11/01/06

Se renascer, por Cão

Por uma ironia qualquer cujo sentido não sou capaz de descortinar, os idiotas da turma lograram aceder às cadeiras onde se decide, manda, influencia, determina. Olhem o Beldroegas do meu liceu.

Era impermeável ao Inglês, a História fazia-lhe brotar furúnculos nas axilas, a Geografia era um mistério a cores, a Língua Portuguesa não lhe servia para mais do que comprar rissóis frios na cantina e a Filosofia, segundo ele, só podia ser uma invenção de padres comunistas. E no entanto, olhem hoje para o António Alberto. Anda montado num carro cujas rodas valem mais do que a minha casa. É director de uma associação industrial cuja sede tem tapetes forrados a fundos europeus. Meteu-se na política pela porta do cavalo, coisa que os burros fazem excelentemente. Está bem na vida. Casou com um toninha que já lhe deu dois filhos gordos que olham o mundo com o mesmo olhar parado e azul do papá. O sogro gosta dele e tudo. Volta e meia, vai às meninas a Lisboa e aos meninos ao Porto, que isto de ser idiota não impede que se seja pós-moderno.

Olhem a Beatriz. Chamávamos-lhe Bibi como quem chama galinhas. E era o que ela era: uma galinha humana que depenava a paciência ao velho professor de Latim, um pobre humanista que se reformou mais cedo por causa dela. A Bibi deixava ovos no assento do autocarro e fazia fru-fru com as asas quando conseguia perceber uma anedota, tendo completado o 12º por directo milagre da Venerável Alexandrina de Balasar. A Beatriz é hoje tão feliz como eu gostaria de ser metade. Um terço, digo eu, metade seria bom de mais. Porque a Beatriz é mesmo feliz. Casou com um toninho que manda fazer apartamentos por todo o lado, é presidente da bola local e há-de ser, querendo Deus, presidente da Junta.

Claro que o que me faz falar é a inveja. Vivo de sonetos. Ninguém me manda conhecer contistas argentinos. Gosto de entristecer à chuva como um cão sem coleira. Ao sol, apresento uma pura vocação nocturna. Na pasta, transporto rosas poeirentas, tangerinas mirradas como mulheres de faraó e problemas por resolver de palavras cruzadas sem solução. É a vida.

Se eu voltar a nascer, quero chamar-me Beldroegas. Quero ter olhos azuis e perceber muito de assembleias. Quero ser senhorio de muitas casas e senhor de muitos filhos imbecis. Se renascer mulher, quero beatrizar-me logo de início. Hei-de pôr tantos ovos, mas tantos tantos tantos, que o céu há-de ser estrelado para sempre.

Homem ou mulher, nunca mais hei-de recordar aquele verso de José Gomes Ferreira sobre o mar. Nunca mais hei-de comover-me à visão dos noctâmbulos de Hopper. Nunca mais hei-de perceber que a vida é uma casa em cujas janelas brilham flores de sangue.

Se me for dado renascer, hei-de trocar o poster do Che Guevara por uma litografia da Alexandrina de Balasar. E hei-de ser feliz, mas tão feliz tão feliz tão feliz, que até pode ser que me elejam presidente da Junta. E então nunca mais hei-de cair da cadeira.

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