31/01/06

“He`s young, she`s young. He`s strong, she`s beautiful.”, Arthur Bannister, o marido., por Mangas

Dos seus passados não vemos nada, mas adivinhamos tudo. Michael O`Hara é um agitador das docas, lutou na Guerra Civil em Múrcia onde matou um bufo Franquista com as próprias mãos. Não tem pátria, nem raízes nos sapatos e os beiços de uma garrafa de gin são o melhor porto seguro para curtir uma ressaca. Os que o temem, chamam-lhe Black Irish. Welles concede-lhe por momentos o estatuto de príncipe encantado uma sequência carregada se simbolismo da qual só o próprio Welles se lembraria – sentado num coche puxado a cavalos, O`Hara conduz a sua princesa entre o Central Park e o tráfico nocturno dos yellow-cabs em Manhattan.

Mas há sempre aquela mulher. Mais tarde ou mais cedo, aparece sempre aquela mulher. O tal género tentação-mortal, ou femme fatale, perigo no convés, trabalhos e mais trabalhos, abençoados trabalhos que de estafa em estafa nos conduzes à desgraça final, Rita…! Rita, loira en passant, mas tivesse ela algum dia pintado os cabelos de noite e até a madrugada se escondia de vergonha. Rita a quem sempre bastou estar, apenas, para desviar as atenções de um arqueólogo mumificado. Rita carente e carnal com um passado duvidoso e sabores proibidos nos lábios devoradores, e as ancas, ondulação morna que se agita ao entardecer, autênticas matracas apontadas à braguilha de quaisquer calças modelo-macho. You need more than luck to work in Xangai, dirá a O`Hara com a voz nebulosa e os olhos mergulhados na imensa solidão de gata escaldada, transmitindo-lhe apenas uma pista de onde provinha e que tipo de mulher tinha sido Rosalie, antes de ser Elsa.

O marido aleijado, Arthur Bannister, amo e senhor que se pendura em duas muletas para percorrer a distância mais curta entre o desprezo e o insulto humilhante deixando no chão um rasto de verme poderoso - o melhor advogado criminal da Costa Oeste era na realidade um cabrão sádico e possessivo sem contemplações para com os da espécie que tratava como marionetas.

O sócio de sotaque sulista, George Grisby, voyeur diabólico, chantagista, espertalhão e escroque, não necessariamente por esta ordem. É o vértice que se intromete no triângulo principal porque tem um plano, precipitará o drama, cairá mais depressa do que previra e ali permanecerá, imóvel, na horizontalidade dos que não respiram mais.
Juntem-nos a todos em alto mar ao sabor da brisa quente do Pacífico e de uma enredo denso e psicológico a morder uma trama complexa e bem urdida de desejos, traições e jogos do gato e do rato na melhor tradição do film-noir. Aquele era realmente um barco formidável – para um tipo com juízo cavar dali para fora!

A minha cena favorita de A Dama de Xangai não é a insanidade genialmente tratada no labirinto de espelhos na Casa dos Loucos – Mefistófeles diria que é a sequência mais carregada de simbolismos de toda a história do cinema; também não é o encontro fugitivo no Aquarium, nem a hitchcokiana perseguição de grandes-planos e máscaras no Teatro Chinês da qual nunca ninguém falou. É tecnicamente bem mais simples a minha cena favorita e no cenário de fundo estão predadores condenados. O`Hara é chamado por Bannister em moderado estado de embriaguês para um dos seus joguinhos de retórica e provocação. É noite, uma lua assassina acende as sombras nas trincheiras, os rostos improvisam disfarces de piquenique na areia da praia. O`Hara pergunta-lhes se era aquilo que eles faziam para se divertir à noite – sentarem-se a comer e a chamar nomes uns aos outros. Bannister baloiça deitado sobre uma rede, ri e responde lançando veneno na direcção de Grisby e Elsa. O`Hara prossegue:

O`Hara - Certa vez, ao largo do Brasil, vi o oceano tão escurecido de sangue que ficou completamente negro enquanto o sol se punha no horizonte. Tínhamos atracado em Fortaleza, e alguns de nós lançaram as linhas de pesca. Morderam a minha linha primeiro. Era um tubarão. Depois, veio outro, e outro ainda, até que passado alguns instantes todo o mar era feito de tubarões e mais tubarões e nenhuma água. Um tubarão soltou-se do anzol, e o cheiro ou talvez a mancha de sangue de que se esvaía, levou os outros à loucura. Então os animais começaram a comer-se uns aos outros e, naquele frenesim, até se comiam a si próprios.

O rosto de Bannister contraiu-se, a rede de baloiço deteve-se.

O`Hara continua - Sentia-se o desejo de matar como um vento que ardia os olhos e podia cheira-se a morte que exalava do mar. Nunca vi nada pior... até este pequeno piquenique desta noite. E sabe que mais? Não houve um único tubarão daquele cardume enlouquecido que tenha sobrevivido.

O`Hara cala-se por breves instantes. A câmara mostra as baixas causadas pelo impacto do seu discurso no semblante comprometido de Grisby, no rosto contorcido de Bannister, no olhar desalentado de Rosalie, no silêncio e na calma de morte que se instalou como um velho cúmplice, entre todos eles.

O`Hara termina e abandona a arena - Vou deixar-vos agora.

Bannister sem desviar o olhar da areia - É a primeira vez que alguém te considerou o suficiente para te chamar tubarão, Grisby. Se fosses um bom advogado, sentir-te-ias elogiado.
A prodigiosa cena final na Casa dos Espelhos vem depois, mas toda a história ficou contada ali, naquele momento. E afinal, disparar uma arma foi bem mais simples do que ela julgava. Ou pretendeu julgar. Bastou premir o gatilho. Como ele lhe dissera. Mas nessa altura, também ele não sabia que talvez pudesse viver o suficiente para esquecê-la, ou que talvez morresse tentando-o...

Sem comentários: