínico, por Cão



Natal não é assunto de que me apeteça falar em Dezembro, até porque a quadra começa cada vez mais cedo, Novembro, Outubro, Setembro, qualquer ano havemos de estar na praia em Agosto ou Julho e uma sacana duma avioneta há-de passar com um pai-natal insuflável no rabo a dar às barbas vendilhonas nos céus comerciais.

16/12/05

O Bem Amado, por Mangas

Morreu, na noite de quarta-feira, um cidadão em Biritiba-Mirim, cidade do interior do Brasil, a 80 km de São Paulo. Tinha 86 anos, foi Deus que o levou, paz à sua alma. Nada disto teria de extraordinário não fosse o Prefeito de Biritiba-Mirim ter proibido, no início deste mês, por projecto lei aprovado em votação na Câmara Municipal, os moradores da sua cidade de morrer. O projecto estabelece ainda que as pessoas deverão cuidar da saúde para não bater a bota, sob pena de multa ou condenação. Pelo que percebi, as razões prendem-se com o facto de o cemitério local estar a abarrotar pelas costuras e já não haver palmo de terra para enterrar nem mais um, num município que ronda os 28 mil.

Após ouvir esta notícia na TSF, vem-me de imediato à memória a telenovela O Bem Amado. Corria o ano de 1982 e esta foi a única novela a passar nas televisões portuguesas que me fez sentar, religiosamente e pontualmente a seguir ao telejornal, no cadeirão da sala para assistir a mais um episódio. Um argumento tão simples quanto genial, escrito por Dias Gomes: o Prefeito de uma cidade no interior da Bahia, Sucupira, anseia desesperadamente que alguém morra para inaugurar a sua obra mais grandiosa – o cemitério local. Mas ninguém morre. Nem com a chegada do cangaceiro Zeca Diabo. Nas voltas do destino e dos episódios finais, acaba por ser o próprio Prefeito a inaugurar o cemitério!

Um galeria de personagens fabulosos, interpretados por alguns que foram a nata dos actores brasileiros. O grande Paulo Gracindo era Odorico Paraguaçu, o Prefeito, o político corrupto, ditador, demagogo, chantagista, adúltero, tez morena, cabelo empastado com brilhantina, engatatão e charmoso como uma cascavel que entre os trejeitos-maneirismos de uma certa classe política com reminiscências dos poderosos coronéis latifundiários, e um licor de jenipapo do seu próprio “manufacturamento”, chegou a andar a comer as três irmãs Cajazeira ao mesmo tempo sem que nenhuma o suspeitasse. Depois, meteu o pobre do Dirceu Borboleta ao barulho quando uma delas, Dulcineia, engravidou – depressa lhes arranjou o casamento e o gago Dirceu mordeu o isco sem suspeitar que a dulce sementeira já tinha sido enxertada.

Lima Duarte no papel de Zeca Diabo, afamado de impiedoso na arte da matança e do cangaço, e cujo maior sonho era ser odontologista para arrancar dentes, iguais aos seus, arrancados por ordem sua e substituídos por réplicas de ouro; o Dr. Leão, um médico da cidade a contas com um passado tenebroso que se ostracizara naquela litoral baiano e que era a único a não temer a lei de senhorial de Odorico, e por quem se viria a apaixonar a própria filha de Odorico, num desafio declarado à autoridade do pai – ironia das ironias; a voz incómoda do jornalista independente Neco Pedreira; Nezinho do jegue, (o jegue era um burro velho que podia ser tão perigoso sóbrio quanto o Nezinho bêbado); o Cabo, uma espécie de força policial fardada sob o comando de Odorico, cão de fila que ladrava para onde o dono lhe atirava o osso. E à volta disto se passaram dezenas e dezenas de episódios e deliciosas peripécias do quotidiano Sucupirano - as irmãs pudicas que suspiravam pela calada do terço como beatas militantes, o político que não governava, o cangaceiro que não disparava, o morto que não morria, o Prefeito que desesperava, e a banda que esperava pela inauguração que não inaugurava.

Para mim, O Bem Amado, foi a última telenovela brasileira que valeu mesmo a pena. Antes desta, O Casarão, O Astro e claro, a Gabriela.

Entretanto, a Câmara Municipal de Biritiba-Mirim, já deve ter já deve ter decidido que pena a aplicar ao falecido.

14/12/05

Conclusões sempre a abrir, por Cão

As diárias ratinhações a que gostosamente procedo pelo nosso Tapor gostosa e diariamente me levam a conclusões tão imbuídas de desasossego quão de tragicomédia.

1 – Somos verdadeiros Portugueses (como receava Salazar, apostava Eusébio e dizia Molero);

2 – Somos maus Europeus (comemos hambúrgueres de sardinha, chamamos “estadista” a Reagan e vamos ser 47.8% por Cavaco);

3 – Somos maus Norte-Americanos (de evidente extracção indígena, acudimos no cinema pelos cowboys judaico-irlandeses);

4 – Somos maus Espanhóis (gozamos à brava com os planos IdioTGV e IdiOTA, enquanto o Ronaldinho Gaúcho e o Deco, esses enormes talentos nuestros hermanos do nosso idioma nos honram o sertão e o passado bandeirante, ou coisital).

5 – Somos maus Bloggers (o Automotora vem para aqui dizer que mostra a pila a criancinhas nas casas-de-banho dos pais delas, o Mumbly dá mais topadas no desporto do que pedreiros em cacos de tijolo, o Kzar refocila nos bigodes do Josef da Geórgia e nas gengivas purulentas do Mão Zedong enquanto zurge a marteleta de pinho, o Mangas borra-se todo de cagufas imaginárias, o Jkim colecciona sacos de cabelo judeu, sapatos judeus, cremalheiras dentais de judeus, braceletes de ouro de judeus, números 33 da livros do brasil - diários de anne frank, listas de schindler, simons wiesenthais e processos de nuremberga, o coiso lembra-se de citar o nietzsche, o nietzsche que já morreu fica refodido e invoca o tinoni, que tinha acabado de puxar o peru em vez do autoclismo e chama nomes ao derviche, cujo fica mau como é costume e começa logo a dizeresta-merda-não-pode-ser-esta-merda-não-pode-ser-o-tapor-anda-cheio-de-vizinhos-e-de-clientes-meus vai o vaice, a gozar, diz, quais-clientes-pá-?, o centurião desata-se a rir e diz, uns-que-eu-deixo-cair-do-cesto-dos-papéis, o derviche, já roxo, desliga o blog, tirem as vossas conclusões.

O Jantar, por Automotora

Um destes dias fui jantar a casa de um casal amigo, amigo mesmo, íntimo, daqueles com que se joga ao verdade ou consequência. Antes de me sentar à mesa, que compartilharia com outros casais de mais cerimónia, passei pelo quarto de banho para dar uma mijinha e lavar as mãos, por esta ordem. Limpo e aliviado, já sentado, preparava-me para servir o vinho, quando uma das gémeas do casal faz uma importante revelação: ó tómané, esqueceste-te de puxar o autoclismo!

Ainda há poucos anos andei com este anjo ao colo, ofereci-lhe cadernos de pintar e barbies de imitação. Amorosa, com os seus papás e mamãs balbuciados, antes de o seu vocabulário se ter ampliado vertiginosamente. Aproveito para revelar que gosto de filmes de terror e dentro destes um dos meus géneros preferidos são os filmes de crianças assassinas com cara de querubins. Bem, Deus é um Pai brincalhão e volta e meia, mesmo que não precisemos, torna realidade as nossas fantasias. O sacana, como devia estar aborrecido nesse dia, ofereceu-me, durante os três segundos de silêncio ensurdecedor que se seguiram àquela denúncia, uma experiência inesquecível dentro do meu modelo cinéfilo. Concerteza muito mais divertido do que levar-me à Disneylândia para dar a mão ao superpateta.

Os pais, coitados, por fim lá conseguiram reagir: ó ritinha, então isso diz-se... e eu ali à espera de qualquer coisa, com os neurónios gelados, desejando que caísse o candelabro do tecto. Curiosamente, ou talvez não, tive pena daqueles pobres pais. Pior do que ser apanhado numa falta destas é ter de arranjar argumentos para desculpar as faltas dos convidados. As hipóteses de reacção daqueles pais seriam as seguintes: ó ritinha, o tómané não fez nada que mereça essa descompostura. Errado: seria estragar oito anos de esmerada e persistente educação infantil; horas gastas a ensinar as crianças a puxar o autoclismo. Outra hipótese: ó ritinha, olha que é falta de educação corrigir os outros à frente das outras pessoas. Errado: não é suposto um convidado ter feito alguma coisa que mereça correcção. A solução mais razoável, enfim, a única possível, é a que foi adoptada: ó ritinha, francamente..., seguido de um repetido abanar de cabeça e um olhar mais assustado do que zangado, do tipo seria melhor que alguém mudasse de assunto rapidamente.

Bom, salvei eu a situação, com uma fuga para a frente a toda a velocidade: tens toda a razão ritinha, não devia ter feito o que fiz, desculpa. Eloí, Eloí, lamá sabachthani? E lá fomos nós ao ensopado de borrego. Que foi elogiadíssimo o resto da noite.

13/12/05

Não explicam!, por Tó

Dom Ximenes Belo, o bispo Timorense, foi à minha escola numa quarta-feira à tarde. O pior foi quando um aluno criativo, devidamente identificado, lhe andou a trocar o nome para Dom X- Mene Belo. E pior ainda quando, nos cartazes de promoção do evento, o nome do Nobel da Paz apareceu riscado e, em vez dele, alguém escreveu Dom X- Mene Belo. A subversão tem grande potencial criativo, imaginem só a lista de títulos bombásticos com super-heróis e mega-vilões que podemos fazer a partir daqui. Como, por exemplo, « X – Mene contra o Incrível Hulk», «X-Man e os Moto-Ratos de Marte» ou « X –Man e a invasão dos Ultra Zorg».

Agora, na minha escola, parece que há uma corrente de opinião que quer abrir um processo disciplinar ao aluno. Eu discordo. Acho, antes pelo contrário, que o aluno merece um louvor pela sua irreverência e sentido de humor. E se perguntassem a Dom Xismene, ou Ximenes, já estou baralhado, provavelmente, ele até ia achar tudo isto divertido.

Leitor do Porco, vamos salvar a criatividade, vamos reconhecer a inteligência: vamos ser milhares, não, milhões de assinaturas (ou parecido) a defender o louvor para o aluno ameaçado. Deixa já o teu voto de apoio nos Groinks a este post. Aqui mesmo, em baixo.

12/12/05

O Ódio, por Mangas

O Ódio é bom! Promove a auto-estima, tem efeito ricochete, anula-te essa passividade de cordeirinho catalogado, fortalece-te o ego e remete para um plano secundário alguns dos teus problemas mais sérios.

Existem dois tipos de ódios: o ódio cego - circunstancial, condicionado por legítimas alterações do teu humor ou pela manifesta incapacidade de poderes rachar de alto a baixo, com um sabre samurai, o tal gajo que te fode a cabeça por uma razão ou por outra que só tu conheces e ninguém tem o direito de questionar; e o ódio amordaçado - o silent killer, muito mais perigoso e nutritivo porque é como um cão enjaulado que deve ser libertado de tempos a tempos para alimentar os caninos aguçados e a fome predadora. (Atenção, nunca confundir o Ódio com ódios de estimação – ódios não se estimam, odeiam-se visceralmente!) De uma forma ou de outra, o Ódio toma formas e adquire em sentido lato a compensação possível nos recantos mais obscuros de mentes demenciais como a minha ou a tua. Sim, porque sobre a sanidade colectiva, estamos conversados.

Odiar é como amar: entranhasse-nos no corpo e na alma como uma devoção fraternal, e dali não sai nunca, é eterno, dura para sempre. Se a chama se extingue, não é amor, é paixão; então também não é ódio, é raiva. Elevados índices stress, a dor da perda, seja ela de um braço ou de um amigo querido, podem ser atenuados pelo ódio facilitando o lidar com a situação através dos mecanismos de copying. Em casos extremos de sofrimento ou luto patológico, o Ódio pode ajudar a eliminar etapas entre as quatro do processo – choque, negação, raiva e aceitação. Porque o Ódio é real, seja ele humanizado ou abstracto, é terreno seguro, é ponto cardeal que nos indica a nossa posição no mapa das geografias humanas; no fundo, é um sentir que não deixa dúvidas, no qual podemos sempre confiar e serve também como arma de defesa pessoal.

Considerando de forma aleatória e estritamente individual as causas que o estão na génese dos teus ódios, estas podem conduzir-te a desejos e formas processuais de vingança ou retaliação que vais moendo lá por dentro. Mas atenção: é precisamente neste universo tão íntimo e pessoal, quanto proibitivo a amadores, que reside a verdadeira beleza da Ódio - jamais se esgota enquanto não for esvaziado. Se não tens tomates para concretizar essas motivações, pela passagem do plano ficcional ao momentum real, e inesperadamente sentes que um imenso vazio se apoderou de ti onde já não cabe o Ódio - como uma falsa esperança de paz, solidariedade, aceitação e respeito para com o teu semelhante e as suas divergências comportamentais ou ideológicas que te atormentavam até essa altura - então esquece: o Ódio não é para ti! E nesta situação, o que tens a fazer, é ofereceres-te como voluntário e ires para a porta do Lidl nos três últimos sábados de manhã que antecedem o Natal, com sacos plásticos para encher do Banco Alimentar contra a Fome. Porém, se já foste contaminado por ele e sentes que a machadada que deste na besta odiosa te consolou o espírito, mas ameaça esvaziar por completo toda a energia desse Ódio, ou mesmo amputar irremediavelmente as propriedades terapêuticas do rancor silencioso que lhe é inerente, não percas mais tempo e procura novos ódios como se disso dependesse a tua alma condenada. O perigo mais ameaçador é a passividade ter-te roubado o Ódio e ter-te dado a conhecer o desprezo, a indiferença. A noção terrível de não mais seres capaz de sentir nem o rancor, nem a fúria indignada perante o que te aflige a alma. Ódio é um direito teu, nunca o esqueças.

Receia quem nunca odiou. Foge deles como se disso dependesse a tua integridade emocional. Ou são óptimos samaritanos para apanhar porrada, ou são como vinho branco ao almoço para engatar uma gaja. O sangue é vermelho porque o vinho tinto também é vermelho. Não há sangue branco ou verde e meios-termos também nunca se aplicam ao Ódio que nasce do sangue à temperatura ideal. A vingança serve-se fria, mas o ódio cozinha-se a quente. O Ódio é nocturno, sombrio, e a luz é inimiga do tinto tal como lábios de mulher são anémicos ao meio-dia. Acredita, almoçar com ela e pedir branco, para esse fim, não é engate garantido: é erro estratégico. Deveria ter sido um jantar, deveria ter sido tinto. E uvas brancas são boas para comer à sobremesa, já que o Ódio não faz concessões e vai direito ao prato principal.

E não me venhas com essas tretas sobre definições do Ódio, porquê o Ódio, porque não o amor, e a tolerância é a salvação e outras filosofias baratas em época natalícia! Ou sabes do que falo, porque sentes, ou sentiste alguma vez na tua vida, ou não sabes, e nesse caso não procures discutir o que desconheces. E se achas que nada disto faz algum sentido ou tem coerência, deixa-me dizer-te que se também tu fizesses algum sentido tinhas passado os últimos cinco minutos a ler Shakespeare ou os Sermões do Padre António Vieira.

10/12/05

O Moraes, por Alfarroba

Tenho cá em casa uma preciosidade, não sei se coisa rara, é capaz de ser um tesouro de alfarrábio e eu ignorante: os dois tomos do Diccionário da Língua Portuguesa, composto por António de Moraes Silva, natural do Rio de Janeiro, quarta edição na Impressão Regia, Lisboa. Anno 1831.

O primeiro Tomo consta de 815 páginas grossas e amarelas, um verdadeiro calhamaço de capas castanhas, rijas e debruadas na lombada. Ainda tem esta sublime indicação: «Vende-se na Loja Borel Borel e Companhia na rua direita das Portas de santa Catarina, na esquina da Travessa de Estêvão Galhardo, aos Martyres, nº 14. Delicioso na era da Internet em que tudo está ao alcance de dois clics no rato.

Ainda me lembro de como estes dois tomos me vieram parar às mãos: encontrei-os perdidos entre resmas de papel sem interesse num velho solar familiar onde estavam condenados a desaparecer entre a humidade do Inverno e os ataques dos ratos. Soprei-lhes o pó, e achei piada às folhas amarelas que tinham colecções de palavras que já haviam desaparecido e de expressões a que já perdêramos o rasto. Achei que era quase uma obrigação cívica salvar estes dois tomos do Diccionário Moraes com quase 200 anos de idade. Trouxe-os, pois, cá para casa e arrumei-os em cima de um móvel com livros. Mas de vez em quando ainda consulto este museu de palavras. Raramente nos últimos tempos.

Até que o post do Beaujolais, publicado aqui mais em baixo, me fez voltar à leitura dos tomos do Moraes: pensamos tantas vezes nas palavras que vão nascendo, nos anglicismos da era dos computadores, como Net, download, back up, drive e tantas outras e esquecemo-nos das que foram morrendo. Às vezes é interessante ver como se transformaram as palavras que agora usamos, parecem seres vivos que nascem e crescem e talvez nem todas morram e é por isso que eu volto, de vez em quando, à consulta do Moraes.

Há palavras deliciosas que, infelizmente se perderam. Por exemplo «abeberar» que significa «dar de beber, matar a sede, levar a beber». Mas, diz o Moraes, «o vulgo ignorante da língua dis aboborar; estou aboborando: metido, abaffado na cama, como a sopa se abebéra ao calor do borralho, ou rescaldo». Evolução semântica e fónica curiosa, esta do abeberar que evolui para aboborar.

E é engraçado o que escreve Moraes sobre a palavra Deboche: do francez débauche; intemperança na gula, e na torpeza, e sensualidade, devassidão; e não se limitando ao registo semântico do termo, acrescenta judiciosamente o nosso Moraes, «querem alguns introduzir este termo sem necessidade: temos devassidão da mesma origem, e pagode, que correspondem às ideyas do termo francez.» Esta velha discussão acerca da introdução de estrangeirismos nas línguas nativas ainda hoje nos é familiar. Mas, pelos vistos, não vale a pena a resistência à mistura linguística: quando um termo tem força ele sobrevive e morre o mais fraco. Como se vê neste exemplo: hoje usamos muito mais a palavra deboche (um francesismo, pelos vistos) que as nativas devassidão ou pagode. Bem podia protestar o purista Moraes em 1830…

08/12/05

NACIONAL DE HIPÉRBOLES PECA POR EXAGERO, por Cão

Realizou-se na Cova da Piedade, com manifesto gozo da Piedade, o I Nacional de Hipérboles.

O primeiro concorrente era cá de Setúbal e tirou do nariz matéria primata a suficiente para calafetar um petroleiro sueco.

Seguiu-se-lhe uma senhora virgem de Fátima, que foi eliminada por falta de originalidade. E por descúnfia.

Concorreu também um autarca que garantia, sem se rir, ser a favor da limitação de mandatos, além da limitação de felgueiras, valentins e de autarcas a sério. O concorrente chamava-se Miguel Bombarda, calçava sapatilhas brancas e tem sido avistado a cravar cigarros e a beber vermutes nas crónicas de António Lobo Antunes.

Camões concorreu postumamente sob o pseudónimo “Vasco Graça Moura e Pereça”, o transsexual que, sob o heterónimo “Guta”, foi recentemente corrido do CCB por causa dos seus lindos olhos e por ter conseguido casar com a filha de Miguel Torga. Teve má fortuna e aguardente. Não o torne o tempo a dar.

A última concorrente era dupla, na pessoa geminada de um matrimónio siamês de espanhol com holandês mais um cabrão maltês arrecobicho 1-2-3.

De modo que a coisa foi ganha por Teresa Guilherme, secretamente casada com Manuel Luís Goucha, o também apresentadora que assumiu chamar-se doravante (camarada) Manuel Luís Gouchilherme.

06/12/05

O medo, por Kagufa


Também eu ando cheio de medo. È que hoje o Glorioso joga com o Manchester e eu já sofro do emeito, perdão, do efeito koeman. Por causa do jumento holandês o Glorioso pratica agora um futebol tão medíocre que dá vontade de chorar. Estou em pânico por causa de hoje à noite. Estou tão sugestionado para a desgraça que, no sábado passado, dei por mim a confundir as estatísticas no jogo com o Marítimo. Apareceu uma informação a meio do écran que dizia «perdas de bola». E eu, a sério, só consegui ler «merdas de bola»…

O Medo, por Beaujolais

Conheci uma mulher que não conseguia pegar em facas, muitos anos depois de ter sido excisada segundo as tradições e as regras da sua tribo. As facas davam-lhe pânico, só de olhar. Foi terrível – muitos anos, era ela ainda criança – terem-lhe tirado um pouco do seu corpo (com a “justificação” de que esse detalhe de carne roubado era o segredo da sua dignidade restituída...). Mais terrível ainda, porventura, foi o que deixaram para o resto da vida: uma dor que se prolonga muito para além do momento em que é sentida, para doer por invocação, como um demónio que se acende e queima com a sua brasa por simples contacto visual...

Penso nesta mulher e volto a questionar-me – um luxo de quem está de fora – o que é o medo. Tenho do medo uma ideia física, material, localizada. O medo pode ser um objecto que codifica um sofrimento – acontecido ou por acontecer. É, em qualquer caso, ele próprio um corpo exterior ao nosso corpo. (Nem que seja por rejeição: não sei a química nem a biologia do suor, mas as suas gotas são, perante a ameaça, uma forma de expulsar algo que nos agarra a pele por dentro, como se a angústia pudesse amarrotar a sua própria alma... É assim que os cães conhecem sempre o nosso medo dos cães, quando ele existe, e é por isso que podemos racionalizar o medo, mas nunca disfarçá-lo. Porque, quando ele nos domina, o medo tem cheiro.)

O cães: tenho fobia deles. (Além desta, só tenho outra tão forte: polícias.) E o que são estes cães que existem antes mesmo de atravessar o meu caminho? O cão não é o dente ferrado na minha canela. Poso correr dele. O cão é o uivo e um uivo encontra-nos em qualquer sítio onde o nosso silêncio tenha aberto uma ferida. Os cães instalam-se, ruidosamente, nas cicatrizes do nosso silêncio, quando o silêncio foi ferido alguma vez. Não ladram; uivam. Estranha voz do medo, o uivo; talvez esteja nos homens desde o princípio do mundo, ou pelo menos do mundo humano, que é aquele que podemos lembrar como nosso. Isto é, o mundo desde que as palavras nos separaram das bestas, depois de ficarmos sozinhos com as bestas. Quem nos abandonou a elas – ao uivo? Se foi Deus, ou se fomos nós, não sei. (Uma questão por resolver.) Mas o medo original é estar nu à mercê das bestas, do uivo, da noite vasta. Se foi Deus que nos abandonou, então foi ele que nos criou; e faz sentido, então, que o nosso medo, a nossa solidão da espécie (terão medo os animais? Ou apenas instinto?), seja tão forte e tão fecundo que seja capaz de... criar Deus. Precisamos dele contra a primeira noite, que dura sempre e sempre nos olha do seu escuro. Deus assusta os uivos – o Demónio em nós, o seu grito, a sua voz que nos arrepia, porque agora é uivo, depois é choro, depois é riso...

Que tranquilidade: nunca teríamos inventado o fogo se não tivéssemos, antes, inventado o medo.
O medo acende-se. O medo apaga-se. Acende. Apaga. Acende. Apaga. Acende...

Na estrada de Bendu Malem, na remota província de Pujehun, Serra Leoa, os pirilampos vinham ter comigo, connosco, batendo-nos no peito enquanto nós, em pé na carroçaria de uma “pick-up”, avançávamos para eles, com o nosso silêncio, com a nossa noite. Há muita noite, a qualquer hora, na estrada de Bendun Malen: valas comuns, uma atrás da outra, à esquerda, à direita, centenas, milhares de mortos da guerra civil, corpos deixados naqueles pântanos, sem luto, nem repouso. (O repouso é uma avaliação feita por nós: num espelho em que nos vemos uivando com os olhos fechados, com os olhos dos mortos. Dizemos “o repouso dos mortos” e queremos, na verdade, dizer “o repouso de nós”.) A guerra foi terrível em Pujehun, especialmente em aldeias perdidas como Bendun Malen, onde os rebeldes entraram, uma manhã, e mataram toda – toda – a população. Mil e duzentos homens, mulheres e crianças, de manhã à noite. Não sobrou ninguém. Num só dia. Apenas houve, digamos, um sobrevivente: o pequeno Morie. Tinha cinco ou seis anos quando atacaram Bendun Malen. Os rebeldes encontraram-no, no meio da matança, escondido numa cabana. Decidiram poupá-lo. Nomearam-no “chefe da aldeia” e obrigaram-no a procurar o seu pai no apocalipse dos mortos (pessoas em escombros misturadas com os animais, o gado, as galinhas – na Serra Leoa, os rebeldes seguiram a sua doutrina de “No Living Thing...”). Morie lá encontrou o corpo do pai: degolado e de barriga aberta. No fim da jornada, os rebeldes foram-se embora e deixaram-no sozinho com o seu pesadelo. Durante dois dias, Morie vagueou e chorou pela devastação do seu mundo, até caminhar para fora da aldeia e ser encontrado por outro grupo de combatentes.

O padre John Garrick, da missão católica de Pujehun, levou-me até Morie. Experiência insuportável: como falar ao horror? As minhas palavras não são suficientes para comunicar com uma violência tão grande. O medo é uma faca e eu não quero pegar-lhe pela lâmina. Retiro a minha mão, mas os meus dedos já foram cortados...
No alto da “pick-up”, entre outros rapazes como Morie, com histórias terríveis, escuto o vento e o uivo de Bendun Malen. Os pirilampos atingem-nos e dissolvem-se contra nós: acendendo, apagando. Acendendo, apagando. Acendendo, apagando, acendendo... Morrendo.
E fazemos a estrada dos mortos, e da dor que nos assusta, aos poucos, para fora dos pântanos, da noite, dos demónios que lambem a estreita picada porque não há fogo que os assuste...

Bali, 13 de Julho de 2004

05/12/05

ò Zé, Kékilo? por Jkim Capelo Gaivota

- Ó Zé, kelákilo?
- Sei lá. Parece limos.
- Nããã... E se for o pântano?
- Pode lá ser!!!
- Tão certinho como eu estar aqui.
- Mas diz que só vinha para o ano...
- Antecipou-se.
- Deve ter sido.
- Pois se calhar foi quase de certeza.
- O pântano...
- É verdade.
- ...

* Foto gentilmente cedida por Joaquim Afonso, que la tirou no sábado passado na marina da Figueira da Foz.

O Medo, por Mangas

Caía a segunda noite de batalha sobre o Buçaco, quando chegou a notícia que o general Simon tinha sido gravemente ferido pela infantaria inglesa e feito prisioneiro no alto de Alcoba. Edmond, o seu criado de quarto, lia Deuterónimo.

No começo, foi o desespero que tomou conta de si quando pensou no general a sucumbir sem que pudesse, ao menos, lavar-lhe as feridas. A angústia e depois o medo, vieram logo a seguir. Vinte e cinco anos de campanhas! As planícies esperavam aquele silêncio, talvez os canhões se calassem também, mas não era certo. Em breve, a aurora viria estrangular a lembrança do general ausente e com ela o cheiro familiar da geada sobre as sebes rasteiras. A revista às tropas teria de esperar. Um batalhão deixado órfão tinha sido um bom negócio para os malditos ingleses, porém o inimigo ainda não tinha vencido e às aldeias lá em baixo, nunca chegará a terrível notícia, pensou o criado.

Edmond tomou uma decisão: desceu a pequena encosta de eucaliptos e juntou-se às linhas da retaguarda francesa. Um desfile mortuário de soldados esgotados que acabavam de ser rendidos na frente. Os rostos cobertos de sangue e terra, cicatrizes profundas, tendões expostos sobre os dorsos retalhados - rostos e ossos que a caruma ensanguentada amortecia. O terror bailava nos olhos daqueles homens dobrados sobre o medo rastejante nas trincheiras improvisadas. Mais à frente, no flanco virado para oeste, o inferno da infantaria inglesa em vagas sucessivas de descargas à queima-roupa que apenas se silenciavam quando a morte, corpo-a-corpo, bailava cega na ponta das baionetas. Nunca Edmond estivera tão perto da carnificina de uma batalha. Visões de susto recebiam-no asperamente na fornalha em que se transformara o bosque. Voltar para trás e sobreviver foi a último pensamento racional que tentou, mas prosseguir até junto do seu general era uma dívida irrevogável. Encontrá-lo era a mais bela direcção e ao mesmo tempo a mais amarga amplitude a superar com vida.

Edmond era um homem de convicções e fé, mas a Bíblia não lhe ensinara como sobreviver a tiros de fuzil. Lembrou-se de Deuterónimo. «Quando saíres para guerrear contra os teus inimigos, se vires cavalos e carros e um povo mais numeroso do que tu, não fiques com medo, pois contigo está Iahweh teu Deus, que te fez subir da terra do Egipto». Contudo, nem uma palavra sobre os bosques de loureiros completamente devastados, nem sobre as mulheres que ainda naquela noite iriam parir órfãos, nem como se consegue encontrar água ou se faz crescer o trigo com uma baioneta enterrada no ventre. Procurava esclarecer no seu intimo as razões para não fugir e domesticar o medo quando começou a descida sobre os corpos retalhados. O silvo das balas sobre a cabeça. A seu lado, um camarada ajoelhado deixava pender a cabeça para o solo. Um fio de sangue descia-lhe das têmporas, contornava o queixo e amontoava-se na terra húmida. Edmond cheirou a pólvora. Ordens de comando. Vozes de capitão em combate são gritos furiosos! O pavor caminhava a seu lado, Edmond sentiu a garganta seca e abraçou-o. Poderia dizer-lhe que o receava, mas não podia. Doía-lhe engolir, mas deveria habituar-se às trevas daquela luz, aos gemidos dos moribundos, ao odor a sangue e ao desfalecimento irreparável dos corpos desfeitos em pedaços nos quais tropeçava. E continuar a avançar. As pernas obedeciam-lhe por arrastamento, impunha-lhes a sua vontade e elas tremiam, mas não fraquejavam. Deitou-se contra o chão para tomar fôlego antes de iniciar a subida. Alguém garroteava a perna a um soldado francês antes de a amputar. Estava presa ao corpo por alguns tendões e uns farrapos de pele, o rosto molhado em lágrimas, um esgar de dor confundido com o choro. Gritava pela mãe que o esperava, talvez na Bretanha dourada dos campos lavrados em Maio, lá longe onde as suas súplicas seriam atendidas e iludidas sob a mansidão do sol e a luz das pastagens.

Edmond rastejou. As feições dos que jaziam ao seu lado eram silenciosas. O sangue dos covardes era igual ao dos que investiam, mas a coragem tinha o hábil defeito de saber hesitar e, para onde quer que fosse, para onde quer que olhasse no campo de batalha, a escuridão desfigurada chamava-o. Lambia-lhe as mãos trémulas e húmidas, enroscava-se como uma serpente às pernas que iam perdendo o chão. Instintivamente, apenas o coração acelerado reagia tentando atravessar aquela teia que fantasmas apodrecidos arrastavam pela caruma ensanguentada.

Edmond levantou-se. Transpôs resoluto a linha invisível entre si e o incerto: encontrar o general! Sentiu os primeiros silvos de balas bem perto da cabeça. Apercebe-se que lhe eram dirigidas. Foi movido por um terror acelerado que o impediu de parar ou voltar para trás. Gesticulou. Tentou fazer-se perceber. Fazer os ingleses entenderem ao que ia. Gritou-lhes: Mon General! Mon General!, mas em vão. Avançou completamente exposto, arqueando os movimentos do corpo para se desviar do fogo inimigo e quando a primeira bala lhe atingiu o peito, Edmond sentiu um breve colapso respiratório. Um calor profundo queimou-lhe a carne como se fosse a ponta em brasa de um cigarro. Deu mais alguns passos. Sentiu as pernas hesitarem. Levantou ainda os braços antes da segunda bala traçar uma fenda mais profunda entre a axila e o pescoço. A luz débil pelos tornozelos. Rastejou alguns metros. Nesse momento apercebeu-se do silêncio. Um silêncio vazio de um lado e de outro que não lhe desagradava. Apenas o som abafado de alguns ramos que se desprendiam das árvores. O sossego amordaçado das armas e a mágoa de não ter chegado junto do seu general. Depois, veio-lhe a noite. E o medo morreu com ele.

03/12/05

Matt Marriott, por Cão

Bem-vindos a uma infãoãocia canina. Este senhor é um dos ícones de tal infãoãocia: mister Matt Marriott, criado pelo artista britânico Tony Weare (1/1/1912 - 2/12/1994) e publicado em Portugal no tão extinto quão saudoso Mundo de Aventuras. Desenhado a aparo e a tinta-da-china.Justo, sensato, pistola em último recurso.Não é um cowboy de cowboyadas.É um herói à medida humana, não um deusinho de colt 45. Nun ca deixo de revisitar, sempre que me dá na veneta, os preciosos (e poucos) exemplares que me sobraram da infãoãocia.

Em meados da década de 50, Weare criou a tira Matt Marriott
para a Associated Newspaper. A série, de grande êxito, durou até 1977. do mesmo criador: biografias de of Billy the Kid, Jesse James e Jack the Ripper. Nos anos 80, Weare retirou-se da banda desenhada e passou a dedicar-se à pintura.