24/01/06

Canalizadores, Talhantes & Juízes, por Kzar

Na nossa sociedade, mal ou bem, um canalizador ou um serralheiro ganham mais do que um professor do secundário, e em certos casos muito mais. De resto, não é só a martirizada classe dos professores que tem razões para de quando em vez se interrogar, perplexa, sobre qual o real valor que a sociedade lhe atribui, qual a sua posição relativa na hierarquia das funções sociais e da importância dada pela comunidade aos que as desempenham.

Recordo-me de, há já uns bons anos, um julgamento em que era arguido certo cidadão, chefe de talho de uma grande superfície (como agora se chama aos supermercados...). O cidadão estava acusado de um crime contra a qualidade dos géneros alimentares, a propósito de certas carnes em venda naquele estabelecimento e que já não estavam famosas. O advogado preparou evidentemente a defesa, em qualquer caso ciente de que o nosso talhante seguramente ia apanhar uma pena, mas ter-se-á esquecido de o avisar para esconder a real grandeza do seu salário quando fosse sobre isso interrogado - elemento que na verdade seria decisivo, como é bom de ver, para a graduação da multa.

Ora, o descuidado magarefe, no momento próprio, apenas incauto ou porventura até orgulhoso de revelar o seu bombástico salário, confidenciou ao juiz que auferia mensalmente algo mais de trezentos contitos (isso mesmo). O juiz, que ao tempo auferia, subsídio de residência incluído, a singela quantia mensal de duzentos e setenta contitos (mais escudo menos escudo, e ao tempo já a ter que aturar a ideia comum de que os juízes ganham quanto querem...), começou por ficar surpreendido mas depois ficou foi com orelhas de burro.

Considerou que estava ali todo o dia a gramar pastilhas daquelas e outras piores, a escrever sentenças aos fins de semana, etc., para no fim de contas ser pago pelo Estado com quantia inferior à que no varejo de massas era atribuída pelas empresas aos chefes de talho. É claro que o magarefe levou uma multa crescidota, adequada ao seu gordo estipêndio, mas o nosso juiz é que demorou a recompor-se.

Durante largo tempo, chateava incessantemente a molécula dos colegas, dizendo de modo obsessivo coisas como "é pá, os gajos do talho ganham mais do que nós! Foda-se! Vou mas é bater bifes em cima dos códigos anotados!" Claro, com o tempo a coisa passou-lhe, mas ficou esclarecido acerca da real dimensão dos seus "privilégios de classe" (como já então se começava a chamar-lhes), da ponderação e razoabilidade dos políticos que nos governam e da choldra que vai por este país.

Obviamente, a questão não era de inveja pelos homens do açougue - estimava muito que ganhassem bem; a questão foi ter percebido a importância que lhe era atribuída a ele, medida objectivamente pelo salário que os supostos representantes da comunidade lhe determinavam. Ainda assim, acredito que até hoje carrega um bocadinho mais nos talhantes que lhe cumpra condenar...
É a vida

Sem comentários: