26/01/06

A Saúde É Um Estado Transitório Que Não Augura Nada de Bom…, por Automotora

Pessoal, confrades, eu queria contar aqui uma estória. A minha mulher, que está em Cabanas de Viriato a dar aulas, foi ao centro de saúde do Carregal do Sal, que é a sede do concelho, para curar uma infecção na garganta que lhe roubava decibéis preciosos para berrar com os miúdos. Por acaso estava por lá e acompanhei-a, o que me foi muito proveitoso. Descobri que nesta terra de fim do mundo a burocracia é um bicho muito parecido com um ornitorrinco, que aterroriza mas que ao mesmo tempo dá vontade de rir. Passo a relatar em forma de comédia, com coro grego e comentários laterais.

Primeiro acto e único. Balcão da recepção do Serviço de Atendimento Permanente. - Ora então menina, o seu bilhete de identidade, por favor. – Faz favor - Hmm...diz aqui que a menina é da Carrazeda de Ansiães e reside em Casal de Ermio. – E é verdade, mas estou a dar aulas ali em Cabanas de Viriato. Durante cinco dias por semana estou por cá. - Bom, então onde reside? Quer dizer, o que ponho eu no computador, Casal de Ermio ou Cabanas?

O coro: Procura assim o recepcionista resposta para uma magna questão: será que viver cinco dias num sítio é residir? - Talvez cabanas...responde a paciente pensando num outro talvez - Então fica Cabanas de Viriato, decide o recepcionista enquanto martela as teclas com vagarzinho, com um minuete de dois dedos - E como se chama a rua? - Olhe, não sei, palavra que não sei, é que até agora nunca tinha precisado de saber - .

Para quem não conhece, Cabanas de Viriato é o que em Portugal mais se parece com uma aldeia da transilvânia; nem falta o castelo do conde drácula, que é o casarão em ruínas do consul aristides. A gente incauta, em lá chegando, nem imagina que aquelas ruas, onde não se vê vivalma, possam ter nome - Então a menina, continua o recepcionista, não sabe o nome da rua? - Bem, o nome não sei, mas talvez o senhor saiba, vai-se por ali, por acolá, é a única rua de paralelepípedos do lugar e tem uma padaria. – Sei bem qual é, mas também não sei o nome. Está bonita a brincadeira....

Chegados a este impasse, formou-se ali mesmo uma comissão de toponímia, formada por todos os presentes e mais os que iam chegando, a saber: o recepcionista, que presidia, eu mesmo, a paciente em inscrição, um bombeiro voluntário, a senhora da faxina e mais duas ou três pacientes com o sindroma do palpite. Estava decidido: a paciente não era atendida enquanto não se decidisse o nome da rua. O sistema nacional de saúde bloqueou, deu-lhe ali mesmo uma trombose – E eu, mau marido, e porque, de qualquer forma, o problema não era tão grave que não pudesse esperar pelo fim da anedota, fui-me deixando ali estar caladito, só falando se pudesse contribuir para a confusão.

- Pois, tenho que escrever aqui qualquer coisa, senão nunca mais saímos daqui - diz muito compungido o recepcionista. - Podemos então escolher entre rua dos paralelepípedos e rua da padaria...., mas não sei não....- E que tal rua do Viriato, - propõe o bombeiro, divertido, com o meu apoio entusiástico. - Não está mal. Fica então rua do Viriato. Mas não, não pode ser, o meu computador já registou dois pacientes da rua do Viriato!

O coro: Quer o recepcionista dizer que não se pode inventar uma rua que já existe. - E que tal rua principal? O computador garante que ainda ninguém da rua principal ficou doente, e isso talvez seja um sinal de que não existe rua principal em Cabanas. Fica rua principal! E qual é o número da sua porta? - Ops, nunca reparei, - diz a paciente - talvez nem tenha. – Só faltava esta, ó menina! Tem que ter número! - A menina devia andar com um papelinho com o nome e o número da rua, - diz alguém da assembleia a quem eu gostaria de espreitar os bolsos. E agora? Como é que alguém com uma residência tão equívoca pode querer que lhe receitem antibióticos? Vai-se assim, sem papelada bastante, desalojar uma pobre família de vírus? - Bom, sempre posso colocar sem número, - diz o recepcionista enquanto coça a cabeça pensando nos problemas que tal coisa lhe iria trazer: processos disciplinares e aberturas de telejornais na TVI durante uma semana.

Durante o silêncio que se seguiu dei-lhe coragem com uma conversa de pesca à truta nas ribeiras de Carrazeda de Ansiães. Por fim, meia hora depois de entrarmos naquele país das maravilhas, o Senhor do Computador lá se abalançou, com risco da própria vida, a registar a senhora Maria Margarida, diz ela, residente, ou talvez não, em Cabanas de Viriato, na sua, eventualmente, rua principal, sem número, pelo menos que se saiba. E cai o pano. A paciente foi atendida nos bastidores e levou dali um atestado para cinco dias de repouso. Fiz-lhe prometer que quando regressasse às aulas ia apanhar correntes de ar para voltarmos ao centro de saúde.

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