08/01/06

Abóbora!, por Freddie Krueger

Ontem ao fim da tarde, na entrada do supermercado, um miúdo sai-me ao caminho com esta: Olhe, queria os reis, sefaxavor. Queria os reis, se faxavor, foi exactamente o que o puto disse. Era véspera de Dia de Reis, e eu topei-o logo. Mas fiquei depois a imaginar o que pensaria um marciano em expedição antropológica: ora aqui está um pequeno monárquico que quer desesperadamente uma monarquia colegial, talvez um triunvirato. Eu lá disse ao miúdo que não tinha trocos e segui caminho. Podia-lhe ter dito, fazendo-me de parvo: meu rapaz, eu assino a petição, se quiseres, mas olha que o artigo 290 da constituição da república portuguesa prevê uma limitação material da revisão constitucional nesse sentido.

As coisas já foram muito diferentes. Por acaso, não me lembro de alguma vez ter pedido no Dia de Reis, mas fazia-o no Dia de Finados, logo no princípio de Novembro. Era os anos setenta, em Coimbra e convém dizer, aos nossos pequeninos leitores que poucos de nós sabiam o que raio era o Haloween, portanto... Nessa dia, os miúdos do bairro distribuiam as zonas de intervenção entre as tropas, e cada grupo transportava depois à noite, de porta em porta, uma abóbora escavada como uma carantonha, com uma vela dentro. Punhamos o dono da abóbora à frente, cantávamos a cantilena dos bolinhos e bolinhós, para mim e para vós, para dar aos finados, que estão mortos e enterrados, etc, e batiamos à porta. Para quem não sabe, garanto que o cenário metia respeito. Bom, mas a coisa dava um trabalhão e a recompensa normalmente eram rebuçados e chouriços, para além de uma ou outra moeda. É verdade que já nessa altura ficávamos chateados com a mania de darem chupas e mercearias. Mas agora os miúdos limitam-se a pedir.

Nos dias de pedir, vão à porta das casas pedir dinheiro e é tudo. Eles sim, merecem rebuçados e chouriços. Alguns limitam-se mesmo a estender a mão, sem abrir a boca, sem um faxavor sequer. Dá vontade de ficar a olhar para eles fixamente, até eles acharem que incomodaram seriamente um psicopata e correrem escada abaixo. Uma vez, perguntei a um: então, não sabes os bolinhos bolinhós? Deve ter ficado a pensar coisas estranhas acerca de mim. Normalmente, já que têm o trabalho de subir as escadas, lá lhes dou uma moedinha. Isto, quando abro a porta, é claro. O que é sempre. Não me estou a ver dizer: shh, está lá for a um puto, silêncio… No fundo, tenho é medo que me risquem o carro se não der nada, ou me toquem à campainha às três da manhã. Mais grave ainda é que nem sequer vão gastar depois tudo em cigarros sem filtro, como antigamente. Desgraçadamente, gastam o dinheiro em programas de computador e pokemons. Portanto, não estragem a vida aos putos e não lhes dêm nada se baterem à porta.

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