03/01/06

Uma Casa tipo Maison, ou Un Vin tipo Tintol, por Monsieur Dupont

A primeira vez que fui a Paris com alguns cobres no bolso, levava já algumas luzes da vinhaça portentosa a esquadrinhar por ali. Tinha “estudado” algumas nuances da coisa e sabia que não conseguiria jamais chegar às colheitas consagradas ou às colheitas de antigas de referência. Mas, já experiente na forma como por cá saía o Barca-Velha e o Pera-Manca, com preços aceitáveis de 6 a 10 contos a botelha no ano de edição, contava trazer uns néctares para afiambrar. Nos meus armários imensos de marcas e portentos, ribombavam os grandes de França como Le Pin, Échezaux, La Tâche, Romanée-Conti, Château Haut-Brion, Château D`Yquem, Petrus, Cheval-Blanc, Pichon Longueville, etc.

Com os olhos a brilhar de gula cobiçosa deixei a maria nos perfumes do rés-de-chão das Galerias Lafayette, ali ao pé do hotel e ala que se faz tarde pró último andar e para a secção Gourmet. Corri à pressa as enormes e gigantescas bancadas de garrafeiras imensas por corredores infindos, mas foi demasiado à fuçanga e não reconheci nenhum nome. Que diabo, milhentos vinhos e nenhuma cara conhecida? Obriguei-me a respirar fundo e recomecei numa ponta devagar, devagarinho. Estão escondidos é isso, há que ver com calma, que a adega é inimiga da pressa.

Esmiucei de novo alguns milhares de marcas e colheitas, mas nada, nenhum Margaux, nenhum Cos D`Estournel, nada de Latour, zero de Guigal. Mau Maria, aqui há gato. Ajeitei a gravata, estiquei as mangas do casaco e fui de garção. Puxei do meu melhor francês e questionei um serviçal com farda de Almirante: - Pardon Monsieur, je voudrais savoir oú sont les boteilles de Romanée-Conti, il niá quelqun par ici?

O Contra-Almirante viu-me imponente e engravatado e afivelou logo uma cara de satisfação e simpatia que me reconfortou, isto sim é serviço, mas as palavras seguintes dele deixaram-me algo inquieto: - Ah, non, Monsieur les grand vins son par lá, venez, venez...

Lá segui o Capitão de Fragata, mas o homem foi para um canto com um armário e um balcãozito, pediu-me desculpa pela ligeira espera e foi buscar uns molhos de chaves, embolsou uma série de pequenos catálogos, pegou num pano de camurça bordeaux e calçou umas imaculadas luvas brancas..., mau, agora é que estava mesmo desconfiado!

O Capitão de Mar e Guerra, indicou-me então o caminho e levou-me na direcção quase oposta das milhentas garrafeiras que tinha visto. Seguimos para junto de uns enormes armários cinzentos, envidraçados e fechados à chave. Logo ali vi que já tinha feito merda. Estava noutra galáxia, mas já era tarde para parar a marinha. O homem abria já um dos armários centrais climatizados, humidificados e engalanados e retirava para fora com as luvas imaculadas uma botelha de Romanée-Conti: - Voilá, Monsieur!

Olhei para as irmãs que permaneciam deitadas sobre o vidro e vi o preço do Romanée-Conti, última colheita, que me estava a ser mostrada. Engoli em seco e procurei disfarçar, mas o almirantado não me deixou alternativa senão levantar a bandeira branca: - Excuse moi, je voudrais voir des autres boteilles et ensuite je le dit quelque chose...

O Almirante percebeu, não foi incorrecto, nem fez a cara que lhe esperava do “mais um pelintra, que me enganou pela gravata”, foi simpático, despediu-se, disse que estava às ordens, limpou a garrafa, ajustou vários botões e fechou aquilo tudo.

E eu fiquei ali estupefacto, de nariz a correr os vidros e a perguntar a mim mesmo como poderia haver dinheiro para beber Aquilo: CHÂTEAU LATOUR, 1er Grand Cru Classé, 89, 80 Contos, CHÂTEAU MARGAUX, 1er Grand Cru Classé, 86, 120 Contos, PETRUS, 86, 200 Contos, ÉCHÉZAUX, 88, 400 Contos, LA TACHE, 98, 450 Contos, ROMANÉE-CONTI, 95, 600 Contos.

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