22/01/06

Três Notas sobre as Eleições, Por Ana Lita

1. A vitória de Cavaco – Ok, vamos ter de o gramar e, pior que isso, à sua incrível família e, em particular, aquela senhora inenarrável que é a sua esposa. É mau, mas vendo a coisa pelo lado positivo, pelo menos estamos livres de sampaio.

Sampaio foi o pior dos presidentes da república que conheci. Esvaziou completamente o cargo e a função de Presidente, reduzindo-os a um mero papel simbólico, de ressonâncias vagamente monárquicas. Foi ridicularizado vezes sem conta – com os discursos redondos e pomposos, com a choraminguice permanente, com as rídiculas condecorações até pró cão, pró gato e pró Bono de boné…

Mas, pior que isso, quando quis intervir, o homem foi um desastre: é ele o pai do actual regime, o autor maquiavélico do maior golpe de estado institucional de que há memória na nossa história recente. Deu posse a santana quando devia ter convocado eleições, tendo, assim, provocado a queda de Ferro Rodrigues no PS. E a seguir demitiu santana por coisas insignificantes ao pé dos actuais casos Iberdrola, incumprimento eleitoral, Tribunal de Contas, Gomes da Galp e outros que tais. É ele o criador do frankenstein da actual política portuguesa: sócrates. Se não fosse sampaio, Ferro seria o primeiro.ministro. Muito melhor que este, como é indiscutível.

2. Sócrates morde o pó – É o principal derrotado destas eleições. Mário Soares, ocandidato que ele apoiou, pensando não correr riscos, é um ícone vivo da democracia portuguesa. Teve duas maiorias absolutas nas últimas presidenciais e é o nosso maior vulto histórico vivo. Mesmo assim teve cerca de 14%!!!!! Creio que se o candidato fosse outro o resultado seria ainda mais catastrófico. Os 14% não são apesar de soares, mas mesmo com soares. É incrível o que sócrates está a fazer, já nem digo ao país, mas ao seu próprio partido…

Claro que, mantendo a sua habitual e insuportável arrogância, na hora de assumir a derrota, sócrates fez um discurso autista. Em vez de nos explicar como é que se justifica que um homem com o prestígio histórico de Soares saia assim humilhado, preferiu repetir a cassete das autárquicas, a sua última desgraça eleitoral:

- «Eleicões presidenciais são uma coisa e legislativas outra. O governo não foi a votos. Só daqui a três anos (Uuufff!, pensou mas não disse)».

Ou seja, para este engenheiro do pensamento linear, não há nenhuma ilação a retirar do facto de ter desbaratado uma maioria absolouta em menos de um ano e de passar a votação do PS de quase 60% para 14% em tão pouco tempo! Nem do facto da direita portuguesa ter eleito pela primeira vez um Presidente da República nem de dominar o cenário político autárquico do país! Para ele os portugueses não lhe enviaram um sinal claro e inequívoco sobre as suas políticas ultra-montanas nem sobre o seu estilo fascistóide e autoritário. Nada. Presidenciais são presidenciais, legislativas são legislativas…

Para quem não chegou nunca a compreender que a sua maioria absoluta não foi mais que um voto de protesto contra santana, não admira que não entenda agora o que se passa à sua volta e que, sim!, estas eleições significam um sonoro e evidente: VAI-TE EMBORA , Ó MELGA! TAMOS FARTOS DE TI! Estes 14% de votos no seu candidato representam o apoio real do país-aparelho ao pobre sócrates das canadianas. Se o candidato a presidente apoiado por sócrates fosse a miss Playboy e o candidato oposto o Emplastro, eu – e a maior parte dos portugueses – votava no Emplastro! E assim, de vitória em vitória, sócrates lá vai levando o PS até à derrota final. Oxalá!

3. A vitória de Alegre – O espantoso resultado de Alegre – conseguido em três meses – pode ser um óptimo sinal para futuro. Talvez tenha sido bom que ele não tenha ganho as eleições e que continue no espaço inquieto da cidadania activa. Importante sim, foi ter dado uma banhada ao candidato do sócrates. É possível que, agora, Alegre seja empurrado pelo movimento que corporizou e que o excedeu. Se Alegre se sentir eticamente obrigado a assumir o movimento de cidadãos a que deu corpo– como esperamos -, podemos estar perante a formação de uma nova força que numas legislativas, por exemplo, se possa assumir como segunda força política. Seria revolucionário, se o que agora se verificou se voltasse a verificar nas próximas legislativas. Possivelmente, o PSD governaria, mas em cenário de maioria relativa, mediado por uma nova força política, criada à revelia dos partidos. Pode ser a oportunidade para que este país se comece a libertar da permanente maioria cinzenta, dos boys do PS- SD… Era bonito. Alegre, sem dúvida, abre uma porta de esperança. Assim saiba estar à altura das responsabilidades que acaba de criar.

P.S. Um pormenor, mas ainda assim significativo. Foi vergonhoso que sócrates tivesse feito coincidir a sua declaração com a declaração de Alegre, numa tentativa miserável de esvaziar o tempo de antena deste. Bem pode vir depois fazer anunciar que não sabia que Alegre tinha começado a falar. Não acredito, ninguém acredita neste homem. Até eu, em minha casa, sabia que o Alegre estava a falar porque tenho TV . Mas se não sabia ainda é pior: é pura incompetência e mais uma revelação de autismo de um primeiro ministro que deve achar que vive sozinho no planeta.

Sem comentários: