15/01/06

O recalcamento fálico e a persistência do manguito, por Obelix

Numa perspectiva histórica, tomando como objecto a ocidentalidade cristã e considerando o tempo longo, pode dizer-se que o recalcamento da sexualidade e do prazer carnal é coisa recente. Enfim, uns milhares de anos. Tal repressão obriga a que as pulsões primárias aflorem sob formas mais ou menos sublimadas, exigindo alguma capacidade de interpretação semiológica para que se possam notar. O que está o Marquês de Pombal, por exemplo, a fazer empoleirado no cimo daquela enormíssima coluna no meio da rotunda ? É óbvio que o poder absoluto do Marquês tem uma relação disfarçada com o evidente significado fálico da desproporcionada coluna. E é desta maneira que a sempre portentosa virilidade masculina sublinha o irreplicável e discricionário poder do ministro de D. José.

Mas antes as coisas não eram assim. Basta uma visita às ruínas de Conimbriga e ao Museu Monográfico, um clássico das excursões, para que a garotada, ao passar pela designada Casa do Vaso Fálico, questione:

- O que é isso, fálico ?

Dada a explicação, obtém-se a atenção para a visita ao Museu. Lá está o Vaso, bem como outros amuletos fálicos que, apesar de minúsculos, comprovam inequivocamente o significado do até então ignorado vocábulo. Depois, de regresso à escola, ganham novo entendimento aquelas ilustrações do manual com aqueles menires de forma suspeita e dimensão impensável.

Aqui chegados, impõe-se uma explicação mais pausada. Apresentam-se as explicações mais correntemente aceites que relacionam os megálitos com a simbologia da fertilidade, como afirmações simbólicas de um poder, como centralidade organizadora do espaço, como elemento agregador dos elementos da comunidade num espírito de grupo, etc. Enfim, tudo hipóteses sem confirmação. E a coisa acalma. Não tanto porque seja bem entendida mas porque, suscitando tanto palavreado, é seguramente menos interessante do que parecia inicialmente. Normalmente as cenas ficam por aqui. Porém, naquele dia, o Paulo, rapaz esperto e atrevido, após ouvir atentamente todas as explicações, desabafou:
- Porra, tanta coisa por causa de um manguito. A gente ao menos passa a vida a desenhá-los e não pensamos em nada disso!

E foi com este desabafo desinibido que eu me apercebi, num repente, que a reiterada obsessão adolescente para desenhar manguitos em toda a superfície que os suporte obedece a uma espontaneidade atávica equiparável na naturalidade ao modo como os nossos antepassados erguiam aqueles imponentes menires. Ambas as manifestações poderão ter em comum o estarem imunes ao domínio da acção retractiva da moral de raíz judaica e cristã que enformou a nossa civilização. Uns porque demasiado novos ainda, outros, os que erguiam menires, porque naturalmente foram anteriores aos alvores dos novos tempos.

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